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  • Curdistão em mudança

    Curdistão em mudança

    Abdullah Ocalan, 27 de Fevereiro de 2025. Encarcerado desde 1999 na ilha-prisão turca de Imrali, e após vários anos de completo isolamento, o líder de referência do movimento curdo, quebra o silêncio num apelo de paz intitulado “Paz e Sociedade Democrática”. Com uma aparente abertura por parte do Estado turco ao diálogo, são desencadeadas as circunstâncias para o início de um novo processo de paz, procurando uma resposta final à questão curda e ao conflito armado que assola a região desde 1984, ano em que o PKK – Partido dos Trabalhadores do Curdistão – deu início à luta armada. Décadas de conflito com o Estado turco, dezenas de milhares de mortes de ambos os lados e a classificação internacional do PKK como organização terrorista.

    Após o apelo surpreendente de Abdullah Ocalan que anunciava, com condições, o fim da luta armada e a dissolução do PKK o movimento curdo, com o seu ramo armado, as Forças de Proteção do Povo (HPG na sua sigla em curdo), declaram um cessar-fogo unilateral, ao qual o Estado turco não respondeu de forma igual. Simultaneamente, têm lugar encontros entre Ocalan e várias figuras políticas curdas e turcas, congregados na que ficou conhecida como “delegação de Imrali”, e com representantes de outros partidos da oposição e do Estado turco.

    Entender o PKK e o seu lugar na sociedade curda
    O PKK é criado em 1978 em Bakur, região historicamente curda ocupada pelo Estado turco desde a sua formação. O partido nascia no ambiente político efervescente das décadas de 1960 e 1970, por entre a agitação da esquerda turca e a forte repressão estatal. A natureza ideológica do grupo inicial de estudantes, que formava este novo partido, liderado desde o início por Ocalan, era naturalmente e à época a de um partido de libertação nacional marxista-leninista. Em recente entrevista, Cemil Bayik, 74 anos e co-representante do KCK (União das Comunidades do Curdistão), recorda as condições bastante particulares da sociedade curda aquando da fundação do PKK: «As circunstâncias do povo curdo eram muito más. Os movimentos socialistas e democráticos na Turquia tinham sofrido golpes muito pesados. Mais uma vez, o povo curdo, por mais que se revoltasse, por mais que lutasse, enfrentava constantemente massacres, deslocações forçadas e a prisão.» O surgimento do PKK assumiu «um lugar especial na história dos povos do Curdistão. Porque mudou a história de quem enfrentava a extinção. Deu a capacidade aos Curdos de escreverem a sua própria história». Fez com que este povo «voltasse dos mortos».

    O último congresso do PKK?
    Nos dias 5, 6 e 7 de maio, o PKK realizou o seu 12.º Congresso em dois locais separados nas montanhas curdas de Bashur (Curdistão ocupado pelo Iraque). É declarado de que «a luta do PKK desmantelou as políticas de negação e aniquilação impostas ao nosso povo» permitindo «levar a questão curda a um ponto em que pode ser resolvida através de políticas democráticas». Seguindo o apelo de Ocalan anunciam que «todas as atividades realizadas sob o nome de PKK foram encerradas», assim como o «método da luta armada».

    A avaliação destas palavras deve ser cautelosa e não permite, no atual contexto político, traçar conclusões. Importa recordar que o processo de paz agora proposto não é inédito. Em 1993, Ocalan tomara a primeira iniciativa na criação de um processo de paz para resolver a questão curda. O processo de paz falhou após o presidente turco Turgut Özal, o general Eşref Bitlis e toda a sua equipa terem sido mortos num misterioso acidente de aviação nesse mesmo ano. Em 1995 e 1996, novas tentativas de processos de paz falharam e o cessar-fogo unilateral declarado em 1998 fracassa com a detenção de Ocalan no Quénia no ano seguinte. A sua detenção conduz o PKK a tempos conturbados, a parar com a luta armada e a anunciar em 2002 a sua dissolução. O momento é sobretudo uma mudança de paradigma. Sucede-lhe sem outra designação, um PKK que apresenta agora um projeto ideológico, desenvolvido inicialmente por Ocalan na prisão, assente no Confederalismo Democrático, na Ecologia Social e na libertação da Mulher. Mantém-se a confrontação armada e os últimos processos de paz, de 2009 a 2015, fracassam resultando em violentos confrontos e massacres nas grandes cidades curdas.

    Após 52 anos de luta, o Estado turco vê-se hoje numa posição difícil e impossível de resolver com políticas militares. Por outro lado, o PKK demonstrou ser um movimento revolucionário que se tem destacado pela sua capacidade de mudar e de se adaptar, através da autocrítica e da análise das novas circunstâncias que surgem, como a mudança de uma solução de Estado-Nação para um paradigma novo baseado no Confederalismo Democrático. A modernização da guerrilha, nas suas táticas e formas de organização foi também um fator-chave para conseguir levar o exército turco, o segundo maior exército da NATO, com todas as suas tecnologias e capacidades militares, a um impasse. O novo apelo à paz de Ocalan, secundado pelo Congresso, é também um reflexo desta característica de adaptabilidade deste movimento.

    Não menos importante é o papel desempenhado pelos curdos nas derrotas, contenção e ofensivas sobre o Estado Islâmico que os colocou num distinto patamar da geopolítica, alargando definitivamente a sua abrangência. O projeto de Confederalismo Democrático posto em marcha no Nordeste da Síria e noutras partes do Curdistão implicando a pluralidade de povos, religiões e posicionamentos políticos revelou-se uma via alternativa na região. Para Cemil Bayik, «hoje em dia, o povo curdo atingiu uma fase tal que é uma força de estabilidade, uma força de mudança e transformação e uma força de democracia no Médio Oriente. Hoje, ninguém no Médio Oriente pode alcançar a estabilidade sem os curdos. Os passos dados são históricos. O movimento, que começou como um pequeno grupo, chegou agora ao mundo e tornou-se um movimento universal. Não se baseia apenas na luta pela solução da questão curda; baseia-se na luta pela solução dos problemas da humanidade, baseia-se na luta geral pela liberdade e pela democracia».

    O que se segue?
    Assim, quando o PKK anuncia a sua dissolução e o fim da luta armada não estamos perante um ponto final numa luta de 52 anos, mas apenas no início de uma nova fase da mesma luta para resolver a questão curda. Podemos estar a assistir a uma nova mudança de paradigma do movimento curdo ou, pelo menos, a um maior desenvolvimento do novo paradigma implementado há cerca de 20 anos? Ou, reduzindo o ângulo possível destas leituras provisórias, é apenas um processo com objetivos claros, como conseguir a libertação física de Abdullah Ocalan e de outros presos políticos?

    A única coisa certa é a grande complexidade de fatores externos e internos que podem a cada passo dado mudar a direção do proposto processo de paz. Nesta altura, muito está nas mãos do Estado turco para entendermos para que direção será conduzido este processo de paz. Parece haver abertura, mas naturalmente, pelos episódios do passado, não existe grande confiança no Estado turco, mesmo que, conforme refere Cemil Bayik, este mostre interesse em querer corrigir o conflito Turco-Curdo: «Alguns compreendem isto, alguns estão a discutir o assunto, mas alguns estão a bloquear o caminho para a discussão. Não permitem que toda a gente discuta livremente. Particularmente aqueles que se consideram democratas não devem bloquear a discussão. Devem ser abertos. A Turquia precisa disso.»

    A importância de uma solução para a questão curda é por demais evidente para os povos que vivem dentro das fronteiras do Estado turco. Mas é igualmente crucial para a região do Médio Oriente. A questão curda partilha uma história semelhante com muitos outros povos na região, seja o povo palestiniano, impossível hoje de ignorar, ou o povo baloch (no Irão, Paquistão e Afeganistão), que como outros não são notícia. Uma realidade entre povos que ninguém desejaria ver partilhada: feita de genocídio, repressão e de ocupação. Uma realidade vivida desde sempre pelo povo curdo.


    texto da Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão, publicado no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]

  • «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    Uma declaração de um colectivo composto por feministas internacionalistas iranianas, curdas e afegãs que defende que devemos opor-nos ao ataque assassino que as forças armadas de Israel e dos Estados Unidos estão a levar a cabo contra as pessoas no Irão, recusando-nos ao mesmo tempo a tolerar a opressão perpetrada pelo governo iraniano.

    O colectivo, de nome Roja, redigiu esta declaração em 16 de Junho, o terceiro dia da guerra. Foi originalmente publicada em persa e o Jornal MAPA deitou mão da versão em inglês que aparece no site Crimethink. Muito se passou desde então. Ainda de acordo com este site, o Roja é um colectivo feminista-internacionalista independente com sede em Paris, cujos membros são originários do Irão, do Afeganistão (Hazara) e do Curdistão. O coletivo foi formado em resposta ao assassinato de Jina (Mahsa) Amini pelo Estado e à revolta nacional Jin, Jiyan, Azadi («Mulheres, Vida, Liberdade») em Setembro de 2022. O Roja centra-se nas lutas políticas e sociais no Irão e no Médio Oriente, bem como no trabalho de solidariedade local e internacional em França, incluindo com a Palestina.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra
    Estamos contra as duas potências coloniais, patriarcais e belicistas. Mas isto não é passividade. É o ponto de partida da nossa luta ativa pela vida.

    Se Israel conduz as crianças de Gaza para a matança com uma bandeira queer do arco-íris, a República Islâmica do Irão encharca a Síria de sangue sob um pretexto anti-imperialista. Um comete genocídio contra os árabes na Palestina, o outro subjuga as etnias não persas dentro das suas fronteiras. Netanyahu procura usurpar o significado de «Mulheres, Vida, Liberdade» para vestir o seu expansionismo colonial e a sua agressão militar com roupas de «liberdade», enquanto Khamenei investiu todos os recursos na construção de um império xiita, supostamente para combater o ISIS e defender a Palestina.

    De facto, estes dois inimigos de longa data espelham-se um no outro em termos de matança e malevolência. Não devemos equiparar estes dois regimes capitalistas em termos das suas posições na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é, sem dúvida, muito inferior à capacidade de Israel e do seu apoiante imperialista ocidental. No entanto, o sofrimento que infligiu é tão absoluto como a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é redutora e enganadora. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes do seu projecto nuclear e a tomada da dignidade humana como refém.

    Esta guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, acima de tudo, uma guerra contra nós.

    É uma guerra contra o que criámos na revolta Jin, Jyain, Azadi, o que alcançámos e o que se encontra no seu horizonte potencial: uma revolta feminista, anticolonial e igualitária que não emergiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão – especialmente as lideradas por mulheres – e que depois ecoou por toda a geografia do Irão.

