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  • Rojava e Curdistão: situação atual

    Rojava e Curdistão: situação atual

    Nos últimos meses temos visto uma enorme escalada do conflito no Curdistão. O nível de conflito entre as forças revolucionárias e as potências colonialistas e imperialistas nunca foi tão alto.
Vivemos um momento histórico num conflito que dura há já mais de 40 anos e por isso vemos uma resistência histórica a tomar lugar, quer nas montanhas livres do Curdistão, quer nas planícies livres de Rojava.

    Pensar que a guerra em Rojava ficou em pausa após as últimas invasões em 2018 a Afrin e em 2019 a Serekaniye e Gire Spi é errado e perigoso. Pensar também que os ataques do estado fascista Turco às zonas sob controlo da guerrilha do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), quer seja no Curdistão do Norte quer do Sul, estão separados dos ataques levados a cabo contra Rojava é também uma ideia incorreta. Com este texto pretendemos dar uma breve atualização dos últimos desenvolvimentos na região, pois a revolução que está a ser construída aqui, o conflito contra o fascismo e o patriarcado neste lugar, tem de ser visto também como a nossa luta, uma luta que devemos também defender, pois é isso o internacionalismo.

    Rojava e Shengal

    Entre os dias 16 e 21 de Agosto, em apenas cinco dias, Rojava e a região de Shengal, território do povo Yazidi, foram alvo de 25 ataques de drones de guerra do regime de Erdogan. Estes ataques não tinham apenas alvos militares mas também, como tem sido uma prática comum do estado Turco, a população civil. O primeiro ataque acontece no dia 16. Neste caso um drone Turco bombardeou um carro no meio da cidade de Shengal, no meio do mercado, e matou duas pessoas: uma delas comandante das YBŞ (Unidades de Resistência de Shengal) e ferindo mais uma que foi transferida para o hospital desta cidade.

    No dia seguinte, a Turquia bombardeia um hospital na mesma região, destruindo-o e matando dezenas de pessoas, entre pessoal médico e utentes que ali se encontravam na altura. Após o ataque, as forças de segurança tiveram que bloquear durante algum tempo a passagem de pessoas que procuravam em massa chegar ao local do ataque para oferecer ajuda, pois aviões e drones continuavam no ar à espera que uma multidão se formasse para realizar outro ataque. O povo Yazidi sofreu um genocídio em 2014 às mãos do Estado Islâmico (EI), algo que internacionalmente recebeu grande atenção por parte dos meios de comunicação. Após a resistência deste povo, que levou à derrota do EI, o estado Turco toma agora o papel do EI e continua o massacre ao povo Yazidi e a destruição da autonomia que este povo construiu nos últimos anos.

    Desta vez temos o estado fascista Turco a ter o papel de genocida ao contrário de 2014. Para além disto temos também a diferença de que agora assistimos a um silêncio ensurdecedor por parte dos media internacionais.

    Nos dias que se seguiram vimos em Rojava uma onda de ataques de drones e artilharia que tiveram diferentes alvos. Para nomear alguns, em Til Temir a 19 de Agosto, um ataque de drone bombardeia o centro de media do Concelho Militar da cidade, acabando por martirizar quatro hevals. Outros dois ataques aconteceram na região de Qamishlo, e outros aconteceram no cantão de Kobanê, na região de Ain Issa, Til Temir e Manbiji. Estes ataques continuam até ao dia de hoje.

    Temos de entender que a guerra em Rojava nunca parou desde as últimas invasões. O que a região enfrenta é o que podemos chamar de “guerra de baixa intensidade” em que todos os dias a Turquia, juntamente com os seus mercenários jihadistas, mata civis e combatentes das forças de defesa de Rojava. Esta guerra consiste na intensificação de ataques de drones que têm alvos específicos, como se pode assistir nas linhas da frente de Til Temir, Ain Issa, Manbiji, Afrin e Shebba. Nestas regiões assistimos a constantes ataques de artilharia que têm como alvo as forças democráticas mas também, acima de tudo, a população civil. Há apenas um mês atrás, uma família inteira foi morta por um destes bombardeamentos de artilharia. Tentativas de infiltração por parte dos mercenários jihadistas fazem parte deste tipo de guerra, que tem também como objetivo criar medo e tensão na sociedade. No entanto, a resistência tem sido enorme como se pode ver pela incapacidade de avançar e ocupar mais territórios. Os povos de Rojava e do Nordeste da Síria enfrentam também aquilo a que chamamos de “guerra especial”. O exemplo claro e que tem grande impacto na região é o uso por parte do estado Turco da água como uma arma. O rio Eufrates, o maior rio que corre em território Sírio, tem a sua nascente em território Turco (Curdistão ocupado). O que o estado Turco tem feito nos últimos anos é investir na construção de barragens através das quais retira lucro da electricidade gerada (explorando recursos naturais do Curdistão ocupado pela Turquia) e controlar o fluxo de água que segue para território Sírio. Todos os verões, em Rojava e no Nordeste da Síria, o acesso à água para as necessidades básicas se torna bastante difícil. Nestes últimos tempos a situação tornou-se mais grave com a presença do vírus Covid-19, em que a higiene joga um papel central na prevenção. Para além deste tipo de guerra especial existe também a queima dos campos de trigo da região por células clandestinas de jhiadistas, quer do Daesh (Estado Islâmico), quer de outros grupos, todos eles financiados e organizados pelos serviços secretos turcos. Este ano, a região enfrenta grandes dificuldades na produção de pão devido a estas ações de sabotagem.

    Bashur e Bakur (Sul e Norte do Curdistão)

    A guerrilha do PKK, através das suas forças – as HPG (Unidades de Defesa do Povo) e as YJA-Star (Unidades de Mulheres Livres – Star), tem levado a cabo uma resistência armada ao estado Turco há já 37 anos. Durante estas três décadas, o segundo maior exército da NATO não conseguiu sair vitorioso, apesar de, já por várias vezes, ter anunciado a sua vitória sobre a guerrilha.

    Ao longo deste tempo temos visto o estado Turco a levar a cabo diversas operações em grande escala para combater a guerrilha, quer seja dentro das suas fronteiras quer fora delas, como é o caso dos constantes ataques no Norte do Iraque, através de bases militares Turcas neste território, numa clara violação da soberania das fronteiras do Iraque e numa demonstração das aspirações Neo-Otomanas de Erdogan.

    No entanto, estas operações de larga escala têm-se revelado um completo fracasso do Estado Turco. No final do ano passado e início deste ano, a Turquia lançou uma operação que envolvia drones, aviões de guerra, forças especiais e outras tecnologias militares de um exército da NATO. Esta operação tinha como objetivo ocupar uma região no Norte do Iraque, Bashur, controlada pela guerrilha: Garê. A campanha iniciou-se mas, após quatro dias de intensos combates e de um alto número de baixas no exército Turco, este declarou o fim da campanha e retirou-se fracassado.

    Após a campanha fracassada em Garê, a 23 de Abril deste ano a Turquia inicia uma operação em três regiões sob controlo da guerrilha: Avaşin, Metina e Zap. Esta operação dura até aos dias de hoje, com um número impressionante de baixas do lado do regime turco. No final de Julho, um balanço da guerra mostrou que 494 ocupantes tinham sido mortos, e que 63 guerrilheiras tinham caído mártires. Um balanço feito pela guerrilha em Setembro reportou 157 ataques do Estado Turco com armas químicas. Estes ataques químicos por parte da Turquia têm sido largamente registados e reportados, quer pela guerrilha nas montanhas mas também pelos povos de Rojava, Shengal e Bashur, criando-se campanhas para fornecer máscaras de gás à guerrilha. Apesar disso, os media internacionais, assim como organizações como a ONU, decidem manter-se em silêncio, legitimando o uso destas armas pelo seu aliado Turco.

    O papel do KDP como traidor do povo curdo

    É claro que o Estado Turco se encontra em dificuldades para levar esta guerra em frente de uma forma bem sucedida. Isto deve-se, acima de tudo, ao facto de a guerrilha curda ter tido, nos últimos anos, refletido acerca da sua tática e da sua organização, e iniciado um processo de modernização e de profissionalização. Isto significa que a guerrilha é, neste momento, capaz de enfrentar um exército tão poderoso como é o exército Turco, devido à sua adaptação às condições atuais da guerra e a uma utilização de ferramentas e conhecimentos de forma mais eficaz e produtiva.

