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  • Zapatistas: profissionais da esperança

    Zapatistas: profissionais da esperança

    No dia 29 de dezembro de 2023, partimos de San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, em direção a leste onde, após 5 horas, segundo as instruções zapatistas, nos encontraríamos no Caracol VIII «Resistência e Rebelião: Um Novo Horizonte», local da grande celebração do 40º aniversário da fundação do EZLN e do 30º aniversário do levantamento armado de 1 de janeiro de 1994.

    Éramos três mulheres a viajar num percurso que se cruza com aldeias paramilitares e rapidamente nos deparámos com situações preocupantes: as estradas eram sinuosas, o nevoeiro era espesso, não havia sinal de telemóvel que nos permitisse informar onde estávamos e o que tornava o ambiente mais tenso era o aparecimento de adultos e crianças com armas e postos de controlo de homens com machetes, bloqueando a estrada com troncos de árvores. Só quando vimos a primeira placa do Território Autónomo Zapatista guardada por milicianos encapuçados com uniformes do EZLN é que respirámos de alívio. A noite estava a cair e, não tivessem lá estado, ter-se-ia tornado bastante perigosa. À chegada, fomos escoltados por quatro zapatistas em motas até outro Caracol, onde passaríamos a noite.

    Na manhã seguinte, de volta ao Caracol VIII, local do evento principal, o que vimos retratava claramente a utopia de um mundo em resistência e rebelião. À entrada, cinco ambulâncias do sistema de saúde autónomo aguardavam qualquer emergência e centenas de milicianos zapatistas encarregavam-se da segurança do evento. Os «tercios compas» (a equipa dos meios de comunicação livres zapatistas) documentavam a agitação da celebração e os caldeirões fumegantes de café, feijão e sopa de legumes, e as suas tortilhas artesanais davam as boas-vindas aos convidados. Destacava-se a figura de um chefe zapatista que coordenava maravilhosamente a cozinha como se fosse uma sinfonia. Éramos mais de 10.000 pessoas, entre estrangeiros, mexicanos e zapatistas.

    No levantamento armado de 1 de janeiro de 1994, os zapatistas recuperaram grandes extensões de terra das fazendas onde os povos indígenas sofriam exploração, fome, violência e morte, terras que a Igreja e os crioulos lhes tinham tirado durante o período colonial. É quase implausível que o Caracol VIII, onde fomos recebidos para a grande celebração do aniversário, e onde no dia a dia se constrói um sistema zapatista de governo autónomo, fosse, há apenas 30 anos, antes da revolta, a quinta de um latifundiário. Milhares de hectares onde os indígenas locais viviam e morriam como escravos, onde as crianças trabalhavam do nascer ao pôr do sol e onde a vida dos que hoje são zapatistas não valia nada. Esta foi a grande conquista do zapatismo: trazer dignidade e vida onde antes havia humilhação e morte.

    Agora as comunidades zapatistas não estão organizadas em núcleos de governo centralizado, agora a base é quem manda diretamente.

    Uma nova estrutura de autonomia zapatista: os bens comuns

    Para construir este complexo sistema de autogoverno, os zapatistas estão constantemente a fazer autocrítica, porque, como eles dizem, «não há um manual». A sua visão vai para além do futuro que todos nós já conhecemos. Como diria o Sup (agora Capitão Insurgente Marcos): «eles insistem em subverter até mesmo o tempo e erguer de novo, como se fosse uma bandeira, outro calendário». Nos mais recentes vinte comunicados publicados (enlacezapatista.ezln.org.mx), o EZLN declarou, após uma longa consulta a todos os povos zapatistas, que foi decidido alterar a estrutura de autogoverno que tinham até agora. Com efeito imediato, as Juntas de Buen Gobierno (JBG) e os Municípios Autónomos Rebeldes Zapatistas (MAREZ) fecham e a pirâmide inverte-se. Agora, as Bases de Apoio Zapatistas estão organizadas em GAL (Governos Autónomos Locais) e estes passam a ser o núcleo de toda a autonomia. Ou seja, agora as comunidades zapatistas não estão organizadas em núcleos de governo centralizado (JBG), agora a base é quem manda diretamente. É relevante pensar que, se antes havia doze núcleos de governos autónomos (JBG), agora há milhares de GAL zapatistas num gigantesco exercício de participação política de base.