    É simultaneamente uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras: contra as enfermeiras do Hospital Farabi, em Kermanshah, e contra os bombeiros da pequena cidade de Musian, em Ilam, que foram atingidos por ataques aéreos israelitas – os primeiros a 16 de Junho, os segundos duas vezes, a 14 e 16 de Junho.

    Esta guerra visa as infra-estruturas e as redes que sustentam a vida quotidiana nesta região.

    Assumir uma posição clara e intransigente em relação à guerra – condenar a agressão de Israel e dizer «não» à República Islâmica – é a base estratégica mínima para dar forma a uma campanha colectiva que exija um cessar-fogo imediato. «Mulheres, vida, liberdade contra a guerra» não é apenas um slogan; traça uma fronteira nítida em torno de um conjunto de tendências cujas contradições e conflitos são hoje mais claros do que nunca.

    De um lado estão os defensores oportunistas da mudança de regime que, durante anos, apoiaram as sanções ocidentais e norte-americanas, rufaram os tambores da guerra, negaram o genocídio de Gaza – e agora defendem a «libertação» em abjecta subserviência ao seu mestre, Israel. Em suma: os que minimizam o belicismo imperialista ocidental, sobretudo os monarquistas persas-nacionalistas de extrema-direita.

    Do outro lado está o campismo [campism], a posição política que apoia qualquer projecto – por mais autoritário que seja – que se oponha ao bloco ocidental, apresentando-o como «resistência».

    Para além disso, há forças que dão prioridade à luta contra o ataque criminoso de Israel, apelando ao «estado de emergência» ou ao «interesse do povo». Este último grupo acaba por branquear os crimes da República Islâmica no país e no estrangeiro ou por adoptar um silêncio estratégico. Foram estes que, depois de 7 de Outubro de 2023, lançaram avisos sobre o perigo da indiferença em relação ao destino comum dos povos do Médio Oriente – mas, em vez de enfatizarem a luta internacionalista de base, esbateram a linha entre a resistência popular e o poder do Estado. Observaram corretamente que o Irão vem a seguir ao Líbano e à Palestina na chamada «nova ordem do Médio Oriente», mas apenas para minimizar e desvalorizar as lutas das mulheres, das minorias étnicas e das classes oprimidas neste «momento». Os seus avisos permaneceram abstractos porque não disseram uma palavra sobre a apropriação – e monopolização ideológica – do discurso anti-colonial pela República Islâmica desde a revolução de 1979.

    Acreditamos que só traçando estas fronteiras – sublinhando as relações mútuas e inseparáveis entre as múltiplas lutas sociais na região – é que poderemos formar uma frente sólida contra o genocídio de Israel e, simultaneamente, arrancar o discurso anti-colonial ao monopólio da República Islâmica, confrontando os etno-nacionalistas que negam a existência de minorias étnicas e o «colonialismo interno» na República Islâmica.

    Em solidariedade com o destino comum dos povos do Médio Oriente – de Cabul a Teerão, do Curdistão à Palestina, de Ahvaz a Tabriz, do Baluchistão à Síria e ao Líbano – que é a base material da luta internacionalista, dirigimos esta declaração aos oprimidos e aos subjugados no Irão e na região, à diáspora e às «consciências acordadas» do mundo.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    Morte por bombas e mísseis
    A limpeza étnica perpetrada pelo criminoso Estado israelita não se limita a este dia, a este ano ou mesmo a este século. No entanto, falha geopolítica que se abriu a 7 de Outubro de 2023 ameaça agora engolir a República Islâmica e o povo do Irão por dentro – a uma velocidade espantosa e com uma intensidade chocante – lançando um horizonte sombrio que ultrapassa os nossos limites emocionais e psicológicos.

    Estes podem ser os dias mais críticos das nossas vidas desde a Revolução de 1979.

    Desde a madrugada de sexta-feira, 13 de junho, até segunda-feira, 16 de junho, o exército israelita levou a cabo 170 ataques, atingindo 720 alvos em todo o Irão.

    – Primeira fase: instalações nucleares, bases de mísseis, sistemas de defesa aérea e assassinatos de investigadores e comandantes militares em áreas residenciais – visando dezenas de comandantes de topo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [um ramo das Forças Armadas iranianas], infligindo um golpe sem precedentes na estrutura de segurança militar do IRGC [corpo de guardas da revolução islâmica].

    – Segunda fase: ataques coordenados a refinarias e depósitos de combustível (Shahran em Teerão e Pars South no Golfo Pérsico), portos, aeroportos e infra-estruturas críticas que afectam não só as artérias militares, mas também a reprodução social e a vida quotidiana.

    – Terceira fase: ataques a símbolos da autoridade governamental – ministérios, edifícios oficiais e a principal agência de radiodifusão da República Islâmica em Teerão – o núcleo central de interrogadores, torturadores e propagadores de ódio. Uma instituição mediática com um historial de quatro décadas a fabricar dossiers, a espalhar mentiras e a difamar os pobres, as mulheres, os emigrantes afegãos e os dissidentes políticos.

    Em todas estas fases, contrariamente às promessas sedutoras dos propagandistas fascistas que vendem a liberdade através de bombas, o que se verificou não foram «ataques pontuais» a alvos militares, mas sim o massacre indiscriminado de civis, mulheres e crianças. Até 15 de Junho, pelo menos 600 pessoas foram mortas e 1277 ficaram feridas. [No momento em que publicamos este artigo, os números são consideravelmente mais elevados].

    Em resposta, a República Islâmica tinha lançado mais de 350 mísseis e drones contra Israel até 16 de Junho. Um dos principais ataques teve como alvo o norte de Israel, incluindo Haifa – o núcleo industrial estratégico e um centro logístico de energia. Embora a maioria dos projécteis tenha sido interceptada pelos sistemas de defesa das forças armadas israelitas e dos seus aliados, vários atingiram zonas civis. Até ao momento da elaboração deste relatório [16-18 de Junho], foram mortos 24 israelitas, incluindo quatro mulheres de uma única família.

    Nesta situação terrível, a República Islâmica não só abandonou uma população aterrorizada – não conseguindo fornecer sequer os serviços mais básicos, como informação pública transparente, abrigos antiaéreos ou sistemas de alarme – como também intensificou o controlo do Estado: destacando esquadrões de choque, erguendo postos de controlo nas cidades e afiando a sua lâmina para execuções sob o pretexto de «espionagem para Israel». Embora isto não seja surpreendente em tempo de guerra – na verdade, é sintomático da incapacidade do regime para garantir a segurança – traz consigo a ameaça sussurrada de «pendurar traidores em todas as árvores». Esta lógica flui naturalmente de um regime cuja própria sobrevivência depende da repressão interna, das execuções, da militarização da vida quotidiana e da expansão regional implacável.

    Faixa da ROJA numa manifestação em Paris contra o genocídio na Palestina

     

    Representação colonial e normalização da guerra
    A «guerra contra o terror» – o projecto imperialista que derramou sangue no Afeganistão e no Iraque no início do século XXI – passou agora o testemunho a Israel: um ataque «preventivo» destinado a conter a ameaça nuclear iraniana [ref] Embora o programa nuclear da República Islâmica tenha sido, desde o início, um processo dispendioso e antidemocrático com graves consequências ecológicas – impulsionado pelos Guardas Revolucionários para garantir a sobrevivência do regime nas competições geopolíticas regionais e globais, Embora não reconheçamos nenhum «direito» à República Islâmica ou a qualquer outro Estado de adquirir armas nucleares e acreditemos que as armas nucleares e a corrida global a elas devem ser totalmente desmanteladas, o ataque de Netanyahu baseia-se, no entanto, numa narrativa falsa, que faz lembrar a invasão do Iraque pelos EUA sob o pretexto de eliminar as «armas de destruição maciça»: ou seja, que o Irão está a poucos passos de construir «a bomba». Embora a República Islâmica tenha, de facto, aumentado significativamente as suas reservas de urânio próximo do grau de pureza para armas, não há provas de uma decisão de construir uma bomba nuclear. Mesmo que partamos do princípio de que a República Islâmica adquiriu uma bomba, são os próprios povos da geografia política do Irão que têm de decidir o seu destino com autonomia e autodeterminação – e isso não justifica de forma alguma o ataque militar de Israel.[/ref]. Mais uma vez, repete-se o guião dominante nos média: Israel tem como alvo apenas «locais militares», utilizando «mísseis de precisão» e «drones inteligentes» para dar liberdade e democracia ao povo iraniano.

    Mas esta narrativa não se refere a Parnia Abbasi, o poeta de 24 anos assassinado em Sattarkhan, Teerão. Não faz qualquer menção aos assassínios de Mohammad Ali Amini, o atleta adolescente de taekwondo, ou de Parsa Mansour, jogador nacional de padel. Nem um sussurro sobre Fatemeh Mirheidar, Niloufar Qalewand, Mehdi Pouladvand ou Najmeh Shams. Não se tratava de «alvos militares» nem de «ameaças nucleares» – apenas de seres humanos, cujos corpos foram desmembrados no silêncio mediático global, retalhados por mísseis israelitas. Esta é apenas a ponta do icebergue da «liberdade» que Israel – apoiado pelo Ocidente – pretende introduzir através do amontoado de cadáveres e de devastação.

    As forças reaccionárias que reduzem a «mudança de regime» a uma mera remodelação política a partir de cima – sem qualquer transformação social real – estão agora a abraçar abertamente o seu salvador de longa data, Israel. Os monárquicos transformaram as vítimas dos bombardeamentos em estatísticas, declarando sem vergonha: «A República Islâmica executa milhares de pessoas todos os anos, por isso a morte de dezenas ou centenas por Israel é justificável». Esta é a mesma lógica desumanizante – o cálculo quantitativo da morte – que os Estados Unidos utilizaram para justificar a destruição de Hiroshima e Nagasaki: «Se a guerra continuar, morrerão mais pessoas, por isso, lancem a bomba».

    A morte de civis nos recentes ataques de Israel, o aumento do controlo estatal no Irão, a destruição de infra-estruturas sociais – nada disto são «erros não intencionais» ou danos colaterais. São a lógica da guerra, especialmente quando conduzida por um regime como o de Israel. A conhecida alegação de que os civis ou locais não militares estão a ser utilizados como «escudos humanos» – outrora invocada em Gaza, agora utilizada para justificar ataques à Prisão de Dizelabad e ao Hospital Farabi em Kermanshah – é uma distorção deliberada, utilizada para mascarar e inverter a verdade desta lógica exterminatória.