    Levando em conta este fator no conflito, o estado fascista Turco intensificou a sua pressão sobre o KDP (Partido Democrático do Curdistão) e sobre as suas forças, as Peshmerga, para uma escalada na tensão entre estas e a guerrilha, no sentido de provocar uma guerra entre curdos. O KDP, partido do clã da família Barzani, tem desde sempre desempenhado o papel de traidor ao povo curdo ao colaborar regionalmente com o estado Turco, quer de forma económica, quer militar. Nos últimos meses, as tensões entre os Peshmerga e a guerrilha aumentaram bastante, com emboscadas feitas por parte dos Peshmerga à guerrilha e assassinatos de membros do PKK. Até aos dias de hoje, a guerrilha não tem dado uma resposta armada a estes ataques do KDP, consciente de que é isso que o inimigo quer. No entanto, a situação continua a escalar e o povo do Curdistão decidirá qual a resposta a dar aos ataques dos traidores.

    Previsões: Rojava e Montanhas Livres – uma só luta, um só movimento

    As vitórias nas montanhas livres são as vitórias de Rojava, e vice-versa. A resistência levada a cabo pelas guerrilheiras nas montanhas é a mesma que se vê em Rojava. Por isso, os acontecimentos nas montanhas afetam o que acontece em Rojava e em todo o Curdistão. As tensões entre a guerrilha e o KDP estão neste momento a influenciar Rojava, que já afirmou que se um conflito entre estas duas forças acontecer, Rojava tomará uma posição clara, que será a posição decidida pelos povos.

    A guerra nas montanhas continua, com o estado Turco, apoiado pela NATO e outros estados ocidentais, a usar toda a sua força para derrotar a guerrilha. A resistência na região de Avaşin é no mínimo inspiradora. Em meses de operação, o inimigo não consegue tomar um pico de uma montanha, Werxele. O inimigo não consegue entrar nos vales das montanhas livres. O outono aproxima-se e o estado Turco está consciente de que se até ao Inverno não for capaz de controlar estes pontos estratégicos terá de se retirar devido às condições difíceis das montanhas curdas.

    Podemos esperar com toda a certeza, neste Outono, uma escalada do conflito. A 9 de Outubro será o aniversário da prisão de Abdullah Öcalan, líder ideológico e do movimento de libertação curdo. Nesta data, o estado Turco realiza sempre grandes ações. Em 2019 iniciou a operação de ocupação a Rojava na região de Serekaniye, e em 2020 realizou-se o acordo entre Erbil e Baghdad para tomar de novo controlo da região de Shengal sob auto-administração do povo Yazidi. Este ano, de certeza, não será diferente.

    Solidariedade, responsabilidade e luta internacionalista

    A revolução no Curdistão é uma revolução única e que não luta apenas pela liberdade do povo curdo, mas também pela liberdade de todos os povos do Médio Oriente e do mundo. As ideias por trás deste movimento dão-nos esperança para as lutas nos nossos territórios. Acima de tudo, as propostas e a prática que esta revolução tem mostrado nas últimas décadas são uma clara solução para o conflito em que se encontra o Médio Oriente. Não somos só nós que estamos conscientes disto, mas também o inimigo. As forças imperialistas e as potências regionais sabem que este movimento é capaz de travar os seus interesses e os seus projetos colonialistas. Por isso, vemos no conflito de hoje um enorme esforço de erradicar a revolução Curda. A Turquia tem sido o ator regional a tomar maior responsabilidade nesta tarefa. No ano de 2021, o conflito tem alcançado níveis nunca antes vistos, ainda que com pouco sucesso.

    O fascismo Turco está sob enorme pressão e numa situação complicada e sem saída. Em 37 anos, o estado Turco não conseguiu derrotar a guerrilha nas montanhas curdas. O estado Turco encontra resistência, não só nas montanhas, mas também nas metrópoles Turcas e Curdas, com ações de sabotagem a colaboradores do regime fascista. As inúmeras aventuras Neo-Otomanas além-fronteiras têm-se mostrado um completo fracasso do Estado Turco, como foi o envolvimento no conflito Arménia-Azerbeijão, Líbia, Síria, Iraque, Grécia ou Mediterrâneo. Tudo isto faz parte de uma grave crise política e económica que implica a queda de popularidade do regime de Erdogan entre a população turca.

    Desde o seu nascimento que o fascismo Turco tem apenas um caminho: o da derrota. Neste momento, encontramo-nos num momento histórico em que podemos ver essa derrota bem de perto. Mas não podemos apenas esperar que essa derrota chegue por si. Temos de seguir o exemplo da guerrilha nas montanhas e desenvolver a nossa luta, pondo em prática uma resistência brutal contra o fascismo. A luta contra o fascismo Turco não pode ser levada a cabo apenas pelos povos da região. A revolução no Curdistão é uma revolução internacional e portanto a resistência heróica das montanhas do Curdistão e das planícies de Rojava deve ser transportada para os nossos territórios. Um exemplo desta resistência internacional foi aquando da invasão de Serekaniye pelo regime Turco, em 2019. O plano inicial era ocupar todo o norte da Síria mas, devido a milhões de pessoas que sairam à rua no mundo inteiro, a ofensiva parou. Agora, é necessário voltar a sair às ruas para construir alternativas e para combater o fascismo nos nossos países, pois ele é o mesmo em todo o mundo.

     


    Texto de Kendal Q. em Rojava

  • Diários de Resistência de Rojava

    Diários de Resistência de Rojava

    Avasîn e Lina encontram-se em Rojava e são jovens rostos dos Diários de Resistência que, desde o início de abril, podemos acompanhar no YouTube

    Quando falamos de Rojava, falamos do Curdistão Sírio que é, desde 2012, no contexto da guerra civil síria, uma região autónoma na zona norte-nordeste da Síria. Atualmente conhecida como Administração Autónoma do Norte e Este da Síria, e embora não seja reconhecida oficialmente pelo governo sírio ou por qualquer Estado nacional, é de facto uma república autónoma formada por cantões auto-governados com base nos princípios do Confederalismo Democrático. Um sistema de auto-organização democrática que o movimento Curdo, pese o cenário de guerra, tem levado à prática na região, propondo-o como a solução política para a questão da autonomia curda num território de convivência étnico-religiosa diversificada.

    Como outras jovens mulheres e homens de vários pontos da Europa e do mundo, Avasîn e Lina chegaram a Rojava como “internacionalistas”, integrando a Comuna Internacionalista. No texto de apresentação dos Diários de Resistência que fizeram chegar ao Jornal MAPA, contam como, chegadas a Rojava, começaram «a compreender o significado da guerra e de quantos e diferentes níveis, mas sempre interligados, é feita a guerra contra o povo. É algo mais do que apenas o confronto armado; a guerra invade cada parte da vida. Mesmo que os métodos sejam diferentes de acordo com o tempo e o lugar, a guerra está em todo o lado, visando a estabilização do sistema dominante».

    Decidiram, assim, retomar a ideia, já antes posta em prática, dos Diários de Resistência. «No passado, houve amigos que já utilizaram este conceito para relatar os ataques e a resistência do povo em tempos de ofensivas em larga escala. Afinal, os ataques e a resistência contra tudo isto fazem parte da realidade quotidiana do povo em Rojava e, por causa disso também, em tempos de guerra de baixa intensidade, queremos partilhar convosco as nossas experiências relativamente à resistência na revolução». Para «mostrar ao mundo estas diferentes formas de resistência e partilhar a beleza que nelas reside, nós, como comuna internacionalista, juntamente com a Ocaxa Ciwanên Rojnameger [organização dos media da juventude], reiniciamos o projeto dos Diários de Resistência.»

    Viver em constante ameaça

    Para Avasîn e Lina «a opressão e o controlo da sociedade não se limita ao nível físico e à violência direta, a influência psicológica sobre as pessoas sob a forma de normas estabelecidas também tem de ser entendida como uma forma de guerra. Como esta forma afeta os pensamentos e sentimentos e a sua influência não é tão visível, a maioria das pessoas não reconhece este tipo de guerra e as próprias partes sistémicas são negadas. O controlo da sociedade nos países ocidentais baseia-se principalmente em normas e verdades propagadas, pelo que o uso maciço da força e da violência se torna supérfluo. No entanto, vemos os/as nossos/as companheiros/as e companheiros/as presos/as e assassinados/as para que sirvam de exemplo a quem ousar questionar o sistema opressivo e estiver disposto a procurar novas respostas. Porque o capitalismo é essencialmente sustentado pela ausência de alternativas, cada busca e cada solução encontrada são consideradas como algo perigoso para o Estado. Em qualquer parte do planeta onde as pessoas lutam por um mundo e uma sociedade livres, os Estados imperialistas utilizam todos os meios e estratégias de guerra de que dispõem para quebrar a nossa resistência».

    Os distintos momentos de guerra que assolam a região demonstram, para as promotoras dos Diários de Resistência, como «a diversidade da guerra se vê muito claramente no Curdistão. A guerra contra a população curda e a revolução é um estado contínuo que varia apenas na sua intensidade. Nos períodos em que não está a ser realizada nenhuma ofensiva em larga escala, os ataques continuam em grande parte a nível psicológico, mas também a nível físico esporádico».

