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  • III Encontro de Ecologia Política

    III Encontro de Ecologia Política

    Nos dias 11, 12, 13 e 19 de Abril decorre, entre Lisboa e Coimbra, o III Encontro de Ecologia Política. Em torno do tema “Comuns”, terão lugar oficinas, instalações artísticas e rodas de conversa, além das típicas comunicações académicas. Na convocatório do evento, pode-se ler: «O capitalismo levou à expropriação, privatização e sobre-exploração de terras, recursos, sistemas de governança e outros bens comuns, gerando dinâmicas de exploração, opressão e exclusão. Hoje, perante o agravamento da crise ecológica, que se sobrepõe a crises de cariz socioeconómico, o poder hegemónico avança com intervenções extrativistas por diferentes territórios, apresentadas como solução para um futuro dito mais sustentável e verde. Em resposta a tais ameaças, as comunidades que neles habitam organizam-se, mobilizam-se, resistem e recriam projetos autónomos e solidários em torno da defesa dos comuns – seja a terra, a água, a energia, os meios de produção, o conhecimento, entre muitos outros – por um futuro mais justo. As lutas em torno dos comuns e as múltiplas formas e práticas de defesa e emergência de ‘velhos’ e ‘novos’ comuns são uma janela aberta para pensar e reimaginar outros futuros possíveis e necessários, pela vida, justiça, dignidade e alegria.»

    Em certa medida invertendo o que sucedeu na edição anterior, em que se trouxe à universidade quatro activistas laborais e ambientais para um debate que partia do mote “Lutar contra a injustiça e pela justiça”, este ano procura-se levar o conhecimento académico além os limites universitários e permitir que seja forjado em espaços culturais, em jardins, na rua. Na tarde de 11 de Abril, o Cosmos Campolide acolherá uma oficina sobre o nexus agricultura, energia, turismo; o jogo colaborativo de consciencialização intergeracional sobre as intersecções entre economia e ecologia; a instalação “Sons da metamorfose”, que nos convida a experienciar o Bairro dos Anjos através da lente dos alunos do 4º ano da escola Sampaio Garrido; e a assembleia “Rumo a uma Rede de Ecologia Política”, que tem por objectivo tecer-se alianças, pelos diferentes territórios portugueses, entre investigadores, activistas e outros agentes empenhados em compreender e influenciar as relações entre sociedade, poder e eco-sistemas. Na tarde seguinte é a vez da Casa do Comum, no Bairro Alto, receber uma oficina sobre o entrelaçamento investigação-lutas ecológicas, seguida da instalação «Corpo-Algar», do Comite Efemero Transatlantico, cujo «som, imagens e experiências tácteis e cinéticas convidam a pisar este território devagarinho e “em vez de simplesmente operar na paisagem… a nos confundir com a paisagem” (Ailton Krenak)”»; se o tempo colaborar, terá lugar no Jardim do Príncipe Real a oficina «Arvorar-corpo», o local mais propício para o enraizamento de “pensares-sentires que incorporem o movimento coletivo de defesa dos bens comuns”. No sábado haverá ainda o percurso sonoro “Cada passo, uma constelação”, que convida «a atravessar e ser atravessado,» pelo Vale de Chelas, «palco de uma experiência utópica de desenho de cidade destinada a colmatar problemas habitacionais» que acabou por transformá-la numa «área fracturada em relação ao resto da cidade». Nas manhãs do dia 11 e 12, decorrerão ainda, entre o ISCTE-IUL e o ICS-UL, comunicações sobre crise, trabalho, saúde, floresta, ruralidade, urbanidade, sistemas agro-alimentares, energia, clima, governança, artes, pedagogias populares, conflitos e resistências.

    Já em Coimbra, o dia 19 de Abril começa com a oficina “Mapeando os Corpos-Territórios das nossas lutas”, seguida do plenário “Ecologia, Trabalho e Reprodução: entre investigação e política!». À tarde, o Centro de Estudos Sociais é palco de duas instalações – «Frutas Sanas, Cuerpos Quemados» e «Zona a Sacrificar» – e uma ronda de conversa sobre os potenciais e desafios dos «Baldios» para o reforço comunitário e a sustentabilidade. O evento termina na República do Bota Abaixo, com um jantar comunitário, após uma conversa sobre Escolas de Ecologias Feministas de Saberes e a assembleia «Consolidando a Rede de Ecologia Política».

    A realização de um evento que promove reflexões, memórias e aspirações em torno dos «Comuns» e dos processos de fazer-em-comum não poderia ser mais oportuno: «Aproximando-se a celebração dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, um período em que a revolta popular das e dos que não tinham voz se fez ouvir e que foi marcado por inúmeros processos e experiências de emancipação social, como a ocupação de fábricas e herdades e iniciativas coletivas de auto-gestão, assim como a conquista de vários direitos sociais e políticos em torno da habitação, da saúde, do trabalho, entre outros, é oportuno refletir sobre quais as ameaças, resistências e emergências que os comuns enfrentam hoje e sobre que inspirações- podem estes patrimónios de luta e as suas heranças trazer às lutas atuais.»

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    Website do evento:
    https://cria.org.pt/en/comuns

  • Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

    Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

    As obras do Metro Mondego, um elétrico articulado que se propõe circular na cidade de Coimbra e chegar a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, ameaçam abater 663 árvores no seu trajeto. O mesmo trajeto que um comboio assegurou durante dezenas de anos e que, sem ser articulado, não precisou de abater árvores nenhumas.

    No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. Podia ler-se no Jornal Público que «a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro informou que na estação do Instituto Geofísico do concelho de Coimbra foi registada uma concentração média horária de 188 microgramas por metro cúbico de ozono no ar, afetando quem se encontra nas freguesias de Almedina, Santa Cruz, São Bartolomeu, Sé Nova, Eiras, Santa Clara, Santo António dos Olivais e São Martinho do Bispo», isto é, na maior parte da cidade. Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!). Afinal, não eram só os «vulneráveis» que estavam em perigo, como dizia o comunicado da CCDR do Centro. Repentinamente tornámo-nos todos vulneráveis: éramos todos velhos, crianças e portadores de doenças graves. Isto não é novo numa cidade virada exclusivamente para o automóvel que é dono e senhor das vias apertadas e das avenidas onde se acelera muito para além dos 40 ou 50 km/h, em que os peões são tidos por inimigos e os ciclistas são vistos como seres anormais que devem ser apertados e apartados das estradas e vias urbanas. Por isso apita-se, insulta-se e manobra-se contra o peão e o ciclista. As ciclovias, com alguns troços partilhados com peões, são um perigo porque se partilham igualmente com automóveis em dois sentidos, têm curvas a 90 graus e escorredores pluviais onde se enfaixa com facilidade um pneu de bicicleta. Azar para o ciclista! Tal como o estacionamento: caótico é pouco para o descrever como, aliás, pode atestar quem conduz um carrinho de bebé, uma cadeira de rodas, seja ela mecânica ou elétrica, ou mesmo os estudantes com os carrinhos fanados nos supermercados completamente ébrios de praxe e de álcool marado.