    Não existem «ataques justos ou «bombardeamentos justos». As experiências históricas do Iraque, do Afeganistão e da Líbia – sim, a mesma Líbia que Netanyahu cita abertamente como modelo para a mudança de regime no Irão – atestam esta verdade com sangue.

    Manifestação em Paris, organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

     

    «A Nova Ordem do Médio Oriente»: Porque é que Israel atacou o Irão?
    A escala sem precedentes dos ataques de Israel indica que Israel está a tentar conseguir uma mudança de regime em grande escala – ou o colapso do regime. Não podemos descartar a Operação «Leão em Ascensão» como uma mera extensão da hostilidade de longa data entre os dois Estados. Está enraizada num processo regional mais vasto que teve início a 7 de Outubro com um golpe no chamado «Eixo da Resistência» e que atingiu agora profundamente o núcleo das estruturas de poder de Teerão.

    O ataque de Israel à República Islâmica marca o último capítulo de uma transformação mais vasta da geopolítica e da economia do Médio Oriente.

    Gaza, para Israel, não é apenas um campo de batalha – é um projetco de colonização. O ataque a Gaza é uma campanha para exterminar ou expulsar mais de dois milhões de palestinianos e transformar a costa ensanguentada na visão de Trump de uma «Riviera do Médio Oriente» – praias de luxo, casinos e uma zona de comércio livre para brancos.

    Passo a passo, Israel expulsou o Hezbollah do sul do Líbano, destruindo as suas infra-estruturas, matando comandantes e desmantelando a sua máquina de guerra. O mesmo está agora a acontecer com a IRGC. Na Síria, um regime apoiado pela Rússia, pelo Hezbollah e pelo IRGC – à custa de meio milhão de mortos e doze milhões de desalojados – desmoronou-se abruptamente perante os rebeldes apoiados pela Turquia. O corredor Xiita Teerão-Beirute, outrora uma artéria estratégica que ligava o Irão ao Mediterrâneo, tornou-se o seu calcanhar de Aquiles – a pista através da qual os aviões de guerra o atacam agora.

    Na nova ordem imposta no Médio Oriente, um bloco de poder capitalista israelo-americano está a remodelar agressivamente a região através de rotas logístico-económicas (o Corredor Índia-Médio Oriente-Europa), da normalização político-económica (os Acordos de Abraão) e do militarismo expansionista sob a forma de genocídio e anexação de Gaza [ref]A operação «Dilúvio de Al-Aqsa» de 7 de Outubro pode ser interpretada no contexto desta nova arquitectura de dominação: como uma tentativa de perturbar o projecto de normalização de Israel através dos Acordos de Abraão e de interferir com uma das rotas mais vitais do fluxo de capital transnacional – que começa na Índia, passa pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, chega a Israel e se estende daí até às costas da Grécia, no Mediterrâneo.[/ref].

    No meio da desintegração do «Eixo de Resistência», a doutrina de longa data do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica de «nem guerra nem paz» – uma estratégia de crises fabricadas e de uma calculada atitude de brinkmanship [jogo de cintura, malabarismo] – entrou em colapso. Durante anos, o regime usou confrontos limitados e controlados como arma para evitar tanto a guerra total como a paz genuína. Hoje, vê-se exposto num campo de batalha onde as regras mudaram irrevogavelmente.

    Este colapso, agravado pela perda total de legitimidade interna do regime – marcada pelas revoltas em massa de Dezembro de 2017, Novembro de 2019 e o movimento «Mulheres, Vida, Liberdade» -, constitui um golpe final. A República Islâmica já não pode gerir, adiar ou exteriorizar as suas crises. Não tem legitimidade a nível interno e não tem qualquer influência estratégica na região. É um resquício queimado numa ordem militarizada e multipolar emergente.

    Neste vórtice de sangue, os Estados Unidos – correndo contra a China e manobrando através da Rússia – esforçam-se por recuperar a sua hegemonia fracturada. Netanyahu agarra-se à guerra sem fim como bilhete para a sua sobrevivência interna. E dentro do aparelho dirigente da República Islâmica, muitos pretendem agora tornar-se eles próprios instrumentos de mudança de regime. Entretanto, o povo continua refém de uma guerra que não é sua, uma guerra que não oferece qualquer horizonte de libertação.

    Não à repetição da Líbia, Não ao massacre do verão de 1988

    Recordar o caminho percorrido desde a «bênção» da guerra Irão-Iraque para a consolidação da República Islâmica nos seus primórdios até à execução em massa de presos políticos pelo regime no Verão de 1988 é hoje tão urgente como recordar o percurso imperialista que conduziu à «Líbiazação» [ref] A «Líbiazação» refere-se a uma estratégia imperialista em que um Estado é primeiro pressionado diplomaticamente para se desarmar – muitas vezes sob o pretexto de acordos internacionais ou preocupações humanitárias -, depois sujeito a uma intervenção militar e, por fim, empurrado para o colapso do Estado e para um caos prolongado. O termo é inspirado no caso da Líbia, onde o regime de Kadhafi foi persuadido a abandonar os seus programas de armamento, mais tarde alvo de uma campanha militar liderada pela NATO, em 2011, e acabou por se desintegrar num país fragmentado e devastado pela guerra. [/ref] de toda uma sociedade.

    A história das «intervenções humanitárias» no Iraque e no Afeganistão – quer sob o pretexto de «armas de destruição maciça» ou de «crimes contra a humanidade» – tem de ser lida em conjunto com a história das lutas no Irão que, desde antes da Revolução de 1979 até hoje, deram erradamente prioridade ao anti-imperialismo acima de tudo. Do mesmo modo, a história colonial de Israel – desde a Nakba de 1948 até à traição de Nasser ao pan-arabismo em 1967 – tem de ser compreendida do ponto de vista do Sara turcomano e do Curdistão, locais de colonialismo interno.

    Durante mais de uma década, os ideólogos da «ilha de estabilidade» (o nome que os campistas deram em tempos à República Islâmica do Irão) utilizaram o medo da «síriazação» para envergonhar as lutas populares independentes e chamar o povo às urnas, vendendo a intervenção sangrenta do IRGC na Síria como uma estratégia de dissuasão para evitar a «síriazação» do Irão. Basta recordar esta história para justificar um «não» decisivo ao discurso dos campistas – um discurso que, em vez de se apoiar no poder popular organizado a partir de baixo, se inclina para a realpolitik e, em nome do anti-imperialismo, trata o inimigo do inimigo como um amigo, mesmo quando ele é igualmente mau.

    Há cerca de 45 anos, no início da Guerra Irão-Iraque, alguns grupos progressistas enveredaram pelo nacionalismo – tratando a guerra como um acontecimento «nacional». Isso só serviu para consolidar o regime autoritário islâmico. Alguns mantiveram-se silenciosos enquanto a República Islâmica usava a palavra «imperialista» para justificar a imposição do véu obrigatório às mulheres e o envio de tropas para o Curdistão; outros, embora tenham falado, não conseguiram mobilizar a opinião pública contra o inimigo interno, feito à imagem de um inimigo externo, ajudando assim a normalizar uma hierarquia centrada no homem/persa/xiita.

    Neste momento – quando a narrativa do «estado de emergência» sugere que se trata de um momento excecional e desconexo -, não há maior imperativo do que invocar uma memória histórica plural e multifacetada. Só a partir de uma memória histórica heterogénea e com várias vozes – do ponto de vista dos povos oprimidos – podemos dizer «não» ao imperialismo, ao controlo estatal baseado na guerra e ao campismo, tudo ao mesmo tempo. Ao projeto de recordar essa história estratificada – de Cabul a Gaza, através de destinos e diferenças partilhados – apelamos ao internacionalismo.

    Num mundo que oscila entre a militarização fascista e as guerras aparentemente intermináveis, o nosso caminho reside na organização activa e de massas para um cessar-fogo imediato, para a paz e para a reprodução da vida contra a máquina da morte. O nosso campo de acção não está alinhado atrás de Estados nem investido em lançar-lhes olhares esperançosos , baseia-se no cuidarmos umas das outras, na ajuda mútua e na construção de uma rede de apoio, consciência e solidariedade – desde as idosos e crianças até às marginalizadas e deficientes – como testemunhámos magnificamente na revolta Mulher, Vida, Liberdade, em que a solidariedade entre as oprimidas se tornou uma força para viver, resistir e criar.

    A transparência da informação e a consciencialização – sem reproduzir as narrativas israelitas ou da República Islâmica – devem ser os pilares desta resistência cultural e política.

    Submetermo-nos ao fatalismo e pintar um futuro apocalíptico em que tudo já acabou são formas de reproduzir a lógica da morte. Contra essa noção de futuro, o que é absolutamente urgente é moldar uma campanha de massas que vise o cessar-fogo imediato e a abertura de um horizonte de libertação:

    Mulheres, Vida, Liberdade contra a Guerra
    Berxwedana Jiyan e
    Resistência é Vida
    Palestina Livre
    Roja
    18 de junho de 2025

    Para conheceres os antecedentes do movimento Jin, Jiyan, Azadi («Mulher, Vida, Liberdade») no Irão, lê isto; para mais informações sobre a revolta que eclodiu em 2022, começa aqui.

  • O quebra-cabeças sírio que rebentou em Alepo

    O quebra-cabeças sírio que rebentou em Alepo

    Nota: Este artigo foi originalmente publicado no El Salto em 11 de dezembro. A situação atual na Síria é bastante critica e está em constante mudança. O regime Sírio caiu e o futuro da região é incerto. O projeto político no Nordeste do país está sob ameaça do Estado turco e mais uma vez a lutar ferozmente para defender o seu território e as suas comunidades. A região autogerida de Manbiji foi ocupada nos últimos dias pelas forças jiadistas patrocinadas e apoiadas pelo Estado turco. Cerca de 200 mil pessoas tiveram de fugir das suas casas na região de Shehba a norte de Alepo, onde agora as forças apoiadas pela Turquia levam a cabo uma limpeza étnica. Estas 200 mil pessoas vivem agora em condições precárias e o seu futuro é incerto. Esta situação está a criar uma grave e séria crise humana no Nordeste da Síria que não deve ser ignorada. Os bairros de maioria curda na cidade de Alepo, com cerca de 100 mil pessoas, estão cercados pelas forças do HTS/ENS e vivem sob ameaça diária. A atenção mediática novamnete dada ao conflito da Síria, que nunca terminou ao longo dos últimos treze anos de guerra civil, tem-se focado apenas nos desenvolvimentos e na voz dos chamados «rebeldes». Qualquer solução pacífica e verdadeiramente democrática para o conflito da Síria não pode acontecer sem incluir a Administração Autónoma do Nordeste da Síria e a questão curda. Daí a importância de informar sobre este conflito e os seus últimos desenvolvimentos, e também de tentar entender a proposta que a Administração Autónoma do Nordeste da Síria apresenta para a resolução deste conflito. Para isto, e para aqueles que desejem informar sobre este conflito, aconselhamos o contacto com a Plataforma de Solidariedade com os Povos do Curdistão, que é capaz de criar pontes de contacto com os atores no terreno e as organizações da Administração Autónoma do Nordeste da Síria. Podem contactar a Plataforma através do seu Instagram (@plataformacurdistao) ou e-mail (portugal4rojava@gmail.com).


