Panegírico a Zeca Afonso | Segunda parte

Do 25 de Abril ao 25 de Novembro

2 de Agosto de 2017
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O 25 de Abril surpreendeu José Afonso em casa de um amigo livreiro, em Lisboa, onde se acoitara para esquivar a crescente pressão da PIDE, que nos dias anteriores tinha colocado sob vigilância a sua residência, em Setúbal. A forma como decorrera o concerto no Coliseu em Março e a iminência do 1º de Maio, momento escolhido tradicionalmente pela polícia para prender activistas da oposição ao regime, levara-o a manifestar a vários amigos o receio de voltar a ser preso.

Foi acordado às sete horas da manhã com a informação de que havia um golpe militar. O seu primeiro pensamento foi que seria um golpe dos generais do regime, apoiado pela PIDE, mas as informações foram apontando para que não era assim e saiu para a rua. A mesma atitude que impeliu milhares de pessoas a desrespeitarem as advertências para ficar em casa contidas nos comunicados do MFA e que, num curto lapso de tempo, alastrou à generalidade da população, que acudiu apoiando o gesto dos militares, misturando-se com eles, passando a condicionar todos os planos previamente definidos, conferindo ao golpe militar um contorno revolucionário. “Vivi o 25 de Abril numa espécie de deslumbramento. Fui para o Carmo, andei por aí…”(24) – recordaria Zeca Afonso, mais tarde. Teve conhecimento de que a “Grândola, vila morena” tinha sido o sinal rádio desencadeador das operações militares, dois dias depois do golpe. Em pouco tempo, a sua difusão atingiria proporções inimagináveis, sendo entoada de norte a sul do país na generalidade das manifestações públicas.

Os telespectadores portugueses viram pela primeira vez a cara do autor da “canção emblema” do novo tempo, através das câmaras da RTP, a 30 de Abril, quando foi entrevistado, rodeado de populares, nas imediações do aeroporto de Lisboa, onde tinha ido esperar os cantores José Mário Branco e Luís Cília, que regressavam do exílio em Paris. Nas declarações então proferidas, Zeca Afonso referiu a necessidade naquele momento de uma frente da esquerda e apontou para o principal perigo que ameaçava o movimento social desencadeado:“os indivíduos de cima que vão cavalgar esses movimentos” (as vanguardas), ao mesmo tempo que defendia a formação de comissões, como forma de organização das camadas populares. Esta foi das poucas intervenções televisivas de Zeca Afonso. O conteúdo destas declarações (25), a coerência do seu discurso e da sua prática no tempo que mediou até à sua morte, quase treze anos depois, ditaram, certamente, a censura a que continuou votado, período do PREC (26) incluído. Vale a pena recordá-las:

Interrogado pelo repórter sobre como via o facto de ter sido a Grândola, vila morena “a dar o pontapé de saída para esta grande modificação que todos nós com grande alegria desejávamos”, respondeu: “Isso foi um facto acidental, mas enche-me de contentamento a utilização que foi feita pelas pessoas, que, aliás, já estava a ser feita em sessões que nós fazíamos, sessões particulares, nas cooperativas, em piqueniques, nas colectividades populares de cultura e recreio. A Grândola era um factor estimulante, de congregação das pessoas, de congregação emocional (…) Mas acho que temos que passar a uma fase menos emotiva e organizar-nos, sobretudo as camadas populares. Formar comissões. Exigir a libertação de todos os presos políticos, os que estão aqui dentro e os que estão em França e, sobretudo, os que estão no ultramar (…) A mesma opressão que nos domina aqui dentro, domina os povos africanos do ultramar. (…) Creio que neste momento é preciso congregar uma frente da esquerda e organizar sobretudo as bases. Há uma extensão enorme de pessoas apolitizadas, mas que vão constituir os organismos que futuramente serão a frente de facto revolucionária deste país. (…) Para mim, a coisa mais calorosa, a coisa mais comovente, é a súbita politização, a súbita consciencialização das classes populares (…) Não é preciso sermos doutores para nos politizarmos, pelo contrário, é em contacto com a prática directa das realidades (…) é sobretudo nessa prática, que surgem os verdadeiros lideres populares e não os indivíduos de cima que vão cavalgar esses movimentos”.

