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Lendo: Simona Kossak, a mãe da floresta

Simona Kossak, a mãe da floresta

Simona Kossak, a mãe da floresta


Uma mulher amamenta sete corças com leite de vacas. O propósito é observá-las sem que sintam medo. A mulher é Simona Kossak, e o procedimento está descrito na Acta Theriologica, 1981 1. As corças estão no bosque de Białowieża, na fronteira da Polónia com a Bielorrússia, o que resta da floresta gigantesca que ocupou as planícies europeias há cinco mil anos.

Apesar de se tratar de um artigo invulgar, por razões que serão apresentadas a seguir, a vida de Simona teria provavelmente passado desapercebida fora da Polónia não fossem as fotografias do seu companheiro, Lech Wilczek. As fotografias documentam a convivência de ambos com animais selvagens, como javalis, corujas, linces, corvos, entre muitos outros. Estes animais viviam na sua casa, Dziedzinka, uma cabana de madeira no meio do bosque, sem água nem eletricidade, que habitaram por mais de 30 anos. Os animais eram órfãos ou deficientes, entregues por populares quando souberam que Simona tomava conta deles. Tal feito mereceu-lhe a alcunha de bruxa, que ela adotou: «Após viver tanto tempo no Bosque de Białowieża, a um certo momento apercebi-me que cruzei a linha e estou do lado das árvores e dos animais (…). Conheço tão bem a sua linguagem que deveria ser queimada como uma bruxa» (Simona, 2022) 2. Ao longo da vida cruzou sistematicamente outras linhas, entre a ciência e o animismo, o ativismo, a arte e a literatura, sempre com o propósito de diminuir a distância entre os humanos e as outras espécies.

Simona formou-se em biologia e ciências florestais, mas considerava-se zoopsicóloga. O seu objetivo era estudar os mamíferos no ambiente selvagem e para os compreender absorveu a floresta toda. O livro A Saga do Bosque de Białowieża 3 é um tributo a todos os mortos que a constituem ao longo de milénios e ao seu potencial de gerar vida continuamente, que se encontra ameaçado pela incompreensão, por encontros violentos com humanos e por engenheiros florestais que pretendem disciplinar a floresta, transformando-a num espaço onde as criaturas selvagens já não têm lugar. Apesar de muitas pessoas advogarem o respeito por espécies selvagens, Simona estabelece com as criaturas da floresta uma relação muito particular, visceral e íntima, usando como porta de entrada a maternidade.

Simona estabelece com as criaturas da floresta uma relação muito particular, visceral e íntima, usando como porta de entrada a maternidade.

Ao longo da história, existem numerosos relatos de mulheres que amamentaram crias de outras espécies, assim como de crias humanas amamentadas por animais 4. A amamentação pode momentaneamente diluir as barreiras que separam os indivíduos entendidos como autónomos e distintos. Simona Kossak entra na floresta de Białowieża como cientista que estuda mamíferos, e como mamífera: «a fundação de todos os comportamentos sociais e da sociedade está em algo simples, na mãe e na sua criança (…) dois indivíduos têm de virar as costas ao seu egoísmo pelo bem dos interesses do outro (…) quando o indivíduo egoísta vai ao resgate de outro indivíduo ou partilha o seu corpo alimentando o outro com leite (…) é o início de comportamentos altruístas, que começa sempre com a vinda de um bebé a este mundo» 5. Enquanto mamífera, a sua história é traumática: foi rejeitada pela mãe, que se recusou a amamentá-la. Não teve filhos (humanos), mas era uma cuidadora nata; a sua história é contada por outras mulheres da sua família (Simona, 2022). Enquanto cientista, amamenta crias de corças para se incorporar no grupo social e seguir o seu comportamento sem lhes causar stress ou medo.

A observação de mamíferos no seu habitat é extremamente difícil e são frequentemente estudados à distância, a partir de análise das fezes e outros materiais biológicos e marcas deixadas para trás. A telemetria permitiu a monitorização remota de animais e a obtenção de dados sem observação humana direta, método que requer que os animais sejam capturados para lhes colocarem aparelhos que podem ameaçar a sua vida ou causar-lhes desconforto se mal aplicados. Simona desenvolveu outro método: criou um habitat na floresta de forma a satisfazer as necessidades psicofísicas das corças. Montou uma cerca de 21,34 hectares numa parcela de bosque onde as corças tinham alimento e lugares de repouso todo o ano, onde podiam viver sem stress de sobrepopulação, mas impedidas de emigrar. As corças exibem fenómenos de imprinting, estabelecendo vínculos com a pessoa cuidadora como se fosse a mãe nos primeiros dias de vida. Para a vinculação ser bem sucedida, a pessoa tem de participar nas atividades de carácter social, isto é, comportar-se como uma mãe corça. As mães lambem as crias, em particular a região anal, para estimular a defecação e a micção, e consequentemente a sucção do leite. Se na primeira fase da vida estas práticas são unilaterais, mais tarde tomam um carácter recíproco.

Antes e após alimentar os animais, Simona massajava-lhes o rabo com um toalhete humedecido em água morna. Os habitantes locais observavam o seu comportamento, atónitos. Os roços e lambidelas na cabeça e no pescoço tornaram-se mútuos. A incorporação de Simona no grupo de corças foi completa, e estas avisavam-na de perigos como fariam a qualquer outro membro do grupo.

