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  • «Somos como os lagartos»: comunidade, luta e mineração do urânio na Urgeiriça

    «Somos como os lagartos»: comunidade, luta e mineração do urânio na Urgeiriça

    Como um vírus, a radioatividade espalhou-se por todo o mundo do início do século XX. Um dos primeiros focos globais da pandemia nuclear foi o norte de Portugal e os seus jazigos de urânio. Esta é uma das muitas histórias por trás da invisibilidade das radiações e das suas consequências para a saúde.

    É um dos últimos dias cinzentos de Inverno no interior centro de Portugal e, por detrás das amendoeiras em flor nos pátios dos arredores da vila, vê-se uma suave colina a ponto de voltar a pintar-se de verde. «Não é uma colina», diz-nos Fernando, «é a escombreira de resíduos radioativos da antiga mina de urânio da Urgeiriça».

    A escombreira da Barragem Velha tem um volume equivalente a quatrocentas Torres de Belém radioativas, com materiais provenientes dos poços da mina e da fábrica de tratamento químico, cobertos por argila, pedras, areia, geotêxtil e terra vegetal. Nenhuma árvore cresce ali, nenhuma ovelha se alimenta do seu pasto. Apenas se avistam erguidos os instrumentos de monitorização química e radiológica. As obras de «remediação ambiental» começaram em 2006, e a extração dos materiais radioactivos que a compõem, há um século atrás, muitos anos antes que se soubesse como produzir energia nuclear ou uma detonação atómica.

    Arame farpado e de concertina ao redor das escombreiras e da planta de tratamento químico.

    De facto, as entranhas da Urgeiriça começaram a ser exploradas em 1913, através da empresa Société Urane-Radium. Concentrados dos minérios do interior português acabaram nos flamantes laboratórios parisienses de Marie Skłodowska Curie. A famosa física cultivou uma estreita relação com a indústria florescente do rádio e morreu às mãos da radioatividade, numa altura em que ainda não se conheciam bem os efeitos das radiações ionizantes e do gás rádon.

    No alto de um depósito de água no meio da vila ainda se podem ler as letras CPR, a sigla da Companhia Portuguesa do Rádio (de capital inglês), que comprou a concessão mineira nos inícios da década de 1930. Após a II Guerra Mundial, Portugal ganhou um lugar na geopolítica da Guerra Fria pelas suas jazidas em território ibérico e nas suas colónias (especialmente em Moçambique). Integrou-se rapidamente na NATO e na Agência Internacional de Energia Atómica como membro fundador. Foram tempos de extracção intensiva de urânio na Urgeiriça, numa altura em que os governos inglês e norte-americano cobiçavam o monopólio internacional deste mineral, tanto para fins bélicos como civis, sem qualquer reparo em travar acordos comerciais com ditaduras de orientação fascista que tinham colaborado com as Potências do Eixo. No final da década de 1960, a ditadura tomou as rédeas da CPR através da sua Junta de Energia Nuclear. Um dos objectivos centrais era utilizar o «urânio nacional» como fonte do seu programa nuclear, que não tinha ainda arrancado, ao contrário do que acontecia na ditadura vizinha e na maioria dos países europeus.

    «Nós na Urgeiriça tínhamos tudo: não sabíamos o mal que esse “tudo” nos trazia»

    A Revolução de Abril de 1974 não veio alterar substancialmente este programa nuclear. Rapidamente recomeçaram os trabalhos para construir a primeira central nuclear em Ferrel, e as minas da Urgeiriça continuaram a espalhar essa nascente tóxica na bacia do Rio Mondego (os sistemas de extracção por lixiviação com águas ácidas tiveram início nessa década). A unidade industrial de tratamento químico não parou de emitir um pó radioativo que cobria os fatos-macaco, as roupas, as casas, as hortas, os ventos. Os testemunhos das mulheres e homens que ainda se podem ouvir na vila são assustadores: «Nós na Urgeiriça tínhamos tudo: não sabíamos o mal que esse “tudo” nos trazia», «[Os trabalhadores] vinham para casa com a roupa cheia de pó», «Quando arrancaram a banheira estavam lá à vista dois pedregulhos de urânio», «Ó tia, tu não me arranjas uma pedra de urânio?», «Os materiais para as fundações dos edifícios foram trazidos das escombreira», «Não se falava dos perigos da radioatividade», «Éramos mesmo muito ignorantes»… É comum ouvir-se de quem trabalhou nas minas a afirmação de que nunca ninguém se preocupou em esclarecer se o urânio era ou não prejudicial à saúde, e que nem as direções das minas alguma vez levaram a cabo qualquer acção informativa ou pedagógica sobre os perigos da radioatividade. Daí não ser surpreendente que em muitas casas existia uma pedrinha do minério, «coisa bonita a servir de pisa-papéis» [ref] Veiga, Carlos Jorge Mota. A vida dos trabalhadores do Urânio ‘Trabalho Ruim’. Urgeiriça, ATMU,
    Garcia, Liliana. Para além do fim das minas de urânio em Portugal, Urgeiriça, ATMU, 2019[/ref]. A vila dorme sobre seis poços e 19 andares com meio quilómetro de profundidade.

    Dinossáuros em frente da escombreira radioactiva da Urgeiriça.

    Quando pensamos nos riscos nucleares, pensamos em gigantes detonações atómicas no Pacífico e na apocalíptica zona 0 de Chernóbyl. No entanto, o nuclear tem outros riscos banais, quotidianos, lentos e invisíveis, associados à extracção de minérios radioativos, em espaços geopolíticos centrais mas fora do nosso campo de atenção. «A radiação não se vê, não se cheira, não se ouve»: estas palavras de António Minhoto, presidente da Associação dos ex-Trabalhadores das Minas de Urânio (ATMU), reverberam na nossa cabeça quando passeamos pelas ruas da Urgeiriça, por entre as casas desabitadas dos ex-trabalhadores, pela solidão do novo parque infantil em redor do gigante cavalete do poço de Santa Bárbara, pelo jardim-escola onde se encontraram pequenas pedras de urânio, pelo caminho de lama que nos leva às barragens de águas poluídas. Cai-me o isqueiro na lama. Apanho-o? Deixo-o. Não há gel desinfetante nem máscaras que nos protejam deste desassossego, desta incerteza, desta radiação.

    Fernando Paulo é membro da ATMU e mostra-nos a sua casa, onde não pode morar: os índices de contaminação são demasiado altos para dormir sob o seu tecto. Muitas das habitações foram construídas com pedras da mina e sobre escombros onde se podia entrever o amarelo característico do mineral nuclear. Muitas mulheres que trabalhavam em casa também padeceram das suas consequências e morreram de cancro. Há apenas algumas semanas atrás, e cumprindo as medidas de segurança sanitária pela COVID-19 estabelecidas pela Direção Geral da Saúde, a ATMU organizou uma vigília de protesto contra o adiamento da recuperação ambiental das habitações.

