Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Luís Mendão, fundador do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamento)
Num fim de tarde de verão encontrámos Luís Mendão, ativista lutador contra o proibicionismo das drogas há mais de quarenta anos e um dos mais antigos sobreviventes do VIH/SIDA em Portugal, o que o levou a juntar-se também à luta pelos direitos dos doentes com SIDA e por uma saúde comunitária centrada nos corpos mais marginalizados e discriminados.
Jornal MAPA – Começamos pelo início, antes do GAT. Onde começa a tua militância e interesse pela saúde comunitária?
Luís Mendão – Eu tenho quase 70 anos. Antes do 25 de Abril, no meu liceu em Setúbal, era antifascista. Fui… mais ou menos fugazmente, um trotskista, numa coisa que se chamava Liga Comunista Internacionalista. No 25 de Abril estava no 6º ano antigo. Participei muito ativamente no Processo Revolucionário Em Curso. Em 1975/76, já estava numa coisa que se chamava Serviço Cívico, porque não tinha entrada para a Universidade por causa dos numerus clausus. Os dois primeiros anos a seguir ao 25 de Abril foram coisas inacreditáveis. Eu tinha 16 anos, 17, 18, depois fiquei um pouco desapontado com a política em Portugal, e não me revia muito na esquerda organizada que existia.
JM – Nem na desorganizada?
LM – Na desorganizada, um pouco mais, mas… Sobretudo, eu acho que havia uma moral muito conservadora na esquerda. E, na extrema-esquerda, quase que ainda mais. Isso também me atraiu um pouco nos trotskistas, havia ali uma coisa que à primeira vista era um bocadinho mais libertária… Claro que tinha muita atração pelos anarquistas mas os anarquistas que conheci eram todos muito velhos, eu tinha 17 anos!
Chega o 25 de novembro, fim do período revolucionário, sinto que não sei o que é que estou a fazer aqui e fui estudar para Paris. Em Paris estudei, trabalhei, experimentei drogas, era muito experimentalista na altura. Naquele período a heroína ainda não estava nos bairros da periferia mas sim numa certa intelectualidade e também em alguns setores de moda, aliás, chamava-se heroin chic até ao princípio dos anos 80. Fiz essa experiência. Eu era bissexual naquela altura, que era uma coisa muito complicada de viver. Quando acabei a licenciatura em bioquímica, eu não queria continuar a viver em França. Vivi em Itália em 1981/82 porque me tinha apaixonado por uma menina. Lá conheci um movimento que era o Partido Radical 1, e foi uma revelação para mim porque tinha todas as coisas dos direitos civis e individuais. Eram não violentos numa altura em que a violência da extrema-direita era muito pesada na Itália mas a da chamada extrema-esquerda também. Foi quando mataram o Aldo Moro.
Naquele período a heroína ainda não estava nos bairros da periferia mas sim numa certa intelectualidade e também em alguns setores de moda, aliás, chamava-se heroin chic
JM – Estavam ligados também às lutas ecologistas?