    O quebra-cabeças sírio que rebentou em Alepo

    O novo cenário sírio surgiu com a intervenção implacável da Turquia, patrocinadora do Exército Nacional Sírio (ENS) e de outros grupos jiadistas que travam a guerra de Erdogan contra o povo curdo.

    A vida de Noh Muhammad Rasho brilhou durante apenas quatro meses. A sua morte, depois de a sua família ter viajado três dias do norte de Alepo para Raqqa, transformou-se numa viagem mortal. Na terça-feira, 3 de dezembro, sob um frio intenso, a pequena criança fechou os olhos para sempre, rodeada pela família.

    A família Rasho era originária da cidade de Bulbul, na zona rural de Afrin, o cantão curdo no Norte da Síria ilegalmente ocupado desde 2018 pelo ENS, apoiado pela Turquia. Os mercenários e jiadistas do ENS são os mesmos que hoje tentam romper as defesas curdas para chegar à cidade de Manbij ou invadir os bairros curdos de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh em Alepo.

    Noh e a sua família já tinham sido deslocados de Afrin pelos parceiros jiadistas do Estado turco. A agência de notícias North Press resumiu o infortúnio da família Rasho da seguinte forma: «A sua árdua viagem foi feita em condições difíceis, sem refúgio nem recursos adequados.»

    Na quarta-feira, 4 de dezembro, a Synergy/Hevdesti Association, um grupo de defesa dos direitos humanos no Nordeste da Síria, documentou a execução de Amina Hanan, uma mulher curda de quarenta anos com necessidades especiais, pelas facções do ENS quando estas tomaram o controlo da cidade de Tel Rifaat, no Norte de Alepo. A associação denunciou igualmente a detenção de muitos civis que optaram por permanecer nas suas casas na região de Shehba, outra zona crítica desde 27 de novembro, quando o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) e o ESN lançaram operações militares contra Alepo e o cantão de Shehba-Afrin.

    Por trás das mortes, das detenções e das violações dos direitos humanos cometidas por ambos os grupos está, como um marionetista implacável, Recep Tayyip Erdogan.

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    O que está a acontecer atualmente na Síria era de esperar e tem que ver com a forte interferência da Turquia através de grupos jiadistas e mercenários. A situação na província de Idlib, controlada pelo HTS, e em áreas de Rojava — como Afrin, Serekaniye e Al Bab — também ocupadas ilegalmente pelo ENS, foram o terreno fértil para esta nova implosão no país.

    Nem as exigências do extinto regime sírio para que a Turquia se retire das regiões que ocupa com grupos proxies, nem as exigências da Administração Democrática Autónoma do Norte e Leste da Síria (ADANLS) — encabeçada pelos curdos, mas na qual participam arménios, assírios, turcomanos e outras nacionalidades — para que o Estado turco devolva as terras ocupadas e pare com os bombardeamentos quase diários da região, foram ouvidas em pormenor pelas potências internacionais ou por organismos como a ONU.

    Dar à Turquia carta branca para organizar, financiar e apoiar grupos como o ENS tem consequências muito graves, como estamos a ver agora.

    Curdo
    O bairro Curdo Sheikh Massoud em Alepo, Siria, 2022. Fotografia de Mauricio Centurión.

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    O Centro de Informação de Rojava (RIC) publicou na semana passada um relatório sobre a situação no Norte da Síria. O RIC, que está sediado na região, apresentou um panorama pormenorizado dos últimos acontecimentos:

    — Nas regiões da ADANLS há «uma escassez crítica de bens essenciais, alimentos, água, medicamentos e abrigos para os deslocados».

    — Foi confimado que, em apenas alguns dias, o ENS cometeu «ataques, roubos, detenções e extorsões contra civis curdos que ainda se encontravam em Shehba ou que tentavam sair».

    — O Crescente Vermelho Curdo apelou a que fossem feitos donativos tendo em conta a grave situação humana.

    — O ENS apoderou-se de casas de civis curdos nas aldeias e cidades em que entrou, e revistou e confiscou os pertences dos aldeões curdos que regressavam a Afrin.

    — De acordo com o RIC, «prosseguem as negociações das Forças Democráticas Sírias (SDF) e da ADANLS com o HTS. Os representantes das SDF afirmam que os habitantes decidirão se querem sair ou ficar» nas zonas ocupadas ou atacadas.

    — Registou-se um ataque de um avião não tripulado turco a um carro perto da estação de autocarros na cidade de Derik que matou dois civis e feriu outros dois. «Este é o segundo ataque turco com aviões não tripulados no Nordeste da Síria na última semana, após o ataque de há três dias em que Aziz Sheikho, de 20 anos, foi morto. Foi atingido quando conduzia na estrada entre Qamishlo e Heseke», informou o RIC.
    O governo turco sempre afirmou publicamente que um dos seus principais objetivos na Síria era acabar com a experiência política, social e democrática da ADANLS.

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    O governo turco sempre afirmou publicamente que um dos seus principais objetivos na Síria era acabar com a experiência política, social e democrática da ADANL

    O avanço do HTS e do ENS sobre Alepo e a sua subsequente conquista de Damasco estão ligados, primeiramente, aos planos turcos de expansão territorial. Também a crescente instabilidade no Médio Oriente, com o genocídio que Israel comete em Gaza e no Líbano. Neste contexto, a Turquia está a tornar-se cada vez mais pragmática e feroz. O governo do presidente Erdogan está a tentar, por todos os meios, posicionar a Turquia como um fator de desestabilização no Médio Oriente.

    O governo turco sempre afirmou publicamente que um dos seus principais objetivos na Síria era acabar com a experiência política, social e democrática da ADANLS. Na ideologia de Erdogan e dos seus ministros, é inconcebível que o povo curdo consiga criar regiões autónomas e autogovernadas. Ao mesmo tempo, há pelo menos um mês que o governo turco intervém ilegalmente nos municípios que o partido pró-curdo Igualdade e Democracia (DEM) venceu nas eleições de março passado. O governo interveio em municípios importantes, como a cidade de Dersim, enviando forças de segurança, expulsando os presidentes de câmara e de assembleias municipais e nomeando funcionários estatais, em violação das leis nacionais e internacionais. Face a esta situação, o povo curdo da Turquia mobiliza-se contra estas medidas ditatoriais.

    Erdogan tem duas linhas muito claras: crescer como potência e expandir-se territorialmente, e resolver as suas crises internas com mais repressão, muitas vezes desencadeando operações militares contra as regiões curdas.

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    O HTS é uma cisão da Al Qaeda, que partilha a ideologia deste grupo terrorista. O ENS é semelhante, com apoio aberto da Turquia, e envolve muitos antigos membros do Estado Islâmico (ISIS ou Daesh). Nos últimos dias, foram vistos vídeos de mercenários do ENS a usar emblemas negros com o símbolo do Daesh nos seus uniformes militares.

    Após a tomada de Alepo, o HTS emitiu uma declaração afirmando que respeitaria os direitos do povo curdo e das minorias religiosas da região. Confiar nestas palavras é colocar a vida das comunidades sob a ameaça de um escorpião. Embora a maior parte dos meios de comunicação social os descreva como «rebeldes», os antecedentes do HTS e do ENS mostram-nos como mercenários que cometem crimes impiedosos. Nestes dois grupos existe algo semelhante ao que aconteceu quando os talibãs tomaram o poder no Afeganistão em 2021: uma urgência em «limpar» os registos das forças responsáveis pelas mais diferentes violações dos direitos humanos.

    Se os grupos ligados à Turquia consolidarem novos territórios sob o seu controlo, assistiremos ao que se vê nas zonas ilegalmente ocupadas por grupos apoiados por Ancara no Curdistão sírio (Rojava): repressão, raptos de civis, violações dos direitos humanos, retrocesso dos direitos conquistados, pilhagem de casas. Em regiões ocupadas como Afrin, sob controlo do ENS desde 2018, a lira turca foi implementada como a moeda oficial, falar curdo foi proibido, o sistema educativo implementado é em turco e com o seu plano de estudos, e em todo o lado há imagens e cartazes com a figura de Erdogan.

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    O governo de Damasco nunca teve a intenção de ouvir os apelos da ADANLS para uma resolução pacífica e democrática da crise síria.

    A queda do exilado Bashar al-Assad ocorreu num contexto em que os seus principais aliados, a Rússia e o Irão, estão concentrados noutras guerras, como a da Ucrânia e a invasão de Gaza por Israel. O HTS ou o ENS fomentam o ódio étnico contra os curdos, razão pela qual os apelidam de «porcos de Qandil», em referência às montanhas do Curdistão iraquiano onde as guerrilhas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) têm as suas bases.

    Há já algum tempo que existiam diálogos de baixo e médio nível entre a Síria e a Turquia, com o objetivo de restabelecer relações. Bashar al-Assad exigia que a Turquia se retirasse dos territórios que ocupa; Erdogan recusou sempre. O governo de Damasco nunca teve a intenção de ouvir os apelos da ADANLS para uma resolução pacífica e democrática da crise síria. Simultaneamente, o Estado turco demonstrou um pragmatismo grosseiro a nível internacional: ora aliado dos Estados Unidos, ora parceiro «fundamental» da Rússia. No caso da União Europeia (UE), além das intenções turcas de aderir ao bloco, Ancara recebe milhares de milhões de euros para funcionar como barreira para impedir que migrantes cheguem ao continente europeu.

    A Turquia também tem poder económico e militar: vende armas a quem as quer, sem grandes considerações. Apesar de ser o segundo maior exército da OTAN, a Turquia de Erdogan quer apresentar-se como apoiante da causa palestiniana ou como um polo anti-imperialista. Isso é, sem dúvida, uma fachada. Apesar das declarações públicas de Erdogan sobre o genocídio na Faixa de Gaza, Ancara mantém relações comerciais estreitas com Israel.

