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Lendo: Política do Espírito 2.0: Diário Encontrado

Política do Espírito 2.0: Diário Encontrado

Política do Espírito 2.0: Diário Encontrado


Dia 1, 10h30

Desespero, desolação. Passei 45 minutos de pé numa fila para entrar no infame Web Summit 2019, na FIL. O meu chefe, um novo-rico liberalóide que eu desprezo e que me explora, forçou-me a vir cá na esperança de que eu fizesse algum «networking». Sinto que caí num caldeirão de tecno-distopia light. Por toda a parte, empreendedores de cabelo arroxeado, identificados pelo nome, por um QR Code e pela marca de sapatilhas, abordam-me num inglês-padrão na tentativa de me convencerem a investir nas suas aplicações todas iguais. Os néons confundem-me e dou por mim a vaguear sem rumo por pavilhões infinitos dentro de um quadro do Escher. Num ecrã gigante, um norte-americano afirma ser um «CEO Activista». Fintech. Blockchain. Corporate Innovation. Fourth Industrial Revolution. Sustainable Business. Full Stack Development. Quantum Computing. Padaria do Bairro. Sinto a cabeça a andar à roda. Será que alguém aqui leu o Mark Fisher? Prefiro uma eternidade de torturas nos infernos de Dante a um minuto mais nesta prisão de consciências. A revolução precisa-se, e já! Estou a transformar-me num neo-ludita! Sobrevivo apenas porque há café gratuito.

Dia 1, 14h00

Um investidor francês abordou-me através da aplicação do evento e ofereceu-me almoço em troca de me explicar os benefícios da subcontratação de serviços na Índia para a produção de microchips de controlo de trabalhadores. Claro que não comprei os argumentos dele, mas devo confessar que a minha má disposição matinal talvez se devesse à falta de alimento: sinto-me um pouco mais optimista em relação ao futuro depois deste hambúrger gourmet. Desprezo o empreendedorismo, mas de barriga cheia fico mais clarividente para exercer uma crítica feroz e sem concessões ao capitalismo global. Tenho estado a conversar com startups dedicadas à sustentabilidade ambiental e acho que elas é que são o futuro.

Dia 1, 17h30

Isto talvez não seja tão mau assim. Depois de ter percorrido todas as bancas e de ter recolhido centenas de brindes, fiz um rebranding à minha opinião. Há inovações tecnológicas que são fascinantes e sobretudo necessárias, só precisamos de saber aplicá-las em prol do bem comum. Toda a gente me trata com simpatia, apenas preciso de dar em troca todos os meus dados pessoais. Mesmo que o Grande Capital esteja a beneficiar com tudo isto, a verdade é que só vejo pessoas satisfeitas aqui. No final do dia, não é isso que conta? E afinal, como me disse um investidor imobiliário oriundo do Dubai, o Web Summit gera milhões em receitas de turismo para a cidade. Eu também nunca gostei muito de viver em Alfama, agora estou bem melhor no Cacém.

Dia 2, 9h00

Vim mais cedo para reunir no Investor’s Lounge com um canadiano apostado em monetizar sentimentos revolucionários através de uma marca de roupa chamada MyAnarchy. Comecei por torcer o nariz, mas fiquei convencidíssimo quando ele me disse que a marca ia promover o desenvolvimento da produtividade no Bangladesh, especialmente a das crianças. Entretanto, acabei por ceder e instalei o Tinder. A Katarzyna, polaca especializada em derivados financeiros (seja lá o que isso for, certamente que nunca fez mal a ninguém!), convidou-me para o Night Summit, no Bairro Alto. Sinto uma confiança renovada em mim mesmo. Investi todas as minhas poupanças numa empresa por nascer cujo CEO é um indivíduo muito engraçado que diz ser Príncipe da Nigéria. Acho que vou ficar rico!

Dia 2, 16h00

A minha cabeça fervilha de ideias. Reuní três partners para desenvolver uma app revolucionária. Já tenho investimento, só preciso que alguém pense nela e a faça, de preferência em regime voluntário, que isso conta muito para o CV nestes dias. Depois de uma conferência de um multi-bilionário a defender a filantropia como «estratégia fiscal», a Katarzyna, emocionada, puxou-me e beijou-me mesmo em frente ao stand da Startup Lisboa. Quando o beijo terminou, tínhamos uma centena de pessoas à nossa volta de telemóvel em riste e passados cinco minutos éramos notícia no Observador. Foi o momento mais romântico da minha vida. Acho que vou pedir a Katarzyna em casamento a troco de 5% de equity na minha empresa.

Dia 2-3, 4h00 (acho eu)

ESTOU NA CASA-DE-BANHO DO LUX COM TRÊS INVESTORS DE SILICON VALLEY. FINALMENTE PERCEBI O PORQUÊ DE OS EMPREENDEDORES TEREM ENERGIA INFINITA.

Dia 3, 11h00

A Katarzyna enviou-me uma DM no Instagram: decidiu trocar-me por um oligarca russo que, nas palavras dela, tem «mais capital social do que tu». No minuto seguinte, comecei a receber anúncios de sites de encontros. Enfim, não me importo, sinto que ela não me trazia grande valor acrescentado. Estou completamente focado na minha nova ideia de negócio: uma Uber para assassinatos por encomenda. Este mundo do empreendedorismo é verdadeiramente fascinante e arrependo-me do desprezo a que o votei durante tanto tempo. Passei uma hora a debater sobre flexibilização do trabalho com um militante da Iniciativa Liberal, que no fim da conversa tentou cobrar-me 30€ por cada minuto de partilha de conhecimento. Era o que mais me faltava. Fiz uma contra-proposta e ele aceitou.

Dia 3, 17h30

Já não consigo imaginar como é possível alguém não se sentir pleno neste microcosmos do Futuro. Vou à casa-de-banho e encontro um senhor moldavo agachado a arranjar uma sanita enquanto se queixa das condições de trabalho. Convoco vários empreendedores através da app e administro-lhe um espancamento em grupo até ele admitir que, ao invés de biscateiro, é um bem sucedido microempreendedor. Sinto que começo a influenciar o mindset das pessoas à minha volta. Bem, tenho de parar de escrever, que vai começar a conferência do Zuckerberg sobre privacidade e eu quero ir lá tirar uma selfie.

Dia 4, 10h45

Fui contratado como administrador não-executivo de uma empresa que faz cobranças difíceis através de drones armados. Com o salário adiantado, comprei acções em centenas de micro-empresas individuais: tenho agora o meu primeiro exército de pós-escravos, que usarei como lobbyistas contra toda a espécie de taxação. Vou ser orador no Web Summit 2020 e explicarei como é possível conciliar a vida pessoal com o trabalho (spoiler: são ambos a mesma coisa!). A Katarzyna está completamente ultrapassada: há pouco, ao ouvir um magnata sul-americano falar de como planeava usar tecnologia de ponta para ressuscitar o Pinochet e assim retomar o projecto neo-liberal no Chile, tive o maior orgasmo da minha vida.

Dia 4, 17h00

Fiz Upload Da Minha Consciência Para A Cloud. O Meu Corpo Já Não É Uma Jaula. Sou Uno Com O Capital. Alimento-Me De Big Data. Glória Ao Ciber-Império. Amor-Mercado Livre. ACCELERATE!

 


Texto de António da Cruz


Artigo publicado no JornalMapa, edição #26, Fevereiro|Abril 2020.


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