LM – Também, e ao direito à objeção de consciência, mas o partido foi feito para [defender o direito a] o divórcio porque havia uma concordata, como havia aqui, que impedia que qualquer casal se divorciasse e, portanto, era o partido dos fora da lei do matrimónio. E tinham uma posição antiproibicionista sobre as drogas, e esse momento levou- -me a ver o mundo de um outro ponto de vista completamente diferente. De facto, as substâncias psicotrópicas mais aditivas ou menos aditivas para muitas pessoas constituem um problema, mas o facto de elas serem proibidas aumenta o problema em vez de o diminuir. As substâncias psicoativas fazem parte da história da humanidade desde que há textos e a ideia que íamos ter uma humanidade livre de drogas criou uma desgraça em termos do VIH. E depois soube-se da hepatite C. Encheram-se as prisões, criaram-se mercados paralelos e clandestinos, e, em torno de tudo isto, corrompia-se a magistratura, as forças da lei, etc. «Eu sou antiproibicionista!» – isso foi uma descoberta para mim. Eu tinha decidido que não tocava mais na heroína porque tive mesmo dificuldade, meti-me num barco de pescadores onde não havia droga (porque em Sesimbra havia os barcos que tinham droga e os barcos que não tinham droga) durante três semanas e só me senti mais ou menos vivo ao décimo sexto dia. Quando eu volto para Portugal em 1985/86, o país estava confrontado com uma epidemia de 100 mil pessoas a desgraçarem-se e a serem desgraçadas, e eu achava que trazer essa perspectiva era uma coisa que fazia falta. Parecia-me que não havia quase ninguém em Portugal que abordasse as questões das políticas de drogas do mesmo modo que eu as via serem abordadas no Partido Radical, e em movimentos semelhantes em Itália. Fundei uma associação que era a Associação Radical e depois fundei a Associação Radical Antiproibicionista, que era mesmo para juntar os antiproibicionistas. Em 1992 nós decidimos com esse grupo criar um movimento feito de pessoas acima de qualquer suspeita que priorizassem a questão da proibição das drogas, que era de facto o assunto mais pesado que havia em Portugal naqueles anos. E então qual foi o perfil? Deputados, figuras históricas ligadas ao Partido Socialista ou à direita… eu até fiz campanha para eleger o primeiro deputado que o CDS teve pelo Distrito de Setúbal!
JM – E mais à esquerda, juntaram alguém?
LM – O Partido Comunista era muitíssimo conservador naquela altura. Em Setúbal não havia nenhuma esquerda fora do PC e do PS. O PS era liderado por um homem que já morreu, que saiu da política por causa da ponte que caiu e passou imediatamente para a Mota Engil. Um grande oportunista do meu ponto de vista, o Jorge Coelho. Nesse momento, em 1992, eu disse «OK, o meu tempo livre de energia é para criar um movimento de pressão com gente que não possa ser considerada um drogado como eu, mas “gente de bem” que pense à esquerda, à direita, ao centro, na economia, na justiça, no direito, em qualquer das áreas, que digam: “este modelo que temos para responder ao problema das drogas, que é a proibição da produção, do comércio, do consumo, de tudo, é uma desgraça!”» Na verdade, talvez o nosso maior aliado tenha sido o Jorge Sampaio. No lado da direita também, o Paulo Mendo, um gajo que foi ministro da saúde do Cavaco, mesmo no fim do cavaquismo. E conseguimos seduzir duas ou três pessoas do PCP, o problema é que depois saíram do PCP!

JM – A associação 2 foi legalizada em que ano?
LM – A gente começou a trabalhar em 1992, a associação foi legalizada em 1994. Em 1995, o número de antiproibicionistas ou reformistas que começou a aparecer era muito considerável, mas o assunto ainda não estava no domínio público, digamos assim, não era uma coisa que o cidadão estivesse a discutir. E, portanto, começa o período que dá origem à política de saúde e à reforma portuguesa mais conhecida no mundo, que culminou na descriminalização de todas as drogas.
JM – A descriminalização chega em que ano?
LM – O processo começa em 1995. O Jorge Sampaio, eleito Presidente da República, convoca uma espécie de Estados-Gerais da Droga. E tínhamos uma série de aliados. O Almeida Santos, era também completamente antiproibicionista. Como vês, tínhamos de tudo. Os nossos maiores aliados à esquerda foram o Miguel Portas, mais à esquerda, e o meu amigo Francisco Louçã, também. Nós tínhamos uma estratégia bastante bem montada, do meu ponto de vista. Tinhamos um homem que era juiz do Constitucional, outro que tinha sido diretor da Polícia Judiciária, os economistas mais relevantes, a gente de Direito e a gente da área da Saúde. O Eurico Figueiredo, que era o putativo candidato a ministro da Saúde para o PS. Era um gajo muito engraçado, psiquiatra, que tinha feito o curso na Suíça, no início dos anos 70, como exilado. Também o Paulo Mendo, que foi Ministro da Saúde. Aliás, não pôde aparecer na apresentação pública da associação porque o Cavaco Silva o nomeou como ministro e nós dissemos-lhe: «olha, é melhor não vires, a gente percebe, e esperemos que se consiga fazer alguma coisa.»