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    Um dos principais objectivos do ENS é ocupar os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Alepo, onde vive uma maioria curda. Ambos os bairros têm uma população estimada em 100 mil pessoas. Até agora, o que está a acontecer em ambos os locais é contraditório: obter informações actualizadas não é fácil. Algumas fontes indicam que a vida continua numa tensa normalidade; outras dizem que os bairros já estão sob o controlo do HTS e do ENS.

    Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh tornaram-se uma ilha depois de 2012, quando a população do Norte da Síria, liderada por organizações político-militares curdas, declarou a autonomia da região. Nestes bairros, existem governos autónomos sob o paradigma do confederalismo democrático, teorizado pelo líder curdo Abdullah Öcalan — preso desde 1999 na ilha-prisão de Imrali, na Turquia — e promovido pelo Movimento pela Libertação do Curdistão.

    Em Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, existem assembleias de bairro, o conceito de libertação das mulheres é aplicado e, com o tempo, tornaram-se locais seguros para os deslocados internos. Nos últimos anos, os dois bairros não têm estado isentos do assédio do HTS e do ENS e do governo de Damasco. O regime de Assad — tal como a Turquia de Erdogan — não concebe a proposta de democratização e autonomia apresentada pelos povos do Nordeste da Síria. Até agora, a convergência entre os dois regimes foi sempre esta: o enfraquecimento da experiência social e política conduzida pela ADANLS. Em Assad e Erdogan, o pensamento do Estado nacional que nega o outro permanece inalterado.

    No início desta semana, a Administração Autónoma tinha recebido 100 mil pessoas deslocadas de Alepo e do cantão de Afrin-Shehba.

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    As SDF afirmaram que, ao mesmo tempo que defenderão os seus territórios, irão deslocar a maior parte possível da população para zonas seguras. Não há números concretos, mas estima-se que entre 200 mil e 400 mil pessoas possam estar a ir das áreas de Alepo controladas pelas SDF para as regiões da ADANLS. Até ao início da semana, a Administração Autónoma tinha recebido 100 mil pessoas deslocadas de Alepo e do cantão de Afrin-Shehba. A chegada destes refugiados foi tortuosa: o ENS perseguiu-os e atacou-os, cortou as estradas para que não pudessem deslocar-se, ao que se somou um clima extremamente frio. Os refugiados foram colocados em centros de acolhimento nas cidades de Tabqa e Raqqa e em localidades dos cantões do Eufrates e Cizre.

    O chefe do Departamento de Migração da ADANLS, Şêxmûs Ehmed, disse à agência de notícias ANHA que é urgente «coordenar com a ONU a criação de campos especiais». Embora tenha afirmado que a situação é «trágica», observou que muitos habitantes da ADANLS abriram as suas casas para acolher os refugiados ou juntaram-se ao trabalho de ajuda humanitária nas escolas criadas para as pessoas deslocadas.

    A cidade de Shehba, habitada por curdos e árabes deslocados pela guerra, 2022. Fotografia de Mauricio Centurión.

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    No domingo passado, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, reconheceu o que o seu chefe, o presidente Erdogan, tinha confirmado alguns dias antes: que a interferência da Turquia na Síria foi fundamental para a queda do regime.

    Fidan, um negociador experiente dos bastidores dos serviços secretos turcos, afirmou que os grupos que compõem o HTS e o ENS devem unir-se e «trabalhar de forma ordenada para que haja um bom período de transição, que acabe por incluir todas as partes dentro da Síria».

    Embora o ministro dos Negócios Estrangeiros turco tenha assegurado que o seu governo procura preservar a integridade territorial da Síria, a realidade é diferente: as zonas ocupadas por Ancara estão a sofrer um intenso processo de «turquificação» há anos.

    Mas o mais importante para o Estado turco é repelir a influência curda, razão pela qual Fidan voltou a comparar o ISIS às SDF, que associou ao PKK. «Estamos atentods para garantir que o Daesh e o PKK não se aproveitem desta situação», alertou.

    Numa altura em que o Governo turco afia as presas para devorar uma parte da Síria, na semana passada, o partido DEM, o Partido das Regiões Democráticas (DBP, também pró-curdo), e o Movimento das Mulheres Livres (TJA) encabeçaram uma manifestação na fronteira do distrito de Suruç, em Urfa, que faz fronteira com a cidade histórica de Kobane, em Rojava. A ação teve como objetivo protestar contra o que está a acontecer na região curda da Síria e mostrar solidariedade com a população da ADANLS.

    Num discurso proferido no local, a copresidente do partido DEM, Tülay Hatimoğulları, declarou que a luta do povo curdo continuará até que «a paz, a tranquilidade e a fraternidade entre os povos» sejam estabelecidas na região. A dirigente manifestou que «já vimos este filme antes» e recordou que a guerra na Síria começou em 2011, «o ISIS e as suas ramificações, que foram praticamente criadas por potências estrangeiras, foram implantadas na Síria». «As organizações derivadas do ISIS mudaram agora o seu nome para HTS ou Exército Nacional Sírio», denunciou a integrante do partido DEM. «Todas elas provêm da mesma fonte, do mesmo poder.»

    Esse poder de que fala Hatimoğulları reside no Palácio Branco, em Ancara, onde o presidente Erdogan sonha constantemente em tornar-se o líder de um império otomano do século xxi.

     


    Legenda da fotografia [em destaque]: Fotografia de arquivo de um jovem a correr nas ruas destruídas de Sheeba. Uma das cidades sob ataque na actual guerra siría. Fotografia de  Mauricio Centurión

  • Natal no Nordeste da Síria

    Natal no Nordeste da Síria

    Qamislho, nordeste do Curdistão dia de natal. Perto da hora de almoço começaram a bombardear por detrás do local onde jornalistas se reuniam, obrigando a uma saída apressada levando computadores, discos externos e os materiais essenciais para conseguirmos continuar a trabalhar. Um pequeno ponto branco no céu olhava ao resultado dos 4 ou 5 bombardeamentos que fizera nos últimos 10 minutos: um drone de guerra Turco.

    A caminho do nosso novo local de trabalho, numa caminhada de 15 minutos ouvimos mais explosões ao longe e outras a menos de 1 km. Olhando na direção da fronteira Turca viam-se os rastos no céu deixados pelos aviões de guerra Turcos e, olhando com atenção, sim, lá estava um voando ao longo da fronteira, certamente esperando pelas coordenadas do próximo bombardeamento. Ao longo de todo o dia, até ao inicio da noite de 25, a cidade de Qamishlo foi alvo de dezenas de bombardeamentos. O trabalho intenso de tentar acompanhar as noticias e de ir atualizando a situação, de alguma forma serviu para acalmar o stress que a situação provocava. A noite terminaria com mais e intensos bombardeamentos.

    Num intervalo do trabalho, para poder respirar um pouco de todo o stress da situação, fiz uma caminhada em volta do bairro. Ao cruzar numa rua, um clarão de luz no céu em frente seguindo de um grande “bang”. Em apenas 20 minutos de caminhada pelo menos quatro explosões. Ao regressar a casa, depois de me sentar na secretária e ter começado de novo a trabalhar, ouve-se o som de algo rápido a voar seguido por uma forte explosão. Pelo fumo que se via do quintal percebeu-se ter sido no bairro em frente ao nosso, não menos que um 1 km.

    Todos estes ataques, assim como durante a tarde do dia 24, tiveram apenas como alvo infraestruturas civis. De acordo com o Rojava Information Center “18 diferentes infra estruturas civis com 32 ataques aéreos”. Estamos a falar desde a estação de serviço, à estação de petróleo, até à simples fábrica onde empacotam as lentilhas produzidas na região… Num dos ataques de dia 25 numa tipografia onde se imprimiam os livros para as escolas 4 pessoas foram mortas. No final do dia de 25 os números de vitimas mortais era de 8 com a certeza de vir a aumentar uma vez que dos 11 feridos alguns ficaram em estado grave. Uma clínica, antes gerida pelos Médicos Sem Fronteiras e agora pelo Crescente Vermelho Curdo, na cidade de Kobanê é também bombardeada e completamente destruída.

    Esta nova vaga de ataques volta a ser uma repetição dos 5 dias de intensos ataques ocorridos em Outubro passado pelo estado Turco à região e que também visou infraestruturas civis, tendo resultado em 48 pessoas mortas.

    No dia seguinte, apesar da noite longa a manter-me atualizado dos acontecimentos, acordei cedo. Tinha lugar o funeral de 6 das pessoas que morreram nos ataques de ontem. Ao chegar ao cemitério ainda as pessoas se juntavam. Um sistema de som e mais jornalistas já se encontravam no local preparados para a grande cerimónia que se previa. Enquanto se esperava pelos corpos das vitimas chegarem as pessoas caminhavam entre as milhares de sepulturas. 2012, 2014… as datas vão até a uns meses atrás. Muitos deles morreram a combater o Estado Islâmico, uns nos primeiros combates de 2012, outros vitimas das agressões do Estado Turco. Todos acabaram por morrer vitimas desta guerra e a defender aquilo que tem vindo a ser construído no Nordeste da Síria desde 2012.

    Essa unidade é algo que se via na expressão das pessoas que se caminhavam entre as campas, nas famílias que visitavam os seus filhos ou filhas ali enterradas. Nas diferentes mães a chorar as suas crianças. Se lhe é dada a possibilidade de dizer umas breves palavras do que sentem, rebentam num discurso de arrepiar: de como essa dor não vai ser o que nos fará parar, que não vai quebrar a vontade de lutar e defender a nossa terra. Há tristeza nas lágrimas destas mães, mas também há orgulho.

    A cerimónia começa e são milhares de pessoas por essa altura. Um claro sinal de unidade entre o povo de Qamishlo que acabara de ver a sua cidade ser atacada brutalmente, reunidas num luto e raiva coletiva. Desafiam o terror que a Turquia lhes tenta impor ao se juntarem aos milhares para celebrar e se despedirem das 6 pessoas mortas na véspera.

    Ao lado do cemitério estão dois armazéns bombardeados várias vezes. O cheiro do fumo do extinto incêndio, que deflagrara nesses armazéns, enche o ar onde se enterram agora as vitimas dos ataques. O ambiente é pesado. Os caixões são colocados na terra e centenas de pessoas rodeiam-nos. Ouvem-se os choros e lamentos da irmã de uma das vitimas, enquanto que ao mesmo tempo outras pessoas cobrem o caixão com blocos de cimento e terra. Afastadas um pouco do local um grupo de mulheres mais velhas choram. Gritam lamentos e rogam pragas à Turquia pela dor que lhes causaram.