    O povo da Urgeiriça permanece em luta não só pela sua saúde, pelas suas habitações e pelo seu ambiente (…) Nos últimos anos foi possível vê-lo em diferentes lutas e eventos por um mundo sem nucleares

    Durante décadas e décadas, à questão da invisibilidade tóxica uniu-se o silêncio mediático e político. Mas no início de século XXI este silêncio quebrou-se, e os trabalhadores, ex-trabalhadores e as famílias da Urgeiriça começaram a reclamar a responsabilidade estatal das consequências da radioatividade para a saúde e para o ambiente, uma luta que chegou até aos parlamentos português e europeu. Em 2016, conseguiram finalmente que uma lei estabelecesse o direito a uma compensação por morte emergente de doença profissional dos trabalhadores. Uma vitória que não está isenta de uma dor irremediável e de uma herança tóxica de milhares de anos: «30 000 euros pelo meu pai? E somos seis irmãos: por 5 000 euros mais me valeria ter o meu pai vivo», diz-nos com raiva um dos membros mais jovens da ATMU.

    O povo da Urgeiriça permanece em luta não só pela sua saúde, pelas suas habitações e pelo seu ambiente (apesar dos 50 milhões de euros gastos em «reparação ambiental» em dezenas de minas, ainda permanecem 20 minas com elevado risco de toxicidade). Nos últimos anos foi possível vê-lo em diferentes lutas e eventos por um mundo sem nucleares: em Cáceres, sob faixas pretas reclamando o encerramento da central nuclear de Almaraz; em Nisa e Salamanca, mostrando a sua solidariedade ao Movimento Urânio, em Nisa Não! e à Plataforma Stop Urânio, contra a exploração a céu aberto de algumas das maiores jazidas de Europa; em Madrid e Lisboa, assistindo às reuniões do Movimento Ibérico Anti-Nuclear; e, claro, na Urgeiriça, organizando convívios, apresentações de livros, o International Uranium Film Festival, um museu e outras actividades autogeridas para que a memória mineira sobreviva mesmo à contaminação milenária das paisagens… Tal como alguns dos sobreviventes que retratou Svetlana Alexievich em Vozes de Chernóbil, não querem deixar de habitar estas paisagens, por serem o berço da sua vida, amor, comunidade e luta. «Somos como os lagartos», ouve-se na Urgeiriça, «cortam-lhes o rabo e este volta a nascer».

    Uma versão deste artigo foi publicada na revista Silence, 489 (2020): 38-41. revuesilence.net

    A luta dos ex-trabalhadores das minas teve um papel fundamental na visibilização dos riscos da radioatividade em Portugal. Esta questão foi debatida numa mesa redonda celebrada em Junho de 2019 na Universidade de Lisboa, que juntou membros da ATMU com historiadores ambientais, historiadoras da ciência e cientistas. O debate integrou o ciclo «Ciência, Tecnologia e Medicina nas praças», que tem como objectivo reflectir sobre os modos como os movimentos sociais, em diálogo e confrontação com a academia, produzem e questionam conhecimentos científicos de temas como a transexualidade, os organismos geneticamente modificados ou as tecnologias de controlo do movimento animal e humano.

    Ao longo da discussão tornou-se manifesto o papel que tiveram os membros da ATMU (muitos deles apenas com o ensino básico) na construcção do saber científico. Em primeiro lugar, explicou António Minhoto, porque o interesse de algumas instituições científicas em estudar os efeitos patológicos da radioatividade na Urgeiriça foi, em boa medida, resultado das mobilizações da comunidade mineira. E, em segundo lugar, porque sem o conhecimento vivencial das condições de trabalho e de habitação das pessoas afectadas teria sido muito mais difícil demonstrar as relações entre as doenças e a radioatividade.

    Urgueiriça
    Silenciamos o passado, enterramos o futuro.

    No entanto, a colaboração entre mineiros e peritos não esteve isenta de tensões. Orciano Pereira explicou como, num primeiro momento, os trabalhadores não foram informados dos riscos da radioatividade por parte de cientistas, médicos e engenheiros com quem interactuavam (alguns deles também vítimas mortais da extracção de urânio) e que a sua consciencialização dos riscos que corriam foi através de leituras, debates e da reflexão sobre as suas próprias experiências. Orciano relatou ainda como se distribuíram dosímetros sem a informação necessária para entender o significado das suas medidas, e como alguns médicos e técnicos se escudaram na falta de estudos científicos para negar as relações de causalidade entre o trabalho mineiro e lesões, como uma dor na sua mão esquerda, advinda da repetida manipulação de bidões de urânio. As comunidades mineiras procuraram (e após anos de luta acabaram por encontrar) uma verdade científica que não escondesse a verdade que levavam gravada na própria pele, assim como na sua memória comunitária.

     


    Texto e fotos de Jaume Valentines-Álvarez, Jaume Sastre-Juan, Celia Miralles e Frederico Lobo.
    Ilustração, em destaque, de Laura Marques.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.
     

  • Habitantes do Campo Charro defendem as suas terras

    Habitantes do Campo Charro defendem as suas terras

    A totalidade do oeste de Salamanca está em perigo devido à construção de uma mina de urânio ao ar livre.

    A cultura é Charra, charras são as gentes. Assim se chama o conjunto de tradições locais que caracterizam a região rural de Salamanca. Charro é o campo, zona de amendoeiras e azinheiras centenárias, terra de ovelhas e pastores, de gado e fazendeiros.

    A oeste da província de Salamanca, em Villavieja de Yeltes, no 28 de Outubro de 2017, cerca de mil pessoas reuniram-se numa manifestação. Vizinhos e vizinhas, activistas ecologistas e representantes de partidos políticos estão em luta contra a abertura de uma mina de urânio ao ar livre. O projecto mineiro, impulsionado pela empresa australiana Berkeley, ficaria localizado a escassos metros deste município, mesmo ao lado do pátio da escola primária.

    Fotografia de Sergi Rugrand.

    “O risco é altíssimo”, explica Veronica, activista da Plataforma Anti-Nuclear de Salamanca: “os rejeitados, ou seja, os restos da extracção do mineral, nos quais permanecem 80% da radiação, podem ser transportados em pó que viaja pelo ar, através do gás radão, a uma distância que pode ir até mil quilómetros”. A mina, a maior da Europa em relação à extracção de urânio, instalar-se-ia numa zona que já foi protagonista de vários projectos de recuperação ambiental financiados com dinheiro público, como a rede de protecção Natura 2000. O projecto afecta uma zona considerada essencial para os ecossistemas fluviais, que beneficia de um microclima mediterrânico único, e é um lugar de interesse comunitário (LIC) caracterizado pela presença de florestas de azinheiras centenárias, sobreiros e carvalhos, habitat de espécies de fauna protegidas legalmente como a cegonha negra, a sarda de Salamanca, a águia real e o cágado mediterrânico.

    “Era uma floresta maravilhosa, cheia de azinheiras centenárias. Atraía sempre grupos de pessoas até aqui porque era muito impressionante”. Mati, apaixonado de botânica e micologia, perito da flora e da fauna da zona, faz anos que acompanha grupos ao monte como guia para mostrar a beleza dos arredores. Explica com tristeza que “já cortaram milhares de azinheiras e pretendem chegar a arrancar quase trinta mil exemplares”.