Depois de fazer considerações sobre a relação profunda entre o trabalho colectivo dos cantores da oposição ao regime e o povo português, o repórter perguntou-lhe se a música ia continuar a ter um papel importante nessa missão. José Afonso referiu a impossibilidade de que isso pudesse ser realizado só a partir da meia dúzia de nomes dos cantores consagrados no consenso popular e revelou uma das dificuldades com que estes criadores se deparavam na nova situação: “Tenho uma série de coisas metidas na gaveta, ora acontece que eu também sou uma vítima da linguagem a que me habituei, a linguagem alegórica que exprimia de uma maneira um bocado retorcida a realidade, por razões que nós sabemos”, – referia-se à censura -, “agora é necessário remodelar completamente esse tipo de linguagem…”. O repórter interrompeu-o reconhecendo o seu próprio embaraço: “… e ao fim e ao cabo é o povo que tem de nos ensinar a nós como é que vamos começar a trabalhar a nossa linguagem…”. Zeca Afonso concluiu: “…E é mesmo do povo que vão surgir os verdadeiros cantores”.

No mesmo dia, populares do bairro de São João de Deus, no Porto, cidade em cujos bairros degradados José Afonso se inspirou para criar a balada “Menino do bairro negro”, começaram a “cantar” uma nova canção: nomearam uma comissão para acabar com o regulamento municipal, denunciando-o como “meio de intromissão abusiva na vida dos moradores, que atenta contra os princípios de dignidade e de liberdade”. E, bem conscientes de que não bastava exigir, incitaram outros bairros a fazer o mesmo (27). Nos dias e semanas seguintes estas comissões alastrariam pelos bairros das cidades, vilas e aldeias, iniciando um movimento imparável, que se tornou nacional, focado na solução do problema habitacional que afectava, de várias maneiras, uma grande parte da população do país. Esta forma organizativa de base estender-se-ia dos bairros às fábricas, nos meses que se seguiram eram poucas as fábricas sem comissão de trabalhadores.

No aeroporto de Lisboa o repórter interrogou também José Mário Branco sobre o que ia fazer, agora que regressava, ao que este respondeu: “Não sei, temos de falar aqui com os camaradas para saber o que é que se faz. Eu não decido nada”. Estava rodeado por praticamente todos os cantores que no interior do país tinham usado a canção como forma de protesto contra o regime recém-derrubado. Ali decidiram encontrar-se naquela mesma noite. Nesse encontro, que se prolongou pela madrugada do 1º de Maio, decidiram constituir o Colectivo de Acção Cultural (CAC), que se dará a conhecer a 6 do mesmo mês, no “I Encontro Livre da Canção Portuguesa”, realizado no Palácio de Cristal, no Porto, com a leitura do manifesto assinado por diversos músicos e cantores (28), no qual fazem um apelo à intervenção de “todos os trabalhadores culturais anti-fascistas, anti-colonialistas e anti-imperialistas consequentes (…) no sentido de unificar e multiplicar a participação organizada e activa no movimento democrático e popular”. A mesma proclamação seria lida a 11 de Maio, no Teatro São Luíz, em Lisboa, num “espectáculo de canto livre” organizado pela Emissora Nacional.

O “colectivo” duraria apenas alguns dias. Em 25 de Maio realizou-se o “II Encontro de Canto Livre”, desta vez no Pavilhão dos Desportos de Lisboa. José Afonso abandonou o recinto depois do intervalo. Numa entrevista publicada semanas depois (29) explicou alguns dos motivos da sua atitude: “Acho grave neste momento desviar a atenção do público para aspectos secundários da realidade portuguesa: discutir a óptica política das canções (…), referia-se ao acolhimento que tinha sido dado pelo público a alguns dos cantores, identificados com o PCP, e acrescentava: “ Há objectivos muito mais concretos a partir dos quais as pessoas, na acção, terão de definir as suas opções políticas. Porque isto de as pessoas estarem diante de um cantor e dizerem ‘eu sou daqui, tu és dacolá’, é uma discussão académica, ridícula (…) de forma alguma penso que devamos contribuir para uma ilusória distinção de credos políticos, porque estes não se definem a partir de situações tão insignificantes como espectáculos no Pavilhão dos Desportos”. Por outro lado, sublinhava a distinção entre as actuações dos cantores de “intervenção” nos meios genuinamente populares (já tinha havido sessões em Porto Salvo, Belas, Belmonte, Covilhã, etc.), onde se excluía “um certo convencionalismo que é inerente ao espectáculo normal”, e as dos “espectáculos a pagar” do São Luiz e do Pavilhão dos Desportos. No intervalo deste último espectáculo esclareceu-se que os fundos se destinavam à sobrevivência do “Colectivo” e a custear as sessões e programas culturais que essa entidade se propunha realizar junto das massas populares, Zeca Afonso concluíria: “Portanto, eram as massas não populares, de extracção pequeno-burguesa, que estavam ali presentes, que iriam contribuir para a cobertura financeira de espectáculos dirigidos a massas populares. Eu acho isso, assim, um bocado equívoco”.