    Estes ataques são o seguimento de uma política de guerra de baixa intensidade que a Turquia tem levado a cabo desde a sua última invasão em 2019. Desde então estas campanhas de ataques aéreos têm tomado como vitimas centenas de pessoas e resultando em danos às infraestruturas civis, agravando ainda mais a situação de crise humanitária que se vive no Nordeste da Síria. As políticas do governo de Erdogan são as mesmas do estado Israelita. São políticas de genocídio, de limpeza étnica e de ocupação.

     


    Texto de  DM
    Fotografias de  Rojava Information Center / RIC

     

  • Novo ataque da Turquia sobre os povos no nordeste da Síria

    Novo ataque da Turquia sobre os povos no nordeste da Síria

    Em todo o Norte e Leste da Síria, sob controlo curdo, desde o dia 5 de outubro que se sucedem uma serie de ataques aéreos turcos que visam infra-estruturas de fornecimento de electricidade, água e outras infra-estruturas humanitárias básicas, a par das instalações petrolíferas e estabelecimentos económicos da região.

    No dia 5 de Outubro acordamos com as notícias de mais um bombardeamento por um drone da Força Aérea Turca a uma central eléctrica na cidade de Qamishlo. Nas horas seguintes começamos a ter dificuldade em acompanhar as notícias: «Explosão no campo de refugiados de Washokani em Heseke»; «Depósitos de petróleo alvos de um ataque de drone»; «carro atingido por míssil»; «barragem bombardeada perto de Cil Axa». As notícias de ataques não parecem parar. Esta não é a primeira vez que o Estado Turco leva a cabo campanhas destas tendo como alvo infra-estruturas essenciais à população civil. Em Novembro de 2022, durante 7 dias realizou uma campanha semelhante. Estes ataques provocam danos óbvios na vida diária da população com milhares de pessoas sem acesso a água e electricidade.

    Rojava

    No dia 5 viajamos para a cidade de Qamishlo. Já de noite chegamos à cidade fronteiriça e logo na primeira rotunda da cidade somos abrandados por um trânsito não muito normal para aquelas horas da noite. Rapidamente nos damos conta que uns minutos antes ocorrera mais um bombardeamento ao final de uma avenida à nossa direita. Aí conseguimos ver o fogo que deflagrava num edifício que mais tarde vimos a saber tratar-se de uma fábrica de alimentos para gado.

    As notícias nos dias seguintes não abrandam no seu ritmo. Em Dêrik, o hospital para doentes de Covid-19 é bombardeado e outras tantas estações de água e furos de petróleo são destruídos. Após almoço ouvimos uma explosão. A central de electricidade do norte da cidade acaba de ser bombardeada, mais uma vez, destruindo assim o último transformador ainda funcional. Não haverá electricidade em grande parte da cidade.

    RojavaNestes 4 dias de bombardeamentos – que ocorreram desde as regiões de Afrin e Sheba a Oeste e Dêrik a Este – cerca de 42 locais foram alvo do Estado Turco, a grande maioria infraestruturas civis com um total de 17 vítimas mortais e muitas outras feridas. O impacto destes ataques ainda está em avaliação pela Administração Autónoma do Norte e Este da Síria (AANES), mas é possível desde já concluir que os custos a longo prazo serão bastantes para a região e para os distintos povos que aqui coabitam. O Nordeste da Síria tem sobrevivido durante os 11 anos da revolução sob um embargo económico que afecta a população na sua vida diária. Para além dos altos custos que se podem esperar para a reparação ou a compra de novas peças, devido ao embargo muitos destes materiais essenciais para a recuperação destas infra-estruturas estão impossibilitados de aqui chegarem.

    Apesar dos esforços que a AANES tem feito nos últimos anos para aliviar a crise económica que a Síria enfrenta num geral, as dificuldades são bastante sentidas. Os ataques do Estado Turco, acima de tudo criam um ambiente de insegurança crescente que tem vindo a provocar, em particular nos últimos 4 anos, um maior êxodo das pessoas para a Europa. Uma grande migração de jovens e uma dependência daqueles que ficam de dinheiro que vem de fora.

    Cratera de 3m de profundidade onde antes se encontrava um dos edifícios do Hospital Covid-19 de Dêrik. 

    A onda de ataques prossegue e é difícil prever quando irá terminar. O sentimento que podemos constatar é de que realmente esta não terá sido a última vez e que estes ataques vão continuar. No dia-a-dia e neste momento procuram-se soluções para novos obstáculos que se criaram. Nas aldeias e bairros de cidades postos às escuras, a vida diária das pessoas em Rojava continua resistindo, uma e uma vez mais, para ultrapassar um quotidiano de problemas.

     


    Texto de  MD [ref] A partir de Rojava, 08/09/2023[/ref] 
    Fotografias do  RIC – Rojava Information Center [rojavainformationcenter.org]

  • Reflexões e contrapontos subjectivos após uma década de revolução em Rojava

    Reflexões e contrapontos subjectivos após uma década de revolução em Rojava

    A 19 de Julho de 2012, a autonomia foi declarada na cidade de Kobane, uma data histórica para o processo revolucionário de transformação no nordeste da Síria. Esta década de resistência e de construção de autonomia oferece-nos experiências valiosas, das quais podemos aprender lições importantes. E, sobretudo, deixa também profundas mudanças e transformações pessoais naqueles que, de entre nós, decidiram fazer parte da revolução.

    Celebrar uma década de revolução não é algo que acontece frequentemente, e as revoluções que se podem continuar a chamar assim ao fim de 10 anos são ainda menos. A história deixou-nos inúmeros exemplos de lutas armadas e mobilizações sociais em massa que acabaram por ser corrompidas ou cooptadas por forças externas ao fim de poucos anos. Mas Rojava está a conseguir não só sobreviver, mas também aprofundar a construção da autonomia democrática, com as suas dificuldades, mas também com autocrítica, a fim de avaliar e continuar a melhorar. Existem, sem dúvida, contradições e deficiências, onde os que querem denegrir este difícil processo de transformação social encontrarão razões úteis para o fazer. Para mim, o que vi e aprendi aqui condicionam a forma como vejo as coisas. Em parte devido a tudo o que aprendi aqui, em parte devido aos laços emocionais e vivenciais criados com estas terras e com as pessoas que nelas habitam. Esta não é, portanto, uma visão neutra, objectiva e estéril. É a opinião de alguém que, procurando aprender e compreender a partir de uma perspectiva de solidariedade crítica, toma partido no conflito

    Os que, de entre nós, embarcaram nesta viagem para experimentar a revolução a partir do interior encontram frequentemente inspiração e semelhanças com a revolução [Espanhola] de 1936, que também teve início a 19 de Julho. Lembro com certa nostalgia os debates com o meu amigo Joan, que estava a ler “Homenagem à Catalunha” nos primeiros meses da nossa chegada, quando nos deparávamos no nosso quotidiano com situações semelhantes às descritas por Orwell no seu livro. Isto levou-nos a pensar que há dinâmicas semelhantes que tendem a ocorrer em processos revolucionários, e isto é provavelmente verdade. Frantz Fanon menciona, no seu livro “The Damned of the Earth”, a conhecida citação «os últimos devem ser os primeiros» para resumir o processo de descolonização. Imagino que esta frase possa ser aplicada a todos os movimentos oprimidos e marginalizados que aspiram à revolução. É nestes processos de empoderamento, quando os que estão à margem da sociedade lutam pelo seu legítimo lugar nela, que as dinâmicas e processos se desenrolam e se repetem, ressoando uma e outra vez ao longo da história.

    O internacionalismo no século XXI e o eco das brigadas internacionais

    Quando pus os pés pela primeira vez em Rojava, há pouco mais de cinco anos, o tempo da YPG [Yekîneyên Parastina Gel – Unidades de Defesa Popular] como milícias populares – de moradoras e moradores com kalashnikovs na mão, defendendo as suas casas e terras – estava a desvanecer-se lentamente. A chamada Coligação Internacional contra o ISIS, liderada pelos EUA, não só trouxe a contradição de colaborar com a principal potência imperialista mundial, como também trouxe a reorganização destas milícias no que veio a chamar-se Forças Democráticas Sírias [Syrian Democratic Forces – SDF]. Esta reestruturação militar, que serviu para aumentar o número de combatentes, melhorar o seu armamento e a sua legitimidade, faz lembrar o que aconteceu com as milícias populares de 1936, no nosso caso a pedido da influência soviética.

    Mas em Rojava não há nenhuma KomIntern a puxar os cordelinhos, coordenando, a partir de Paris, a transferência de dezenas de milhares de militantes. Não existe uma terceira internacional, com dezenas de partidos socialistas afiliados, e com a capacidade de enviar armas e brigadas inteiras prontas a combater. Os que, de nós, viajam para Rojava fazem-no sobretudo como indivíduos, por vezes em pequenos grupos, deixando as suas casas para trás para se juntarem à revolução. Os nossos números estão longe das dezenas de milhares que, há quase um século atrás, viajaram para Espanha para combater o fascismo. Mas isso não nos impede de estudar e traçar paralelismos entre o que a guerra em Espanha significava então e o que a guerra na Síria, e em Rojava em particular, significa hoje.

    Em 2017 as SDF, num esforço combinado entre o povo curdo e o povo árabe, provavam a sua eficácia ao libertar Manbij e depois Raqqa – a capital de facto do Estado Islâmico na Síria. A guerra forjou alianças que permitiram à administração autónoma, até então predominantemente curda, expandir-se para além das suas áreas de influência tradicionais. Esta mudança estratégica estava de acordo com o paradigma internacionalista do movimento, procurando unir forças democráticas para além das identidades nacionais, trabalhando com os diferentes povos num projecto democrático comum para a Síria e para o Médio Oriente. Mais importante do que acolher os que, proclamando-se internacionalistas, viajaram da Europa ou América para o Curdistão, a maior realização do internacionalismo em Rojava é provavelmente este trabalho de unir diferentes povos e etnias para além de sectarismos e de conflitos.

    Os «ocidentais» são confrontados com grandes contradições quando se trata de compreender a complexa dinâmica inter-étnica no Médio Oriente. Há apenas um século, o colonialismo europeu explorou essa grande diversidade em seu proveito, instigando conflitos e guerras entre diferentes grupos para estabelecer a sua hegemonia colonial. Trazemos assim connosco esta responsabilidade acrescida, pois algumas das riquezas e privilégios que temos são herança da colonização e da exploração dos povos que agora nos ensinam o que significa fazer uma revolução. E devo dizer, não sem alguma vergonha, que as pessoas aqui não nos guardam rancor. Pelo contrário, acolhem-nos de braços abertos e mostram-nos pacientemente o que estão a construir, esperando que esta experiência nos ajude a espalhar a sua revolução (que é também a nossa) para além das suas terras. Que possamos trazer a revolução para as nossas casas.