    A influência psicológica sobre as pessoas sob a forma de normas estabelecidas também tem de ser entendida como uma forma de guerra

    Ain Issa – zona de controle vital para a região, alvo de ataques turcos repelidos pelas forças curdas e pelo papel contraditório das forças russas, sírias e americanas – é dada como um exemplo deste estado de contínuo alerta e medo. «Os bombardeamentos não pararam durante meses e os ataques com drones às pessoas ou a infraestruturas essenciais continuam. O que isto causa é um medo constante e toda uma população que está constantemente em estado de alerta. Tudo isto é ainda mais intensificado pelas ameaças regularmente repetidas de se iniciar uma grande ofensiva».

    Para Avasîn e Lina «a inexistência desta ofensiva afeta não só a população, mas também o movimento de solidariedade. Nem a população nem o movimento de solidariedade levam, por agora, as ameaças tão a sério como deveriam, o que torna difícil uma profunda preparação psicológica e física para uma situação de guerra concreta. Ignorar os avisos e alertas de Rojava causa o isolamento da população da região do resto do mundo, o que cumpre outro dos objetivos dos Estados imperialistas. O isolamento de Rojava é uma estratégia para enfraquecer e destruir o Movimento Curdo pela Liberdade». Para além do isolamento de Öcalan do movimento que mesmo em prisão permanece como líder carismático, a proibição Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e da propaganda agressiva que visa o isolamento ideológico do movimento, «o embargo corta fisicamente as pessoas do fornecimento para as infraestruturas necessárias».

    Arrancar oliveiras e secar rios

    Todo este processo demonstra, conforme relatam, que «com isto, as forças imperialistas pretendem destruir o modo de vida da população, o que também se expressa na queima de campos de trigo e oliveiras por grupos jihadistas aliados do Estado turco e no corte do fluxo natural de água do Eufrates em território ocupado pelo Estado fascista turco. A destruição das oliveiras em Efrîn, em particular, tem um efeito psicológico sobre a população, que sente uma profunda ligação à natureza».

    Apesar de tudo isso, as internacionalistas são claras ao afirmar que «todos estes ataques contra o povo curdo e a própria revolução não conseguem suprimir a vontade de liberdade do povo curdo. Ao longo da história, tem-se tentado oprimir e erradicar a cultura curda, mas as pessoas continuam a resistir a todos os níveis. Mesmo que haja períodos na história em que a resistência foi feita de forma bastante silenciosa, em que as mães tiveram de ensinar os seus filhos a língua curda em segredo por causa da repressão, ou em que os festivais foram celebrados em segredo, as forças imperialistas e o Estado turco não conseguiram quebrar a vontade do povo curdo. Este povo ainda se rebela contra os seus opressores e ocupantes, reconstruindo o que foi destruído e defendendo a terra livre criada pela revolução.» Para elas o grito é em curdo: «Berxwedan Jiyan e! – Resistência é Vida!»

  • Entre o silêncio e a solidariedade – a resistência de Afrin

    Entre o silêncio e a solidariedade – a resistência de Afrin

    Afrin é uma região no norte da Síria, parte de um dos três cantões que compõem a Federação Democrática do Norte da Síria, vulgo Rojava. Estima-se que aí vivam mais de 500.000 pessoas de diferentes etnias. É a casa do povo Curdo mas também de outros povos como o Árabe, Turcomeno ou Circassiano. É uma das poucas regiões que conseguiu passar ao lado da chacina do conflito na Síria, tornando-se num abrigo para milhares de refugiados de guerra que ali encontraram a estabilidade para recomeçar as suas vidas. No passado dia 20 de Janeiro, o regime turco anunciou uma operação militar terrestre e aérea que visa invadir Afrin, em cooperação com o Exército Livre Sírio (FSA), conhecidos no Ocidente como os “rebeldes moderados” – Ahrar al Sham, Partido Islâmico do Turcomenistão, Tahrir al Sham, etc. que são grupos locais da Al-Qaeda que estiveram anteriormente em aliança com o ISIS.

    Destruição e genocídio

    O balanço das primeiras semanas é devastador, com a destruição de centenas de habitações e agravamento da situação humanitária a cada dia que passa. Até ao momento, estima-se que mais de 25.000 pessoas tenham sido forçadas a escapar, tendo como único refúgio as montanhas. Os principais hospitais da zona estão a ficar com escassez de medicamentos e outros materiais necessários para apoiar as centenas de pessoas feridas. Até ao momento, o balanço aponta para pelo menos 150 pessoas mortas e 298 feridas.

    Os bombardeamentos têm afectado várias zonas. Uma das que causa mais preocupação é a barragem de Maydanki, que sofreu fortes danos. Em caso de colapso causará enormes inundações a norte de Afrin.

    Para além dos custos humanos, a aviação turca tem também bombardeado e destruído zonas arqueológicas de valor incalculável, tais como Nabi Hori e o templo de Ain Dara, construído em 1300 a.C e que funcionou até meados de 740 a.C.

    Sob o pretexto de proteger “fronteiras do ISIS e dos terroristas curdos”, o regime turco pretende criar uma zona de segurança com 30km dentro da fronteira síria. Curiosamente, esta é a medida exata das fronteiras de norte a oeste do Cantão de Afrin. Ao mesmo tempo, o regime procura estender a incursão em Manbij, mais a sul.

    As políticas de terra queimada aplicadas pelos fascistas do AKP (partido governante) com o apoio do MHP (partido de extrema-direita turca) não começaram ontem. Historicamente, desde “a formação da Turquia moderna, em torno de um secularismo rígido, geraram-se as contradições que permitiram o surgimento de figuras políticas islamitas como Erdogan”  que voltam a colocar no imaginário político o neo-otomanismo. A política externa do AKP para alcançar os sonhos de império centra-se no apoio e instrumentalização de bandos jihadistas de ideologia salafista, usados para ganhar influência sobre o decorrer da guerra na Síria. Os seus meios rivalizam com o pior do ISIS, como mostra um vídeo recentemente partilhado nas redes sociais onde soldados do FSA mutilam o corpo sem vida da guerrilheira curda Barin Kobane. Convém também apontar que o exército turco é o segundo maior da NATO. A imposição de uma linha ideológica baseada no conservadorismo e fundamentalismo religioso é um meio para chegar a um fim: maior controlo político e territorial sobre a região.

    Esta agressão constante ao povo curdo leva décadas, dentro e fora de fronteiras. Não deve ser vista como um acto isolado, mas sim como uma política de longa data que visa exterminar um povo milenar, povo esse que neste momento tenta implementar um projeto confederal e democrático que poderá ser uma solução para alcançar a paz no Médio-Oriente.

    Nações “não têm amigos, apenas interesses”

    Tendo a Turquia o controlo do sul do Mar Negro, uma zona estratégica para a Rússia (que tem vários negócios de oleodutos com a Turquia), os dois países chegaram a acordo para possibilitar o ataque turco, uma vez que a zona agora em conflicto estava anteriormente sob protecção militar russa. Os EUA, depois de terem anteriormente apoiado as forças curdas contra os jihadistas, mudaram de discurso para passar a afirmar que a “Turquia têm toda a legitimidade para proteger as suas fronteiras dos terroristas curdos”. Foi também o momento escolhido pela CIA para classificar pela primeira vez o PYD (Partido de União Democrática, associado à luta pelo federalismo curdo no interior da Síria) como partido irmão do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e, portanto, também terrorista.

    Depois do pedido oficial por parte do cantão de Afrin para receber apoio do governo Sírio contra os bombardeamentos turcos, Damasco exigiu que a região se subjugasse ao controlo sírio e que as forças militares curdas se integrassem nas brigadas locais ou no exército sírio. A proposta foi rejeitada pelas milícias curdas.

    Entretanto, também a resistência no local tem crescido, com centenas de habitantes de Afrin a juntarem-se às Forças Democráticas da Síria (SDF) e às Unidades de Defesa do Povo / das Mulheres (YPG e YPJ), a que lhes seguiram vários voluntários e voluntárias um pouco por todo o território de Rojava, assim como de várias cidades da Síria, como Manbij (o próximo alvo da ofensiva, segundo ameaças de Erdogan), Taqba ou Raqqa – todas cidades previamente libertadas do ISIS.

     

    Solidariedade internacional

    A 27 de Janeiro, milhares de pessoas tomaram as ruas de todo o mundo para demonstrar solidariedade com o povo curdo e denunciar o ataque do regime turco. Houve manifestações na Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia, Brasil, EUA e Canadá. Na Europa, várias regiões do Estado Espanhol, França, Bélgica, Inglaterra, Escócia, Alemanha, Holanda, Suíça, Suécia, Noruega, Áustria, Grécia, Itália, Dinamarca e Portugal também saíram à rua. Também Afrin foi palco de uma das maiores manifestações de sempre, a 4 de Fevereiro.