    Outra das mudanças mais importantes é uma nova proposta que aponta para os bens comuns em toda a estrutura zapatista. Neste sentido, parte do território recuperado passa a ser de todos e de ninguém, ou seja, já não é apenas para uso exclusivo dos e das zapatistas, mas, por acordo, é terra de uso comum para quem quiser ir trabalhar nela. Também os seus sistemas de saúde, agroecologia e educação deixarão de estar apenas ao serviço das zapatistas e passarão a estar abertos a toda a comunidade que habita a zona, seja ela zapatista ou não.

    Estas mudanças assinalam uma clara expansão do sistema de autonomia e foram uma parte central da celebração. Através de várias peças de teatro representadas por centenas de jovens e crianças zapatistas foram explicadas em maior profundidade. O que está a ser re-planeado hoje, semeando as sementes do comum, destina-se às crianças do futuro. Nas palavras do Subcomandante Moisés, «nós (os zapatistas) temos de lutar para que esta criança, que vai nascer daqui a 120 anos, seja livre e seja o que quiser ser». A semente da autonomia que é plantada hoje é plantada para colher a liberdade na sétima geração que se segue.

    No seu longo percurso, o zapatismo manteve sempre a congruência entre o seu discurso, a sua ideologia e as suas ações. Mesmo quando o discurso tende para o realismo mágico, com histórias de homens e mulheres de milho, escaravelhos filósofos, baleias mapuches a nadar na selva e canoas a atravessar oceanos inteiros, as suas palavras, surpreendentemente, encontram sempre uma forma de se materializarem. Os zapatistas dizem que é preciso dar nome às coisas para que elas se tornem reais, e por isso dão nome a tudo o que vão construir. Nomeiam os seus territórios, as suas estruturas de autonomia, nomeiam os seus amigos e sobretudo os seus inimigos, nomeiam o passado e os seus antepassados, e nomeiam também o futuro que vão forjar. Nomear é um compromisso, é uma responsabilidade de que algo nasceu e implicará muito trabalho coletivo. Os Caracóis, os seus centros organizativos, por exemplo, têm cada um deles um nome dado pelo coração do povo. O Caracol Morelia chama-se «Turbilhão das nossas palavras», enquanto o Caracol Oventic se chama «Resistência e Rebelião para a Humanidade». Estes nomes, escolhidos em assembleias comunitárias, expressam em cada palavra a força da sua comunalidade e é através da sua construção do comum que as Zapatistas se afastam do paradigma hegemónico da governação sem coração, sem metáfora, sem esperança.

     


    Texto de  Lupita Valdez Castilla
    Fotografia [em destaque] de  Abril Rodríguez Cuevas

    @caravana.zapatista @slumilcinko


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

  • NÃO NOS CONQUISTARAM

    NÃO NOS CONQUISTARAM

    O Esquadrão 421 em Madrid nos 500 anos da Resistência Indígena

    Crónica dos primeiros eventos da Caravana Zapatista pela Vida na geografia ibérica de Slumil K’ajxemk’op, ou Terra Insubmissa, como foi rebaptizada a Europa no momento do desembarque zapatista. Uma viagem ao passado colonial e à desumanização hoje dos migrantes, num apelo à reimaginação da história e à reactivação das redes de apoio para cada uma das nossas grandes e pequenas lutas.

    Em outubro de 2020 foi tornada pública a partir de Chiapas, no México, a intenção de fazer uma Caravana Zapatista pela Vida através dos 5 continentes. Com o tratamento epistolar que caracteriza o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), foi comunicado que esta travessia sem precedentes começaria pelo continente Europeu. Preparava-se uma delegação composta por companheiros/as/oas dos municípios e comunidades autónomas de Chiapas, do Congresso Nacional Índigena (CNI – CIG) e da Frente de Povos em Defesa da Água e Terra de Morelos, Puebla e Tlaxcala que viajariam pelo mar e pelo ar, com mais de uma centena de pessoas. Em abril de 2021 soubemos que a delegação marítima teria o nome de Esquadrão 421 e em junho que a aerotransportada seria A Extemporânea.