    O ICNF e os massacres de inverno e de verão

    No início de 2021, a senhora responsável pelo ICNF convoca os jornalistas para a Mata do Choupal. Eles comparecem. Logo a seguir a senhora fala e eles ouvem. Proclama, na sua pusilanimidade, o vigoroso Plano de Recuperação da Mata do Choupal que, para admiração de muitos dos seus utentes, não necessitava de plano nenhum, muito menos de recuperação. Mas, sendo um espaço verde e havendo o dinheiro do PDR para gastar, havia que solucionar um problema inexistente. Anunciam-se 98 mil euros e a plantação de 5000 árvores cujas espécies a senhora não soube identificar, nem tampouco a sua numerosa comitiva. Até hoje não se sabe que espécies eram, mas plantaram-se em março, mesmo com avisos sérios de que as árvores não iam aguentar serem plantadas em plena primavera. Hoje o Choupal mirrou. As plantas secaram e a erva rasteira vingou abafando as plantadas. Ficaram as canas espetadas que as haviam de suportar e grandes clareiras. Por falar em canas, outra das matas mais conhecidas de Coimbra, Vale de Canas, também teve a sua intervenção podando à toa, desmatando e, até certo ponto, impedindo a sua regeneração natural. Aliás, as podas de árvores completamente dementes são um ex-libris das autarquias da região de Coimbra, ainda que obriguem a regas e enormes gastos de água que não aconteceriam de outra forma. Também os relvados caríssimos e de regas constantes pertencem a um novo-riquismo conimbricense que, como é evidente, não se revê em ervas naturais que não necessitam de água e que alimentam abelhas e outros insetos que não são nocivos. Sobre este aspeto, leia-se o agrónomo Vasco Paiva que tem denunciado sistematicamente a política incompetente das várias câmaras da região de Coimbra: «Em Coimbra existiam muitas plantas espontâneas de sabugueiro que foram erradamente eliminadas em ajardinamentos públicos. Chega-se ao disparate de se eliminarem muitas plantas e flores silvestres espontâneas porque acham que é preciso limpar… Exemplos de espécies nativas para os nossos jardins? Aqui vão alguns: alecrim, alfazema, erica, madressilva, medronheiro, murta, pascoinhas, pilriteiro, rosmaninho, sabugueiro e tantas outras. Já imaginaram os cheiros, as cores, as pequenas aves que se vão alimentar dos seus frutos?».
    É evidente que para o poder autárquico isto é completamente absurdo. Os relvados e os vasos de flores com as cores da bandeira em rotundas da cidade são muito mais tocantes na psique dos automobilistas e dos funcionários da câmara.

    No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. (…) Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!).

    Entra em cena a novel Câmara de Coimbra

    A Câmara de Coimbra tem como presidente José Manuel Silva, que capitaneou a coligação «Juntos Somos Coimbra». Logo antes das eleições, um terço dos seus membros independentes saíram para dar lugar a um verdadeiro albergue espanhol que já apontava, por isso mesmo, para uma espécie de ditadura pessoalista e presidencialista. A coligação tem apoios do PSD, CDS, Nós Cidadãos, RIR, PPM, Aliança e Volt. Sete partidos que na maior parte não conheciamos nem tinhamos ouvido falar e que arredaram um PS arrogante, igualmente pessoalista e incompetente. Mas não nos fixemos na política partidária, embora ela explique esta propensão do senhor ex-bastonário da ordem dos médicos para se olhar a si próprio como imprescindível na corrida para uma cidade em vias de sufocar ainda mais.
    Vale a pena fixarmo-nos no Diário de Coimbra de 23 de setembro (o abate de árvores iniciou-se a 12!) para conhecer os autos de consignação e o protocolo de todas as obras do Metro Mondego inseridas no Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), em que a Metro Bus apresentará um «elétrico articulado» que irá «servir» a cidade e que chegará a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, tal como um comboio o fez durante dezenas de anos, servindo populações diariamente até interesses inconfessáveis o terem banido, levantando as linhas e deixando as populações à mercê de um serviço rodoviário com estradas repletas de centenas de curvas e muito mais morosas! A verdade é que, nessa ocasião, se constituiu uma empresa durante perto de 30 anos que serviu para nada fazer em prol das pessoas, mas mais que pródiga em ordenados chorudos de ceo’s que se iam alternando conforme os interesses partidários.
    Ora, o presidente da câmara de Coimbra resolveu apresentar o plano no único barco turístico do Mondego como o nome muito acertado de «Basófias» (!!), chamando os jornalistas com pompa e circunstância, não fosse o facto anedótico de o barco encalhar em plantas aquáticas invasoras que se meteram no sistema de propulsão do barco! A planta (qual metáfora embainhada a tempo) é a elódea-africana que coloca em risco toda a biodiversidade autóctone do rio e das margens. Mas o projeto não encalhou, tal como a dobragem do Cabo Bojador. O abate de árvores não estava comprometido, portanto.

    O massacre dos plátanos

    No dia 6 de setembro, o Jornal Público noticiava que Coimbra iria abater 5 plátanos centenários junto ao Parque Manuel Braga, no centro da cidade. Esse corte aconteceria seis dias depois. Imediatamente, algumas dezenas de cidadãos protestaram no local apresentando um plano alternativo a um «elétrico articulado» cujo traçado abateria não só os 5 plátanos centenários, alguns de 30 metros, mas também 663 árvores no novo traçado até Semide, na chamada Linha da Lousã. Veríamos, mais tarde, que já se tinha perdido a conta às árvores abatidas dentro da cidade e por todo o lado. As pessoas perguntavam-se por que razão um elétrico que é articulado necessitava de massacrar tal hecatombe de árvores, quando anteriormente um comboio não articulado nunca tinha estado em conflito com qualquer árvore nesse mesmo traçado. A resposta aos cidadãos que apresentaram à SMM um plano que evitaria este verdadeiro crime (não sabemos ainda, nesta fase, se é ou não um crime ambiental) foi abismal, segundo o mesmo jornal: «A Sociedade Metro Mondego (SMM) olhou para a proposta de quem queria evitar o abate de cinco árvores de grande porte na avenida Emídio Navarro, estudou uma alternativa e concluiu que nada muda em relação ao plano inicial.» A SMM «olhou» e disse «não!». Mais tarde, com uma contestação fraca e muito localizada, estando já em campo a ClimAção Centro, a empresa pública dá mais umas achegas: é «facilmente constatável» que a proposta do movimento resultaria em «externalidades e implicações que se traduzem no abaixamento expressivo dos padrões de qualidade do projecto». Não se percebendo de imediato o que é «facilmente constatável», as «externalidades» eram tão só a interferência com uma estação de gasolina no local e com uma estação elevatória das Águas do Centro Litoral em construção. Já antes, no dia 6 de setembro, a Agência Lusa tinha dado conta das verdadeiras razões da recusa da SMM, que jurava a pés juntos que queria um traçado verde mas que era obrigada ao abate. Qual a razão? «Alterar projetos consignados e em fase de execução tem implicações extremamente penalizantes em termos de financiamento, as quais podem levar à sua inviabilidade e encerramento definitivo». Portanto, o caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde, ainda por cima com as alterações climáticas existentes e que nos levam a temperaturas recorde.