     

    Guilhotina.info

  • Relatos que nos chegam do Curdistão II (a continuar)

    Relatos que nos chegam do Curdistão II (a continuar)

    6 de Março 2017. Cortamos a estrada que fazia a ligação entre Raqqa e Deir ez-Zor, a principal via de abastecimentos dos daesh e hoje vou para Este de Raqqa, para nos juntarmos novamente à operação Wrath of Euphrates. Hoje está a ser calmo e quente e a sede é tanta que dou por mim a mastigar a ponta do meu lápis, com o qual vou escrevendo as minhas experiências, para continuar a salivar e manter a boca húmida. O sabor da poeira invade a boca e sinto o estalar das pequenas partículas de areia entre os dentes. As narinas secam e os olhos ardem.

    Pequenas coisas que temos como garantidas, naquela vida anterior antes de vir para aqui, há séculos atrás, não existem… Papel higiénico por exemplo! Usamos trapos, água quando disponível e no outro dia encontrei num bolso de um daesh caído, uma embalagem de toalhetes! Parecia um puto quando o encontrei, com um sorriso de orelha a orelha, com um cadáver a meus pés! A revolução é agora a minha vida, mas ninguém me disse que ia ser bela, romântica e esterilizada… Acabei por não ficar com os toalhetes, dei-o a uma companheira que apanhei a olhar para eles com ar triste e lembrou-me a minha irmã, mãe, avó…

    Estamos a caminho de Raqqa e o caminho é acidentado. Na minha cabeça vou cantando “Come out and fight” , quem conhece a canção pode perceber o porquê de me lembrar dela… Os tempos que se avizinham não vão ser fáceis. Afinal de contas, ninguém me disse que a revolução ia ser bela, romântica e esterilizada. Mas mesmo assim, aqui estamos. Deixei para trás o papel higiénico, a cama confortável, a segurança da minha vida fútil no meu Porto seguro, que está sempre na minha memória. Afinal de contas “Trazemos nos nossos corações um mundo novo”!

     

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  • Relatos que nos chegam do Curdistão (a continuar)

    Relatos que nos chegam do Curdistão (a continuar)

    21 Fevereiro 2017
    5:47 da manhã. O ar cheirava a cabelos queimados e pólvora e, a 20 metros de mim, enquanto me escondia nos escombros do que um dia foi a casa de uma família da qual ninguém sabe do seu paradeiro, uma cabeça semi-queimada de um homem bomba olhava-me com os seus dentes brancos à vista, como se risse de mim depois de ter explodido à minha frente. Ele sabe que não me matou, mas consumiu um pouco da minha alma. O silêncio é apenas cortado pelo tímido som de música punk que o basco a meu lado ouve no telemóvel.

    Olhei sobre os escombros, em direcção a uma cabana onde sabemos estarem pelos menos 3 daesh, para ver se havia sinal de movimentação. Sabemos isso por duas das 10 raparigas yazidi, as únicas duas que conseguem falar, que encontrámos presas numa cave de uma casa semi-destruída, abandonadas à sua sorte, talvez morte. Nunca chorei tanto como nesse dia…

    Agora, viemos à caça, apesar de ordens contrárias. Mas não consigo parar de ranger os dentes de raiva desde que as encontrei. Eu (o Tuga), o Basco e o Italiano (parece ser o início de uma piada rasca, antes fosse…), viemos à procura dos demónios, mas eles viram-nos a chegar. Um deles saiu a correr em nossa direção e fez-se explodir a uns 30/40 metros de nós. Mais uns 3 ou 4 metros e não estaria a escrever estas palavras. Por momentos pensei que a cabeça dele ia cair a meus pés… Mas não, ficou ali, a olhar para mim e a sorrir.

    Depois de uma longa troca de tiros a noite caiu e com ela o silêncio. O nosso corpo doía com o frio. Fechei os olhos por uns minutos, o que me pareceu uma noite inteira de sono. O meu sono entretanto foi interrompido por tiros na nossa direção. Os daesh conseguiram sair da cabana e flanqueram-nos. Mas eles não esperaram uma coisa, podíamos ter fugido para procurar melhor cobertura , mas com a pouca protecção que tínhamos dos escombros, conseguimos fazê-los desaparecer da face da terra. Estes já não fazem mal a mais ninguém…

    Apesar de alguns estilhaços que me feriram nas costas e ao italiano na cara, estamos bem. Levantámos-nos, sacudimos a poeira dos nossos cabelos e barba e depois de 3horas a caminhar na escuridão, voltámos ao acampamento onde depois de termos recebido tratamento médico, uma caneca de vinho à beira da fogueira e o resto do pelotão ter cantado e dançado para nós, recebemos apenas um pequeno castigo da parte do nosso tenente, por termos contrariado ordens (não vamos ter licença de descanso esta semana) mas um também um olhar de respeito pelo que fizemos e um piscar de olho de aprovação.

  • O Berço do Daesh

    O Berço do Daesh

    Texto e fotografias: Ana Gonçalves

    O Iraque moderno surge de um velho hábito colonialista de desenhar nações a régua e esquadro: a 16 de Maio de 1916 foi ratificado o acordo de Sykes-Picot, entre a Inglaterra e a França, que dá origem ao mapa de nações do Médio Oriente que hoje conhecemos. Ou conhecíamos. Foi já em 2014 que o aparelho mediático do Estado Islâmico nos anunciava o fim das fronteiras desenhadas por Mark Sykes, quando os seus mujahideen estrangeiros destruíam os postos fronteiriços entre a Síria e o Iraque.

    Esse mapa, desenhado na mesma sala onde hoje se senta David Cameron, e que respondia à necessidade de dividir o derrotado Império Otomano, foi pensado com absoluto desrespeito pelas populações, as suas culturas, histórias e territórios. Foi este mesmo acordo que reservou uma área para os projectos Zionistas da criação do Estado de Israel, enquanto transformava os Curdos em não-povo, desmembrando as suas comunidades por quatro nações. São estas comunidades que Ana Gonçalves visitou. De lá trouxe as histórias das pessoas que são duplamente confrontados com um momento histórico único em que finalmente vislumbram a possibilidade de construir o Curdistão negado, enquanto travam uma luta de morte com um novo projecto fruto dos jogos imperialistas e colonialistas deste século: o Estado Islâmico.

    São algumas dessas histórias e relatos em primeira mão que o MAPA publica neste número, quando se assinalam os 100 anos do infame acordo Sykes-Picot, e na esperança que tenha de facto chegado ao fim não só o seu prazo de validade, mas também a sua influência colonialista no Médio Oriente.

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    Em Maio de 2015 comecei a escrever um artigo sobre migrantes provenientes de países instáveis por motivos de guerra, repressão política ou falta de liberdade. Sempre me fascinou a luta do povo curdo, apátrida desde há três mil anos que lutava praticamente sozinho contra a ameaça do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Através de vários contactos que fiz, conheci Karwan Kurdi, cidadão iraquiano proveniente do Curdistão Iraquiano, estudante de doutoramento de Engenharia dos Petróleos no Instituto Superior Técnico, que após breves minutos ao telefone me convidou para jantar em sua casa. Acabei por conhecer mais estudantes curdos, entre eles Hawreen, também estudante de doutoramento de Engenharia Civil, e figura maior da reportagem que fiz na altura. Naquele jantar em casa do Karwan, à mesa com o Curdistão, fiquei fascinada pela luta e amor que cada um daqueles jovens demonstrava em relação à causa curda. Nessa mesma noite, desenharam-se as primeiras linhas para a viagem ao Curdistão Iraquiano, que teria lugar dali a cinco meses. A pergunta foi simples e direta, queres vir ao Curdistão, ver o outro lado? A resposta foi imediata, sim!

    Erbil

    A quarta maior cidade do Iraque e capital do Curdistão Iraquiano, Erbil, é uma das urbes mais antigas do mundo, a sua origem remonta a 6000 a.C. A cidade tem uma vida intensa com vários restaurantes, esplanadas, cafés onde grupos de homens bebem chá ou fumam shisha, um bazar principal fervilhante composto por várias artérias onde facilmente nos perdemos numa tentadora loja de doces ou em lojas de tecidos de mil padrões diferentes provenientes da Índia, do Dubai, da Turquia, onde filas de mulheres entram e saem num corrupio alegre. Há ainda pequenas joalharias faustosas, em que o ouro predomina, lojas de brinquedos, de telemóveis, sapatarias e toda a espécie de pequenas bijuterias que enchem o espaço.