A separação verificada nos cantores tornava visível a divisão na esquerda e dava o tom da batalha que se travaria nos meses seguintes entre vários projectos de revolução, (“democrática e nacional”, do PCP; “democrática e popular”, das organizações maoistas; e “socialista”, da esquerda revolucionária). Ao mesmo tempo, o movimento revolucionário originado nos conflitos reais, alheio às desavenças partidárias, aproveitava a ocasião tão rara na vida das sociedades, quando o presente deixa de ser perpétuo, para, depois da explosão de alegria dos primeiros dias pela liberdade alcançada, partir para a solução dos seus problemas concretos.

A luta por melhores condições de vida estendeu-se como uma vaga alterosa que percorreu o país. A luta pelo restabelecimento do divórcio; a reviravolta nas escolas e universidades, com a demissão das direcções, reivindicação do fim dos exames e de faltas às aulas; as lutas no âmbito da habitação, com ocupações de casas devolutas e de prédios sociais já acabados, mas que permaneciam vazios; as reivindicações de aumentos de salários e redução do horário de trabalho, com centenas de greves declaradas em todo o país; todas estas e muitas outras conquistas foram possíveis pela dinâmica revolucionária que aproveitou o colapso das forças da ordem em todo o país, das forças policiais às autoridades administrativas de nível central e local. Os partidos e os sindicatos não impulsaram nenhuma destas conquistas, tendo sido apanhados de surpresa na generalidade das situações referidas. Pelo contrário, o movimento popular encontrou a oposição sistemática dos Governo Provisórios e dos partidos neles representados, PCP incluído, que considerava estes comportamentos “esquerdistas e irresponsáveis”, mas o poder institucionalizado não dispunha de mecanismos de força para se impôr. Os soldados enviados a missões repressivas, à palavra de ordem “soldados sempre, sempre ao lado do povo”, rapidamente apoiavam as acções em vez de as reprimir.

A tentativa falhada de golpe militar contra-revolucionário em 28 de Setembro deu um novo impulso ao processo revolucionário. Nos meses seguintes, incrementar-se-iam as ocupações de casas vazias por todo o país, as ocupações de empresas, abandonadas pelos proprietários e as ocupações de terras, abandonadas pelos latifundiários, adoptando um carácter de revolução social. À medida que o processo revolucionário foi avançando, sobretudo a partir dos primeiros meses de 1975, as iniciativas autónomas converter-se-iam em objectivos da intervenção partidária. Uns para as refrear, outros para as radicalizar artificialmente, todos para as controlar, aumentando, assim, a sua influência política (30).

Em Dezembro de 1974, José Afonso gravou em Londres o álbum “Coro dos Tribunais” (31), marcadamente influenciado pelos sons africanos. Todos os temas foram escritos e compostos antes do 25 de Abril, alguns para a peça “A Excepção e a Regra”, que musicou na Beira, em Moçambique. Já tinha admitido o seu embaraço em compor canções na nova situação “ponho mesmo o problema de saber se serei capaz de construir canções, também tenho dúvidas sobre se será o momento de as fazer e não as outras coisas mais importantes…”. Ao mesmo tempo, reafirmava a continuação da validade e actualidade das suas canções já editadas, uma vez que “o sistema mantém-se, logo, mantêm-se as formas tradicionais de opressão a que o povo português tem estado desumanamente sujeito” (32).

As “coisas mais importantes a fazer do que construir canções”, a que se referia Zeca Afonso, eram a participação empenhada na oportunidade real que se apresentava de concretização do sonho de acabar com este sistema opressivo, que acabou por sair frustrada, fruto da forte oposição dos interesses de classe instalados, do apoio internacional que receberam e daqueles que, assumindo-se como vanguarda, pouco mais fizeram do que controlar o ímpeto genuíno que saiu dos explorados e oprimidos deste povo.