    A ClimAção tenta agir

    Pode dizer-se que a ClimAção Centro tem sido a única entidade em Coimbra que se opõe a esta verdadeira desgraça, a um crime que ainda não está configurado e a que os responsáveis se esquivam de uma maneira canhestra, ora dizendo que a responsabilidade é da SMM, da presidência da câmara ou da Infraestruturas de Portugal. Afiançamos aos leitores que cada uma destas instituições fala por si, ou astutamente combinadas, e, de facto, a ClimAção que tenta uma oposição eficaz conflitua com esta fuga à responsabilidade por parte de quem é culpado desta hecatombe arbórea.

    Coimbra cidade-dormitório. Ela dorme, o capitalismo verde sossega-a.

    Coimbra não contesta. Coimbra é uma enorme cidade-dormitório. Literalmente. Coimbra não tem estudantes contestatários, embora de vez em quando clamem por Greta Thunberg. Preocupam-se com as praxes, mais do que com os crimes que lhes passam pelos olhos. Os conimbricenses olham pelo seu umbigo, levando o seu corpo a ginásios que se multiplicam, pela sua imagem, pela sua cátedra e pelos seus serviços públicos e privados. Coimbra é a sua universidade fechada e menoscabada. Coimbra preocupa-se com os seus automóveis e com as pistas de velocidade em que transformaram as vias rodoviárias. Coimbra expulsou os operários das suas fábricas. Agora expulsa a natureza. Coimbra exulta a sua decadência.
    Chega a ser comovente ver a desmotivação dos que mais ativamente se opõem a esta ação da SMM, do presidente e da IP, não reparando sequer que a oposição institucional da Câmara vai apelando aqui e ali para que não se faça o abate indiscriminado de 663 árvores. O papel da oposição institucional é exercer esse combate, ténue é certo, mas o mais importante, e é isso que muitos ingénuos e ingénuas não compreenderam ainda, é ver o Metro a andar! Com árvores abatidas ou sem elas, o importante é que em 2024 o Metro Bus, esse «elétrico articulado» que não se consegue articular com as árvores, comece a funcionar. Estaremos nas vésperas de mais umas eleições autárquicas e a coisa tem de render votos, puxando para si o «progresso» baseado no capitalismo verde.

    O caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde.

    Uma câmara maoísta?

    Lembrar-se-á a campanha levada a cabo por Mao e que acabou mal – «Que mil flores desabrochem! Que mil escolas de pensamento floresçam!» -, mas o comunicado de 5 de agosto de 2022 da coligação camarária é de um mau gosto e de uma demagogia que configura inclusive uma impossibilidade real em que só os mais incautos podem acreditar. Esse comunicado promete que a CM de Coimbra e a SMM chegaram a um acordo: por cada árvore abatida, três florescerão! As contradições são tantas que não podem caber no espaço deste artigo, mas sobressaem estas, socorrendo-me agora de algumas perguntas que o agrónomo Vasco Paiva coloca na sua página de Facebook a 10 de setembro: «Outra falácia é de que vão substituir cada árvore abatida por três novas! Claro que uma árvore adulta (algumas centenárias) de elevado porte e de larga copa não é substituível por jovens plantas ou árvores que, no máximo, terão 2 ou 3 metros de altura. Quantas décadas serão necessárias para atingirem a mesma dimensão e cumprirem os meus serviços ambientais (despoluição, fixação de carbono, sombra, abrigo para pássaros ou outros animais)? Outra falácia: Segundo foi afirmado na comunicação social, e não desmentido, está previsto o abate de cerca de 600 árvores. No Plano, apresentado pela “Metro Mondego” à Assembleia Municipal, intitulado “Plano para o Reforço da Estrutura Arbórea”, está prevista a plantação de 1.326 árvores, sendo 151 em 2022; 575 em 2023 e 600 em 2024. Alguém me explica como é que 3 x 600 não são 1.800?»

    As razões da anestesia conimbricense e o modo sempre pacífico de a contrariar: o bystander effect!

    Perante a pobre contestação que se tem vindo a observar, a universidade socorre-se da Psicologia, não fosse Coimbra propagandeada como a cidade do conhecimento! No dia 19 de setembro, no site CoimbraCooletiva, e adivinhando já a desmotivação e abandono da contestação ao crime que se evidencia cada vez mais, a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra coloca aos cidadãos as seguintes perguntas: «Por que é que as pessoas boas ficam paradas e não lutam a favor do que defendem? Como é que deixamos que se destrua património, como zonas verdes, lamentando e criticando mas não fazendo nada? A psicologia chama-lhe efeito do espectador e tem cura»; e ainda «o bystander effect é o fenómeno onde a difusão da responsabilidade («os outros fazem…») e o medo do risco envolvido (ficar mal visto, perder emprego, ser criticado, ser preso…) leva à inação por parte de pessoas que poderiam rectificar a situação». Qual é a cura, então? A resposta que vai levantar em peso a população conimbricense é esta: «É para contrariá-lo que o InterDito se junta hoje à Secção Experimental de Yoga da Associação Académica de Coimbra, ao Encontro da Paz e a quem na comunidade também estiver preocupado com o abate de árvores no centro da cidade numa manifestação pacífica, sob a forma da criação de cordão humano».
    É evidente que a cidade está perdida, as suas árvores estarão condenadas a morrer pelo crime de existirem e colidirem com interesses financeiros públicos, privados e de fundos europeus. No entanto, quer-nos parecer que a anestesia de uma franja muito significativa da população da cidade que vira literalmente as costas a este crime, ainda que com algumas lágrimas (de crocodilo?), tem um carácter local muito vincado. Fica por perceber como é que não houve providências cautelares contra o abate enquanto se apresentavam alternativas concretas, assim como mais apoios no país e mesmo na cidade, ganhando com isso tempo inestimável. Se este facto ocorresse em algumas outras cidades ou vilas portuguesas as coisas não seriam assim, e seria mesmo impensável numa qualquer cidade europeia. Mas, em Coimbra, é sempre possível a aventura do capitalismo verde!