    Fora do bazar, ao ar livre, no parque Shar podemos comer fruta fresca, especialmente romã, que é vendida em pequenos copos, ou deliciar-nos com um refrescante gelado ou sumo fresco, bálsamos para um Verão quente que só ao cair da noite dá tréguas. Um comércio vivo a cada esquina transforma a cidade numa miscelânea de sons, cheiros e sabores que se confundem e inebriam a multidão que passa. Quando se circula pelo centro de Erbil dificilmente se pensa que Mossul, bastião dos extremistas, fica apenas a 80 Km dali, tal a descontração com que a vida decorre na capital do Curdistão Iraquiano.

    Desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, operou-se um crescimento rápido em Erbil. Numa década construíram-se universidades, centros de investigação, arranha-céus, hotéis, centros comerciais, parques de diversões para as famílias, diversos jardins, com o sentido de melhorar a qualidade do ar. A cidade crescia próspera, atraindo cada vez mais investidores estrangeiros.

    Até que em Agosto de 2014, o Daesh (acrónimo árabe do autoproclamado Estado Islâmico) atacava em força a região do Curdistão Iraquiano e chegava às portas da capital. Os investidores, sempre presentes, tornaram-se receosos, as construções abrandaram ou pararam, os centros comerciais, à escala mundial, nunca chegaram a encher, o turismo tornou-se uma miragem, bem como os negócios auspiciosos. O crescimento anual foi em 2015 negativo quando antes atingia os 10%, os bancos começam a fechar por falta de liquidez e as pessoas preferiram manter o dinheiro em casa ou depositá-lo em bancos turcos. Além disso, os funcionários públicos continuam a receber salários com seis meses de atraso, numa região onde 75% da população trabalha para o Estado.

    De Bagdad, as notícias que chegam também não são animadoras. O Governo Central, que deveria cobrir 17% do orçamento da Região do Curdistão, não disponibiliza qualquer ajuda já há vários anos, os preços do petróleo descem sistematicamente e, com toda a falta de verbas que existe, o sistema de saúde colapsou, e o sistema de ensino subsiste com muitas dificuldades, pois grande parte do orçamento serve para cobrir as despesas de guerra, como o pagamento de salários aos Peshmerga, armamento e manutenção dos checkpoints.

    Se a situação era má desde o início dos confrontos contra o Daesh, piorou quando os deslocados internos começaram a chegar. Cerca de 38% de toda a população de deslocados internos do Iraque, só em Erbil. Os curdos, que sempre foram reconhecidos por receberem de braços abertos todas as minorias e árabes que procuravam refúgio, debatem-se agora com problemas internos graves começando a notar-se algum constrangimento com a presença de cada vez mais árabes pelas ruas da capital.

    Para Mohamed, 28 anos, antigo professor de educação física, deslocado interno, dono de um pequeno restaurante kebab, já não é possível viver no Iraque. Vim para Erbil porque corria perigo de vida em Bagdad. As milícias ameaçaram matar-me, então fugi para o Norte, aqui não corro perigo, mas estou a poupar para ir para a Alemanha. O Iraque acabou, Bagdad acabou e era uma cidade tão bonita

    Noutro restaurante de Erbil, uma típica família de classe média almoça em silêncio. A minha filha e o marido daqui a poucas horas vão partir para a Turquia de autocarro e a partir daí vão tentar chegar à Europa, ainda não sabem como, se por mar ou por terra. A minha filha tem 23 anos, é professora, e não quer continuar no Iraque. Se tiver sucesso na viagem, em breve chama os irmãos para o pé dela”, conta o pai de família.

    Cerca de 4000 refugiados por dia, mesmo no Inverno, chegaram à Europa, um milhão de refugiados a terminar o ano de 2015, número que quadruplicou em relação a 2014, o maior fluxo migratório para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

    Viagem à linha da frente – os Peshmerga

    Sabin Sabir, 28 anos, Peshmerga destacado na aldeia de Tal Alwad, situada a sudoeste de Kirkuk, acompanha-nos até à frente. Estou de férias, mas sempre que o general Kak Azad precisa de mim, mesmo que seja a meio da noite, eu vou. Pego na minha arma, no meu equipamento, saio de casa e apanho um táxi, muitas vezes sem a minha mulher e os meus filhos perceberem”.

    Perante a passividade das potências internacionais ao avanço do Daesh, os Peshmerga, um grupo curdo armado, que combate pela criação de um Estado independente do Curdistão nas zonas do Iraque, Síria e Turquia, enfrentam na linha da frente fileiras de homens vestidos de negro, sem nacionalidade definida. Desde Agosto de 2014, cerca de 1300 Peshmerga já perderam a vida e mais de 7000 ficaram feridos na proteção de cerca de 1000 km de fronteira.

    Tal Alwad e as restantes aldeias próximas são controladas pelos Peshmerga, contudo toda a região continua a ser muito perigosa, visto que os extremistas controlam ainda várias cidades situadas a sudoeste de Mossul. À medida que nos aproximamos da base, Sabir chama-nos a atenção para as mudanças que se fazem notar. A paisagem muda, torna-se mais árida, desértica, a temperatura sobe, chega aos 47º C. Encontramo-nos na fronteira entre o deserto e as terras de cultivo, significa que nos aproximamos do sul, do imenso e impenetrável deserto do Sudeste.

    À nossa espera, na base de Tal Alwad, está o general Kak Azad, responsável maior pelas forças Peshmerga naquela zona. No topo de uma colina, com visão privilegiada sobre todo o território, vários Peshmerga de Kalashnikov na mão mantém as suas posições atrás de trincheiras improvisadas. Ao longe, avista-se um pequeno afluente do rio Tigre, uma fronteira natural que marca a separação entre os territórios.

    O general Kak Azad leva-nos para dentro de uma pequena caserna feita pelos seus homens e mostra-nos algumas armas químicas convencionais. Os meus homens não sabiam o que era isto e felizmente que nada aconteceu, porque não temos máscaras, nem equipamento para nos protegermos do gás”, explica o general.

    A utilização de armas químicas faz reacender pesadelos antigos, da altura em que Saddam Hussein, em 1988, lançou ataques com armas químicas contra os curdos. Muitas das fábricas de armamento, ainda do tempo de Saddam, foram deixadas ao abandono e à mercê dos jihadistas pelo exército iraquiano.

    Após a queda do regime do antigo ditador e o abandono das tropas americanas, o exército iraquiano ficou bastante fragmentado, de um lado Xiitas, do outro Sunitas. O Primeiro Ministro do Iraque, Nuri Al-Maliki agudizou a situação, já de si frágil, quando excluiu os oficiais e soldados árabes sunitas do exército, fazendo com que muitos deles engrossassem as fileiras do Daesh.

    No Verão de 2012, já sem tropas norte-americanas no terreno, o Daesh lançava no Iraque a operação Derrubar Muros destinada a tirar das prisões militantes e dirigentes sunitas. Foram os primeiros passos dados pelo Daesh no Sul do Iraque que, entre a ausência do Estado Iraquiano ou, por vezes, a sua estranha passividade, foi terreno fértil para os avanços das milícias. Mossul, uma cidade com cerca de dois milhões de habitantes, onde sempre conviveram Sunitas, Xiitas, Curdos, Yazidis e Cristãos, foi rapidamente dominada pelos extremistas, tornando-se assim o bastião do Califado no Iraque.

    Contudo, apesar de todas as conquistas já feitas pelos extremistas, o general Azad faz um retrato pouco abonatório das suas capacidades. Eles não têm um exército bem organizado, nem conhecem tácticas de guerra básicas, mas isso não os torna menos perigosos. Era bem melhor se pudéssemos lutar contra um exército organizado, disciplinado e conhecedor. A forma como eles atacam é através de ataques furtivos feitos por snipers, ataques suicidas ou carros armadilhados refere.

    A conversa continua na pequena caserna, vão-se juntando a nós cada vez mais oficiais e soldados. Atenciosamente, servem-nos água fresca e um chá quente antes de almoço, enquanto isso, vários Peshmerga mostram-nos vídeos e fotografias dos combates que travaram na frente, são as suas pequenas crónicas ali narradas, nos ecrãs dos pequenos telemóveis. Corpos sem vida saltam à vista, alguns rostos parecem extremamente jovens… Para se ser um soldado Peshmerga tem que se ter mais de 18 anos, pode ser-se ou não curdo, temos mesmo alguns estrangeiros que vêm como voluntários. Mas, na linha da frente do Daesh encontramos crianças e estrangeiros – europeus, paquistaneses, indianos, até japoneses. Sabemos isso pelos passaportes. O Daesh é um cancro, que destrói tudo”, assegura o general Azad.