    Mas depois, quando vamos para casa e tentamos pôr em prática o que aprendemos, rapidamente nos damos conta de que não vai ser uma tarefa fácil. Que a revolução em Rojava é o resultado de uma longa lista de factores, o mais relevante dos quais são as décadas de trabalho prévio de construção de um amplo movimento revolucionário. Quando os hevals nos perguntam sobre organizações revolucionárias nas nossas terras, não é fácil de responder. Tenho-me visto muitas vezes a fugir à questão com evasivas, falando sobre como é difícil viver na modernidade capitalista, sobre o individualismo que prevalece no Ocidente, sobre o oportunismo e a falta de empenho dos que se dizem militantes ou activistas. Ao fim de anos a dar este tipo de respostas, começo a pensar que, na realidade, são apenas desculpas, e que a única forma de realmente responder a estas questões é aceitar a realidade que estamos a viver: o colapso das ideias revolucionárias perante o capitalismo global no Ocidente. A aceitação desta realidade deve ser acompanhada pela vontade de a mudar, pelo compromisso de semear sementes que permitirão às próximas gerações transformar a sociedade sem ter de começar do zero.

    Mas enquanto estas aprendizagens e reflexões me inundavam, com a ilusão e o fascínio de fazer parte de uma revolução que está a vencer – dobrando o terror do Estado islâmico – uma nova guerra deu lugar a uma nova etapa. O Estado turco, um importante aliado e apoiante do Daesh, não podia tolerar que o projecto revolucionário ganhasse o controlo total da fronteira e, em Janeiro de 2018, teve início a primeira agressão directa do Estado turco contra Rojava. A invasão de Afrin.

    Uma nova guerra, uma nova era

    As SDF, acostumadas, nesses tempos, à guerra contra o Daesh, vêem-se subitamente confrontadas com um inimigo que tem todo o arsenal da NATO ao seu serviço. Os aviões de combate turcos bombardeiam incansavelmente posições defensivas, os drones armados com visão térmica e os mísseis guiados «neutralizam», a quilómetros de altura, qualquer elemento que possa impedir o seu avanço. A guerra muda, e a resistência ao inimigo também tem de mudar. Os aviões turcos nunca tinham bombardeado Rojava com esta intensidade antes, mas esta não era uma nova guerra para o povo curdo, pois é uma guerra que tem sido travada nas montanhas do Curdistão há mais de quatro décadas. Para os guerrilheiros do movimento de libertação que defendem os picos da cordilheira de Zagros-Tauros, os F-16 turcos são o pão nosso de cada dia. Infelizmente, transmitir estes conhecimentos e preparar os que lutam nesta nova frente é uma tarefa que não pode ser feita de um dia para o outro.

    Não são apenas os militares que sofrem as consequências da guerra, mas também a população civil, que perde as suas casas, quando, mais uma vez, vê a guerra a bater às suas portas. Lembro-me da história que a Fatma me contou em Ashrafia, um bairro na periferia da cidade de Afrin. A Fatma tinha chegado à cidade algumas semanas antes, partilhando um pequeno apartamento meio construído com duas outras famílias que, como ela, tinham tido de fugir das bombas turcas. Num árabe ainda incompreensível para mim, uma epopeia errante de mais de cinco anos de êxodo foi narrado diante de mim.

    Fatma nasceu e foi criada em Aleppo. Quando a chamada Primavera Árabe começou, em 2011, juntou-se aos protestos, na esperança de um futuro melhor. Com a escalada do conflito militar, os constantes bombardeamentos da força aérea síria levaram-na a refugiar-se na cidade vizinha de Manbij, uma vez que os movimentos de oposição ao regime tinham tomado o controlo da cidade em 2012. Infelizmente, não pôde lá passar muito tempo, pois, em 2014, o avanço da barbárie do Estado Islâmico levou-a uma vez mais a procurar refúgio noutras terras. Foi assim que ela e as suas 3 filhas e 2 filhos chegaram à região de Bilbile, uma pequena cidade a norte de Afrin. Pouco mais de 3 anos depois, os aviões turcos começaram a bombardear a área à volta da sua casa e ela teve de fugir novamente, procurando refúgio na cidade de Afrin. Na altura, a cidade estava sitiada pelo avanço de grupos islâmicos apoiados pela Turquia. Após uma resistência épica de dois meses, a cidade de Afrin teve de ser evacuada, deixando mais de 1 milhão de pessoas desalojadas. Novos campos de refugiados, construídos à pressa e quase sem apoio internacional, convertem-se no lar improvisado de milhares de famílias que fogem da frente de guerra, incluindo a de Fatma.

    Ver os bombardeamentos em Afrin, testemunhar a cidade sitiada por bombas inimigas, fez-me lembrar as histórias que a minha avó me contou quando, sendo ela criança, era a nossa cidade que estava sob bombardeamento. Histórias de como o seu pai, o meu bisavô, a escondeu a ela e à sua mãe, irmãs e irmãos entre dois colchões, na esperança de que, se as bombas caíssem por perto, aqueles cobertores de fios fariam algum tipo de milagre. Quando a ouvia, não percebia o que um par de colchões de lã podia fazer face a bombas ou ao colapso de edifícios, mas foi em Afrin que consegui dar sentido a essa história.

    Quando as bombas caem não se pode sentir nada mais do que impotência, angústia, medo de que alguma caia demasiado perto. Uma forma de combater esta sensação esmagadora de impotência é encontrar algo útil para fazer; sentir que, apesar das circunstâncias, ainda há um vislumbre de espírito na tua existência. Procurar abrigo debaixo de uma mesa, proteger os entes queridos entre dois colchões, pegar na câmara e filmar numa direção aleatória, são formas de se sentir que se tem algum controlo sobre a situação, que se existe e que há coisas que se podem fazer para além de se afogar em pânico e incerteza.

    Quando a excepção se torna a regra

    Menos de dois anos depois da ocupação de Afrin, o exército turco e outros grupos islâmicos voltavam a atacar. As cidades de Serekaniye e Gire Spi foram o centro das atenções na segunda invasão, assim como as cidades e aldeias à sua volta. Til Temir e Ain Issa também acabaram a poucos quilómetros da linha da frente, sofrendo as pesadas consequências da ambiciosa guerra de Erdogan. O povo de Rojava, ainda em choque com a perda de Afrin, teve de aceitar mais uma derrota militar; juntamente com a realidade desoladora de milhares de famílias, mais uma vez amontoadas em campos de refugiados depois de perderem as suas casas. A guerra contra o Daesh, apesar do esforço duro e sangrento que implicava, tinha sido uma fonte de esperança para a construção de um mundo melhor. Mas esta guerra era diferente, e não era nada fácil encontrar esperança perante o «Golias» dos brilhantes caças e sibilinos drones armados. Esta ansiedade também podia ser sentida na sociedade, o que, juntamente com o cansaço da pobreza e a escassez causada pelo embargo económico, tornava a vida quotidiana difícil para uma população exausta após quase 10 anos de guerra.

    Tinham lugar importantes avanços sociais, mas também importantes desafios com os quais ainda hoje nos debatemos. O ensino da língua curda, as comunas de bairro, as bandeiras YPG/YPJ nas praças e postos de segurança já não eram uma novidade. Eram o novo normal nos territórios libertados e, após anos de funcionamento, já não geravam a esperança que evocavam nos primeiros tempos da revolução. As manifestações espontâneas que celebravam a revolução eram cada vez menos frequentes. As cooperativas não se revelaram instituições mágicas que resolviam milagrosamente os problemas económicos, mas simplesmente espaços de trabalho horizontal e de produção que requerem esforço para funcionar. Os conselhos de justiça popular não puseram fim ao crime e ao roubo, mas contribuem para a construção de um modelo menos punitivo e mais restaurativo. A vitória contra o Estado Islâmico não pôs fim ao ódio fanático e aos ataques salafistas, mas reduziu-os grandemente após a sua derrota no campo de batalha, impedindo o fascismo teocrático de se estabelecer como uma força hegemónica. A consolidação de instituições populares e democráticas, com reconhecimento e legitimidade tanto para quem vive no nordeste da Síria como para algumas forças externas, tem permitido, entre muitas outras coisas, que milhares de deslocados internos sejam acolhidos e integrados de uma forma admirável. E não estamos a falar apenas daqueles que perderam as suas casas na guerra contra Daesh ou nos territórios ocupados pela Turquia, mas também de famílias de outras regiões da Síria, territórios sob a autoridade do governo de Bashar al-Assad que fogem em busca de uma vida melhor, e que encontraram refúgio nos territórios da Administração Autónoma.

    Os ganhos obtidos têm de ser cuidadosamente defendidos, uma vez que os inimigos da revolução têm a sua própria agenda. A Turquia tem vindo a reinstalar os seus mercenários nos territórios ocupados há anos, acolhendo diferentes grupos islâmicos, incluindo comandantes do Daesh. Diferentes grupos islamistas continuam a organizar ataques e, embora os seus planos sejam frequentemente minados, nem sempre são interrompidos a tempo. Há apenas meio ano, em Janeiro de 2022, os combates em grande escala regressaram à cidade de Haseke, quando centenas de ex-combatentes do Daesh se revoltaram na prisão. Alguns conseguiram fugir do edifício e, durante vários dias, causaram estragos à volta da prisão. A guerra contra a Turquia ainda está em curso, e as linhas da frente em torno dos territórios ocupados, embora estacionárias, estão activas. Está a ser travada uma guerra de «baixa intensidade», com bombardeamentos constantes e ataques ocasionais com drones a alvos específicos. Estes conflitos custam regularmente vidas, especialmente porque os drones procuram eliminar comandantes e outros militantes-chave nas suas tentativas de desestabilizar cadeias de comando, preparando para a invasão que se avizinha.

    Lembro-me, com uma certa amálgama de pesar e alívio, de quando, visitando algumas famílias próximas, famílias que me tinham ajudado a aprender a sua língua e a compreender melhor como foram os primeiros anos da revolução, me contavam pela primeira vez sobre as suas críticas à situação. Talvez tenha sido devido à confiança e amizade forjadas ao longo do tempo, talvez porque afinal vim de outras terras, mas os comentários críticos de algumas das decisões do movimento foram partilhados à volta de chávenas de chá. Estas conversas tinham lugar com uma estranha mistura de frustração e vergonha, raiva e impotência. As famílias que tinham aberto as suas casas desde os primeiros dias do movimento, que tinham sido uma parte fundamental da insurreição clandestina nos tempos mais difíceis, lamentavam as dificuldades que estavam a atravessar. E com razão.