     


    Texto de  António Luís Catarino | Imagens de António Barros

  • Para lá do 8 de Março, o feminismo faz-se todos os dias

    Para lá do 8 de Março, o feminismo faz-se todos os dias

    Em Coimbra e Porto, o Dia Internacional da Mulher foi assinalado, como o é todos os anos, trazendo para a praça pública a discussão sobre a violência de género e os direitos das mulheres e das pessoas LGBT. Mas, para lá desta data, o feminismo constrói-se diariamente por múltiplos colectivos e iniciativas.

    Em frente à Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, desenha-se um cenário diferente do habitual. Estamos em Março, mas ainda se assam castanhas ao largo da pequena fonte do Largo 8 de Maio. Há movimentação na praça e nas ruas em redor e uma cacofonia de vozes, guitarras e pandeiretas. Estendem-se cartazes coloridos pelas escadas em frente à igreja, onde se lê “Me teneis hasta el coño!” e “Educação Feminista, para que sejamos livres e não valentes”.

    Em Coimbra, como em centos de outras cidades pelo mundo, o 8 de Março é assinalado com uma manifestação pelos direitos das mulheres – trabalhadoras, lésbicas, desempregadas, imigrantes, transexuais, presas, mortas. Pelos rostos das mulheres no Largo 8 de Maio vê-se pintado “Ni Una Menos” – mote cunhado pelas feministas argentinas, que denunciam um femicídio a cada 30 horas no seu país.

    Um pouco por todo o mundo, àquela data e hora, estava a acontecer a Greve Global de Mulheres. Uma ideia que surgiu da coordenação de mulheres polacas, argentinas e americanas espalhou-se pelo mapa e chegou também a Portugal. A convocatória à greve incitava todas as mulheres a que parassem o trabalho profissional, doméstico e social. Aconteceu em 58 países do mundo e, chegada a Coimbra, a Greve Global de Mulheres e a manifestação que todos os anos assinala o dia 8 de Março foram particularmente pautadas pela solidariedade com as mulheres curdas e o Curdistão. Frequentemente, elevavam-se as vozes num uníssono “Jin, Jyian, Azadi!” – “Mulheres, Vida, Liberdade”.

    Na parede entre a Igreja de Santa Cruz e a Câmara Municipal de Coimbra há folhas de papel com algumas das reivindicações que depois seriamlidas no Manifesto da Assembleia Feminista de Coimbra, formada um ano antes na mesma cidade – “pelo fim da cultura de estupro”, “por mim, pela minha mãe, pela minha irmã, por todas as mulheres”. Ao lado, cartolinas amarelas com desenhos feitos por alunos de 7º ano de uma escola local. Ilustram a mulher como entendem que ela pode ser: mecânica, construtora, deputada, bombeira. E rematam: “O dia das mulheres é todos os dias”.

    A marcha arrancou do Largo 8 de Maio em direcção à Praça da República, com cerca de 150 pessoas a comporem a coluna que percorreu a Avenida Sá da Bandeira. Erguiam-se bandeiras arco-íris e cartazes com palavras de ordem, nas faixas liam-se reivindicações. A manifestação terminou com uma roda de intervenções na Praça da República, onde se releu o Manifesto e se leram poemas, testemunhos e reivindicações. O manifesto redigido pela Assembleia Feminista de Coimbra ressalvava o papel que a crise e austeridade imposta ao largo dos últimos anos tiveram na vida das mulheres e a vulnerabilidade para que isso as remeteu. Reivindicaram o acesso “à terra, à água, às sementes, aos meios de produção orgânica, à nossa soberania alimentar”, e questionaram o poder das grandes indústrias agropecuárias.

    Mas o que culminou numa roda de sororidade e apoio exigiu muitas semanas de preparação, revela uma das activistas da Assembleia. “Temos reuniões todo o ano, mas só no 8 de Março é que aparece toda a gente”. A par das actividades do 25 de Novembro, Dia Internacional pelo Fim da Violência contra a Mulher, os dias anteriores e seguintes a cada data são marcados por actividades organizadas por este e outros grupos que se dinamizem, como, por exemplo, a República Rosa Luxemburgo.

     

    “Quero influenciar o mundo lá fora como sou influenciada cá dentro”

    Com vista sobre o Jardim da Sereia e a Penitenciária, uma casa de paredes cor-de-rosa ergue-se altivamente sobre a cidade. A República Rosa Luxemburgo, fundada em 1972, sempre se pautou por uma posição dissidente face ao imposto pelo status quo académico e social. Pintado numa parede da colorida sala está o nome de Fernanda Mateus, “A Bombista”, o maior dos nomes daquela República de estudantes. Assim apelidada por levar consigo para todos os lados uma mala cheia de incendiários panfletos contra o regime, a Nandinha (como as Rosas tendem a falar dela) funda a que é a primeira República feminina de Coimbra. As Repúblicas são espaços comunitários e de auto-gestão, sendo que actualmente existem 25 em Coimbra, cada qual com sua história, nome e identidade próprios.

    Sentadas numa sala quase sem mobília, Diana, Helena e Raquel descansam um pouco da azáfama do Mês Rosa. Daí a umas horas, a casa irá encher-se de gente para mais uma festa e os preparativos estão quase terminados. Esta festa é só mais uma das múltiplas actividades que estas estudantes têm vindo a promover.

    Diana Martins é, actualmente, quem há mais tempo vive na casa. É estudante de Antropologia Social e Cultural e diz que, apesar de já conhecer o movimento, não era o que é hoje. Aprendeu o feminismo na prática e não tanto na teoria e teve “espaço para desenvolver um pensamento crítico num espaço heterogéneo”.

    As outras duas jovens na sala chegaram às Rosas mais ou menos como Diana chegou: por acaso, e porque já lá teriam uma amiga. E ambas partilham de um sentimento que parece ser geral. Ao entrarem, sentiram-se seguras e em casa. E Helena acrescenta: “estou aqui há cinco meses e já sinto uma diferença radical. Quero influenciar o mundo lá fora como sou influenciada cá dentro”.

    Começaram a planear o Mês Rosa em Dezembro passado, depois de um projecto semelhante no ano anterior. Explicam a necessidade deste tipo de iniciativas com a falta de projectos semelhantes na realidade conimbricense, fora do circuito das Repúblicas. Diana fala nas “grandes datas, o 25 de Novembro e o 8 de Março” e da Assembleia Feminista de Coimbra, mas acrescenta que, para lá disso, “não há muita coisa a acontecer”. Em 2016, em conjunto com a República das Marias e a UMAR, montaram uma zine a que chamaram “Des(a)fiar a violência sexual” cujo lançamento está previsto para o final do mês de Abril.