    Shwan Shwane, 25 anos, estudante de Engenharia Civil na Universidade de Salahaddin, em Erbil, casado e com uma filha de um ano, teve de interromper os estudos por causa da guerra. Agora, é camionista e Peshmerga. Vamos sempre lutar contra o Daesh porque eles fazem mal às nossas mulheres, às nossas crianças. São assassinos brutais. Mas eles não nos vão conseguir vencer porque nós lutamos por uma causa, eles não diz Shwan.

    São três da tarde, está um calor que não dá tréguas, na frente as armas permanecem suspensas entre os sacos de areia, em trincheiras improvisadas. O movimento é praticamente inexistente, reina a calma, mas é uma calma enganadora. À medida que a noite cai, a situação torna-se cada vez mais perigosa, porque os extremistas têm melhor material, como óculos de visão nocturna e armas de longo alcance. Estamos a lutar pelo mundo todo aqui refere o General Azad ao nosso lado. Com poucos meios tentamos fazer muito, mas precisamos de mais apoio da comunidade internacional, não podemos fazer tudo sozinhos”.

    As despedidas aos Peshmerga são longas, emotivas, com muitas fotografias pelo meio, mas acabamos por ter de voltar à estrada.

    curdistao 3Estrangeiros nos Peshmerga

    Depois de uma longa viagem chegamos a Dakuk, cidade situada a Sul de Kirkuk, junto ao rio Tigre, base de um batalhão das forças Peshmerga que reúne cerca de 4000 elementos. Os ataques nesta área são contínuos, há inúmeras aldeias à volta completamente destruídas pelos ataques aéreos da coligação e os corpos das vítimas ainda lá estão, sem que ninguém se aventure para fazer a remoção dos destroços com receio de bombas controladas remotamente e minas antipessoais.

    Na base de Dakuk conhecemos dois ocidentais que há quatro meses ajudam os soldados Peshmerga na luta contra o Daesh. Oliver e Rebaz (nome fictício) são dois soldados que têm em comum a língua inglesa e a experiência militar. Oliver é canadiano, Rebaz norte-americano. O primeiro esteve oito anos no Afeganistão, o segundo seis anos no Iraque, em Bagdad. Mas o que sentem desde que chegaram ao território curdo do Iraque?

    A minha experiência aqui oscila entre expectativa, decepção, cansaço, surpresa, tudo junto, tudo misturado. Estou aqui como voluntário para ajudar os Peshmerga, mas, além disso, também estou a rodar um documentário (1) sobre a minha experiência na Região do Curdistão como soldado estrangeiro. Costumo dizer que tenho a minha arma numa mão e a câmara de filmar na outra, para mim a câmara é como uma arma, porque quero que o mundo saiba o que os Peshmerga fazem diariamente conclui Oliver.

    Há quatro meses, Rebaz deixou a casa, o emprego de oito horas, e o filho de três anos, e aterrou em Erbil. “Eu não conhecia o Curdistão e estive no Iraque seis anos a servir o exército dos EUA, mas não sabia que os curdos eram tão diferentes, eles são os nossos aliados no Médio Oriente. Em mais lado nenhum do mundo eu vi pessoas tão honradas e respeitosas, os oficiais estão sempre na linha da frente, podem ganhar mais, mas também morrem como os soldados. Vocês sabem quantos morrem todos os dias?.

    Rebaz é um jovem de 26 anos, mede cerca de 1.90, tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, olhos claros e barba ruiva comprida. A expressão é calma, como a de qualquer homem do exército bem treinado, e o discurso é fluente. Já dentro do carro, que avançava em grande velocidade pela terra batida, Rebaz tira do uniforme a fotografia do filho e da antiga namorada. Este é o meu filho de três anos e esta era a minha namorada, Lydia, que se suicidou. É por causa deles que eu estou aqui, no Curdistão. Fiz coisas muito más quando estive em Bagdad, muito más mesmo. Agora estou no local certo a fazer o que é correto. Lutar contra o Daesh”.

    Após cada ataque aéreo da coligação, os refugiados começam a aparecer. Mulheres, crianças e homens fogem das aldeias à procura de abrigo na base. Alguns homens que chegam têm a barba cortada, trazem mulher e filhos, mas têm um olhar frio, calmo. No meio do caos só um soldado consegue ficar assim. Pegamos nos telemóveis que trazem e vemos as fotografias que eles nunca apagam, e imediatamente percebemos que são militantes do Estado Islâmico. Eles não são muito espertos, mas têm nervos de aço. Aqui, na nossa base, sabemos sempre quem eles são, mas não sei como funciona nas outras. Eles misturam-se com as populações e em breve estarão noutro sítio qualquer”, conta Rebaz.

    Acompanhado sempre da sua arma, sorriso no rosto, conta-nos que demorou quase um mês a convencer o general a deixá-lo ir para a frente, sempre quiseram protegê-lo ao máximo e fazem isso com todos os estrangeiros que chegam ao Curdistão, são sempre hospitaleiros. “A roupa que tenho foi-me oferecida. Sempre que preciso de algo, fazem o máximo para que eu tenha tudo o que necessito. Ao contrário de outros soldados estrangeiros que pertencem à legião (são cinco atualmente e todos ingleses, que vivem separados do resto do grupo, que tem carros próprios e só atacam quando apoiados pela coligação), eu e o Oliver convivemos com os Peshmerga diariamente. É muito agradável. Querem todos aprender a falar inglês comigo e eu vou aprendendo curdo, anoto todas as palavras novas aqui, neste caderno”.

    O que levou o soldado norte-americano do Alasca a deixar o mundo ocidental e a querer combater no outro lado do globo? “Eu sou bom naquilo que faço, no exército, como militar. Não quero voltar a viver no Alasca, sinto-me mais livre aqui do que alguma vez fui lá, vivia para pagar contas… Agora, sinto-me realizado, combato, divirto-me com os meus companheiros e, ao mesmo tempo, estou a escrever um livro para o meu filho, para quando ele for adolescente e quiser saber quem foi o pai, onde é que eu estive, o que é que eu fiz e pode ser que assim ele compreenda melhor quem sou eu”. O livro é cuidadosamente guardado numa bolsa de couro, envolvido numa bandeira do Curdistão, guardado num saco de plástico para ficar protegido da água. “É o meu tesouro”.

    Falta tudo

    O campo é imenso, à volta é a desolação completa; aldeias destruídas a perder de vista, um silêncio pesado, nem um sinal de vida do outro lado, mas acredita-se que tudo esteja minado de explosivos e armadilhas. Para Rebaz, esta guerra é muito peculiar. Parece que estamos na Primeira Guerra mundial, o equipamento é o mesmo. Não há tanques, óculos de visão noturna, máscaras anti-gás, nada! Nem de um lado, nem de outro, trincheiras dos dois lados e ataques combinados, todos sabem quando é dia de ataque. Os Peshmerga não precisam de mais campos de treino, passaram anos em guerra, eles precisam de dinheiro, de equipamento, necessitam que o mundo saiba quem eles são”.

    curdistao 2Fomos convidados a passar a noite com os Peshmerga e à medida que as horas avançavam o camião da comida começava a distribuir a refeição, uma saborosa sopa de leguminosas. “É agradável durante os primeiros dias” diz-nos Rebaz, “mas depois de comermos o mesmo todos os dias, já não achamos assim tão bom”. Há jovens e homens mais velhos que se juntam à volta do camião. É ali que comem, convivem e dormem por turnos, pois não cabem todos na camarata. Depois do jantar há ainda jogos de dominó, sorrisos e histórias que enchem a noite. A guerra também se faz destes momentos.

    Na manhã seguinte tomamos um bom pequeno-almoço curdo, com fruta, ovos, frutos secos, mas começa a notar-se uma agitação que ainda não tinha sido vista. O general diz-nos que temos de ir embora. É dia de combates e apesar da insistência, não podemos ficar. Está na hora da despedida, para Rebaz o adeus é ainda mais sentido, apesar de dizer que não sente falta de nada no Curdistão, confessa que sabe bem falar inglês com alguém uma vez por outra.

    Viagem ao topo da Montanha – O PKK no Iraque

    A aliança entre o Governo Regional do Curdistão, no Iraque, e o governo de Ancara não satisfaz muitos curdos, que não esquecem a opressão do governo de Erdogan ao povo curdo na Turquia, cerca de 20 milhões, 55% de todos os curdos a viver no mundo, que não têm direito sequer a falar a própria língua, o curmânji. Por outro lado, na região do Curdistão Iraquiano há muitos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que têm combatido desde o primeiro instante as forças do Daesh, que combatem também com a mesma determinação e força as políticas de Erdogan.

    À medida que subimos em direção às montanhas de Qandil, no sul do Curdistão Iraquiano, que serve como base e campo de treino para homens e mulheres do PKK, olhamos para cima, sempre à espreita de drones. A linha da frente foi intensa, com o Daesh ali tão perto, mas a ida às montanhas fazia-se em silêncio com os olhos pregados ao céu.