    O que a Berkeley conseguiu até agora é inaudito e ninguém consegue explicá-lo”, afirma com energia Jesus Cruz, habitante de Retrortillo e activista na Plataforma Stop Uranio. Desde o princípio, Jesus posicionou-se contra a mina, informando os vizinhos do perigo que seria abri-la tão perto dos núcleos habitados. Por exprimir as suas opiniões no “El blog de Jesus” e partilhar informações sobre o projecto, foi atacado em justiça pela empresa Berkeley e acusado de injúrias. Na terça-feira, 31 de Outubro de 2017, foi chamado a depor aos tribunais de Ciudad Rodrigo, contando com o apoio dos vizinhos e activistas da Plataforma Anti-Nuclear de Salamanca e da Plataforma Stop Uranio. “Berkeley utiliza todos os recursos que possui para evitar oposições e calar quem se oponha ao projecto”, assinalam os membros da Plataforma. A empresa, que não tem nenhuma experiência mineira, mas sim acções em bolsa, já realizou o desvio de uma estrada, e também o arranque de azinheiras com os seus movimentos de terra consequentes, para abrir uma vala nos terrenos destinados à extracção do mineral radioactivo. “É um projecto que não cumpre com a legalidade e foi denunciado a vários níveis judiciais”, visto que as obras preparatórias terão sido realizadas sem as autorizações necessárias e sem respeitar as normas ambientais da zona.

    Fotografia de Sergi Rugrand.

    “Tudo aquilo é pura fraude”, afirmam as activistas. Vários vereadores da câmara de Retortillo, outra aldeia afectada pela mina, trabalham para a Berkeley. Um deles encarregou-se de arrancar, cortar e em seguida vender as azinheiras centenárias pelo valor de um milhão de euros. Também denunciou ter recebido uma carta com a imagem de um enforcado e acusou os vizinhos desfavoráveis à mina de ameaças e pressões. Mas é curioso que na carta apareça um autocolante com o símbolo da empresa mineira. Ao ter-lhe sido mostrado esse detalhe, diz-se que não se voltou a falar do tema.

    “Estas são acções mesquinhas próprias de gente sem alma, apenas interessada em destruir tudo”, comenta Vitorino Calderon, habitante de Retortillo. São muitas as divisões que se estão criando, sobretudo na sua aldeia, com pelo menos oito famílias divididas irremediavelmente. “O aspecto humano é o mais doloroso”, prossegue com lágrimas nos olhos. “A minha família foi destruída entre quem está a favor da mina e quem se opõe. Como com as azinheiras, isto vai durar gerações”.

    Parece que a empresa está a aplicar o famoso preceito “divide e reina”, criando fracturas para destruir o tecido social, jogando com as necessidades económicas das famílias. Numa região pobre, onde se vive sobretudo do sector primário, e quase despovoada, onde a densidade de população é de menos de 10hab./km2, a empresa promete prosperidade e postos de trabalho de dez anos, o tempo estimado de duração do funcionamento da mina até que tenha sido extraída a totalidade do metal.

    E depois, o que ficaria? Morte e desolação. Todas as previsões o asseguram. Quem poderia continuar a viver do gado? Quem compraria vitela contaminada? Que futuro teria o famoso spa de Retortillo e as suas empregadas numa zona radioactiva? Que ficaria para mostrar aos turistas rurais?

    “Tudo se afundaria e em poucos anos as nossas aldeias desapareceriam”, assegura Jenara Moro Tapia, trabalhadora do spa de Retortillo, localizado a alguns metros do sítio onde se projectam as explosões mineiras. “Estão a empregar os maridos sem emprego de muitas mulheres do spa, e assim toda a família fica amarrada à Berkeley e deixa de se opor à mina”, continua Jenara. “Estão a comprar vontades e a calar oposições”.

    Fotografia de Sergi Rugrand.

    As pessoas afectadas pelas consequências mortais causadas pela abertura de uma mina de urânio ao ar livre, com uma fábrica de concentrado de minerais e armazenamento de resíduos radioactivos, única na Europa, não seriam só os habitantes dos arredores. Portugal, limítrofe à área projectada pela mina, reclama informações sobre o projecto em relação a danos nas águas do Douro, no qual conflui o rio Yelte. Este país, junto com França, já abandonou este tipo de actividade mineira por causa do seu alto impacte ambiental e da sua baixa rentabilidade actual.

    Toda a actividade industrial é por si só agressiva para o meio ambiente. Mas a actividade mineira de urânio é, precisamente, uma das mais contaminantes e controversas. Depois da fase de extracção do material e dependendo da sua concentração, o minério passa pelo processo de lixiviação, que consiste em dissolvê-lo com diferentes compostos ácidos e/ou microorganismos e mantê-lo em repouso. Em ambos os processos se utiliza uma grande quantidade de água que fica gravemente contaminada e que, ou permanece na mina se o processo é feito in situ, ou fica armazenada em “lagos” onde contamina o terreno e o subsolo por gerações. O produto da lixiviação é enviado imediatamente para a lavagem e a polpa restante é pulverizada sobre uma corrente de ar quente, secando-a e arrefecendo-a para obter um pó com uma concentração de urânio altíssima, que é armazenada em barris.

    Um dos grandes problemas que resultam desse processo é que a água residual da lixiviação contém compostos radioactivos e muitos metais pesados. Se estas águas não são tratadas adequadamente, ou são armazenadas em sítios onde pouco a pouco se infiltram no subsolo, a longo prazo criam problemas relacionados com a alta toxicidade do urânio na água e há a possibilidade de que se criem alterações cromossómicas fortemente ligadas com a exposição ao radão, que aparece sob forma gasosa.

    Fotografia de Sergi Rugrand.

    Tirando as da República Checa e da Roménia, todas as minas de urânio foram fechadas na Europa. Apesar de ser um produto anacrónico e de carecer das necessárias autorizações, e apesar das numerosas oposições que encontrou, este projecto continua em curso. Apesar de tudo, o único jornal em papel da zona, a Gazeta de Salamanca, continua a não informar sobre as múltiplas manifestações que houve em Salamanca contra o projecto. Talvez esse silêncio se explique pelas publicidades pagas que de vez em quando a empresa Berkeley faz no dito diário?

    “É porque o jornal foi comprado. A Gazeta não informa verdadeiramente sobre o que está a acontecer e se não aparece no jornal as pessoas não acreditam. Não é notícia, logo não é verdade, não existe”, conta uma vizinha de Boada, aldeia cujos habitantes se declararam em maioria contra o projecto mineiro. “Foi dada mais visibilidade ao tema ao nível nacional do que em Castilla y Leon. A Junta está a favorecer a empresa Berkeley em tudo, muito mais que às pessoas que são daqui desde sempre”, prossegue indignada esta vizinha: “para podar um carvalho para um olival ou serrá-lo para fazer lenha, é preciso pedir autorizações que são muito difíceis de obter. Mas os da empresa podem fazer tudo o que querem, como cortar milhares de azinheiras e solicitar a expropriação forçada dos terrenos que entram no seu projecto.”

    Uma grande parte da oposição contra a mina vem dos proprietários das terras de que a empresa precisa e que se negaram a vender. “Para que aceites o preço que te impõem, pressionam-te com ameaças de expropriação forçada”, assinalam as activistas. Alguns venderam acima do preço normal, como o antigo presidente da câmara de Retortillo cujas terras são hoje em dia sede dos escritórios da Berkeley, e outros estão a ceder em troca de outras terras. “Quem não quer vender, não vende”, afirma Jenara: “Para quem viveu da zona, da agricultura ou do gado, e tem lembranças dos seus pais trabalhando-a… essa terra já tem sentimentos, tem memórias. Não venderiam só as terras mas também a lembrança da sua família, diz-me onde está a justiça em tudo isso”.