    A Travessia Zapatista começou no dia 3 de maio no porto de Isla Mujeres (Quintana Roo, México). Esta ilha faz parte dos lugares que veneravam a Ixchel, a mesma deusa maia da fertilidade que dá sentido a esta volta ao mundo pois, tal como na mitologia longínqua ela o enunciou: «do Oriente veio a morte e a escravidão, que amanhã navegue para o Oriente a vida e a liberdade nas palavras dos meus ossos e o meu sangue». Três décadas após a proclamação do Fim da História por Francis Fukuyama, cumpre-se a profecia de Ixchel através de uma Travessia com uma mensagem que desafia a imaginar uma sociedade global longe das lógicas da hegemonia capitalista.

    Depois de seis meses de preparação, o Esquadrão 421, integrado por Lupita, Carolina, Ximena, Yuli, Felipe, Bernal e Marijose – 4 mulheres, 2 homens e uma outroa –, partiu do Caracol Morelia com rumo ao golfo do México. Antes do embarque, como parte do ritual de despedida deste território maia, as sete integrantes reuniram-se com os tercios compas, os comandantes David, Zebedeo e a comandanta Hortensia, com integrantes do Congresso Nacional Indígena, e claro, com o coordenador desta travessia, o Subcomandante Moisés (chamado com carinho Moi). Depois, subiram a bordo d’A Montanha, uma embarcação de pesca construída em 1903 e tripulada pelo Capitão Ludwig, Gabriela, Ete e Carl da Alemanha e Edwin da Colômbia.

    A Montanha fez a sua travessia ao longo de 52 dias e fez apenas uma paragem, nos Açores, onde atracou pela primeira vez no dia 11 de junho. Daí seguiu rumo a Vigo, onde a delegação marítima zapatista desembarcou a 22 de junho. Devido aos sucessivos atrasos d’A Extemporânea, o Esquadrão 421 foi o único grupo de Zapatistas presente nos encontros realizados entre junho e o início de setembro em cidades como Mérida, Valência, Barcelona, Toulouse, Paris e Berna, entre outras. Enquanto esta delegação se deslocava através dos diferentes territórios, as mais de 170 pessoas da delegação aerotransportada enfrentaram inúmeros obstáculos na obtenção dos passaportes e das autorizações necessárias para sair do México rumo à Europa. Por um lado, o seu próprio estado-nação não os considerava como cidadãos, exigindo-lhes mais e diferentes documentos a cada uma das repetidas viagens de Chiapas à cidade do México para tratar de burocracias. Por outro lado, a já conhecida Fortaleza Europa continuava a alimentar os seus exigentes trâmites (que raramente se aplicam a europeus e a homens de negócios no geral) num racismo aguçado e mascarado pelo securitarismo sanitário que dizem ser necessário para enfrentar a pandemia do Coronavírus (mesmo com a delegação inteiramente vacinada).

    Desde Portugal, vários integrantes dos núcleos que organizam a Caravana Zapatista pela Vida deslocaram-se a diferentes territórios para participar nos eventos que compreendiam esta primeira fase de uma travessia simbólica de reimaginação pacífica da conquista colonial. Foi dessa maneira que fomos acompanhando, ao longo de três meses, alguns dos passos do Esquadrão 421 na sua descoberta de alguns dos recantos de Slumil K’ajxemk’op, ou Terra Insubmissa, como foi rebaptizado o continente europeu no momento do desembarque em Vigo.

    «A nombre de las mujeres, niños, hombres, ancianos y, claro, otroas zapatistas, declaro que el nombre de esta tierra, a la que sus naturales llaman ahora “Europa”, de aquí en adelante se llamará: SLUMIL K´AJXEMK´OP, que quiere decir “Tierra Insumisa”, o “Tierra que no se resigna, que no desmaya”. Y así será conocida por propios y extraños mientras haya aquí alguien que no se rinda, que no se venda y que no claudique.»
    Marijose, outroa tojolabal da floresta fronteiriça, Vigo, 22 de junho de 2021.

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    Fotografia de Guilhotina.info.