    Ao fim de dois anos de tréguas entre o PKK e o governo de Erdogan, o ataque ocorrido em Suruç, em Julho de 2015, contra um grupo de jovens curdos que se preparavam para ir até Kobani, na Síria, em trabalho humanitário, reacendeu os conflitos. Estes jovens sofreram um ataque bombista reivindicado pelos homens de Abu Bakr al- Baghdadi, líder do Daesh, resultando na morte de 32 jovens curdos e mais de cem feridos. Várias organizações e partidos acusaram desde logo as autoridades turcas de terem colaborado, ou pelo menos “permitido” este ataque.

    As relações já tensas entre Ancara e o PKK acabaram por se agudizar de forma irremediável. Em resposta a este ataque e à inação do governo turco, houve ataques contra as forças militares turcas, levando aos bombardeamentos intensos por sua parte onde quer que existissem células ativas do PKK.

    O território do PKK começa agora, nas montanhas de Qandil, mas temos de telefonar ao meu contacto e se ele não nos atender é porque temos de voltar para casa”. Ir às montanhas em pleno mês de Setembro, quando os ataques turcos não abrandam, é extremamente perigoso, como o nosso guia não se cansa de repetir. Do outro lado do telefone, o nosso contacto diz-nos que podemos avançar. Suspiramos de alívio! A paisagem é maravilhosa, a serra pintada de castanho ocre ergue-se à nossa frente em todo o seu esplendor. Há oliveiras, pomares de romãzeiras e vinhas a perder de vista. A temperatura é amena, o sol não queima, parece que nos aproximamos do paraíso. No topo da montanha, o primeiro checkpoint controlado pelas forças do PKK. Rapazes quase imberbes com Kalashinov pedem-nos os documentos e dizem-nos para desligarmos os telemóveis. Até nós, vem Zagros Hewram, assessor de imprensa do PKK nas montanhas de Qandil, fala um inglês perfeito, sem qualquer sotaque. Há dez anos era professor de inglês no Irão. Com um olhar sagaz, um sorriso delicado e uma descontração que nos surpreende, abre-nos o caminho por entre as montanhas que albergam a guerrilha.

    Estão a ver aquele ponto branco ali no céu a piscar? São drones. Estamos a ser vigiados, vocês estão a ser observados”, conta-nos Zagros. Não conseguimos ver nada, mas mesmo que víssemos já não estamos preocupados por estarmos nas montanhas, este cenário idílico vale todos os perigos. A paisagem luxuriante da montanha faz-nos pensar que podíamos estar ali de férias a desfrutar de tudo o que a montanha tem para nos oferecer.

    Zagros leva-nos às ruínas de uma casa que foi atacada pelas forças turcas, uma família de sete pessoas morreu ali, um carro completamente queimado e escombros é tudo o que resta. Nós nunca andamos vestidos como civis para proteger a população, não queremos que a população sofra baixas por nossa causa, mas mesmo assim os aviões turcos não hesitam em atacar-nos”. Há livros, canetas e fotografias no chão, um pastor que passa por ali cumprimenta-nos e voltamos a olhar para o céu, para um ponto branco que esteja a piscar.

    Passaremos a noite na pacatez das montanhas em casa de uma família de agricultores, na manhã seguinte iremos ao encontro das guerrilheiras do PKK, ou melhor, elas virão ao nosso encontro. Antes do cair da noite ainda visitamos o cemitério e o mausoléu da guerrilha. Centenas de retratos e objectos pessoais de cada uma das mártires que perdeu a vida ao serviço da causa repousam ali, como tesouros para a eternidade. Pentes, carteiras, pequenos espelhos dispostos dentro de gavetas envidraçadas contam-nos histórias, falam. Ao centro, o retrato de Arin Mirkan, uma heroína de guerra, jovem mãe de 20 anos, comandante do YPG (Unidade de Defesa das Mulheres) que em Kobani, cercada de jihadistas e sem fuga possível, envolveu-se com explosivos e fez-se explodir levando consigo 23 membros do Daesh.

    À medida que anoitece, já em casa de uma família de agricultores, repousamos bebendo um chá. Um dos jovens da casa, o filho mais novo Dyare, tem 15 anos e quer ser astrónomo. Não é de estranhar, todas as constelações são visíveis a olho nu, como ver um drone num céu tão estrelado? Dyare é um rapaz sorridente, bonito, de olhos verdes, que gosta de Cristiano Ronaldo, mas acha que Messi é melhor jogador, diz-nos que está a preparar uma manifestação juntamente com os amigos. A escola perto de casa vai fechar porque não há professores e a outra escola fica muito distante. Todos querem sair do Iraque, são guerras atrás de guerras, nunca estamos em paz e as pessoas não querem viver assim”, desabafa o pai de Dyare.

    A seguir ao jantar, Omar, o irmão mais velho de Dyare, canta canções tradicionais, chamam-se Hairan. Grande parte dos cantores curdos usam poemas eróticos quando descrevem o corpo feminino e todo o processo de fazer amor, alguns artistas juntam também a religião, e isso torna esta expressão artística ainda mais poderosa. Cantam pela noite fora, pai e filho mais velho, que mais tarde nos diz que está apaixonado e costuma cantar para as estrelas, no terraço de casa, à medida que escreve poemas para a amada.

    São 7 horas da manhã, a noite passa depressa, sem sobressaltos e mãe e filha já preparam o pequeno-almoço. Na ombreira da porta, a montanha aparece imponente mesmo aos nossos pés, como é bom acordar e ver todos os dias esta paisagem. A vida no campo começa cedo é por isso que partimos em direção ao encontro das jovens combatentes do PKK, que abandonaram toda a sua vida comum para viverem ali nas montanhas sob os ideais de Abdullah Oçalan, um político guerrilheiro e revolucionário curdo, fundador do PKK, visto como o inimigo número um da Turquia, e preso único de uma ilha-prisão sob o olhar de centenas de guardas.

    Enquanto subimos de carro pela encosta escarpada, Zagros Hewram conta-nos que o PKK não tem nada a ver com os outros partidos do Curdistão, tem uma filosofia que assenta no comunitarismo, ou seja pequenos grupos na sociedade que se juntam e transformam a sua aldeia vila ou cidade. Depois de esperarmos cerca de uma hora na montanha e de termos entregue o nosso carro, cinco jovens mulheres curdas descem até nós, armadas, com um sorriso contagiante, falam curmânji e são da região de Batman, na Turquia.

    Correm até à fonte, vão buscar água e preparamos uma pequena ceia com queijo da serra e pão. Tudo o que comemos é a montanha que nos dá” explicam-nos as jovens guerreiras. A mais nova tem 17 anos e a mais velha 25. Não sinto falta de nada aqui. A minha família era muito pobre, a nossa vida era muito difícil, desde que aqui estou estudo, trabalho e ganhei uma família diz-nos a jovem líder do grupo que já combateu o Daesh. Se teve medo? Não, eles é que têm medo de nós”. Quando perguntamos se podemos ver onde dormem, elas dizem-nos que a vida na montanha é nómada, não têm um lugar certo. Todos os dias treinam, estudam e preparam-se para novas missões. É totalmente proibido o casamento ou relações sexuais entre os elementos, mas qualquer um pode abandonar a guerrilha se não concorda com estes termos. Num Médio Oriente em luta pela afirmação da mulher, a liberdade conquistada por estas jovens guerrilheiras é ouro.

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    Fuga para Duhok

    Cerca de 130.000 Yazidis chegaram à região de Duhok em Agosto de 2014, vieram através das montanhas quando o Monte de Sinjar, a nordeste de Mossul, junto à fronteira síria, foi invadido pelas milícias do Daesh. Muitos não conseguiram sobreviver às difíceis condições climatéricas: temperaturas que rondavam os 50ºc, sem água, comida ou medicamentos. Um genocídio foi evitado quando as forças Peshmerga curdas e os guerrilheiros do PKK, com o apoio aéreo dos EUA, abriram um corredor humanitário através das montanhas, evitando desta forma um massacre anunciado. Em Sinjar, segundo dados recentes das Nações Unidas, o Daesh mantém cativas cerca de 3000 mulheres e crianças Yazidis, transformadas em escravas sexuais e condenadas a uma vida de trabalho forçado.

    Em Sharia, distrito de Duhok, um vasto campo para desalojados, construído pelas autoridades turcas, alberga cerca de 9000 famílias Yazidis provenientes do Monte de Sinjar. Cerca de 800.000 Yazidis curdos encontram-se espalhados pelo Norte do Iraque, principalmente na zona de Sinjar, Mossul, e, mais recentemente, depois dos ataques do Daesh, também em Duhok, Erbil e Sulaymaniya.