     

    Giulia Tarquini

    giulitarqui@gmail.com

    Fotos: Sergi Rugrand (Krasnyi Collective)

    Tradução: Joaquim Santos (artigo de elsaltodiario.com)

  • Viver é preciso

    Viver é preciso

    Pouco passa das três da tarde e o sol primaveril convida a que a janela daquele segundo piso se abra para que entre o ar que ele aquece. Com o ar vêm os sons de mil obras, martelos pneumáticos, serras eléctricas, rebarbadoras, ou não estivéssemos na área da Rua de Santa Catarina que marca o início do triângulo das Bermudas do turismo do Porto, onde actualmente o negócio da reconstrução urbana se faz ouvir de forma quase ininterrupta. Na sede da Campo Aberto, “associação de defesa do ambiente que visa debater e promover o exercício da cidadania no domínio ambiental, nas suas dimensões natural, rural e urbana”, é dia de atendimento ao público e, de facto, alguém está a ser atendido quando lá chegamos para uma conversa com José Carlos Marques, seu presidente. Que nos observa que o que disser nesta entrevista é de sua inteira responsabilidade individual e não compromete em nada a associação.


    Foi o próprio quem nos fez entrar para que não esperássemos nas escadas que o atendimento acabasse. Este termina com um convite para um 13 de Maio não mariano de passeio pelo Douro. Um convite que, não nos sendo dirigido, logo nos foi estendido.

    José Carlos Marques (JCM) é um nome incontornável para qualquer pessoa que estude o movimento ecologista português. Pela tenacidade, pela permanência, pelo trabalho feito. Uma longevidade com raízes nos finais dos anos 60, quando se exilou «voluntariamente», como nos disse, para escapar à participação no exército colonial português. «Estava a fazer um curso superior e fui arrastando aquilo enquanto pude. Depois pareceu-me que já era um bocadinho demais e havia a possibilidade de ser chamado. Fui preparando as coisas. Arranjei uma bolsa de estudos em França e parti em Outubro de 1969».

    Foi, então, nesse exílio que, pela primeira vez, teve contacto com as preocupações ambientais. «Quando saí de Portugal, em 69, não se falava praticamente disso». Aliás, tempos antes, quando a Cooperativa Pragma (não confessional mas fundada por um grupo de católicos progressistas opositores ao salazarismo), de quem era próximo, pensara organizar um colóquio sobre protecção da Natureza, «lembro-me de ficar admirado. Que raio de coisa é essa, protecção da natureza? Porque nessa altura a atenção da maior parte das pessoas com quem eu convivia estava voltada para a questão política e social».

    «Na própria França, até pouco antes de eu ter chegado, o assunto ainda era muito pouco conhecido, embora houvesse já algumas coisas, mas eram muito sectoriais, minoritárias». Foi através do semanário satírico Hara-kiri Hebdo, antecessor do célebre Charlie, que primeiramente tomou contacto com estas questões. Um jornal «irreverente, contestatário, anti-sistema, que me parecia muito próximo do espírito pós Maio de 68, um bocado libertário».

    «Como eu tinha estado ligado aos meios católicos progressistas, quando rompi, ou me afastei, dessa perspectiva, não estava disponível para me enquadrar noutra igreja, mesmo que fosse ateia. Era mais fácil ir ou para extrema-esquerda ou para a proximidade das perspectivas libertárias ou anarquistas do que propriamente para os partidos mais clássicos. Eu nunca fui anarquista mas, na transição dessa fase de católico progressista para outras fases, li uma obra sobre anarquismo de um filósofo francês que foi muito influente nos meios católicos, Emmanuel Mounier, e fiquei um pouco fascinado. Para mim, foi uma boa maneira de fazer a ponte duma certa cultura filosófica que eu conhecia para outra que eu desconhecia por completo».

    O Hara-kiri Hebdo «tinha umas crónicas que me interessavam especialmente, de um colaborador, Pierre Fournier, que tratava justamente da questão ecológica. Nessa altura, a França começava a fazer a mudança para um processo de intensificação da produção de energia nuclear em centrais e ele falava e desenhava sobre muitos assuntos relacionados com isso, tinha uma boa informação sobre o que se passava nos Estados Unidos e em Inglaterra e acabou por me revelar a nomes e pensamentos importantíssimos nesta área».

    Depois de França, o Brasil, em Agosto de 1971. Onde «de certa forma pus à prova a pouca informação de que dispunha na altura sobre a questão do ambiente e da ecologia, porque, no Brasil, as pessoas que eu conhecia directamente não estavam muito implicadas nisso. Conhecia, acima de tudo, pessoas com uma formação de esquerda, digamos assim, e discutíamos muito porque a perspectiva ecológica era, para elas, uma coisa fora de questão e achavam até que era uma ideia um pouco reaccionária, porque o que interessava era o desenvolvimento social, económico e político, a luta contra a ditadura e a revolução». JCM publica os seus primeiros textos, «não muitos mas alguns», sobre a questão ambiental, no Jornal Opinião, «um semanário de informação geral e, no fundo, de luta política, dentro das possibilidades em ditadura militar», que traduzia uma certa aliança entre a burguesia nacional anti-ditadura e a juventude mais radical e independente da esquerda heterodoxa.

    Saído de Portugal com o que chama a «cultura da oposição à ditadura», onde se incluía a «crítica ao atraso do país», passou por França, onde a perspectiva crítica em relação ao modelo social «começava a revelar coisas que eu estava longe de saber – o esgotamento dos recursos, limites do crescimento – que me obrigaram a reformular toda a minha mentalidade oposicionista tradicional. Isto fez-me estar sempre numa minoria das minorias, tanto na ida para o Brasil, como, principalmente, no regresso a Portugal, em 1974, quando se estava a viver o deslumbramento do progresso e da abertura de perspectivas de desenvolvimento, cujo conceito já não partilhávamos nos mesmos moldes. Isso revelou até alguma dificuldade de entendimento com amigos com quem há cinco anos antes tinha plena identificação; embora mantivéssemos laços de amizade, as prioridades eram quase todas diferentes».

    A perspectiva ecológica era, de facto, muito crítica em relação ao modelo de desenvolvimento, quer dos países ditos socialistas – incluindo maoistas –, quer em relação ao dos países do ocidente. «Era uma coisa que rejeitava tanto um modelo como o outro», o que tornava muito difícil a entrada do discurso ambientalista nos programas e nas linguagens dos partidos e dos movimentos que, na altura, se dedicavam, acima de tudo, à questão social e ideológica. «Os movimentos esquerdistas, principalmente de índole marxista, as poucas vezes que se preocupavam com isto era, em geral, para dizer que isso da ecologia era uma coisa reaccionária». Tudo se passava, assim, ao nível de grupos muito pequenos, com tentativas ainda muito embrionárias. «Os grandes movimentos sociais seguiam noutra direcção e passavam-nos um bocado ao lado. Ou passávamos nós ao lado deles.»

    Uma das primeiras pessoas que em Portugal se dedicaram intensamente à questão ambiental e que, através do seu trabalho, escreveu muito sobre esses problemas, foi o jornalista do Século, Afonso Cautela, com quem, «não sei se ainda em França ou se já no Brasil, comecei a trocar correspondência com base nesse interesse comum, que eu descobrira graças à intermediação de um amigo que tinha ficado no interior de Portugal. Quando regressei, em Junho de 1974, uma das primeiras coisas que fiz foi procurá-lo. Nessa altura, já se estava a preparar, se é que não estava já em andamento, uma entidade, ainda informal, chamada Movimento Ecológico Nacional, muito ligada a ele e a um outro jornalista chamado António Carvalho. Este movimento teve uma existência um pouco acidentada e durou pouco tempo, mas teve um papel seminal muito importante».