Durante todo o período revolucionário, José Afonso acompanhou de perto as actividades do “Comité de Luta de Setúbal” (uma estrutura de poder popular constituída por comissões de trabalhadores, de moradores e de soldados, que teve uma intervenção importante nesta cidade, onde residia), e participou em muitas das iniciativas que se verificaram pelo país fora, correspondendo a inúmeros apelos que lhe foram dirigidos. “Quando havia alguma agitação telefonavam para o Zeca, o Zeca é que mobilizava a gente”, recorda Vitorino, que, em conjunto com Fanhais, Fausto, Júlio Pereira, Janita, Carlos Salomé, entre muitos outros músicos, calcorrearam o país num verdadeiro rodopio, sem receber “cachet”, algumas vezes cantando com megafones ou cornetas de circo. Participou também nas “Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica” (33) organizadas pelo MFA, que procurava com esta iniciativa conquistar a adesão das comunidades camponesas do centro e norte do país para o processo revolucionário. Logo depois da assinatura do Acordo de Alvor entre o Estado português e os movimentos de libertação angolanos, em Janeiro de 1975, que estabeleciam data para a independência da ex-colónia, José Afonso fez uma digressão por Angola, com Adriano, Fausto e Rui Mingas.

A tentativa de novo golpe contra-revolucionário, encabeçado por Spínola, em 11 de Março de 1975, teve como resposta imediata o levantamento de barricadas por todo o país e a declaração de greve geral. Este episódio ficaria marcado pelo fracasso da tomada do quartel do RAL1 por tropas paraquedistas, apoiadas por ataque aéreo, de que resultaria a morte do soldado Joaquim Carvalho Luís e ferimentos em dez outros militares (34). Dois dias depois, em solidariedade com os soldados do RAL1, que tinham resistido ao ataque e conseguido reverter a situação, José Afonso cantou naquela unidade militar, acompanhado por Sérgio Godinho e Francisco Fanhais. No álbum editado no ano seguinte, “Com as Minhas Tamanquinhas”, incluiria a canção “No Dia da Unidade”, que evocava os acontecimentos.

Com a neutralização do golpe, as ocupações de casas vagas estenderam-se a nível nacional. As comissões de moradores coordenaram-se: “Inter-Comissões de Moradores”, em Lisboa, “Conselho Revolucionário de Moradores do Porto” foram as designações adoptadas nestas cidades e passaram a ser, em muitas situações, a base organizativa do movimento social urbano, um verdadeiro poder dentro das cidades. Com o aumento das ocupações de empresas e o reforço do papel das comissões de trabalhadores surgiu também a coordenação destas na Inter-Empresas, que unia 24 das maiores empresas portuguesas “para auxiliar e apoiar as lutas dos trabalhadores”. Neste período assumiu preponderância o controle operário nas fábricas. Ao mesmo tempo intensificaram-se as ocupações de terras no sul do país.

Zeca Afonso conhecera e relacionara-se, nos tempos em que fora professor no Liceu de Faro, com três anti-fascistas que viriam a ter um papel importante na fundação e implantação da LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), nos anos sessenta: António Barracosa (que desertaria do exército na Guiné, entregando-se às forças do PAIGC, que o enviariam para a Argélia), Luís Benvindo e António Matias (seus alunos dos cursos nocturnos). Matias viria a morrer em 1967 devido a uma doença grave, no Hospital do Rego, onde estava internado sob prisão depois de ter sido detido numa passagem clandestina da fronteira, em Mértola, acusado de ligação ao assalto à delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz (35). A sua relação com o entorno da LUAR vinha de longe e não surpreende a sua participação nas actividades desta organização depois do 25 de Abril, uma vez que esta se definia desde 1968, como não sendo um partido político, nem estando submetida a nenhum sistema político, admitindo no seu seio a pluralidade de tendências e defendendo o socialismo e a instauração do Poder Popular (deixaria de ter actividade em 1976). Zeca Afonso referir-se-á à sua ligação à LUAR anos mais tarde: “Associei-me a um tipo de processo descentralizado, inspirado talvez pelo Paulo Freire. E fiz, de facto, as sessões mais espantosas da minha vida, junto da ‘nata’ do povo, ao lado do Camilo Mortágua (36), do Fanhais e de outros. Foram sessões de esclarecimento mútuo”(37).