    No início, fiquei surpreendido, pois não é comum as famílias serem críticas do movimento e muito menos perante os internacionais. Mas a crítica construtiva é saudável e necessária, e uma revolução que não constrói um povo crítico não merece chamar-se revolução. É bom ver que as famílias, as pessoas comuns que sustentam esta sociedade, sabem que têm o direito de criticar e chamar os militantes à responsabilidade, porque, ao fim e ao cabo, são responsáveis perante as pessoas que pretendem libertar. E, por vezes, é também nossa responsabilidade, como revolucionários internacionalistas, inspirar confiança, aceitar estas críticas, reflectir sobre elas e trabalhar para ser parte da solução, não parte do problema. Os que vêm do estrangeiro podem ter uma certa facilidade para incutir esperança, porque, quando alguém vem de longe, deixando a sua terra e o seu povo para trás, aprende a tua língua e trabalha no dia-a-dia nas mesmas condições que o resto da população, cultiva-se uma certa admiração e respeito. Este respeito vem com a responsabilidade de ajudar a identificar as enormes dificuldades que Rojava enfrenta, bem como a importância, agora mais do que nunca, de se manter firme perante o inimigo.

    A utopia sonhada pode não ter sido erguida com magnificência, mas está a criar raízes pouco a pouco, dia após dia, com os seus avanços, as suas deficiências e as suas contradições. Quem acha que a revolução é um processo e não um acontecimento deve armar-se de paciência e continuar a trabalhar para consolidar e expandir este mundo que carregamos nos nossos corações.

    Revolução apesar de tudo

    Por vezes paro para pensar como teria sido a revolução de 1936 se tivesse seguido um caminho diferente: como se teria desenvolvido a sociedade se o fascismo não tivesse ganho a guerra, se não tivesse imposto a sangue e fogo a sua visão particular do nacional catolicismo? Talvez a revolução nos tivesse trazido desilusões, desafios insuperáveis e conflitos internos, mas feliz ou infelizmente não houve tempo para o ver, não pudemos desencantar-nos com a revolução que não pôde ser. Quem então acreditou num mundo melhor, teve de ver os seus sonhos afogados no exílio e na clandestinidade. Não posso senão manter a minha admiração pelos milhares de militantes sem nome que continuaram a lutar depois de perder a guerra, quer como maquis na península, contra os nazis nas trincheiras da Europa, quer partilhando as suas ideias e experiências também na América Latina.

    Mas a revolução de Rojava não foi derrotada, ainda há esperança neste canto do Médio Oriente que se atreveu a desafiar a ordem estabelecida. Nem sempre é fácil, e há alturas em que a dúvida, a incerteza, a frustração e o esgotamento têm o seu preço. Não são poucos dias em que fico zangado, triste, desiludido e me pergunto o que faço aqui; em que estava eu a pensar para deixar a minha vida para trás e vir para este deserto remoto e plano, uma terra de invernos frios e verões infernais, com tempestades de areia absurdas e tão longe do mar? Mas, depois, há dias em que tudo isto faz sentido, em que se aprecia o que se aprendeu e se recorda como é difícil tentar construir um novo mundo. Dias em que admiras os esforços das famílias à tua volta para continuar, das hevalas que trabalham dia e noite para que isto funcione apesar das dificuldades, dos jovens que cresceram na revolução e que são a esperança de um futuro melhor. E são estes dias que, quando regressas a casa, te fazem a pensar que talvez a decisão certa seja voltar para Rojava.

    Ao fim de 10 anos, os esforços a médio e longo prazo começam a dar frutos. Os Concelhos Municipais estão a consolidar-se na sua gestão territorial. As cooperativas agrícolas estão a funcionar a bom ritmo, construção de estradas, distribuição de energia, sistemas solares de iluminação pública. Vários novos hospitais estão a prestar serviços de saúde à população, e a primeira turma de estudantes de medicina da Universidade de Rojava formou-se recentemente, juntamente com estudantes de outras áreas, tais como sociologia, agricultura e engenharia química. O Nordeste da Síria é provavelmente a região mais segura e mais estável do país, com mais liberdades democráticas e desenvolvimento cultural. Cidades inteiras como Kobane ou Raqqa foram reconstruidas após a guerra, e tudo isto sem a necessidade de impor um Estado ou um governo centralizado, antes promovendo a descentralização e a autonomia da comunidade num projecto federativo. As forças de autodefesa são respeitosas e disciplinadas, sem abusos de autoridade contra a população e mantendo à distância grupos do Estado Islâmico que procuram desestabilizar a área. Os conflitos inter-étnicos têm sido grandemente reduzidos e as novas gerações são educadas em sistemas bilingues que promovem a diversidade cultural. Mas, sem dúvida, o maior desenvolvimento é o movimento das mulheres. Muito tem sido escrito sobre isto e não me cabe a mim contá-lo, mas é sem dúvida a maior transformação social imaginável. O impacto do trabalho realizado pelo movimento de mulheres influenciará não só o Curdistão, não só a Síria e não só o Médio Oriente. A sororidade construída entre mulheres curdas e árabes será um factor decisivo para o futuro do Médio Oriente e do mundo inteiro, porque é o verdadeiro coração do movimento de libertação.

    Uma nova guerra no horizonte

    Enquanto escrevo estas linhas, vários comboios do exército turco têm atravessado a fronteira nas últimas semanas, ameaçando publicamente invadir de novo Rojava. Dentro de menos de um ano, realizar-se-ão eleições na Turquia, e Erdogan sabe que está vulnerável. As sondagens sugerem que o AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento] perderá a sua maioria absoluta, e uma nova invasão a Rojava é a única carta que lhe resta para se agarrar ao poder, atraindo mais uma vez as forças ultranacionalistas e alimentando os sonhos de expansão territorial do fascismo turco. Os acordos alcançados na última cimeira da NATO em Madrid, onde a Suécia e a Finlândia concordaram em criminalizar o povo curdo em troca da sua entrada na aliança militar, são mais um sinal da cumplicidade do Ocidente com o autoritarismo de Erdogan. A questão já não é se Erdogan irá invadir novamente Rojava, mas sim quando. Após quase dois anos de relativa estabilidade militar, as preparações defensivas de ambos os lados da frente foram reforçadas como nunca antes. As redes de túneis complexos estendem-se ao longo das fronteiras dos territórios ocupados, quilómetros e quilómetros de abrigos subterrâneos para proteger contra os bombardeamentos inimigos. Resta saber até que ponto estes preparativos podem ou não mudar o curso da guerra.

    A diplomacia também desempenhará um papel importante. Tanto a Rússia como os EUA têm sido avessos às ameaças de Erdogan, mas, com a guerra na Ucrânia e as contradições entre as duas potências, acordos e negociações podem ser decisivos para a sobrevivência de Rojava. A supremacia aérea está em jogo, um elemento-chave nas invasões anteriores, uma vez que os grupos islamistas indisciplinados que servem como infantaria de Erdogan não têm qualquer hipótese contra as SDF sem o apoio de drones e caças de combate. Resta também saber que papel desempenharão o Estado sírio e mesmo o Irão, que, com o apoio da Rússia, conseguiu manter o governo al-Assad em funções, um governo que ainda aspira a recuperar o controlo das áreas libertadas pelo movimento curdo. A Turquia está de olho em Kobane, a capital espiritual da revolução, pois Erdogan sabe que tomar o controlo da cidade que derrotou o Daesh seria um grande golpe, necessário para recuperar a credibilidade que perdeu nos últimos anos. A forte resistência das guerrilhas nas montanhas de Bashur (Curdistão no Iraque) tem posto repetidamente em causa a eficácia da estratégia militar do exército turco, que, na ausência de progressos significativos, recorre cada vez mais à utilização de armas químicas ilegais. A comunidade internacional faz ouvidos de mercador a estas infracções, como se constatou após a invasão de Serekaniye, onde ficou provado que a Turquia utilizou fósforo branco contra civis sem qualquer retaliação. Contra este complexo cenário, os porta-vozes das SDF afirmaram em várias ocasiões que, se a Turquia atacar, a guerra espalhar-se-á por toda a fronteira. Embora esta ameaça tenha sido feita antes da última invasão sem ter sido concretizada, desta vez os preparativos e a capacidade ofensiva das SDF sugerem um cenário diferente. Rojava não pode permitir à Turquia ocupar mais território, muito menos se isto incluir Kobane, pelo que uma resposta desesperada de guerra total parece mais credível desta vez.

    Com esta amálgama complexa de actores, interesses conflituosos e projectos políticos antagónicos, é muito difícil fazer previsões sobre o que o futuro nos reserva. Para quem vem de fora, depois de anos a construir pontes de internacionalismo, agora mais do que nunca a solidariedade tem de ser a ternura dos povos. Slogans e declarações simbólicas de solidariedade moral e abstracta já não são suficientes, pois, se Rojava cair, a esperança de um futuro melhor cairá com ela. A vitória do fascismo em Espanha foi seguida pela Segunda Guerra Mundial, pois sabemos que o fascismo avança se não for combatido. Dada a ascensão da ultra-direita no Ocidente, não é um cenário impossível de se repetir, com a agravante de que as forças revolucionárias são hoje uma sombra do que foram.

    Rojava lembrou-nos que a revolução não só é possível, mas necessária, e que está nas nossas mãos contribuir para o seu desenvolvimento. O Curdistão, uma nação excluída do sistema de Estados-Nação, mostra-nos como o problema pode ser a solução e como a construção da autonomia democrática pode tornar-se uma alternativa ao modelo de Estado-Nação, patriarcal e capitalista por natureza, que prevalece nas nossas sociedades. Rojava é um oásis no deserto, uma experiência prática de transformação revolucionária, uma oportunidade para aprender e desenvolver o que a sociedade do futuro pode ser. Mas, para que isso aconteça, temos de assegurar a sua existência, a sua sobrevivência como um organismo político e social. E a sobrevivência de Rojava só é possível se se espalhar, porque a revolução é como a água, quando estagna corrompe. A revolução deve fluir, como um rio, para o mar da liberdade.


    Texto de Pau Guerra (18 de Julho de 2022, Rojava)
    Publicado a 19 de julho de 2022 em Kaosenlared
    Fotografias para Jornal MAPA de Mauricio Centurion