Foi desta forma que Simona pode estudar os hábitos alimentares com proximidade, observando as plantas consumidas e rejeitadas, e o seu comportamento livre da pressão antrópica. Este método também tinha as suas limitações, devido à territorialidade e agressividade dos machos que impedia as observações e perturbava o comportamento em certas alturas do ano. Mas estudar mamíferos com proximidade teve também efeitos na observadora. Simona começou, nas suas palavras, a aprender a linguagem dos animais. Adotou uma cria de lince como filha, e quando esta morreu num acidente doméstico trágico, experimentou o luto como qualquer mãe. Porém, a relação empática que Simona estabeleceu com a floresta não se restringia aos mamíferos: ela reconhecia a alma da floresta. Diz-nos na Saga: «a floresta Białowieża está a morrer (…) a ameaça mortal é o orgulho do homem – a floresta gerida (…) devora lugar após lugar a natureza selvagem e livre (…) a sua alma, exilada do tronco apodrecido, chora nos seus últimos refúgios». A linguagem aparentemente poética de Simona contrastava com a sua racionalidade: cortou relações com a sua sobrinha quando esta levou o filho a um xamã na Mongólia, após ter ficado paralisado supostamente por tomar uma vacina. O que seria para Simona a alma da floresta, entendida de forma científica? Parece estar em linha com o entendimento de alma que o antropólogo Eduardo Kohn constrói a partir do seu estudo na floresta amazónica do Equador 6: a alma é o que nos permite relacionar com outros seres enquanto seres. É essencial para ver o mundo de uma forma encantada, repleta de sentido, entendendo os outros seres como pensantes. A alma é incorporada, e a floresta gerida sem alma é o desencantamento do mundo. O único sentido passa a ser ditado pelos florestais: a produção de madeira.

É essencial para ver o mundo de uma forma encantada, repleta de sentido, entendendo os outros seres como pensantes.

A floresta gerida, tal como ditada pela engenharia florestal, assenta na autoridade e na disciplina. Em Białowieża, essa autoridade assumiu configurações particulares após a Segunda Guerra Mundial. A floresta ficou nas mãos da burocracia do estado, e a vontade dos florestais disciplinarem a natureza ganhou um novo fôlego. Mas a partir da vitória do Solidariedade nas revoluções de 1989, a visão produtivista foi enfrentada ferozmente pelos movimentos ambientais 7, e em Białowieża os florestais foram confrontados por biólogos e por ativistas que queriam romper com a autoridade e a disciplina, deixando a floresta entregue a si mesma. Este desejo de libertação manifestou-se na ordem social e na recusa de papéis fixos para as mulheres, na reabertura das feridas entre pessoas de diferentes etnicidades, e na vontade de outra globalização, do combate à corrupção e de democracia. Białowieża viveu bloqueios de máquinas e buldózeres, ativistas acorrentados a árvores centenárias e batalhas sócio-legais contra a exploração de madeira ilegal. Simona foi consultora da Pracownia 8, uma organização ambiental que advoga a filosofia da ecologia profunda e vê os humanos como parte da natureza ao invés de separados dela, central na proteção de lobos e da floresta Białowieża. Empregou todas as suas forças para este fim e ficou conhecida pela sua «visão inflexível» relativamente à natureza 9.

Simona comunicou constantemente a perspetiva dos animais com quem contactou diariamente: «eu atuo em nome deles; formei-me em biologia como especialista em psicologia animal, mas só os anos passados na floresta me ensinaram a sua linguagem» (Simona, 2022). Procurou de todas as formas conectar empaticamente os seres humanos com as criaturas da floresta, para adotarem o seu ponto de vista, recordando as inúmeras dádivas do bosque à humanidade, desmistificando o comportamento dos predadores e encontrando alternativas para uma coexistência respeitosa e pacífica. Simona estabeleceu ligações emocionais com animais que as outras pessoas viam como assustadores e agressivos, que eram mortos ao menor incidente com humanos sem intérpretes de comportamento. Escreveu livros para adultos e crianças onde as plantas e animais são os protagonistas, e fez programas de rádio ao longo da vida. Fumou sempre. Morreu em 2007, e está enterrada em Porytem, onde os seus avós se casaram.

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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 46 [Jul. – Set. 2025]

Notas:

  1. “Simona Kossak (1981). Hand-rearing and care of a group of roe-deer”. Acta Theriologica, 26 (11), 207-218. Disponível em: https://tinyurl.com/55jzvaah
  2. Simona (2022). Realizado por Natalia Koryncka-Gruz. https://dafilms.com/film/15924-simona
  3. Simona Kossak (2016). Saga Puszczy Białowieskiej. Marginesy.
  4. https://tinyurl.com/z9w5jdyw
  5. Excerto do filme Infância, em Simona (2022).
  6. Eduardo Kohn (2013). How forests think: Toward an anthropology beyond the human. Univ. of California Press.
  7. Eunice Blavascunas (2023). How the communist past troubled relationships between foresters and biologists. Disponível em: https://tinyurl.com/3yducfu6
  8. Tracie Wilson (2006). Science, Cynicism, and the Greater Good: Identity and Environmental Discourse in Poland. Anthropology of East Europe Review, 24 (1), 66-75.
  9. https://tinyurl.com/te6nbj74

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