Nós exigíamos também o acesso aos tratamentos, porque aqui os psiquiatras só queriam abstinência, qual metadona, qual carapuça, nada disso!
JM – Vocês procuravam também acesso a medicação e tratamentos?
LM – Nós exigíamos também o acesso aos tratamentos, porque aqui os psiquiatras só queriam abstinência, qual metadona, qual carapuça, nada disso! A regra era que as pessoas iam fazer aquelas desintoxicações rápidas nas clínicas de um aldrabão, o Manuel Pinto Coelho, que depois era o médico do Santana Lopes, onde pagavam mil contos e na melhor das hipóteses dizia-se que não recaíam depois de terem pago o tratamento.
JM – Que opções havia na altura para quem procurava desintoxicar-se?
LM – Para desintoxicações tínhamos o Patriarche 3, que era uma coisa que metia as pessoas não sei onde, nos campos; tínhamos essas escolas de meter as pessoas em centros de cooperação; e depois tínhamos estas clínicas de desintoxicação. Porque tu desintoxicas-te fisicamente da heroína em 7 ou 8 dias, mas o problema é depois! Então, o que é que eu tinha? O pilar da redução de danos, que era uma coisa que na escola do Porto estava mais avançada. A gente trabalhou muito com gente da escola do Porto.
JM – A escola do Porto?
LM – A Faculdade de Psicologia do Porto tinha um grupo de redução de danos, de teóricos da redução de danos, que aqui em Lisboa era muito pouco relevante. Na verdade, uma das associações que depois se tornou bastante conhecida, a APDES (Agência Piaget para o Desenvolvimento), nasce dentro desse grupo, e nascem quase todos no Porto. Sem falsas modéstias, eu acho que o GAT contribuiu muito para que Lisboa acabasse por ultrapassar, nos últimos anos, as experiências do Porto, que a partir de uma determinada altura estagnaram num determinado modelo.
JM – Mas voltando à redução de danos…
LM – Nem toda a gente pode entrar em abstinência. E, do nosso lado, éramos a favor da descriminalização, mas também éramos a favor da despenalização e também éramos a favor da legalização. Na altura eu era muito radical e dizia «não, o grande problema é as pessoas não terem acesso à heroína e à cocaína produzidas legalmente e estarem nas mãos dos traficantes. Este é que é o grande problema em Portugal». Então nós fizemos um congresso de onde saiu o nosso apoio às quatro propostas que havia na Assembleia da República. A do Partido Comunista, que era de despenalização, porque a gente dizia «um dos problemas é que agora tiram a criminalização, isto é, a pessoa não vai presa porque usa drogas, mas depois dás-lhe uma multa de 500 euros ou 1000 euros». Apoiámos o projeto do Miguel Portas e do Bloco, que era o da legalização da canábis. E apoiámos uma proposta que foi escrita pelo Paulo Mendo, que era apoiada pela Juventude Social Democrata, que se centrava na prescrição medicalizada de heroína para pessoas em fim de vida, que tinham tido aquelas vidas complicadíssimas e não sei o quê… essa era uma que eu gostava muito, porque achava que fazia sentido. Foram todas apresentadas na mesma altura. Foram todas chumbadas, exceto a do Partido Socialista.
Aconteceu uma revolução biomédica, os tratamentos efetivos e capazes para o VIH chegaram em 1996
JM – É nesses anos que te confrontas também com o diagnóstico da SIDA?