Dois dias antes das eleições para a Assembleia Constituinte, a 23 Abril de 1975, foi ocupada, no Ribatejo, a herdade da Torre Bela, uma das maiores do país com 1700 hectares, propriedade do Duque de Lafões, pelos moradores das aldeias vizinhas, a maioria trabalhadores agrícolas desempregados, apoiados por membros da LUAR, entre os quais se encontrava Camilo Mortágua que viria a ter um papel preponderante na ocupação e ali permaneceria por muito tempo. No decorrer do processo prolongado e complicado da ocupação (38), Zeca Afonso, acompanhado por Fanhais e Vitorino fizeram acto de presença na herdade, cantando em solidariedade com os ocupantes.

A radicalização da situação política ganhou maior ímpeto nos meses seguintes. As ocupações de herdades alastram pelo Ribatejo e Alentejo; as greves e os conflitos laborais estenderam-se a todos os sectores de actividade. As eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas em Abril, em plena efevercência revolucionária, cujo resultado colocara o PS como partido maioritário, com quase o quádruplo de mandatos do PCP, seguido do PPD, com quase o triplo, não refletia, nem podia reflectir pela sua artificialidade, a correlação de forças real na situação político-militar e social do país. O PS, o PSD e o PCP estavam no Estado, a revolução estava na rua.

Já em pleno “verão quente”, a LUAR editaria à margem do circuito comercial um disco com duas canções musicadas por José Afonso: “Viva o Poder Popular”, um apontamento da situação que se estava a viver no país, com letra também sua, que dava o nome ao disco; e “Foi na Cidade do Sado”, uma crónica dos acontecimentos vividos a 7 de Março de 1975, em Setúbal, quando a polícia matou um jovem e feriu duas dezenas de pessoas na sequência de uma manifestação de protesto contra a realização de um comício do PPD, com letra escrita em colaboração com intervenientes nos acontecimentos. Em Outubro, José Afonso deslocou-se a Itália para participar na gravação do álbum “República”, produzido por várias organizações italianas da área da autonomia operária, em solidariedade com o jornal República e a Reforma Agrária. O produto da venda deste disco, que nunca chegou a ser editado em Portugal, destinava-se a apoiar aquele jornal ocupado pelos trabalhadores ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, como veio a acontecer, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.

Em Julho a Assembleia Geral do MFA tinha aprovado o Documento-Guia da Aliança Povo/MFA, uma tentativa de converter o MFA num intermediário entre os partidos e a realidade que se vivia no país. Nele preconizava-se a participação popular na vida do Estado, incentivava-se a criação de organismos populares de base que constituiriam “o embrião de um sistema experimental de democracia directa”. As reacções não se fizeram esperar. O PS e o PPD abandonaram o governo nos dias seguintes, deixando o PCP e o MFA a governar o país em convulsão revolucionária. Por pouco tempo, um mês depois o PCP deixaria cair o quinto governo provisório, mas participaria com os outros dois partidos no apoio ao sexto.

Em Setembro, o MFA revelava as suas divisões intrínsecas, com os “militares moderados” a tomar conta do Conselho da Revolução, ao mesmo tempo que a revolução se estendia definitivamente nos quartéis, pela acção dos SUV (Soldados Unidos Vencerão). As bombas colocadas pelo MDLP/ELP (a extrema-direita) contra objectivos “da esquerda” aumentavam, de frequência e de potência, ao mesmo tempo que as homílias nas igrejas do centro e norte do país preparavam os espíritos para os assaltos às sedes dos partidos de esquerda e dos sindicatos. A esquadra da NATO fazia manobras na costa portuguesa. O Governo mobilizava em manifestações de rua os sectores contra-revolucionários e, pressionado pela pressão popular, acabava por fazer greve. O plano do golpe militar para acabar com a indisciplina que grassava nos quartéis e nas ruas estava preparado, tinha a aprovação do capitalismo internacional, faltava o pretexto.


Não era difícil amotinar os paraquedistas na situação que então se vivia, bastava passá-los à disponibilidade. Foi o que a chefia da Força Aérea fez. Os paraquedistas de Tancos reagiram ocupando as principais unidades do ramo aéreo no centro e sul do país, na noite de 24 para 25 de Novembro. “Não podemos aceitar a decisão de nos destruir (…) Afirmamos desde já que não se tratou de nenhum golpe militar como estamos a ser acusados”, explicaram os “páras” em dois comunicados sucessivos divulgados no decorrer dos acontecimentos. Contudo, ficaram com a fama de terem desencadeado um golpe de esquerda, o tal que justificou o golpe de direita, que acabou com o processo revolucionário.

