O romântico é político

15 de Março de 2018
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Apresentamos aqui a tradução de um texto que pretende desafiar a fronteira entre o individual e o coletivo, arriscando ver implicações e consequências políticas no domínio da intimidade.

Num momento em que quase vomitamos com o impacto mediático de mais um casamento da monarquia inglesa, onde a luta pela sobrevivência da casa real passa por casar o príncipe azul com uma plebeia mediática, é impossível não refletir sobre estes modelos heteronormativos que nos são impingidos. A cultura popular continua a difundir o amor romântico através de termos como a salvação, o ideal, a sorte grande. Que resultados sociais e políticos têm estes modelos?

Pretende-se questionar as escolhas e práticas românticas de cada pessoa como produto do panorama cultural que nos é comum, não para que nos envergonhemos, mas sim para que haja mais amor, por favor.

“Amamos patriarcalmente. Amamos democraticamente. Amamos como os capitalistas: com uma ânsia voraz de possuir o objeto de amor, com a ânsia brutal daquele que coleciona peças de caça. Conquistar, adoçar, fundir-se, separar-se, destruir-se mutuamente… a nossa forma de amar está impregnada de ideologia, como qualquer fenómeno social e cultural.

O amor romântico que herdamos da burguesia do século XIX baseia-se nos padrões do individualismo mais atroz: que nos massacrem com a ideia que devemos unir-nos de dois em dois não é um acaso. Sob a filosofia do “salve-se quem puder”, o romantismo patriarcal perpetua-se nos contos que nos contam em diferentes formatos (cinema, televisão, livros, etc.).

Através desses contos que nos contam, assumimos os mitos, os estereótipos, os rituais e os papéis de género tradicionais e, enquanto consumimos uma ideologia hegemónica, entretemo-nos e evadimo-nos de uma realidade da qual não gostamos. Ao consumir estes produtos românticos, aprendemos a sonhar com uma utopia emocional pós-moderna que nos promete a salvação eterna e a felicidade conjugal. Mas só para nós os dois, os outros que se façam à vida.

Perante utopias religiosas ou utopias sociais e políticas, o amor oferece-nos uma solução individualizada e mantém-nos distraídas, sonhando com finais felizes. O romantismo serve para que adotemos um estilo de vida muito concreto, para que nos centremos na busca de um par, para que nos reproduzamos, para que continuemos com a tradição e para que tudo continue como está.

O romantismo patriarcal serve para que tudo continue igual. Uns a desfrutarem dos seus privilégios de género e outras a submeterem-se aos pequenos reis absolutos que governam nos seus lares. Serve, também, para ajudar a aliviar um dia horrível, para levar-nos a outros mundos mais bonitos, para sofrer e ser felizes com as histórias idealizadas de outros, para nos esquecermos da realidade dura e cinzenta do quotidiano. Serve para que, sobretudo as mulheres, empreguemos enormes quantidades de recursos económicos, de tempo e de energia, para encontrar a nossa cara metade. Se nos deparamos com o fracasso, desejamos que tudo mude quando encontrarmos o amor ideal que nos adore e nos acompanhe na dura batalha diária da vida.

Cada ovelha a ruminar a sua tristeza com o seu parceiro.

Estamos rodeadas de afetos na nossa vida, mas se não temos parceiro dizemos que “estamos sós”. As que têm parceiro asseguram que a solidão amorosa que sentem, mesmo tendo companhia, é muito pior. Muitas mulheres continuam a acreditar que a relação amorosa é a solução para a sua precariedade, a sua vulnerabilidade, para os seus problemas pessoais. As indústrias culturais e as imobiliárias vendem-nos paraísos românticos para que procuremos um parceiro e nos fechemos nos nossos lares felizes, ambientes seguros e aborrecidos, que podem chegar a converter-se em infernos conjugais.

Os casais de hoje em dia continuam a ser profundamente desiguais, desequilibrados, hierárquicos e quase todos praticam a divisão de papéis: heteros, lésbicas, bissexuais, gays… o amor é o reduto final no qual se funda o patriarcado. O individualismo do romantismo patriarcal apaga-nos em devaneios românticos enquanto nos tiram direitos e liberdades… ainda assim, uma grande parte da população permanece adormecida, protestando em suas casas, sonhando com um Salvador ou com um Príncipe Azul.

Os meios de comunicação tradicionais jamais promovem o amor coletivo se não for para nos vender umas olimpíadas ou um seguro de vida. Se gostássemos todos muito uns dos outros, o sistema vacilaria, pois está baseado na acumulação egoísta de bens e recursos e não na sua gestão coletiva e solidária. Por isso é que se prefere que nos juntemos aos pares, e não de vinte em vinte: é mais fácil controlar dois do que um grupo de gente que se ama.