    “O movimento está aí, há reuniões da Assembleia durante todo o ano”, explica Diana, “mas as reuniões são para organizar o 25N e o 8M, não se fazem coisas espontâneas” como projecções de filmes ou conferências. Relembra uma conversa que houve sobre consumos de drogas e que, apesar de não ter “directamente a ver com o feminismo, aprendeu-se imenso, até sobre Coimbra”. E remata: “o feminismo continua a ser quase um tabu, continua a ser mistificado”.

    As três estudantes garantem que há mulheres de fora do circuito das Repúblicas que ocasionalmente as procuram, mas são essencialmente mulheres estrangeiras. Uns dias antes, projectaram um documentário sobre o Curdistão e as mulheres curdas e, nessa sessão, tiveram casa cheia. Relembram a presença de uma jovem curda, que apareceu “sozinha, super envergonhada”, mas que não se inibiu de demonstrar a sua surpresa por ver iniciativas deste género numa cidade onde considera que “o movimento estudantil estava morto”, relata Diana. Explicam que a questão curda está muito presente nos círculos mais activistas de Coimbra e garantem que têm aprendido bastante com os documentários e as conversas sobre o Curdistão e as mulheres curdas que se têm organizado ao longo dos meses.

    Contam algumas histórias em que directamente se viram confrontadas com o que consideram ser abuso de poder, mas consideram que é complicado atrair raparigas novas para a casa, “porque continua a haver um estigma contra as Repúblicas”. E acrescido ao estigma que há contra as Repúblicas, explicam as Rosas, há um estigma associado ao feminismo – “para além das drogas, somos todas umas feminazis”, graceja Helena. Não obstante, não sentiram que esses estigmas tivessem afectado as actividades do Mês Rosa.

    Enquanto decorre a conversa, continuam os preparativos para a festa, que não vai ser só mais uma noite de folia. “Como se já não fosse óbvio o suficiente, decidimos criar um protocolo contra agressões sexistas”, explica Diana. “O facto de alguém estar sob efeito de álcool ou de drogas não desculpabiliza a agressão. E quem agredir será expulso da casa”. Helena acrescenta que este documento “mais formal” também serve para que as pessoas na festa saibam que estão num ambiente seguro.

    Adiantam que a outra República feminista de Coimbra, as Marias do Loureiro, está a preparar um documento para apresentar em Conselho de Repúblicas – órgão informal que inclui todas as Repúblicas e no qual todas as decisões são tomadas de forma assembleária e por unanimidade – que contemple a questão da violência sexista dentro das Repúblicas, à semelhança do que as Rosas iriam apresentar umas horas depois. Diz Diana que o ambiente nas Repúblicas “não é inseguro, mas não é tão seguro quanto pensamos” e que “o carácter formal deste protocolo inter e intra-Repúblicas pode ter um efeito dissuasor”.

    Entretanto, entra Ana Rui, antiga residente das Rosas, mas ainda muito presente na vida da casa e das mulheres que lá vivem. Há abraços apertados, reencontros, “que saudades!”. Agora que Ana Rui se juntou, ela e Diana explicam que o paradigma da casa mudou no ano anterior: se desde 1972 a casa era tão somente uma casa feminina, na qual não viviam homens, desde o ano passado que a República assume uma postura feminista, mas admitindo a residência de homens. “A oficialização da coisa tem a ver com o passado histórico da casa, e com querermos assumir a nossa posição ideológica de forma oficial”, explica Ana Rui.

    Percebeu, ao chegar às Rosas, que aquele era um local de múltiplos feminismos, onde teria espaço para desenvolver o seu próprio feminismo e um pensamento crítico acerca do mundo e das próprias correntes feministas. Fala em duas antigas residentes e em como elas próprias encontraram os feminismos que mais sentido lhes faziam, como são o eco-feminismo e o feminismo negro, e assegura que fica “muito feliz por saber que esses processos começaram aqui”. Caracteriza as Rosas como um espaço de diálogo e crescimento.

    Helena fala “numa força maior” e quer acreditar que ali, nas Rosas, essa força maior existe. E existe todo o ano, porque é todo o ano que elas vivem naquela casa cor-de-rosa, no alto de Coimbra, com vista sobre a Sereia e sobre a cidade do Porto, onde o mês de Março é bem parecido com o Mês Rosa.

     

    “Não nos vemos a institucionalizar-nos”

    Já a Primavera se tinha anunciado nos calendários, mas ainda não se fazia sentir verdadeiramente. Final de Março, céu cinzento, chuva miudinha e constante, bem à moda do Porto. No Gato Vadio, já há chávenas de chá quente a saírem de trás do pequeno balcão de madeira, e sacodem-se cabelos e casacos molhados. Há uma tela pendurada no fundo da sala e as mesas estão dispostas para receber mais uma projecção promovida pelo Festival Feminista do Porto, na sua segunda edição. Está preparado o documentário “Women, Art, Revolution”, sobre as mulheres responsáveis pelo movimento feminista na arte nas décadas de 60 e 70.

    Mas antes, Raquel Silva está ao leme da sessão, rodeada de zines e com um provocador pin na lapela do casaco – um triângulo cor-de-rosa, e lê-se “CUNT”. Veio para apresentar a zine que edita desde 2011, Cuntroll. A Cuntroll é mais ou menos uma “one-woman band”, já que Raquel é a única pessoa por trás dela desde o início. Recorre a open calls e tem múltiplas colaboradoras, mas tudo volta a ela.

    Sentia que havia uma lacuna nas publicações independentes em Portugal que se focassem especificamente nas questões queer e de género, e por isso nasce a Cuntroll, tão ligada à tradição punk das zines. “Punk, feminismo, DIY, riot grrl!”, são algumas das influências que Raquel reconhece na publicação. Acima de tudo, é uma questão de auto-expressão, para ela e para outras: “um espaço livre, sem filtros”, descreve.

    Raquel planeia manter a Cuntroll no registo em que tem funcionado desde a sua fundação. Sente que, agora, o feminismo é “mais trendy”, mas quando a Cuntroll surgiu “não dizia que era uma zine feminista, senão era olhada de lado”. Isso pode não ser necessariamente mau, mas sente que têm surgido múltiplos projectos feministas que são “motivados pelo capitalismo, quando esse não deve ser de todo o motivo basilar”.

    Não é a primeira nem segunda vez que este espaço de associação cultural recebe as actividades do Festival Feminista. Nesta edição, contou com múltiplas tertúlias e projecções e, na anterior, foi o mesmo. A primeira edição deste evento coincidiu com a passagem da Caravana Feminista por Portugal, em Outubro de 2015, e é na sequência do Festival que se junta o Colectivo Feminista do Porto.