    Ainda em 1974, regressou ao seu Porto natal, onde surgia o GAIEP – Grupo Autónomo de Intervenção Ecológica do Porto. Reuniu nos primeiros tempos nas instalações das Edições Afrontamento, que começara, há pouco, a editar a colecção de livros Viver é Preciso, cuja temática era retomada pelo GAIEP em termos de intervenção prática. No roteiro 1974: 40 anos de ecologia a partir do Porto, que JCM nos ofereceu, pode ler-se que entre os primeiros documentos produzidos pelo GAIEP, um deles intitulava-se Porquê a agricultura biológica e outro As centrais nucleares: uma ameaça à saúde pública, “onde se denunciava que ‘a energia nuclear pacífica não passa dum sub-produto da energia nuclear bélica’ […]. A partir de Fevereiro de 1976, o GAIEP passa a reunir na Rua da Boa Hora, em espaço cedido pelo NPEPVS [Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem]. O primeiro número de Alternativa (pequena mas pioneira revista que o grupo passou a editar) refere essa como a sede provisória do GAIEP. O n.º 3, de Outubro de 1977, refere o nascimento da Cooperativa Pirâmide (Cooperativa Cultural para o Desenvolvimento de uma Sociedade em Harmonia com o Universo) e dá como endereço para a correspondência o n.º 50 da Rua do Breiner, sede da Cooperativa. A revista Alternativa diz-se agora publicada pelo GAIEP ‘integrado na Cooperativa Pirâmide’. O envolvimento desta na preparação do Festival Pela Vida e Contra o Nuclear, que viria a decorrer em 21 e 22 de Janeiro de 1978 em Ferrel e Caldas da Rainha, era então intenso.”

    Nuclear não, obrigado

    Apesar de, por cá, a questão nuclear ainda não se pôr de forma premente, era já central neste tipo de movimentos. «O Movimento Ecológico Português logo à partida era declaradamente anti-nuclear», por exemplo, e já tinha até realizado, em Buarcos, um encontro onde «eu apresentei uma comunicação chamada Por uma moratória nuclear – não sei se era esse exactamente o título – ou seja, por um adiamento da instalação de centrais nucleares enquanto não fosse o assunto bem estudado e bem debatido. Uma forma de agir noutros países, não fui eu quem inventou. Aliás, se não erro, já desde antes do 25 de Abril o tema foi abordado em artigos de Afonso Cautela e de Delgado Domingos na imprensa portuguesa». Tudo mudou rapidamente e, no dia 15 de Março de 1976, o povo de Ferrel, perto de Peniche, marchou sobre o local onde decorriam trabalhos preparatórios para a então projectada central nuclear e «retirou de lá a única coisa que existia na altura já em função da central, que era um posto de observação meteorológica ou outra pequena estrutura».

    Em 1976, no n.º 2 dos Cadernos de Ecologia e Sociedade intitulado ‘Não à industrialização selvagem’, a par de artigos como ‘Desenvolvimento com Baixo Consumo Energético’, o editorial clamava “Somos Todos Moradores de Ferrel”, na luta contra a energia nuclear. Em Junho de 1977, foi lançado um manifesto sobre a política energética e a opção nuclear, assinado por cento e dez cientistas e técnicos ligados ao problema nuclear que debateram a nível nacional estas questões. «Alguns contactos que houve com algumas pessoas que eram mais formais, académicas, também se processaram nessa área. Por exemplo, o professor Delgado Domingos [falecido em 2014], que devia ter trinta e poucos anos nessa altura e era professor do Instituto Superior Técnico, tinha estado nos Estados Unidos, onde conheceu o movimento anti-nuclear, e trouxe essa perspectiva com ele».

    Para se conhecer o processo com profundidade, JCM aconselha-nos o livro A maldição das bruxas de Ferrel, de Mariano Calado, um «romancezinho que é um romance histórico… é romance, mas a parte descritiva de acontecimentos relativos a Ferrel é histórica, incluindo os personagens que aparecem, como o Afonso Cautela, o Delgado Domingos e os argumentos que eles apresentam no livro são os que realmente apresentaram à população de Ferrel». Aqui se percebe que, apesar do movimento ser autónomo e espontâneo, «já havia uma ligação de intelectuais, académicos e outros ecologistas ao povo de Ferrel» que acabou por se fortalecer.

    Se bem que a opção nuclear tivesse, desde o início, uma oposição clara de quem se movimentava nestes meios, foi a questão concreta de Ferrel que uniu mais gente dispersa à volta de objectivos comuns e que acabou por trazer muito sangue novo para a luta ecológica. «Curiosamente, em 1976-77, o Movimento Ecológico Português, na sua tentativa de se afirmar como movimento, já estava numa trajectória declinante – nem sei se chegou a ser fundado juridicamente. O ambiente mental da época era muito tenso em termos de conflitos de ideias e de orientações políticas ou ideológicas e isso também se reflectia nas pessoas que estavam neste Movimento, porque nem todas tinham um grau de motivação idêntico, nem todas punham a tónica nos mesmos aspectos. O equilíbrio era difícil. E, embora todas aquelas pessoas tivessem durante algum tempo considerado que estavam próximas e tinham alguns interesses comuns, a verdade é que havia tensões. E houve alguma fragmentação. De tal forma que, em 1977, quando se estava a preparar um festival antinuclear de Caldas da Rainha e Ferrel, o Movimento já estava um pouco isolado».

    Parecia que a iniciativa do Movimento Ecológico Português estava a cair num certo vazio. «Mas com esta questão do anti-nuclear, que era ao mesmo tempo mais vasta e mais sectorial, verificou-se que, afinal de contas, havia um certo eco noutros sectores de fora, digamos assim, pessoas que não estariam interessadas em agricultura biológica ou nisto ou naquilo mas que, na questão nuclear, estavam bastante mais atentas, mais interessadas e mais decididas». A par, claro, de uma enorme repercussão mediática.

    Em Janeiro de 1978, nas Caldas da Rainha e em Ferrel, realizou-se esse Festival Pela Vida Contra o Nuclear, que reuniu cerca de duas a três mil pessoas. Decorreram debates, espectáculos e outras actividades, nos quais participaram nomes como Zeca Afonso, Vitorino, Pedro Barroso, Fausto ou Sérgio Godinho. «Com surpresa – mais de uns do que de outros –, podemos dizer que esse festival foi um êxito, porque, em coisas em costumavam aparecer dez, quinze ou vinte pessoas, apareceram mais de duas mil». Parecia ter havido a ultrapassagem duma fase, mas, «depois desse momento, o que houve de continuidade manteve-se muito minoritário. Foi um momento que tirou esses grupos do anonimato mas, ao mesmo tempo, foi temporário e o ritmo e grau de envolvimento da sociedade continuaram muito lentos».

