Pelo Tâmega

15 de Fevereiro de 2017
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A nossa proposta à descoberta da natureza vai ao encontro das resistências que hoje têm lugar nas margens do rio Tâmega e seus afluentes.

A “Cascata do Tâmega” é o nome dado a um total de cinco barragens que ameaçam deter estas águas. O Sistema Eletroprodutor do Tâmega (SET) fará desaparecer milenares margens do rio, nascido na Serra de San Mamede, Galiza, e que desagua no rio Douro, em Entre-os-Rios, em conjunto ainda com as orlas dos seus afluentes Torno, Louredo e Beça. A “Revisão do Programa Nacional de Barragens” em Abril de 2016 manteve as barragens de Daivões (Cabeceiras de Baixo), Gouvães e Alto Tâmega (Vila Pouca de Aguiar e Ribeira de Pena), da espanhola Iberdrola. Em Dezembro passado o corte das florestas do Alto Tâmega para a sua construção foi autorizado. E não está longe 2019, data até à qual foi suspensa a barragem do Fridão, concessionada à EDP, com dois paredões a quererem erguer-se em Padroselos, a escassos quilómetros de Amarante.

São muitas as vozes que se levantam, através do Movimento Cidadania para o Desenvolvimento do Tâmega, da Associação Cívica Pró-Tâmega ou do projeto “Rios Livres” do GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), entre outros. Os habitantes ribeirinhos do Tâmega já tinham visto chumbada numa primeira fase, em 2010, a barragem de Padroselos, devido a uma importante colónia de mexilhão de rio. Com o avanço do SET assola-os a inquietação, expressa numa das petições a correr, de “que, à semelhança dos mexilhões margaritifera margaritifera identificados no rio Beça durante o Estudo de Impacte Ambiental, a espécie humana também se encontra em risco nas zonas de implantação do complexo das barragens, pelo que se torna imperioso preservar o seu habitat e o seu modo de vida”.

Os argumentos ambientais e financeiros desta oposição são evidentes. Segundo o GEOTA, mantendo a construção do Fridão e do SET, a EDP e a Iberdrola irão cobrar à população 10,4 mil milhões de euros – um acréscimo médio na fatura elétrica de 5%, para barragens que junto com o Tua produzirão apenas 0,4% da energia do país (2% da eletricidade).

Mas, pela descoberta da natureza proposta nos percursos pedestres disponíveis para os concelhos de Amarante, Cabeceiras de Baixo, Ribeira de Pena e Vila Pouca de Aguiar (em www.baixotamega.pt), poderemos simplesmente vivenciar um sem número de razões que por si só dispensam os argumentos tecnicistas, para nos juntarmos à defesa do Tâmega.

Do mesmo modo há outras leituras a resgatar na luta pelos rios livres. A contemplação da natureza de Teixeira de Pascoaes (1977-1952), que em Amarante nasceu e morreu, é uma delas: “Já se distinguem bem as linhas sinuosas / D’aquelles montes onde, um dia, nós nascemos…/ Lá nos esperam outras almas venturosas / Que nos hão de entregar aquillo que perdemos!” (“Á Ventura”, 1901).

Teixeira de Pascoais sacraliza a natureza e, como assinalou Dulcínea Teixeira, “perpassa na sua obra um desencanto com o progresso”, uma “recusa de um progresso descaracterizador da natureza”. Atento e visionário: “Mas, ai, a Natureza, / Reservada e offendida, afasta-se de nós! / E na sua mudez arrefecida / Congela a minha voz… / Um silencio mortal separa-me de tudo!” (“Elegia da Solidão”, 1920).

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