As “vanguardas”, algumas delas armadas, não mobilizaram os “seus” militantes, nem apelaram às “massas”, para suster o golpe contra-revolucionário, acabando por ficar para a história que perderam a batalha por falta de comparência. O PCP não estava interessado numa situação em que o poder caísse na rua e nas barricadas, pois seria ultrapassado pelos acontecimentos, perdendo o controle sobre as infraestruturas do Estado. De modo que, perante o risco de perder tudo, preferiu o compromisso com os golpistas, mantendo o lugar no Governo e alguma daquela influência.

Muitos populares acorreram aos quartéis na expectativa de resistir (39). Zeca Afonso com dois companheiros de Setúbal e um amigo cineasta (40) dirigiram-se à base de Tancos, para apoiar os “páras” na sua luta e ali permaneceram até ao dia seguinte, quando Melo Antunes, um dos principais artífices do golpe vitorioso, veio a público para salientar que “a participação do partido comunista português na construção do socialismo é indispensável” (41). Os tempos que se avizinhavam seriam complicados e alguém tinha de continuar a manter debaixo de controle as massas trabalhadoras. José Afonso acompanharia o estertor do PREC nos anos seguintes, como a seguir se verá. 

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Primeira Parte

Terceira Parte: O Canto do Cisne

NOTAS
(24) Entrevista a José Carlos Vasconcelos, in Sete de 22 de Abril de 1980.
(25) Declarações de 30 de Abril de 1974 ao repórter da RTP, António Santos, no aeroporto de Lisboa, onde tinha ido esperar a chegada do exílio de José Mário Branco e Luís Cília. Podem ver-se na íntegra no documentário “Regresso de José Mário Branco”. RTP-arquivos. goo.gl/bfuPQu;
(26) Processo Revolucionário Em Curso, (PREC), acrónimo para designar o período iniciado com o golpe militar de 25 de Abril de 1974 e terminado com o golpe militar de 25 de Novembro de 1975.
(27) “Sem Mestres nem Chefes, o povo tomou a rua”, por José Hipólito Santos, p.74. Letra Livre. Lisboa, 2014.
(28) Manifesto assinado por Adriano Correia de Oliveira, Fanhais, Fausto, José Afonso, José Jorge Letria, José Mário Branco, Júlio Pereira, Luís Cília, Manuel Alegre, Manuel Freire, Vitorino, entre outros.
(29) Entrevista à revista Flama, 7 de junho 1974.
(30) “Portugal: A Revolução Impossível?” de Phil Mailer, Afrontamento, Porto, 1978. Originalmente editado em inglês, é um livro difícil de encontrar, mesmo nos alfarrabistas. Um relato interessante do que aconteceu entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, vivido e sentido por um participante empenhado.
(31) Com arranjos e direcção musical de Fausto. Durante todo este período, foi reeditada uma parte importante dos álbuns editados no tempo da ditadura, mas não há informação exacta de quais e de quantas edições foram postas à venda. Alguns deles foram também editados em vários países europeus, com destaque para Espanha, França e Alemanha. As versões interpretadas por outros cantores de temas de José Afonso foram também muitas, só da Grândola houve mais de vinte.
(32) Entrevista à revista Flama, 7 de junho 1974
(33) “Camponeses, Cultura e Revolução: Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do M. F. A. (1974-1975)”, Sónia Vespeira de Almeida, Edições Colibri e IELT, Lisboa, 2009.
(34) Reportagem da RTP do ataque ao RAL1, pode ver-se aqui: goo.gl/fpHwgw
(35) “Felizmente Houve a LUAR” de José Hipólito Santos, p.269, Âncora, Lisboa, 2011; e “José Afonso o Rosto da Utopia” de José António Salvador, pp 62-63, Afrontamento, Porto, 1999.
(36) Um dos fundadores da LUAR, com quem Zeca Afonso manteve uma relação de amizade.
(37) “Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, Viriato Teles, p60, Ulmeiro, 1999.
(38) Documentário Ocupação da Herdade da Torrebela, de Thomas Harlan: goo.gl/IfxL5x;
(39) Foi o caso do quartel da Polícia Militar na Ajuda, que viria a ser atacado pelos Comandos, em que morreram dois comandos e o aspirante Albertino Bagagem da PM.
(40) Entrevista de Luís Filipe Rocha a Joaquim Vieira, documentário “Maior que o Pensamento”, parte III, 24:15, 2011.
(41) Declaração na íntegra pode ver-se aqui: goo.gl/TuceSq

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