    O campo de Sharia localiza-se num planalto nos arrabaldes da cidade, visto ao longe é uma massa compacta de tendas brancas que brilham sob o sol impiedoso. O primeiro passo é esperar à entrada enquanto mostramos os nossos documentos às autoridades, à espera de autorização para entrarmos. Somos desde logo acompanhados por dois trabalhadores humanitários que vivem no campo e falam inglês na perfeição.

    Junto a um dos portões, um grupo de crianças com baldes e garrafões encontra-se à volta de uma das torneiras do campo, enquanto as mães e as avós lavam a roupa. O campo é barulhento, ouve-se o riso das crianças, as vozes das mulheres que conversam, o barulho das máquinas escavadoras em obras, os homens que vendem nas bancas. Num muro do campo, o número 74 aparece escrito em letras encarnadas, é a 74ª vez que a minoria curda Yazidi é perseguida. As perseguições ao povo Yazidi tiveram início ainda no século XIX, durante o império otomano, e estenderam-se durante o regime de Saddam Hussein. Actualmente são um alvo fácil dos ataques de um inimigo sem rosto nem identidade, que os considera adoradores do Diabo. No entanto apesar de todas estas perseguições e massacres, a sua fé mantém-se inabalável.

    Khalaf Mahmood, residente no campo de deslocados internos de Sharia, 65 anos, conseguiu chegar a Duhok, mas a sua mulher e filhas ficaram nas mãos dos jihadistas. Não quero nada, nem ir para lugar nenhum, só quero a minha família de volta. Choro todos os dias e não consigo comer. Onze membros da minha família estão desaparecidos, não sei nada deles, mas sei que com 10.000 dólares americanos conseguia salvá-los a todos”.

    Através do recurso a contrabandistas é possível resgatar vários familiares ao Daesh, no entanto é uma tarefa difícil, perigosa e muito dispendiosa para as famílias. A SAIFO, uma ONG curda, é responsável pelo resgate e salvamento de vários Yazidis, das áreas ocupadas pelos jihadistas.

    É muito arriscado, primeiro temos de chegar aos contrabandistas, depois eles têm de chegar aos jihadistas e todo este processo é muito dispendioso para as famílias. Nós conseguimos juntar dinheiro através de donativos feitos pela sociedade civil, mas não temos quaisquer apoios das Autoridades para fazermos isto conta Diler Sinjary, director-executivo da SAIFO.

    O autoproclamado Estado Islâmico tem outros recursos financeiros para além da venda de petróleo, que atinge cerca de 500 milhões de dólares por ano, sendo o comércio de escravas sexuais um dos mais importantes e rentáveis. Não estará esta ONG, indirectamente, a ser uma fonte de rendimento do Daesh? O dinheiro nunca vai directamente para eles, pagamos a intermediários, temos de fazer qualquer coisa, não podemos abandonar os nossos argumenta Diler Sinjary.

    Maha Abduhalla (nome fictício) é uma jovem adolescente como tantas outras, que está agarrada ao telemóvel. Contudo, a vida de Maha Abduhalla sofreu um duro revés quando há um ano foi feita refém pelos jihadistas.

    Fui violada e vendida por três vezes. Um dos homens que me violou era sobrinho de um dos meus vizinhos, tentei falar com ele, «por favor, não faças isso, tens a idade do meu irmão», mas ele não fez caso. Uma das vezes em que fui capturada, telefonei ao meu pai, e o violador descobriu e espancou-me. O meu pai ligou-lhe então, a dizer que já tinha o dinheiro para me comprar de volta, 150.000 dólares, e no final da chamada ele olhou para mim e começou a rir, a dizer que quando o meu pai chegasse ia matá-lo e ficar com o dinheiro. Depois começou a rir-se de novo. Liguei ao meu pai e implorei-lhe que não viesse… Não há nada que me faça feliz neste momento. Não tenho namorado e nem quero, nem gostaria de ter filhos. Por causa da minha história, fui a Londres, aos estúdios da BBC, em Novembro. Vou agora para a Alemanha, onde vou receber apoio psicológico durante dois anos, e espero nunca mais voltar ao Iraque. Gostaria de estudar outra vez e ser engenheira” conta Maha.

    Quando lhe perguntámos como tinha sido a reação da sua família quando a voltou a ver, ela contou-nos que o pai passou vários dias a chorar agarrado a si. As mentalidades estão a mudar e, se antes do aparecimento do Daesh, havia códigos de honra bastante severos em relação às mulheres Yazidi, agora, os pais só querem ter as suas filhas de volta.

    Sheilman Shibo, 42 anos, líder de uma equipa numa organização humanitária em Duhok, afirma: “Tenho orgulho em ser Yazidi, mas sou uma pessoa em primeiro lugar. A minha fé está no meu coração. O que o Daesh faz connosco é um massacre, mas fazem o mesmo em Tal Afar e contra os curdos em Mossul, eles matam toda a gente,” argumenta.

    O Êxodo

    Mais de quatro milhões de pessoas já chegaram à Europa desde o início da guerra na Síria, em 2011, entre eles sírios, mas também iraquianos e afegãos procuram salvar as suas vidas. No entanto, as fronteiras continuam fechadas, por isso torna-se necessário empreender odisseias demasiado perigosas, que passam quase sempre pelo Mediterrâneo, em barcos sobrelotados.

    curdistao mapaDiria que mais de 95% das pessoas aqui no campo querem ir para a Europa. O meu filho tentou ir para a Alemanha através da Turquia, mas não conseguiu avançar mais. Acabou por voltar para o campo, sem os 10.000 dólares que levou para pagar aos contrabandistas. Agora, passa os dias agarrado ao telemóvel no facebook. O que é que eles hão-de fazer aqui? Não há nada para os jovens fazerem”, recorda Sheilman Shibo.

    Mais de metade da população deslocada na Região do Curdistão tem idade inferior a 18 anos, estas crianças e jovens vêem-se obrigados a trabalhar para ajudar no magro orçamento familiar, deixando a escola por falta de condições e dinheiro. As escolas, no campo de refugiados, não estão preparadas para o Inverno, os edifícios estão mal construídos, a chuva infiltra-se pelas paredes, não há mesas, cadeiras, livros, nem professores em número suficiente. Um grande número de crianças na região do Curdistão Iraquiano não vai à escola por falta de documentos e condições.

    Hussein, 42 anos, é professor no campo de deslocados internos Cover Two também situado em Duhok. Encontramo-lo à saída da escola, não era dia de aulas, só de entrega de presentes por parte das autoridades curdas. As crianças, sentadas no chão, ouviam os discursos de políticos e responsáveis de organizações não-governamentais. Cá fora, algumas centenas de crianças esperavam espreitando pelas grades, mas não puderam entrar.

    Isto não serve para nada, nada desabafa, Hussein. As autoridades (do Governo Regional do Curdistão) vêm cá muitas vezes mas não resolvem os verdadeiros problemas. Estas crianças são extremamente pobres; não têm sapatos para virem à escola, roupa, mochilas, não têm nada, porque os pais não têm dinheiro para gastar com elas. Há quatro escolas no campo e as turmas chegam a ser de 50 alunos, logo não há cadeiras nem mesas para todos e as salas são muito barulhentas. Às vezes, as crianças vêm à escola, mas acabam por não voltar. Para as encontrarmos basta darmos uma volta no mercado de Duhok. Estão lá, a trabalhar”.

    Uma menina agarra-se às pernas do professor, ainda não o largou. Hussein conta-nos que nenhuma daquelas crianças tem qualquer tipo de apoio psicológico e a maior parte delas estiveram nas montanhas, algumas viram os pais morrerem. “Muitas destas crianças precisam de apoio psicológico urgente. Elas estiveram nas montanhas sem comida ou água, algumas perderam a família. Antes dos ataques do Daesh tínhamos tudo: escolas, casas, carros, paz. Agora, não há qualquer lugar seguro em Sinjar. Costumávamos dizer que para o ano as coisas seriam melhores, mas agora já não há esperança aqui. Estamos a viver numa prisão”. Hussein acrescenta ainda: “Todos os professores que conheço estão a tentar chegar à Europa, a países seguros. Perdi dois filhos no Mediterrâneo, o terceiro sobreviveu e regressou, mas está a tentar ir de novo. Há famílias com 20 pessoas que compram um bilhete para um membro da família tentar a sua sorte. Eu tinha uma casa, um salário, e os meus dois filhos, agora não tenho nada”.

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    A viagem aqui documentada teve o apoio da Tolerancy International (www.tolerancy.org), uma ONG curda. Fizeram parte da equipa Ana Gonçalves, Karwan Kurdi, Fabíola Prado (fotojornalista) e Luís Brás (realizador).

    Nota

    (1) O documentário e outros registos estão disponíveis em www.besideheroes.com.