LM – Pois, no final de 1996 eu não me aguentava em pé e pensei «bom, não sei como é que eu vou viver agora, aos 30 e tal anos e parece que me sinto com 90… quando entro no carro tenho que puxar a perna com o braço. Será que já vivi demais? Usei demasiadas drogas? Demasiado sexo? Demasiado álcool? E agora? Vou-me embora.» A minha vida começou a andar para trás e em 1996 sou diagnosticado com SIDA. Depois, soube que também tinha hepatite C, que foi a herança das minhas andanças lá em Paris e em Londres. E então pensei: «agora não quero saber de política, quero despedir-me das pessoas, organizar os papéis, ainda fazer duas ou três coisas que eu gostava de fazer, e depois entregar o que gostei da minha vida». Eu sempre tinha pensado que gostava de ver o ano 2000. Mudar de milénio… Ah, pronto, esquece. Digo assim: «eu nem à Expo [98] chego, quanto mais ao novo milénio». E assim foi durante os primeiros meses.
JM – Ainda cá estás…
LM – Aconteceu uma revolução biomédica, os tratamentos efetivos e capazes para o VIH chegaram em 1996 e eu sou do primeiríssimo grupo que é tratado com três medicamentos em simultâneo. Também deixou as suas marcas. A gordura desaparecia dos sítios, dos braços, das pernas, das nalgas, da cara, etc. Concentrava-se aqui [aponta para o abdómen], ou nos braços, ou mamas, ou também, que era menos frequente, na nuca [onde se formava uma geba]. Chama-se lipodistrofia. Até há uma coisa de que eu me lembro, das bolas de Bichat: são duas bolinhas de gordura que os seres humanos têm aqui na face e que se dizia que é o último núcleo de gordura que desaparece nas pessoas que estão a morrer à fome. Então, chegou para aí a dezembro de 1997 e disse assim: «pronto, se morresse agora pelo menos a coisa já está minimamente organizada para quem ficar. Agora, uma primavera em que ainda pudesse ir ver uns amigos e fazer duas ou três coisas não era mal». Porque eu não me sentia pior. E, então, passou-se a primavera de 1998.
JM – Mas tinhas acesso aos tratamentos, nessa altura? Como é que era?
LM – Porque eu fui para o Egas Moniz, que foi o primeiro hospital em Portugal que teve acesso ao tratamento mais avançado e dizia-se até que tinha sido a Abraço que tinha convencido a Maria de Belém a assinar. Dizia-se, não sei se é verdade ou não, que tinha assinado o despacho para se comprarem os medicamentos no avião, quando vinha da Conferência Mundial. É verdade que houve muitos países na Europa onde os medicamentos chegaram muito depois. E eu acho que foi pelo trabalho que fez o Pedro Silvério Marques e a Maria José Campos, com quem depois a gente se zangou muito mais tarde, por outras razões. Mas eu lembro-me de ter dito: «ninguém me vai falar nem em ensaios clínicos, nem em drogas maravilha, nem não sei o quê! Eu sei que não há solução para as pessoas que chegam ao estado de doença que eu tenho, e portanto, eu sou adulto, eu gostei muito da minha vida, acho que vivi com muito mais liberdade do que a maioria das pessoas, mesmo da minha geração».
JM – Foste diagnosticado já tarde?
LM – Sim, a morrer… Quando comecei a sentir-me muito doente, e mais doente, e coisas esquisitas, nunca me passou pela cabeça que fosse infeção pelo VIH.

JM – Mas já conhecias pessoas infetadas?