    No Roteiro anteriormente referido pode ler-se: “Foi nesse Festival que começou a ser divulgado o primeiro número da nova revista A Urtiga, designada como ‘uma iniciativa Viver é Preciso‘. Ela aparece claramente inscrita no movimento universal de regresso à terra, contra o nuclear e pelas energias suaves. Os seus artigos e temas prosseguem, aprofundam e ampliam o que já tinha sido feito pela revista Alternativa. Do n.º 1 ao n.º 7 a Urtiga, sediada no concelho de Lagos embora editada via Lisboa, segue basicamente esse rumo. A partir do n.º 2 de Maio de 1978, e sobretudo do n.º 4, de Setembro de 1978, passa a ser feita com larga participação da Pirâmide e, depois, da iniciativa Renascimento Rural. Pode dizer-se, aliás, que essas são várias das metamorfoses do GAIEP, vindo do Porto e em itinerância pelo país. A partir do n.º 7 a Urtiga muda por duas vezes de formato e, embora mantendo os temas iniciais de ecologia, energia e regresso à terra, passa a dar mais espaço a temas de uma visão que entronca na filosofia da Ordem do Universo, fazendo sobressair a questão do cuidado alimentar numa perspectiva próxima do movimento macrobiótico”.

    Em 1982, o projecto nuclear foi abandonado. A partir daí, «aparentemente, em Portugal, o assunto deixou de ser falado, porque percebeu-se que o governo tinha renunciado à construção de centrais nucleares e muita gente pensou que agora já não se tratava de uma situação preocupante. Se bem que, logo em meados dos anos 80, ressurgiu, mas agora por lados de Espanha, não por via de Almaraz, mas por via do plano de construção de um cemitério nuclear em Aldeiadávila (perto de Salamanca). Eu já não acompanhei muito este processo mas aqui no Porto havia um grupo, o Terra Viva, que tinha uma costela libertária, que em 1984-85 fez um trabalho bom sobre o assunto. Conseguiu-se evitar os piores aspectos do projecto de Aldeia d’ Ávila mas depois também não se falou muito do assunto. De vez em quando falava-se de Almaraz, dos incidentes que ocorriam, mas era uma coisa muito ao de leve e criou-se a ideia errada – e isto é também e sobretudo uma autocrítica – de que, como em Portugal não haveria central nuclear, parecia não haver nada a fazer por aqui».

    Aproveitando esse refluxo, o lobby nuclear voltaria nos primeiros anos do século XXI, «com um grupo de engenheiros e um empresário português de origem francesa (ou que tinha estado em França)», munidos de um discurso que afirmava que o nuclear era a forma de resolver a crise energética e tornar o país auto-suficiente, ao mesmo tempo que defendiam uma nova e maior capacidade de garantir a segurança das centrais. «Durante algum tempo, aquilo andou a ser falado. Havia, mesmo na imprensa e em meios com certo poder de influência, quem tivesse ressuscitado a oposição tenaz à ideia, mas também havia quem fosse naquela canção». Foi, aliás, a propósito disso que, em 2006, JCM aproveitou os festejos dos trinta anos da luta de Ferrel para publicar A maldição das bruxas de Ferrel, de Mariano Calado, nas suas Edições Sempre-em Pé, depois de o ter lido num fôlego graças a uma «providencial insónia» que imediatamente o convenceu de que estava perante aquilo que sentia ser necessário publicar na altura.

    «De qualquer forma, demos prova de vida. Na altura, escrevi algures que um movimento que estava dormente mostrou que está vivo e, quando for preciso, acorda de novo. Entretanto, e infelizmente para os japoneses, aconteceu Fukushima. E aí morreu definitivamente o lobby pró-nuclear português.. Esse lobby passou ao silêncio quase completo». E, como anteriormente e pelas mesmas razões, o movimento anti-nuclear voltou à dormência. «De vez em quando lá aparecia um acidente em Almaraz, e falava-se e tal, mas não passava daquilo».

    «Até que, mais recentemente, surgiu esta questão, que também está a surgir em França e noutros países, relacionada já com um outro aspecto: não contentes com estarem a utilizar uma tecnologia que é evidente que tem um calcanhar de Aquiles imenso, estão a tentar prologar a vida das centrais (por motivos de rentabilização e de não ter de investir em novas centrais de raiz, que seriam sempre difíceis de construir porque cada vez mais a opinião pública é sensível a isto). Aquilo que devia durar trinta anos, agora tentam que dure cinquenta. Em Espanha também já se chegou a essa fase. E chegou a Almaraz». Um aspecto que acordou de novo o movimento, nomeadamente com a revitalização do Movimento Ibérico Anti-Nuclear que, em Junho passado, promoveu uma manifestação em Almaraz que repetirá este ano. Para JCM, a presença nestes movimentos e a insistência no combate ao nuclear são cada vez mais importantes, à medida que o mundo caminha para o esgotamento dos combustíveis fósseis sem que se pense na alteração dos níveis de consumo energético. O que pode fazer correr o risco de dar uma aparência de justificação a vagas constantes de argumentação pró-nuclear que tentem introduzir as valências dessa indústria como alternativa energética.

    Uma espécie de pedra no charco? «Passando a uma perspectiva do movimento ecoambiental no seu conjunto, «é verdade que há uma perda de capacidade e de presença do movimento ambiental na sociedade, como noutros movimentos». Perdeu-se o discurso revolucionário e contestatário que alguns grupos tiveram em certas épocas, «mas também não têm um discurso de conformismo. Continuam a apresentar perspectivas críticas, numa linguagem talvez mais aceitável para a maioria das pessoas e dos meios de informação, mas que continua a ser uma proposta de outro tipo de organização».

    Freak chic eco-friendly

    Tomando as palavras que Franklin Pereira utilizou para fazer uma retrospectiva sobre a revista Alternativa para a exposição 1974: 40 anos de ecologia a partir do Porto, este referia as críticas ao “saber ‘esotérico’ de especialistas”, pois que “separa o criador do produtor, eterniza a contradição entre trabalhador intelectual e trabalhador manual, perpetua a transmissões de um poder de classe”. Hoje, dizemos nós, não há uma semana que não tenha uma ‘oferta eco’, um ‘workshop verde’, uma ‘feira bio’, nalgum dos muitos espaços ‘alternativos’ que acabam por ser reféns ou promotores de um nicho de mercado ‘freak chic’ onde afinal não tem lugar a ‘partilha’ desses saberes e vivências e onde o alvo é mais o urbano endinheirado que o vizinho local. Ou não será bem assim? São já nacos da sociedade do espectáculo ou bocados de um processo que pode ser transformador de mentalidades e comportamentos?

    «Acho que é um pouco de tudo. Há coisas sérias e menos sérias, mais profundas e menos profundas, mas não creio que se possa fazer uma classificação global desses fenómenos e é bastante claro que actualmente há uma aparência de controlo social em que o movimento ecológico e alternativo e ambiental e de permacultura parece perder capacidade de intervenção, ou até mesmo de proposta de alternativas. Isso em parte é verdade, mas em parte também é resultado de um refluxo histórico (em relação aos anos 1960-80) que estamos a experimentar. O que hoje domina é a finança. Mas mesmo esse domínio da finança é talvez uma fuga para a frente em resposta a essa turbulência dos anos 60 e 70. E não se sabe o que pode acontecer daqui a um ano, dois ou dez. Aliás, movimentos como o Occupy, nos Estados Unidos, ou os movimentos dos Indignados em França e Espanha, são coisas que mostram que a situação continua muito instável e o que hoje parece estar arredado do horizonte pode ser que, de um momento para o outro, fique completamente na ordem do dia». Algumas coisas que hoje nos parecem ingénuas e pouco lúcidas podem, afinal, estar a «formar as pessoas que daqui a dez anos vão ter um papel fulcral para dar um passo em frente».