O problema do amor romântico é que o tratamos como se fosse um assunto pessoal: se te apaixonas e sofres, se perdes o teu amado ou amada, se a tua relação não te preenche, se és infeliz, se te aborreces, se aguentas desprezo e humilhações por amor, é problema teu. Talvez tenhas pouca sorte ou talvez escolhas companheiros ou companheiras pouco adequadas, é o que te dizem.

Mas o problema não é individual, é coletivo: são muitas as pessoas que sofrem porque as suas expectativas não se adequam ao que haviam sonhado. Ou porque temem ficar sozinhas, porque precisam de um marido ou uma esposa, ou porque se dececionam quando comprovam que o romântico não é eterno, não é perfeito, nem é a solução de todos os nossos problemas.

O pessoal é político e o nosso romantismo é patriarcal, ainda que não queiramos falar disso nos nossos fóruns e assembleias. Também as pessoas de esquerdas e os feminismos continuam ancorados a velhos padrões dos quais nos custa desprender. Elaboramos muitos discursos à volta da liberdade, da generosidade, da igualdade, dos direitos, da autonomia… mas na cama, em casa, na nossa vida quotidiana, não é tão fácil dividir igualitariamente as tarefas domésticas, gerir os ciúmes, assumir separações, gerir os medos, comunicar com sinceridade, expressar os sentimentos sem se deixar levar pela ira ou pela dor…

Não nos ensinam a gerir sentimentos nas escolas, mas bombardeiam-nos com padrões emocionais repetitivos e seduzem-nos para que imaginemos o amor através de um casal heterossexual com dois membros e papéis muito diferenciados, adultos e em idade reprodutiva. Este modelo não só é patriarcal como é capitalista: Barbie e Ken, Angelina Jolie e Brad Pitt, Javier Bardem e Penélope Cruz, Letizia e Felipe… são casais de sucesso mitificados pela imprensa cor-de-rosa para que os tenhamos como exemplo a seguir. É fácil entender, portanto, porque damos mais importância à busca do nosso paraíso romântico do que à busca por soluções coletivas.

Para transformar e melhorar o mundo no qual vivemos há que tratar politicamente o tema do amor, refletir sobre a sua dimensão subversiva quando é coletivo e a sua função como mecanismo de controlo de massas, quando se limita ao mundo do romantismo heterocêntrico e heterossexista.

Quando me sinto romântica queer, dá-me para pensar que o amor de verdade podia destruir o patriarcado e o capitalismo juntos. As redes de solidariedade podiam acabar com as desigualdades e as hierarquias, com o individualismo consumista e com os medos coletivos que temos do “outro” (os estranhos, as marginalizadas, os imigrantes, as reclusas, os transexuais, as prostitutas, os mendigos, as estrangeiras). Para poder criar estas redes de amor temos de falar muito e trabalhar muito: há todo um caminho por fazer.

Devemos falar sobre como podemos aprender a gostar melhor uns dos outros, a dar-nos bem, a criar relações bonitas, a estender o carinho às pessoas e não a centrá-lo todo numa só pessoa. É hora de começarmos a falar de amor, de emoções e sentimentos em espaços nos quais isso foi um tema ignorado ou invisibilizado: nas universidades, nos congressos, nas assembleias dos movimentos sociais, nas associações de moradores, nos sindicatos e partidos políticos, nas ruas e nos fóruns cibernéticos, nas comunidades físicas e virtuais.

Há que desconstruir e repensar o amor para poder criar relações mais igualitárias e diversas.

É necessário ‘despatriarcalizar’ o amor, eliminar as hierarquias afetivas, desmistificar finais felizes, voltar a inventar, acabar com os estereótipos tradicionais, contar outras histórias com outros modelos, construir relações diversificadas, baseadas nos bons-tratos, no carinho e na liberdade. É necessário propor outros “finais felizes” e expandir o conceito de “amor”, hoje restringido aos que se organizam aos pares.

Agora mais que nunca, necessitamos de ajudar-nos, trabalhar unidos para melhorar as nossas condições de vida e lutar por direitos humanos para todos. Para acabar com as desigualdades, com as fobias sociais, os ódios e as solidões, precisamos de mais generosidade, mais comunicação, mais trabalho em equipa, mais redes de ajuda. Só através do amor coletivo é que poderemos articular politicamente a mudança.

Confiando nas pessoas, interagindo nas ruas, tecendo redes de solidariedade e cooperação, trabalhando unidos para construir uma sociedade mais equitativa, igualitária e horizontal. Pensando e trabalhando pelo bem comum, é mais fácil dar e receber, é mais fácil deixar de sentir-se sozinho/a, é mais fácil escolher um/a parceiro/a a partir da liberdade, é mais fácil diversificar os afetos. Trata-se, então, de dar mais espaço ao amor nas nossas vidas, de criar redes afetivas nas quais possamos gostar uns dos outros, e muito.

Que falta nos faz.”

Coral Herrera Gómez

Publicado na revista PIKARA, em 17/02/2014

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