    Alicia, de óculos redondos empinados na ponta do nariz e um pin igual ao de Raquel, conta como se cruzou com o Festival, há ano e meio atrás, através de um cartaz afixado na rua. Brasileira e a viver no Porto há três anos, é doutoranda na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e conta que teve de colocar as aulas mais ou menos on hold para se poder dedicar à segunda edição do Festival. Integra o Colectivo desde o final do Festival Feminista de 2015, quando se faz uma chamada colectiva a quem tivesse vontade de fazer nascer esse projecto.

    Frisa que o Colectivo e o Festival não são uma e a mesma coisa: “o Festival é maior que o colectivo e o colectivo não vê o festival como seu”. Se o colectivo conta com um núcleo duro de mais ou menos 10 pessoas, o do festival era sensivelmente o dobro. Mas também sublinha que, quando não estão a trabalhar para o Festival, estão a trabalhar em formas de garantir a sustentabilidade do mesmo. Alicia explica que estas cinco semanas de eventos funcionam numa lógica de auto-gestão e sustentabilidade, sem qualquer objectivo de lucro: todas as actividades são gratuitas. E acrescenta: “Não nos vemos a institucionalizar-nos”.

    Nisto, junta-se Natasha, freelancer e “muito grávida de seis meses”, diz, ao sentar-se e acariciar a barriga. Ao que já Alicia ia dizendo, Natasha acrescenta que receia “perder a liberdade que se quer ter” se o festival efectivamente se institucionalizasse.

    Explicam que, se em Outubro de 2015, o Festival surgiu de uma forma orgânica e espontânea, numa recepção à Caravana Feminista que se foi alongando por um mês, a opção da organização do festival em fazerem a segunda edição em Março de 2017 prendeu-se com o facto de o colectivo se ter recém-formado após a passagem da Caravana. “Pensámos manter o festival em Outubro, para fugir da ideia do mês das mulheres”, esclarece Alicia. Não obstante, queriam ter “um mês de discussão política que contrariasse a romantização banal do mês das mulheres”.

    Assim, um Colectivo que nasce no final de 2015 foi crescendo de forma assembleária, “100% horizontal”, sublinha Natasha, resulta num grupo maior que em 2017 promove a segunda edição do Festival Feminista do Porto. “Estamos a gostar muito de trabalhar juntas”, acrescenta. “Há um carinho muito grande de todas”. Mas nem só de tertúlias e projecções de documentários se fez este Festival.

    “Os dois workshops de auto-defesa esgotaram, ficámos com gente em fila de espera” e isso é revelador de algo, diz Alicia. E, para lá das actividades que foram promovidas, houve duas iniciativas que se estenderam por todo o festival, demonstradoras da sororidade que deveria marcá-lo. Em todo os momentos, as participantes podiam deixar produtos de higiene íntima nos locais onde decorressem as actividades, que depois viriam a ser distribuídos por mulheres sem-abrigo.

    E uma das preocupações das organizadoras do festival era que algumas mães ou pais não pudessem comparecer a determinadas actividades por terem de cuidar dos filhos. Por isso mesmo, para além das actividades destinadas a crianças, proporcionavam a possibilidade de “arranjar uma solução para quem não pudesse vir pelos filhos”, ao disponibilizarem ajuda para cuidar dos pequenos.

    O Festival já terminou, mas o trabalho do Colectivo irá continuar. Não lhes tem sobrado muito tempo para olharem para o futuro, gracejam as duas mulheres, mas há planos e há vontade. E há mulheres com garra para levarem o futuro adiante, sem se prenderem a um dia, instituição ou efeméride – afinal, o feminismo faz-se todos os dias.

  • Regime Fundacional em debate na comunidade universitária de Coimbra

    Regime Fundacional em debate na comunidade universitária de Coimbra

     

    Actualização recebida por email: “Como anunciado pelo Conselho de Repúblicas, as Repúblicas de Coimbra estão a organizar uma semana de actividades contra a passagem da Universidade de Coimbra a Fundação. Uma semana repleta de conversas, acções de rua e muito mais, que culmina com uma Concentração Anti-Fundação na próxima segunda-feira, 20 de Fevereiro”. Comunicado e programa da semana Anti-Fundação aqui.

    ….

    Texto: Zita Moura
    Foto: Inês Nepomuceno / Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra

     

    Estudantes e docentes acusam o regime fundacional de ser um processo de privatização da universidade. Há resistência organizada dentro e fora dos círculos oficiais da instituição.

    A Universidade de Coimbra (UC) está a atravessar um momento de reflexão a propósito da sua passagem, ou não, ao Regime Fundacional (RF). Em Outubro, a comunidade universitária recebeu um convite por parte da Reitoria para uma sessão de esclarecimento sobre o RF, que contaria com a presença do Reitor da Universidade do Porto (UP). A instituição do ensino superior (IES) portuense já funciona ao abrigo do RF desde 2010.

    Nessa sessão foram indicadas aquelas que o Reitor João Gabriel Silva, da UC, considerava as vantagens e desvantagens do RF. Entre as vantagens poder-se-iam enumerar a maior autonomia da IES face à tutela, a possibilidade de comprar ou vender património, e a potencial contratação de docentes em regime privado. Como desvantagens, foi listada “uma definição descuidada de carreiras próprias e uma imprudente negociação salarial [que] deixam consequências para muitos anos” e a possibilidade de contracção de dívidas junto de instituições bancárias.

    A passagem a RF também implica a criação de um Conselho de Curadores, que é formado por cinco personalidades externas à IES e que são propostas pelo Conselho Geral e nomeadas pelo Governo. Estas pessoas tendem a estar ligadas à alta política ou à alta finança, como se pode avaliar pelo corpo do Conselho de Curadores da UP, em que participam Miguel Cadilhe (Ministro das Finanças entre 1985 e 1990) e Manuel Ferreira de Oliveira (Presidente Executivo da Galp até 2015). Já a Universidade de Aveiro (UA) tem um Conselho de Curadores que é integrado por Alexandre Soares dos Santos (líder da Jerónimo Martins), e a que chegou a pertencer o bancário Ricardo Salgado. Na sessão promovida pela Reitoria da UC, foram muitas as questões que estudantes e docentes levantaram, tanto ao Reitor da UC como ao Reitor da UP, nomeadamente a propósito da impunidade deste órgão, que não responde perante ninguém. Do Conselho de Curadores pode depender a última palavra em estratégias de financiamento, planos científicos ou novas contratações.

    Mas a passagem da Universidade de Coimbra a fundação, como já aconteceu na UP, na UA, e no ISCTE-IUL, depende sempre do aval do Conselho Geral (CG). Ernesto Costa, presidente interino do CG e cuja lista foi reeleita para segundo mandato, explica que “foi o Reitor da UC que quis introduzir o debate”. O professor de Engenharia Informática acrescenta que “apesar de ser contra o RF, não faz sentido que não se debata”.

