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Lendo: Os crimes da “Europa Fortaleza”

Os crimes da

Os crimes da “Europa Fortaleza”


lampedusa_naufragio2Passou pouco mais de uma semana após o naufrágio ao largo da Ilha de Lampedusa de uma embarcação que transportava imigrantes, proveniente da Libia. Contaram-se mais de 300 mortos e desparecidos do grupo de 500 pessoas que estava a bordo, muitos dos quais eram crianças. Há vários anos que noticias semelhantes se repetem naquela região, diferindo apenas o número de vitimas e a data. Diferentes organizações não-governamentais estimam que nas últimas duas décadas, mais de  25 mil pessoas morreram ao tentar cruzar o Mar Mediterrâneo a partir do Norte da África.

Alguns dias depois, mal tinham terminado as buscas, Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, visita a ilha juntamente com o primeiro ministro Italiano. São recebidos por um grupo de habitantes empunhando fotos de imigrantes e gritando palavras  de ordem como “vergonha” e “assassinos”.

De acordo com a Lei Bossi-Fini 1, actualmente em vigor, os sobreviventes do naufrágio podem ser investigados, acusados pelo delito de “imigração ilegal”, sujeitos ao encarceramento em campos de detenção de imigrantes e ao pagamento de elevadas multas,  antes de serem expulsos.

A mesma UE que em 2012 recebeu o prémio nóbel da paz, continua a basear as suas politicas de imigração no controlo de fronteiras, na perseguição e criminalização de imigrantes e refugiados de paises devastados pela guerra, pela fome e pobreza extremas. Fazem parte da UE paises que apoiaram ditaduras nessas regiões, mantêm parcerias financeiras e participaram inclusivé nessas guerras.

Enquanto se continuam a ver as imagens de recuperação de corpos e se enterram os mortos, a UE numa tentativa de desviar as atenções do verdadeiro problema, anúncia o reforço de patrulhas no mediterrâneo através da operação Frontex 2, continuando assim as suas politicas repressivas face à imigração.

Poucos dias depois da visita de Durão Barroso à ilha de Lampedusa, as agências de noticias internacionais voltam a informar sobre um novo naufrágio no estreito da Sicília, vitimando mais 50 imigrantes. Passaram menos de duas semanas…

 

 

Notas:

  1. Lei “Bossi-Fini”, de 2002, prevê o crime de cumplicidade com a imigração ilegal para quem levar imigrantes a Itália sem permissão de entrada, aplicável também a quem socorre embarcações em apuros que estejam em situação irregular.
  2. Agência Europeia para a Gestão e Cooperação Operacional das fronteiras externas dos estados membros da UE

Written by

Júlio Silvestre

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