LM – Claro! Mas eu pensava «isto é muito difícil de transmitir, os meus comportamentos inseguros foram poucos». Depois, quando a gente começa a pensar, assim, em pormenores – Ah! Pois! Essa vez, aquela também… Mas, enfim, a minha convicção era que não tinha uma vida de grande risco para isso. E, também, saber que tinhas VIH não era uma prioridade porque não havia tratamento e portanto, olha, quando adoecer, adoece e anda para a frente. Então faço essa viagem na primavera, vou despedir-me de pessoas a Itália, aos Estados Unidos, à França, amigos que tinha. Depois, no verão, veio uma série de gente visitar-me, eu tinha escrito para toda a gente, reparem, eu não vou viver para lá de 1997. No estado em que eu estava ninguém vivia mais de um ano, porque era SIDA C3, já bastante avançada. E é quando chega esse tratamento. Vou ao médico e digo: «doutor, está mal, eu planeei a minha vida para viver um ano, o inverno tinha mesmo que ser, a primavera era já muito bom, o verão era ouro sobre azul e o verão acabou. E eu não estou preparado para viver mais e estou aqui ainda, diga-me lá o que é que vai acontecer». A resposta do médico foi «Não sabemos, Luís. Vocês são os primeiros doentes que estão a fazer este tipo de tratamento».
JM – E qual era o tratamento?
LM – Juntava três classes de medicamentos. Não era cura, nem é, nem há, mas era extremamente eficaz, muito tóxico. E ele (o médico) continuou: «olhe, prepare-se para fechar este capítulo e dizer “agora o futuro a deus pertence” e ninguém lhe pode dizer se vai durar um ano, se vai durar cinco…». Então nessa altura, eu estava falido, tinha pago as dívidas, essas coisas todas, mas estava falido, não tinha trabalho, tinha-me reformado, tinha cerca de duzentos euros de reforma para os cafés. E foi aí que fui à Abraço. Eu tinha-os conhecido porque a Abraço se tinha associado, através da Maria José Campos e do Pedro Silveira Marques, à Associação Antiproibicionista. E disse-lhe: «pá, preciso que vocês me arranjem qualquer coisa para eu fazer». E então a Abraço propôs-me coordenar um projeto europeu. Eu sentia que estava vivo e que tinha voltado a ter um futuro incerto porque alguém tinha trabalhado para que a gente tivesse tido acesso aos medicamentos. E eles estavam sempre a dizer: «Luís, mas tu tiveste uma formação em ciências, pá, a gente tem uma grande dificuldade em entender ensaios clínicos, estatística a sério, a gente precisa de uma mão». E foi aí que a gente formou dentro da Abraço o grupo que depois dá origem ao GAT, em 2001.
JM – O GAT é fundado à imagem de outros grupos a nível internacional?
LM – O GAT é feito à imagem do TAG (Treatment Action Group) 4, nos Estados Unidos, que era a organização de que nós gostávamos mais, com boas cabeças. Depois havia os mais políticos, de ação nas ruas, que era o ACTUP (AIDS Coalition to Unleash Power), mas eram como duas faces da mesma moeda. O TAG trabalhava, sabia, estudava, propunha, etc., e os outros faziam o ruído, mas um ruído que foi muito importante! Nós éramos muito inspirados por eles. Mas, de início, éramos só de advocacia, não tínhamos nenhum serviço – orçamento zero, é o que quero dizer. Em 2004 há uma cisão na Abraço e o grupo onde eu trabalhava sai da Abraço porque achávamos que a Margarida Martins, para além de outras coisas, tinha decidido fazer uma coisa muito social, era mais aparência que trabalho. Então finalmente, dentro do GAT, a gente diz: «não, ninguém quer puxar a carroça de fazer uma nova organização, a gente vai abrir aqui a porta do GAT para fazermos coisas que habitualmente não fazíamos», e uma delas foi começar a produzir o jornal Ação e Tratamento, que começa com aquela equipa. E aí houve muito investimento do nosso lado. A grande epidemia portuguesa era em injetores de drogas. Chegou a ser quase 70% do total. Tínhamos boas conexões internacionais. Muitos de nós tinhamos já todo um percurso.