    Talvez não haja, de facto, forma de trazer um assunto para um público alargado sem que esse assunto, por muita radicalidade que possa ter na origem, abra portas que o deixem aprisionar pelos mecanismos integradores do capitalismo. Mas, para JCM, o resultado não tem necessariamente de ser um desastre. «Depende muito da perspectiva de cada um e da situação concreta que se possa analisar. O que se passa é que, nesse domínio, há coisas que são fraudes, há coisas que são greenwashing e há coisas que são boas, que são positivas, que, mesmo com as suas limitações, são coisas que mostram um caminho certo. Por exemplo, uma cooperativa de produção de energia solar, como a Coopérnico… é uma cooperativa e, só por sê-lo, isso já é positivo. E, depois, é também positivo o campo a que se aplica, que é a produção de energia alternativa a todas as formas de energia mais negativas, como a nuclear, ou a dos combustíveis fósseis, uma das responsáveis pelas alterações climáticas. Mais ainda quando se dedica à energia solar! Ou, por exemplo, uma loja de produtos biológicos… pode ser uma loja de produtos alimentares como outra qualquer, tem de vender, tem de ter margem de lucro e, aparentemente, não tem nada de relevante no aspecto social, mas sempre é positivo que se situe numa linha de produção biológica. Embora também esta tenha as suas limitações, visto que entretanto, com a oficialização da agricultura biológica e o seu reconhecimento ao nível dos Estados e da Comunidade Europeia, por exemplo, se fizeram algumas transigências a critérios que são discutíveis».

    No Mundo e no Porto: em redor da sustentabilidade

    Em 2007, JCM iniciou a edição dos Cadernos Schumacher para a Sustentabilidade, abordando, nos dois primeiros cadernos, a questão da sustentabilidade de um ponto de vista ambientalmente consequente e onde é expressa uma dupla preocupação: Transformar a Economia e Criar Cidades Sustentáveis. «Cada um destes cadernos, e eu acabei por ficar pelos quatro, eram traduções de uma colecção inglesa. Tratava-se de sínteses breves de toda uma matéria que tinha sido já objecto de vastíssima bibliografia. Esta ideia da proposição de uma de economia diferente da dominante, em termos eco-ambientais, tem uma longa bibliografia, na qual, aliás, há coisas mais e menos interessantes. Este livrinho [Transformar a Economia] aborda essa temática e apresenta-a de uma forma muito sintética e, portanto, tem um papel muito positivo ao colocar essa bibliografia ao alcance de muita gente que nem sonharia com isso».

    Num país ainda embebecido pelas aparentes benesses do mundo financeiro, onde a economia é um tabu intocável, um livro deste tipo teve pouco eco. O segundo volume, Criar Cidades Sustentáveis, teve mais procura. «Houve alguns factores… a discussão ligada ao ordenamento do território, os PDM das cidades, etc., tornaram certos sectores mais receptivos a esse tipo de coisas». Depois, porque o livro foi parar a uma bibliografia para «um curso ou um concurso de magistrados», a procura chegou mesmo a esgotar a edição. «O que isto revelava é que nalguns meios judiciais já existe a percepção de que o estado em que se encontra a urbanização do mundo, e de Portugal em particular, tem muito a ver com questões ligadas à criminalidade. A sociologia, aliás, começou assim. O Durkheim veio logo com essa questão da anomia, ou seja, o desvio comportamental que leva à criminalidade e à punição e à prisão está intimamente ligado à degradação das condições de existência nas cidades e há, aparentemente, alguns juízes que já se deram conta disso».

    Agir e pensar a cidade é, então, um dos focos da Campo Aberto. Num livro publicado em 2006, Reflectir o Porto e a Região Metropolitana do Porto, pode encontrar-se uma quantidade considerável de documentos da própria associação (análises, comunicados, pareceres, intervenções de vários tipos, etc.), mas também alguns de colaboração com outras associações. Uma boa parte deles é sobre o período 2001-2005, quando se estava a realizar no Porto o processo de discussão pública de revisão do PDM que estava em vigor e que viria a dar origem ao PDM de 2006, para o início do segundo mandato de Rui Rio. «A filosofia geral mantém-se toda muito actual e, na nova revisão do PDM do Porto, ainda teria muita utilidade, se os técnicos ligassem alguma coisa a isto».

    «Neste livro, estávamos a tratar de questões numa perspectiva da evolução interna própria aos habitantes, à população residente, ou quando muito na área metropolitana do Porto e ainda não havia sequer sinais de que viria a acontecer este surto turístico. Está aqui a perspectiva que tínhamos sobre a cidade e a sua sustentabilidade, mas não está o fenómeno, que foi surpreendente para toda a gente, da explosão turística. Aplicando a mesma grelha de leitura ao que se está a passar, poder-se-ia chegar a conclusões interessantes. É evidente que há aspectos que podem ser positivos neste fenómeno. Por outro lado, a Câmara do Porto indigna-se com quem critica o excesso de turismo, porque diz que é um negativismo e que a cidade está toda a beneficiar com isso. Claro que há todo um problema económico que é importante. Mas resta saber que beneficiários são esses. Haverá de todo o tipo. Os principais se calhar não são aqueles que mais precisariam, mas o facto de haver algum dinamismo económico não deixa de ter alguns aspectos positivos. Simplesmente, e disso nem vale a pena falar porque não será compreendido pelos que estão embriagados com o maná turístico, o próprio fenómeno turístico assenta numa coisa, o lowcost, que é totalmente insustentável, que é baseado em combustíveis fósseis e no sector da aviação, o principal sector nos transportes emissor de gases de efeito de estufa, onde existem problemas sérios e que tem escapado até agora de algumas exigências feitas a outros sectores. Há quem encolha os ombros e se limite a dizer: há de aparecer o avião solar…».

    Decrescimento

    Já no final da nossa conversa, abordando uma recente palestra no encontro CidadeMais do Porto, em 2016, promovida pela Sociedade de Ética Ambiental,em que JCM falou de Simplicidade Voluntária, Complexidade Impositiva e Saídas do Labirinto Ambiental, acabaria por nos dizer que «as questões de estilo de vida são centrais nos movimentos ecológicos a partir dos anos 60, mas podemos até dizer que o foram, anteriormente, em movimentos percursores, que ainda não eram bem o movimento ecológico moderno. E, se recuarmos mais, podemos dizer que, desde a antiguidade, há linhas de pensamento que insistem nos aspectos da simplicidade, da comunhão com a natureza. Um estilo de vida simples e sem grande abuso de recursos e de materiais e de objectos e mercadorias terá forçosamente um menor impacto sobre a natureza».

    Ligações com a ideia de decrescimento? «A meu ver, o problema da teoria do decrescimento é que as palavras podem induzir em erros, em falsas interpretações. Havia um autor de que eu gostava muito, Ernesto Bono, que dizia que as palavras são umas fantásticas rainhas, que, portanto, induzem ilusões. A ideia mais útil que tem essa corrente está presente desde o início do movimento ecológico com as críticas aos limites do crescimento. Porque colocar a ideia de que há limites de crescimento é imediatamente pôr a ideia de que se calhar não é possível continuar a crescer em tudo e há coisas em que é mesmo necessário decrescer».

