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Lendo: «Foi no Sexta às 9 que eu soube»

«Foi no Sexta às 9 que eu soube»

«Foi no Sexta às 9 que eu soube»


O Jornal MAPA e a Livraria Maldatesta organizaram no Porto, no passado dia 27 de Julho, uma conversa sobre a mineração de lítio no norte e centro de Portugal e as lutas em curso contra esses projectos. Estiverem presentes várias organizações que têm feito essa luta no terreno, tais como Em Defesa da Serra da Peneda e do Soajo, Movimento SOS Serra d’Arga, Movimento Anti-Lítio de Braga, Movimento Contra Mineração Beira Serra, Movimento Contra Exploração de Recursos Minerais no Concelho de Montalegre e Associação de Defesa Ambiental Montalegre Com Vida. Mas também o Movimento pelo Decrescimento, a associação ambientalista Zero, a Climáximo ou a Campo Aberto….

«Foi no Sexta às 9 que eu soube». Esta foi uma frase repetida várias vezes durante a conversa. Um ponto comum a todas as pessoas presentes: o conhecimento de que o território à volta das suas casas está à mercê da voragem da indústria mineira é uma coisa muito recente. Os PDMs de várias zonas do país andam há anos a ser alterados, com zonas onde as protecções vão diminuindo ao ritmo do aumento das possibilidades de negócio, que são agora exactamente as mesmas que têm autorização para prospecção. O silêncio que até hoje imperou sobre o que se percebe ser um plano com pelo menos cinco anos deixa na boca de toda a gente a sensação de que quem frequenta as instituições onde estas coisas são conhecidas não é de confiança. 

Talvez por isso, se tenha ouvido também repetidamente que «só a pressão popular pode ter validade. É disso que as mineradoras têm medo.» Muita gente está a mobilizar-se pela primeira vez: «não somos “ambientalistas”, somos pessoas normais. É isso que os assusta.» Não se trata de rejeitar o caminho institucional: «é preciso estar nas Assembleias Municipais», «é preciso obrigar os partidos a tomar posição», «é preciso fazer pressão sobre a Câmara». Trata-se antes de experimentar caminhos mais próprios de comunidades saudáveis, agindo comunitariamente sobre os assuntos que afectam toda a gente, através duma organização entre iguais. Quase todos os grupos presentes, dos assumidamente informais aos associativos, fizeram questão de falar de horizontalidade organizativa e ausência de lideranças. E todos combatem o silenciamento e o marketing «verde» do lítio de todas as formas possíveis, principalmente falando e esclarecendo, muitas vezes «batendo aldeias porta a porta», sem estar à espera de ajuda de quem «devia ter avisado e deixou tudo andar».

No meio do silêncio e do secretismo, com pedidos para áreas gigantes que integram vários municípios, a mobilização, apesar de fundamental, é difícil.

Foi amplamente salientado que esta luta não é apenas contra o lítio mas contra qualquer tipo de mineração e que estes projectos são o resultado da necessidade permanente de expansão do capitalismo e da sociedade de consumo. «Esta luta implica uma luta pela alteração do modelo extractivista, o consumo é o problema», ouvia-se de Braga. «É preciso acabar com o capitalismo, o sistema vai colapsar. Tem de se começar a imaginar um sistema alternativo», respondia-se de Montalegre. «Tem de emergir outra forma de estar em comunidade para surgir uma verdadeira procura de sustentabilidade», sugeria-se da Serra da Estrela, quando a conversa já era mais em nome individual.

Mas para isso – concordava-se – o primeiro e fundamental passo é travar a prospecção. «Porque, se houver minério, não haja dúvidas, vai haver exploração». E quanto mais cedo melhor. A luta inicial e o foco principal é esse: travar a prospecção. No meio do silêncio e do secretismo, com pedidos para áreas gigantes que integram vários municípios, a mobilização, apesar de fundamental, é difícil. Para combater essa dificuldade é preciso «solidariedade entre todos os montes», «união entre todas as zonas», «pôr toda a gente em contacto uma com a outra». Coisa que aconteceu realmente naquele momento que ajudou a aprofundar os passos que já tinham sido dados anteriormente por vários destes movimentos. A proximidade entre eles ficou, decerto, bastante maior depois desta conversa.

E nas cidades? Ninguém vai criar uma mina a céu aberto no centro do Porto, nem sequer na periferia. «As cidades têm advogados de Direito Administrativo e de Direito do Ambiente, fundamentais para as providências cautelares contra os pedidos de prospecção». E a cidade amplifica o impacto. «A grande solidariedade urbana será divulgar as nossas lutas, organizar manifestações». Ou, quem sabe, «criar ferramentas de organização entre as várias zonas, talvez uma agenda onde todos possam ir metendo as suas actividades».

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2019.


Written by

Teófilo Fagundes

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