Em 2005 começámos a ter um pequeno orçamento, duas pessoas a trabalhar a tempo inteiro. Havia, no entanto, uma grande divisão dentro do GAT porque nós estávamos sempre a propor coisas que as autoridades portuguesas deviam fazer e ninguém fazia. Depois houve um momento crítico na Assembleia Geral em que eu fui um dos que propus – «a gente vai fazer uma coisa: vamos, durante um ano, arranjar dinheiro e abrir um serviço com aquilo que a gente acha que é o que devem ser boas práticas. E depois, quando eles já estiverem com os pezinhos a andar, nós saímos». E isso leva aos primeiros serviços do GAT – talvez o mais emblemático, já em 2010, era o Checkpoint.

JM – O Checkpoint fazia o quê?
LM – Fizemos uma colaboração com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical para estudar duas populações que nos parecia que estavam a ficar demasiado escondidas. Nós tínhamos percebido que os gays – que durante os anos 90 tinham parado praticamente a transmissão do VIH entre eles – começavam a ver outra vez os números da epidemiologia a subir. A outra coisa era a epidemia subsaariana. Havia muitas mulheres que faziam trabalho sexual da África subsaariana e muita gente que usava drogas, homens e mulheres, numa determinada fase em que ainda eram atraentes para os potenciais clientes. E depois, também, sobretudo as mulheres trans (naquela altura ainda quase não se falava dos homens trans): 99% faziam trabalho sexual, era gente que tinha estado no meio gay e tinham uma taxa de infeção de VIH absurda. O número absoluto de mulheres trans não era muito alto, nem ainda é muito alto, mas eram muito atingidas por isso. Então a gente queria estudar a população envolvida no trabalho sexual, homens, mulheres e trans, e a população dos homens que têm sexo com homens. Mesmo em pessoas que não eram gays identitários, mas casos a que se chama «comportamento adaptativo» – por exemplo na prisão, forçado, não forçado, comprado, vendido, etc. Os colégios já eram outra história, mas mesmo nas forças armadas, na marinha e tal, alguns homossexuais eram atraídos pela corporação masculina, outros eram mais adaptativos.
Foram dois grandes estudos em paralelo que duraram quatro anos, financiados pelo Henrique Barros, que na altura era coordenador do VIH/SIDA e um dos tipos mais inteligentes que nós encontrámos, e que acabou por dar condições para que o GAT tivesse crescido. Era dos tais que diziam: «vocês são os que percebem mais disto, vocês deviam abrir serviços, abrir projetos e fazer coisas, porque eu, como cientista e especialista em saúde pública e em epidemiologia, como a maioria das prima-donas, homens e mulheres, das organizações do VIH em Portugal, fico desesperado ao fim de um quarto de hora, aquilo é só manter o sorriso». E aí começa o Checkpoint.
É o mais conhecido porque é o primeiro serviço a abrir, e de facto a situação já estava a escalar tremendamente. Eu acho que o GAT tem sido diferente de algumas outras organizações que ficaram pelo mundo dos homens que têm sexo com homens. Nós, por um lado, pela minha experiência com as drogas, por outro, por uma determinada formação e capacidade de olhar para os números, abrimo-nos a outras populações.
Por exemplo, nós temos uma epidemia na população ligada à África subsaariana e à África lusófona, incluindo de homens brancos que vão trabalhar para África e voltam infetados. Isso era a tal coisa que estava mascarada – por exemplo, quando se diz que os heterossexuais são mais atingidos que os homossexuais, o tanas! As pessoas subsaarianas, sejam heterossexuais ou não, são muito mais atingidas.