    «Agora, de facto, a palavra ‘decrescimento’, que é talvez de finais dos anos 80, ganhando mais dimensão em meados dos anos 90, pode lançar alguma perturbação na discussão, porque pode levar a pensar que é preciso fazer com que tudo decresça e nada deva crescer. Então, aí, põe-se um problema, a nível social, que decorre do facto de haver grandes camadas de população mundial, mesmo em países aparentemente prósperos, que, em vez de terem um consumo excessivo, têm, aparentemente, um sub-consumo ou têm carências graves em vários aspectos da sua existência. E pode introduzir aí um ruído. Os que não são inteiramente pobres, mas percebem que têm carências graves que acham que podem melhorar se houver maior crescimento económico, podem ficar desconfiados a pensar que se quer que voltem a passar fome».

    «E, depois, não é só isso. É também o facto da dependência total das populações modernas em relação a rendimentos monetários. Na maior parte dos casos em termos de emprego e salários. Ora, se o emprego é condição para que as pessoas possam comer, não havendo crescimento cria-se a ideia imediata de que não haverá emprego e, não havendo emprego, não há rendimento monetário e, não havendo rendimento monetário, as pessoas passam fome. Portanto, há aqui um ruído que se introduz com esta designação de ‘decrescimento’. Embora, se alguma pessoa se aproximar dos textos dessa corrente e for examiná-los, verifica imediatamente que aí todas essas dúvidas têm respostas claras. Mas o nome não é o mais bem escolhido e, de certo modo, até pode empalidecer os aspectos mais positivos dessa corrente que já estavam, aliás, presentes desde os anos 60».

    «Se calhar, é mais importante definir o que não deve crescer e o que deve crescer. Em termos um pouco simplistas, é preciso que as energias de tipo mais suave cresçam e que as outras diminuam. Ou então, é preciso que a agricultura biológica cresça e que a agricultura química decresça. Digamos que o rótulo ‘teoria do decrescimento’ pode induzir uma fixação num dos aspectos e tornar menos visível a complexidade que esta questão tem».

    Renascimento Rural

    Um dos aspectos mais interessantes ao olharmos para o percurso de José Carlos Marques, dos colectivos e indivíduos dos anos 70-80, é a sua perspectiva agro-ecológica. Em concreto, um grupo com um ideário comunitário: o projecto Renascimento Rural, que assentou arraiais numa aldeia do interior do concelho de Lagos (Algarve). Em 1978, fruto da colaboração da colecção de livros Viver é Preciso, das Edições Afrontamento, coordenada por JCM, foi criado na aldeia de Barão de São João, o Centro de Ecologia e Alternativas Renascimento Rural. Campos de trabalho dedicavam-se à construção de uma casa ecologicamente integrada em pedra, taipa e adobe, onde havia lugar à gestão de uma biblioteca e da revista A Urtiga, quase simultânea a este projecto.

    Mas no mercado alternativo dessa aldeia de Barão de São João, muitas das comunidades neorurais ou quintas orgânicas que actualmente todos os meses aí se cruzam, talvez já não se recordem ou sequer conheçam essa experiência precursora. «No final dos anos 90, mas sobretudo já neste século, começaram a aparecer uma série de pessoas, grupos, iniciativas muito ligadas à questão da permacultura. E é sobretudo através da internet que surgem. Provavelmente nem sabem que houve experiências como estas, anteriores. Há uma continuidade que é desconhecida para eles, mas que é real e efectiva, mesmo a nível internacional, porque os criadores da permacultura inseriam-se, nos anos 80, neste movimento em que nós estávamos também envolvidos. Embora tivessem exprimido uma síntese original, que tem um rótulo próprio, que tem uma etiqueta, que é a ‘permacultura’, na verdade encontramos permacultura, não estruturada e compactada mas de certa forma dispersa, em todas estas publicações que nós aqui temos», constata-nos JCM, olhando em redor as estantes do Campo Aberto.

    E, de facto, «estas correntes relacionadas com a agricultura biológica e a biodinâmica já existiam antes de haver propriamente o movimento ecológico. Já existiam desde o princípio do século, mas eram muito sectoriais, pouco conhecidas. Houve movimentos, grupos, comunidades, que construíram e fizeram trabalhos muito próximos do que viria a ser a permacultura e também a proximidade entre os aspectos ligados à energia, à agricultura, ao território e à própria filosofia social, isto é, a ideia da protecção ambiental intimamente ligada à da transformação social».

    Livros e Poesia

    A vida de JCM dedicada à questão ambiental traduz-se, em igual medida, na atenção que dá à poesia (a publicação de DiVersos já faz 20 anos), fazendo a ponte com o “sentimento da natureza na cultura portuguesa”. Quisemos saber se será cada vez mais difícil transmitir o amor da e à natureza pela poesia e pelas artes – e pensa-se sobretudo nos jovens – e, comparativamente, mais fácil apelar às suas preocupações com a numerologia e estatística do desastre ambiental na sua versão de espectáculo e entretenimento. JCM respondeu que «a arte e a poesia afastaram-se da natureza porque as sociedades se afastaram da natureza. Enquanto no século XIX a Revolução Industrial e as suas destruições suscitaram a resposta romântica, que valorizou a natureza e começou a alertar para as destruições da era industrial (Wordsworth, Keats, na Inglaterra, Henry David Thoreau, John Muir nos Estados Unidos, por exemplo), o início do século XX embriagou-se com a máquina e o maquinismo. Daí o modernismo nas artes e na literatura, mas também as grandes carnificinas das duas guerras mundiais. Hoje a situação começa a reequilibrar-se, com alguns poetas e artistas que retomam o sentimento da natureza como fonte do seu trabalho, embora ainda timidamente. Continua a predominar a desolação do mundo exclusivamente humano. Mas a própria arte e poesia sensíveis à natureza têm de incorporar o desastre ambiental e a sua enorme dimensão, pois hoje integrar a natureza na arte e na poesia é também integrar o sentimento de perda da natureza e não só o da sua exaltação e louvor – embora este último continue a ser a fonte principal. A que serão os jovens mais sensíveis? Difícil responder. Neste momento, o apego à electrónica e aos seus aparelhos parece predominar, mas há também a reaproximação à natureza, por outro lado».

    Do extenso percurso editorial, para além das publicações como A Urtiga e outras associadas a diversos grupos por que passou ou colaborou, JCM foi responsável, logo em 1974, pela colecção de livros Viver é Preciso que integrou os Cadernos de Ecologia e Sociedade, das Edições Afrontamento, a cuja origem esteve associado. Em 2004, fundou as Edições Sempre-em-Pé. «No meu percurso editorial estão quase ausentes alguns dos que mais me marcaram – ainda não consegui lá chegar. E antes de mais o cronista e desenhador Pierre Fournier que foi quem, nas páginas do semanário Hara-Kiri Hebdo, nos anos 1969-72, me abriu à compreensão do que é a ecologia e do movimento ecológico moderno que então alastrava, como contraveneno, nos países mais industrializados. Mas se traduzi e publiquei Bernard Charbonneau e o seu belíssimo O Jardim de Babilónia foi graças a Fournier, que me o revelou. E posso mesmo dizer que os mais marcantes nunca teriam aparecido no meu caminho sem essa revelação inicial. Destacaria ainda assim Aldo Leopold e o seu A Sand County Almanac, que traduzi e editei com o título Pensar Como Uma Montanha ou Rachel Carson, e o seu The Sense of Wonder, que traduzi e editei com o título Maravilhar-se: reaproximar a criança da natureza. Mas faltam muitos outros ainda por editar… Outros o farão. Para mim o tempo é já escasso».