    É de sublinhar que o CG é constituído por 18 representantes dos docentes, 5 representantes dos estudantes e 2 representantes dos não-docentes, e que desses 25 a sentarem-se à mesa do CG “onze são abertamente contra o regime fundacional”. Neste momento, o CG está a debater internamente quem devem ser os dez elementos externos à UC a integrar o conselho, e só a partir daí é que recomeçará a discussão sobre o RF. “Se os elementos externos tiverem a mesma sensibilidade que os restantes membros do CG, o debate morre antes de chegar ao conselho”, refere Costa.

    Fora dos círculos oficiais da UC, os estudantes também se estão a organizar. Rebeca Moore é ex-estudante de Arqueologia na UC, mas desde logo aderiu à plataforma “Não Vai Ter Fundação”, cuja principal missão é “informar e consciencializar a comunidade estudantil” a propósito do RF e do que ele pode implicar para a universidade. O grupo organiza reuniões abertas semanalmente, e investe na distribuição de panfletos sobre o RF. A ex-estudante aponta que têm tido boa receptividade quando fazem panfletagem, e que “o sentimento geral que recebemos é de que os estudantes estão contra o RF”. Está prevista para Maio uma “Semana Contra a Fundação”, organizada entre as repúblicas e as secções da Associação Académica de Coimbra.

    Sublinha que “hoje não há muita mobilização estudantil”, e que por isso é que o trabalho da plataforma “Não Vai Ter Fundação” tem especial relevo. “Esta é uma privatização muito bem camuflada”, diz Rebeca Moore.

  • [Coimbra] Luta Anti-Fundação

    [Coimbra] Luta Anti-Fundação

    recebido por email


    Como anunciado pelo Conselho de Repúblicas, as Repúblicas de Coimbra estão a organizar uma semana de actividades contra a passagem da Universidade de Coimbra a Fundação. Uma semana repleta de conversas, acções de rua e muito mais, que culmina com uma Concentração Anti-Fundação na próxima segunda-feira, 20 de Fevereiro.

    Juntamos ligações para o Comunicado do Conselho de Repúblicas e para fotos de faixas contra a Fundação em mais de uma dezena de Repúblicas.

    Comunicado do Conselho de Repúblicas
    Faixas contra a Fundação em várias Repúblicas

    PROGRAMA COMPLETO

    13 de Fevereiro [Segunda-feira]
    A Visão do Conselheiro Geral Estudantil
    17h | República dos Galifões
    fb.com/events/251457188632903/

    OpenMic (a)Fundacional
    22h | República Baco
    fb.com/events/

    14 de Fevereiro [Terça-feira]

    Morte Fundacionalmente Assistida da Universidade de Coimbra
    14h | Largo D. Dinis
    Performance interventiva em forma de marcha fúnebre que se inicia junto da estátua do D. Dinis e se desdobra em percurso até a um primeiro momento de apresentação na Real República Do Bota-Abaixo e um segundo na República das Marias do loureiro.
    Actividade organizada pelos organismos autónomos CITAC, GEFAC e TEUC e as Repúblicas Real República do Bota-Abaixo e República das Marias do loureiro.
    fb.com/events/

    15 de Fevereiro [Quarta-feira]
    Conversa | “Bota-Abaixo a Fundação!”
    18h | República Bota-Abaixo
    fb.com/events/210993606034335/

    Tertúlia Literária Fragmentos
    22h | Ateneu de Coimbra
    fb.com/events/

    16 de Fevereiro [Quinta-feira]
    Cortejo D’Afundação
    14h | Rua Larga
    Acção de sensibilização em forma de cortejo com carros de compras como forma de metaforizar a mercantilização do Ensino que é consequência directa da solidificação do RJIES no Ensino Público português

    17 de Fevereiro [Sexta-feira]
    Afundar a Fome
    20h | Rua da Matemática
    Jantar Comunitário para sensibilizar a comunidade universitária para a problemática do regime fundacional.

    18 de Fevereiro [Sábado]
    Educação Além Fronteiras
    17h | República Ninho dos Matulões
    Enquanto a privatização ganha terreno na UC, urge discutirmos alternativas. Precisamos de uma educação que permita que cada um se possa exprimir, possa ensinar e aprender mutuamente, sem hierarquias e superando a divisão entre professor e aluno. Nesta conversa, iremos contar com a presença de três relatos de experiências de educar e resistência bastante distintas:
    – faremos uma viagem a Itália, à Nablus – Scuola di Migranti, uma “escola” onde quem chega aprende e ensina;
    – vamos até à América Latina, ouvir relatos das lutas estudantis, e também conhecer experiências de educação com imigrantes que utilizam pedagogias alternativas em Porto Alegre, no Brasil;
    – e finalmente, visitamos o norte de Portugal, até à Es.Col.A. da Fontinha e à sua experiência.
    fb.com/events/380902322271618/

    Paulo Freire Contemporâneo
    21h30 | República Prá-Kys-Tão
    Projecção do documentário “Contemporâneo”, que retrata as experiências e a vida de Paulo Freire, pedagogo brasileiro autor da Pedagogia do Oprimido, livro em que propõe uma nova relação pedagógica baseada nas suas experiências ensinando adultos a ler e escrever.

    20 de Fevereiro [Segunda-feira]
    Concentração Anti-Fundação
    14h | Porta Férrea
    fb.com/photo.php?fbid=

     


    República Ninho dos Matulões
    Rua Infanta D. Tereza, nº29B 4º andar
    3000-218 Coimbra, PT
    Tel.: 239 481 239

    https://www.facebook.com/

  • Candidatura da UC a Património Mundial e o saneamento da cidade de Coimbra

    Candidatura da UC a Património Mundial e o saneamento da cidade de Coimbra

    Estão candidatas oficialmente, desde Janeiro de 2012, enquanto património material, a UC, Alta Universitária e a Rua da Sofia, onde se situam os 17 edifícios avaliados como detentores de grande valor patrimonial, e ainda a zona de protecção que envolve a Baixa de Coimbra e vários outros espaços circundantes da zona alvo de classificação. Quanto ao que designam de património imaterial, estão a ser candidatadas as denominadas “tradições académicas”, tais como a tomada de posse do Reitor, a abertura solene das aulas, as provas de doutoramento e os doutoramentos honoris causa e, também, o que designam por “cultura académica estudantil”, na qual incluem a festa das latas, a queima das fitas, as praxes, as serenatas e a Canção de Coimbra. Aglomeram, ainda, as Repúblicas de Coimbra, “marco simbólico e histórico” dessa dita “cultura académica”, entre outros “marcos” incluídos nesta componente imaterial da candidatura.

     

    Rua da Matemática

    Alguns exemplos de patrimonialização precedidos pela UNESCO denunciam a forma como os respectivos instrumentos políticos e legislativos servem não só o propósito de revitalização, regulação e protecção do que classificam de património cultural per se, como também instituem regras respeitantes à inventariação e circulação de bens e produtos culturais, com a finalidade de incrementar o mercado turístico e as indústrias culturais, promovendo processos de gentrificação nas áreas classificadas, nomeadamente, as que compreendem “centros históricos”.