Voltando ao Checkpoint, nós fomos muito atacados, mesmo por gente muito bem pensante, por termos feito um centro especializado na saúde sexual dos homens que têm sexo com homens: «era o que faltava! Agora aparecerem ligados outra vez a doenças de desgraça!» Logo a seguir abrimos o IN Mouraria que era especializado em pessoas sem abrigo e pessoas que usam drogas, e a seguir abrimos o Intendente para as pessoas trans e para as pessoas que faziam trabalho sexual. Na margem sul, que era um sítio completamente desprotegido, de onde eu vinha, utilizámos uma estratégia de unidades móveis com equipas formadas para não serem discriminatórias nem em relação aos utilizadores de drogas, nem a pessoas trans, nem aos gays, e ainda menos a pessoas afrodescendentes, porque o número de pessoas migrantes oriundas da África é enorme. Começámos assim a construir um modelo de funcionamento, por um lado com paixão, e envolvendo pessoas que vêm da comunidade, dando oportunidade a pessoas que não eram profissionais de saúde a serem treinadas para fazerem trabalho de saúde. Um era marinheiro, o outro era professor de francês, eu era bioquímico, tínhamos alguém que era culturista e que tinha um ginásio, o Pedro Silvério Marques era economista. As mulheres idem – neste momento eu acho que há mais mulheres a trabalhar no GAT que homens. Metemo-nos menos com artistas, os artistas cá em Portugal são uma coisa difícil. Em todo o mundo os artistas serviram de bandeiras para a causa da SIDA, cá em Portugal ninguém! Lá apareceu o Reininho a dizer que tinha hepatite C, foi o melhor, pá! O [Mário] Viegas morreu quando eu fui diagnosticado e ele escolheu – mas eu percebi naquela altura – dizer que era homossexual mas nunca disse que tinha a infeção. E o Variações também não foi que assumisse.
A maioria dos heterossexuais novos agora têm muita sorte: como não há VIH em circulação nos grupos e nas redes sexuais deles, podem foder à vontade.
JM – Ainda hoje é algo difícil de assumir, a infeção do VIH?
LM – Sim, por exemplo, tendo em conta o número alto de mulheres afrodescendentes infetadas, o GAT só há um ano e meio conseguiu ter a primeira mulher afrodescendente a dizer: «eu tenho VIH». E eu lembro-me basicamente de que havia o Amílcar, da Positivo, e o pai do Luís Osório, José Manuel Osório, que tinha sido do fado e dos espetáculos, que eram os dois seropositivos de serviço. Nós fizemos um trabalho que foi validado em vários centros. Um gajo que só tem sexo com homens e um gajo que só tem sexo com mulheres, mesmo quando usam a mesma quantidade de vezes o preservativo… o gay tem 40 vezes mais probabilidades de se infetar. Porque a coisa era a da promiscuidade. A maioria dos heterossexuais novos agora têm muita sorte: como não há VIH em circulação nos grupos e nas redes sexuais deles, podem foder à vontade, porque não havendo um infetado não se transmite a ninguém. No entanto a prevalência dentro da comunidade afrodescendente, dentro da comunidade gay, dentro da comunidade das pessoas que usam drogas, era de tal maneira alta que para o mesmo risco a probabilidade era muito maior. Esta probabilidade não era reconhecida porque a coisa de alguns dos líderes LGBT aqui em Portugal era que a SIDA chega a quem tem comportamentos de risco e vícios e injeta drogas… Eu costumava dizer-lhes «Eh pá, eu cresci nos anos 60 e 70 e vocês agora parece que querem um dia ser casados e que venha o Benedito abençoar o casamento!»
JM – Na experiência do GAT sente-se essa separação entre uma comunidade gay que procurou a legitimação e a respeitabilidade de forma conservadora, e outra que vive na marginalidade?
LM – Sim, verdade seja dita. O chemsex não é de pessoas que usam drogas, é uma coisa mais fina, é uma coisa para se divertirem, os outros são uns agarrados! Acho que nós também contribuimos para esbater algumas divisões entre estes grupos e fomos construindo uma prática, e uma teoria, e uma intervenção, que é verdadeiramente de promoção dos direitos humanos e das pessoas com as suas diferentes realidades, que isto não há aqui fronteiras completas. O IN Mouraria era dirigido a pessoas sem abrigo e a pessoas que usam drogas, e depois tinha a categoria da população geral. E em determinado momento começámos a ver que as infeções por VIH já estavam a decair muito na população que consumia drogas, mas a população que tinha mais VIH no IN Mouraria era a população geral. Eram gays pobres e população africana, porque a base da população afrodescendente pobre é muito diferente, há pessoas extremamente religiosas e sentem-se excluídas se a gente lhes impuser uma determinada linguagem.
