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Lendo: Que morram por lá!

Que morram por lá!

Que morram por lá!



Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE marcaram, para terça-feira, 17 de Agosto, uma reunião virtual de emergência para discutirem respostas a um eventual novo fluxo de refugiados do Afeganistão, depois do regresso ao poder dos taliban. Esta reunião tem significados profundos que, com um olhar benévolo, podem ser vistos como pouco simpáticos.

A reunião virtual de 17 de Agosto demonstra um total alheamento em relação à realidade na qual o mundo ocidental tem estado presente há 20 anos e um profundo desconhecimento das consequências prováveis da saída das suas tropas do território afegão. Uma saída que tem todas as semelhanças com a invasão do país, em 2001, igualmente feita à pressa, sem critério nem preocupações com as populações locais. Um alheamento e um desconhecimento para os quais, aliás, só se pode olhar à luz da habitual primazia dos critérios económicos e geo-estratégicos e à consequente indiferença quanto ao destino das pessoas concretas.

Esta indiferença é a marca de água de outro significado dessa reunião: o que se pretende não é de todo pensar em conjunto a forma de dar apoio a quem foge da nova situação política afegã, mas antes combinar como «impedir os grandes fluxos de migrantes que agora se esperam», de acordo com as palavras que a AFP tirou da boca de Macron na segunda-feira, 16 de Agosto.

Na verdade, o que preocupa a maioria dos Estados membros da UE é como descalçar a bota que, por um lado os pressiona a recolher os fugitivos duma situação que, no mínimo, ajudou a criar, e, por outro, lhes dá a percepção de que estaria a criar incentivos para essa fuga. Nesse sentido, e ainda nas palavras de Macron, é necessário que a UE se «prepare e proteja contra grandes fluxos migratórios ilegais que iriam colocar os migrantes em perigo e que se arriscam a encorajar o tráfico de todos os tipos».

Se o presidente francês usa a retórica da segurança dos migrantes para esconder a condenação à morte que poderá significar não terem sequer a hipótese de fugir, o governo austríaco, por seu lado, não parece ter nada a esconder e não chega sequer a preocupar-se com essas pessoas. Na verdade, o que mais o incomoda é a possibilidade de deixar de poder deportar migrantes que já estão em território austríaco para o Afeganistão, um país em plena terceira vaga de Covid-19, sob uma seca profunda, onde quase metade da população necessita de ajuda de emergência e que, agora, está numa situação, no mínimo, insegura.

Assim, a 16 de Agosto, a Áustria propôs a criação de «centros de deportação» em países próximos, como o Irão ou o Paquistão, onde já estão cerca de 3 milhões de refugiados afegãos. «Se as deportações já não são possíveis por causa das restrições que nos são impostas pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos, tem de se pensar em alternativas», afirmaram, em declaração conjunta, os ministros austríacos da Administração Interna, Karl Nehammer, e dos Negócios Estrangeiros, Alexander Schallenberg.

No seguimento do pedido de Cabul para que a UE suspendesse os «regressos não voluntários» enquanto durasse a ofensiva taliban, a Áustria foi um dos seis países (juntamente com a Bélgica, a Dinamarca, a Alemanha, a Holanda e a Grécia) cujos ministros da Administração Interna tinham, em carta datada de 5 de Agosto, exortado a Comissão Europeia a «intensificar as conversações» com o então governo afegão, de forma a garantir que se podesse continuar a deportar para o Afeganistão todas as pessoas a quem fora recusado o pedido de asilo. Entretanto, em função da tomada de poder pelos taliban, quatro destes países voltaram atrás a esse respeito: Bélgica, Dinamarca, Alemanha e Holanda.

Agora, no final da reunião virtual de emergência de 17 de Agosto, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, informou que a UE resolveu iniciar conversações com o novo poder afegão, de forma a evitar «um potencial desastre humanitário e migratório». Uma decisão cuja lógica é rapidamente ultrapassada quando o mesmo Borrell acrescenta que «não disse que vamos reconhecer os taliban, só disse que temos de falar com eles». Uma esquizofrenia que só é estranha para quem não está habituado à retórica europeia. A mesma retórica que promete que uma futura colaboração com o novo governo afegão irá depender «dum estabelecimento pacífico e inclusivo e do respeito pelos direitos fundamentais de todos os afegãos, incluindo mulheres, jovens e pessoas que pertencem a minorias». Como se não se soubesse que as preocupações principais são, afinal, evitar «o regresso da presença terrorista estrangeira no Afeganistão», não perder de todo para a China e a Rússia o acesso às matérias-primas (nomeadamente o lítio) em que o país é rico e, talvez acima de tudo, impedir uma chegada em massa de refugiados às fronteiras da Europa.

Aliás, sobre este assunto, anunciado como o principal desta reunião da UE, pouco se soube. A prioridade mantém-se igual: em primeiro lugar, evacuar os cidadãos europeus e, depois, cerca de 400 afegãos que colaboraram com a UE nas últimas duas décadas. Quanto aos outros, que representarão a percentagem esmagadora de refugiados, a agência noticiosa alemã DPA informa que Angela Merkel lançou a ideia de que o primeiro passo seria considerar as opções mais seguras nos países vizinhos, um pouco à imagem da proposta austríaca. «Depois, num segundo momento, podemos pensar sobre se as pessoas mais afectadas devem vir para a Europa».

Num momento de extraordinário dramatismo para tanta gente, a UE, como sempre, põe os seus interesses na linha da frente e, em vez de abrir corredores seguros para que as pessoas possam fugir, em vez reanalisar e reconsiderar os milhares de pedido de asilo de afegãos que foram recusados, em vez, enfim, de abrir as suas fronteiras a estes seres humanos sobre cujo destino tem tão pesadas responsabilidades, decide pôr em risco a vida de todos os que acreditaram que a invasão ocidental era realmente um projecto para construir um Afeganistão «livre e democrático».

 


Fotografia “One of the flights out of Kabul” de Dick_Pain


Written by

Teófilo Fagundes

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