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Lendo: O que se passa na Papua Ocidental?

O que se passa na Papua Ocidental?

O que se passa na Papua Ocidental?


papua_freedomflotilla2Na memória da minha geração estão gravadas as imagens do povo timorense a ser perseguido, espancado e abatido pelo exército indonésio e seus mercenários. O pânico no cemitério de Santa Cruz, e a mim pessoalmente, a imagem gravada por uma câmara com visão nocturna da população em fuga a meio da noite, são os olhos do eterno sofrimento. A prepotência do governo indonésio e a violência de mercenários contratados pelo mesmo, ainda hoje são ignorados pela comunidade internacional. Hoje pouco se sabe de Timor. Mas também quase nada se sabe de outras vítimas da Indonésia e da indiferença das Nações Unidas. Uma das nações que ainda hoje sofre com a ocupação e repressão do Estado indonésio é a Papua Ocidental (Nova Guiné).  Um projecto de um grupo não-governamental tem viajado para chamar a atenção para o que se passa, utilizando a música, a cultura, e a vontade popular indígena: Freedom Flotilla. 

“Temos a responsabilidade de ajudar os nossos irmãos e irmãs do outro lado das águas. Temos de levar a água e o fogo, o amor e a música para curar o país e percorrê-lo em solidariedade”

Uncle Kevin Buzzacott, Arabunna Aboriginal Elder.

 

A viajem do Freedom Flotilla à Papua Ocidental foi um evento sem precedentes de resistência criativa à ocupação indonésia. A iniciativa do grupo indígena “Elders of Australia and West Papua” criou solidariedade global e veio trazer mais luz à violação dos direitos humanos e direitos à terra levada a cabo durante a ocupação. A Freedom Flotilla é “orientada” por Kevin Buzzacott, activista pelo reconhecimento cultural, justiça e direitos à terra do povo Aborígene, que é também presidente honorário da Australian Nuclear Free Alliance. Fazem também parte do projecto Jacob Rumbiak, ministro da República Federal da Papua Ocidental, que conheceu Buzzacott na “Aboriginal Tent Embassy”, depois de escapar a 10 anos de prisão fugindo para a Austrália; Isabella Brown, fundadora do projecto United Struggle Project, MC da banda de hip hop Combat Wombat e realizadora do filme “Ghettomoto”, premiado no London Internacional Film Festival; Amos Wainggain, originário a ilha Yapen (Nova Guiné Ocidental), que viajou para a Austrália em canoa com mais 42 pessoas à procura de asilo político e é uma das vozes da Rádio “Voice of West Papua”; e Ronny Kareni, que cresceu como refugiado e é membro da “Rize of the Morning Star”, uma campanha que utiliza a música para chamar atenção para a luta do povo da Papua Ocidental, integrando também as bandas Tabura e Sing Sing, que fazem digressão partilhando a música e a cultura da Oceania.

O que se passa na Papua Ocidental?

Papua Ocidental foi o nome adoptado para a Península Oeste da Nova Guiné. A Indonésia administra o território como duas províncias, Papua e Papua Ocidental, desde 2003. Trata-se de uma antiga colónia holandesa, que a Indonésia tentou ocupar em ataques militares em 1963, com pouco sucesso. No entanto, com a ajuda das Nações Unidas, a Indonésia conseguiu incorporar a Papua Ocidental no seu território, com o chamado “Act of Free Choice” em 1969, que sempre foi combatido por muitos cidadãos.

Desde de 2007 que se podem encontrar várias violações dos direitos humanos na Papua Ocidental, no relatório da Amnistia Internacional. Em 2007 foi divulgado um vídeo que mostrava soldados indonésios a torturar civis da Papua. São relatadas violações ao direito de liberdade de expressão e ao direito de assembleias populares. Pessoas são detidas por participarem em manifestações ou simplesmente por falarem um público da invasão.

O caso mais conhecido é um vídeo da polícia, onde se vê o activista Yawan Wayeni com vários ferimentos abdominais, sem receber assistência antes da sua morte. Outro caso que chocou a comunidade internacional foi o rapto de Yane Waromi, de 19 anos, em 2007, pelos serviços secretos. Segundo relatórios a estudante de Direito foi detida durante 18 horas numa casa privada, onde foi torturada. Foi ameaçada com arma de fogo e espetada por agulhas em todo o corpo. Os serviços secretos telefonaram à sua mãe para ouvir a filha a ser torturada. Yane foi forçada a estar perto de um forno aceso, ameaçada de ser cozinhada. Traumatizada, Yane não voltou para a faculdade. Um amigo apresentou queixa contra a polícia de Abepura, mas a investigação foi parada porque Yane está demasiado assustada para testemunhar.

Estes são só dois exemplos. Até 2009 existiam relatórios sobre abuso de força policial sobre manifestantes, com mais de 21 feridos. Existem relatos de contínuos espancamentos, ameaças à vida e tortura sobre pelo menos 17 pessoas, durante e depois de detenções. Está provada também a morte de pelo menos duas pessoas pelas forças de segurança na Papua.

Em 2001, uma operação contra-insurgente no sub distrito de Wasior provocou a fuga de centenas de pessoas e destruiu dezenas de casas. Mais de 140 pessoas foram espancadas e torturadas, e pelo menos 7 foram executadas. Em 2003 no sub distrito de Wamena foram mortos 9 pessoas, 38 foram torturadas, centenas ficaram em campos de refugiados, onde morreram mais de 40 pessoas devido a exaustão e fome.

Em 2009 a polícia abriu fogo sobre protestantes na cidade de Nabire, ferindo pelo menos 7 pessoas, incluindo um criança de 10 anos. A polícia agrediu Monika Zonggonau, Abet Nego Keya e outros 15 activistas durante a sua detenção e depois da mesma. O corpo de Abet Nego Keiya foi encontrado três dias depois da manifestação. Filep Karma e Yusak Pakage foram ambos detidos em protestos pacíficos, na província de Papua. Foram condenados por traição em 2005 recebendo sentenças de 15 e 10 anos, respectivamente. Yusak teve um perdão presidencial e foi libertado em 2010, mas Filep continua na prisão.

Infelizmente o que se passa na West Papua, não é um acto isolado, podíamos falar do Tibete, ou do povo do Saara Ocidental, da Palestina. O Colonialismo físico está vivo, a indiferença internacional actual. Mais uma vez a UNO espalha a “paz”, acompanhando um clima de terror. Os Portugueses levados pela média sentiram-se na obrigação de ajudar Timor (ex-colónia) a libertar-se de uma colonização selvagem por parte do governo Indonésio. Porque razão os portugueses, os europeus, e a comunidade mundial não olham os povos ocupados, agredidos e explorados como um só, e levam a paz aos povos e não aos interesses?

Granado da Silva

 


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João Vinagre

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