    Nas sociedades contemporâneas, imiscuídas na globalização, constata-se a valorização económica do património, a re-invenção e a mercantilização de “coisas”, lugares, paisagens culturais e identidades, que se integram nas indústrias turísticas. Assim, o património é dramatizado, por exemplo, através dos monumentos, comemorações e museus que, sob uma concepção conservadora e autoritária, procedem ao tradicionalismo e folclorização reproduzidos pelas elites.

    As cidades tornam-se assim rentáveis pólos turísticos, espaços altamente estetizantes, onde as artes e a cultura são “coisificadas” em produtos que rentabilizam os espaços urbanos, moldados para um olhar turístico consumista.

    As directivas da UNESCO devem ser tomadas com precaução e ser alvo de críticas, pois participam da legitimação quer de uma nova ordem económica imposta, quer de políticas e concepções culturais limitadas que despoletam políticas patrimoniais de apropriação cultural pelos grupos hegemónicos e económicos, associadas a uma visão essencialista e tradicionalista de cultura, identidade e património, tal como o que se está a verificar no processo de patrimonialização em Coimbra. A candidatura da UC foi realizada sem consulta da população ou das comunidades inseridas na área que está a ser candidatada a Património Mundial. A inventariação e definição do que é considerado património cultural foi feita unicamente pelos/as peritos/as desta instituição, tendo sido ignoradas as comunidades da cidade já que não houve nenhum contactos com as pessoas. Esta candidatura constitui-se, assim, como uma imposição a estas comunidades. Aqui incluem-se as várias Repúblicas, que em momento algum foram contactadas pela UC, mas que vêm definidas na candidatura enquanto património imaterial sob uma concepção tradicionalista e praxista que não corresponde à realidade e diversidade destas comunidades.

    Este processo torna-se, assim, um processo nefasto, quer para a universidade quer para a cidade, na medida em que os seus verdadeiros propósitos fundamentam-se numa visão economicista neoliberal que procede a uma remodelação e reconstrução da cidade enquanto pólo turístico no mercado globalizado e como produto aliciante da indústria turística.

    Exemplo disso é o empreendimento já desenvolvido pela empresa Be-Coimbra que, através do discurso de revitalização e recuperação da Baixa de Coimbra, está a dinamizar um negócio lucrativo através da construção de hostels para estudantes do programa Erasmus e turistas, em casas antigas e onde cada quarto custa, no mínimo, 250 euros por mês. Apesar de defenderem que estão a impedir a desertificação desta zona, tal constitui uma falácia pois as pessoas que residem nestes hostels permanecem por espaços de tempo reduzidos, não estabelecendo laços com a cidade. Outra agravante é o aumento exponencial das rendas provocado, quer pela “Nova Lei do Arrendamento” que legalmente o legitima, quer pela especulação imobiliária cada vez maior. Algumas casas reabilitadas e recuperadas na zona da Alta e da Baixa têm rendas que podem ascender aos 1000 euros. Este processo em nada vem favorecer as populações locais abrangidas na área de protecção, pois não são estas o alvo de preocupação, mas sim os edifícios e monumentos, bem como a proliferação do mercado turístico, transformando esta área num espaço de exibição turística e monumental.

    As populações da Alta e Baixa, constituídas maioritariamente por grupos socioeconómicos empobrecidos a viverem em prédios degradados, estão ameaçadas de despejo e deslocação devido à especulação imobiliária fruto do processo de patrimonialização que, aliado à “Nova Lei do arrendamento”, se vai “responsabilizar” pela reconstrução dos edifícios que serão transformados em habitações de luxo com rendas incomportáveis, o que tornará inviável o retorno das pessoas para as suas casas. Tal significa que aquilo que poderá ser chamado de património cultural – as comunidades sócio-culturais presentes na Alta e Baixa – irá ser totalmente descaracterizado, ou melhor, poderá desaparecer. Esta é uma situação que se verifica também noutros centros históricos como Lisboa, Porto e Guimarães e em várias cidades da Europa. Não podemos ficar indiferentes já que alguns e algumas de nós fazemos parte destas comunidades e devemos ter consciência e tomar parte activa na defesa das mesmas.

    história da Alta de Coimbra mostra-nos um processo similar que teve lugar na época da ditadura salazarista, aquando da remodelação e construção de novos edifícios da universidade, sob pressupostos arquitectónicos fascistas. Nesse período assistiu-se à destruição de grande parte da Alta, várias habitações foram demolidas, incluindo Repúblicas, o que obrigou à deslocação das/os moradoras/es para outras zonas da cidade, nomeadamente para o Bairro de Celas. A UC sobrepôs-se, assim, às pessoas e à cidade como instituição e símbolo do poder. Impondo a sua presença, procedeu ao apagamento e extinção de comunidades sitas nesta área.

    Actualmente, assisti-se a um processo semelhante que se mascara sob propósitos de protecção e salvaguarda patrimonial e sob a distinção de património mundial, mas que na verdade vai dar início, mais uma vez, à imposição arquitectónica e cultural da universidade sobre a cidade e a um processo de gentrificação.

    Tudo isto vai beneficiar unicamente os grandes lobbys económicos, e não a população de Coimbra ou a comunidade estudantil, pois a UC vai-se dedicar a uma remodelação arquitectónica encaminhando os dinheiros de futuros subsídios da UNESCO, da União Europeia ou da UC para este fim, secundarizando o papel fundamental de uma suposta universidade pública, que deveria ser um espaço de livre de acesso ao conhecimento e não uma fundação privada preocupada apenas com a estetização dos seus edifícios e com a dinamização de actividades turísticas.

    Outra questão preocupante é o facto da praxe académica estar também a ser candidatada a património mundial, definida enquanto “cultura académica estudantil”. Como se a praxe, ao longo da história da universidade, fosse uma prática generalizada e consensual e como se todas/os as/os estudantes praticassem a praxe ou com ela se identifiquem. A praxe ensina a mandar e a obedecer, através da tortura e da violência seja ela verbal ou física. Ora, a questão coloca-se: como é possível, não de todo concordando com as políticas e definições de património e cultura da UNESCO, classificar a praxe académica como património mundial?

    Esta é apenas uma pequena reflexão sobre as implicações do processo de patrimonialização protagonizado pela UC. As vozes críticas e dissonantes estão silenciadas e, aparentemente, parece haver uma concordância generalizada por parte da população de Coimbra. Contudo, esta situação comporta uma série de questões e consequências nefastas para a cidade e para as pessoas que nela vivem e por ela passam, que é urgente debater, visibilizar e intervir.