JM – Mas ainda se encontra essa resistência?
LM – Sim, mas o trabalho do GAT e dos seus aliados tem começado a diminuir essa perceção. Quando eu digo: «olhem lá, em 100 mulheres heterossexuais, 95% são brancas e afrodescendentes são 5%. As mulheres afrodescendentes têm 90% da carga de diagnósticos de VIH. Digam-me lá se eu não tenho de dar prioridade a aumentar a capacidade de prevenção, o diagnóstico mais precoce, a adesão ao tratamento e a capacitação destas mulheres para tomarem a sua vida nas mãos».
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O GAT – Grupo de Ativistas em Tratamentos é uma organização não-governamental sem fins lucrativos, fundada em 2001, dedicada a promover a saúde comunitária, os direitos e a participação de pessoas afetadas por VIH, infeções sexualmente transmissíveis (IST), hepatites virais e tuberculose. Oferece serviços gratuitos e confidenciais em espaços seguros e entre pares (ou seja, onde as pessoas são atendidas por técnicos que pertencem à mesma comunidade e têm ou tiveram as mesmas vivências) de: rastreios de VIH e outras Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST); Consultas médicas de IST, hepatites virais e tuberculose; disponibilização de materiais de redução de riscos nas práticas sexuais, como preservativos e lubrificante; troca e distribuição de materiais de redução de danos no consumo de drogas injetáveis e fumáveis; consulta de PrEP descentralizada (no GAT Almada), encaminhamento para o Serviço Nacional de Saúde; acompanhamento por pares, ajudando a entrar ou a «navegar» pelos serviços de saúde e sociais do Estado, incluindo apoio à integração de migrantes; postos certificados do Plano Nacional de Vacinação (GAT Intendente e GAT Checkpoint LX); e apoio social a muitas pessoas de populações-chave.
SERVIÇOS DE RASTREIO, SAÚDE SEXUAL E REDUÇÃO DE DANOS:
GAT AFRIK
Serviço à população migrante de origem africana e a quem se encontre em situação irregular e vulnerável, com dificuldades no acesso à saúde. Contacto: +351 915 290 990 / 75
GAT ALMADA
Centro comunitário para prevenção, tratamento e rastreio rápido, anónimo, confidencial e gratuito do VIH e outras IST, consulta PrEP, apoio psicossocial, entre outros. Contacto: +351 910 250 553
GAT CHECKPOINT LX
Centro comunitário, dirigido a homens que têm sexo com homens (HSH), para prevenção, rastreio e tratamento de IST, aconselhamento e referenciação para o SNS. Contacto: +351 910 693 158
GAT IN MOURARIA
Centro comunitário de respostas integradas dirigido a pessoas que usam drogas (PUD). Redução de riscos e danos, rastreio de IST e apoio social entre pares. Contacto: +351 211 953 273.
GAT INTENDENTE
Serviço de rastreio confidencial e gratuito de VIH e outras IST dirigido a trabalhadores/as do sexo (TS), pessoas trans, migrantes e pessoas em situação de sem abrigo. Contacto: +351 919 613 092
GAT MOVE-SE
Unidades móveis de saúde comunitária, para o rastreio rápido, anónimo, confidencial e gratuito do VIH e outras IST, aconselhamento sexual e referenciação ao SNS, na Península de Setúbal. Unidade Móvel 1: +351 910 382 786 – Unidade Móvel 2: +351 910 656 468
GAT SETÚBAL
Centro comunitário para prevenção, tratamento e rastreio rápido, anónimo e gratuito do VIH e outras IST, apoio psicossocial, entre outros. Contacto: +351 910 990 777
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Entrevista publicada na edição nr. 47 do Jornal MAPA [Out. – Dez. 2025]
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