    Guerreiros da Luz Dançante

    Um dos momentos mais esperados desta viagem foi a contestação de uma data histórica: a suposta conquista do maior império do que é hoje o México celebrar-se-ia no dia 13 de agosto em Madrid. Os preparativos para esse momento começaram três dias antes com assembleias, eventos artísticos, concertos e reuniões para organização e logística. No Centro Social Autogestionado La Tabacalera, o Esquadrão 421, movimentos locais e internacionalistas partilharam o momento de construir alguns materiais simbólicos para a manifestação do grande dia (como aviões de papel, em alusão à Extemporânea, retida no México). Logo no segundo dia, dada a grande afluência, a reunião foi numa Horta Urbana comunitária: um espaço ao ar livre, espaçoso e agradável. Apresentados uns aos outros, contámos como nos organizámos para receber as Zapatistas em cada uma das nossas geografias. Uns organizavam-se por regiões, noutros a gestão era centralizada. Uma das frases que marcou uma das discussões em torno da chamada das Zapatistas àqueles que são «de baixo e à esquerda» foi um desabafo de uma companheira proveniente dos EUA: «porque as pessoas entendem o país como o estado capitalista que é, mas esquecem-se que este tem um outro lado de rebeldia, resistência e insubmissão que precisamos de visibilizar».

    Nesse dia, assim como no anterior, as refeições comunitárias aconteceram no espaço 3peces3, gerido assembleariamente, com uma dinâmica programação social, política e cultural. O final da tarde foi passado na periferia de Madrid, ao som do ska-punk e da cumbia de Boikot e Amparanoia, num concerto organizado pela CGT, sindicato de tendência anarco-sindicalista.

    O dia 13 de agosto, enquanto data de início da Resistência índigena à colonização, começou na Porta do Sol de Madrid com uma dança-ritual de limpeza e cura. É comum encontrar esta prática no Zócalo, a praça central em frente ao Palácio de Governo e à Sé na Cidade do México: xamãs e curandeiros Astecas reúnem-se diariamente para festejar a defesa heróica das suas resistências ancestrais – já não são guerreiros com armas, são guerreiros da palavra. Desta vez, foi o quilómetro-zero da capital espanhola, um dos principais corações do colonialismo, que foi ocupado por uma impressionante dança ritualística, protagonizada pelo Círculo de Dança Guerreros de Luz Danzantes.

    Em Madrid, o Esquadrão 421, depois de navegar os 1,8 quilómetros que separam a Porta do Sol da Praça de Colombo e perante milhares de pessoas, inscreveu na história a sua presença «desde baixo e à esquerda» no mesmo local que constantemente aglomera autoridades e seguidores da ultra-direita conservadora da Espanha. Além deste ser o centro de manifestações nacionalistas, cada pedra que compõe a sua arquitectura reafirma o pensamento monolítico do Cristóvão Colombo como conquistador de uma terra longínqua, símbolo da subtracção de terras, e de Hernán Cortés, orquestrador do extermínio dos povos indígenas e da queda de Tenochtitlan [ref] Cristóvão Colombo chegou às Américas em 1492, Hernán Cortés às margens de Veracruz (México) em 1519 e o que se dizia ser a queda de Tenochtitlan foi em 1521.[/ref], a antiga capital Asteca.

    Esta é a primeira etapa do que poderíamos chamar uma contra-pedagogia colonial baseada na invenção de um mito, uma ficção e uma realidade. Qual é a ficção aqui? O monólogo dos colonizadores sobre o extermínio e invisibilização das comunidades indígenas no mundo inteiro.

    Qual é o mito aqui? Assistimos à geração de um mito fundacional, de uma epistemologia transoceânica. Pensar no Zapatismo hoje é pensar que os oceanos não são só as veias do extractivismo e da submissão. Pelo contrário, constituem um caminho para a solidariedade internacional e a reactivação das redes de apoio para cada uma das nossas grandes e pequenas lutas:

    «Cuéntenos su historia. No importa si es grande o pequeña. Cuéntenos su historia de resistencia, de rebeldía. Sus dolores, sus rabias, sus “no” y sus “sí”. Porque nosotras las comunidades zapatistas hemos venido a escuchar y a aprender la historia que hay en cada habitación, en cada casa, en cada barrio, en cada comunidad, en cada lengua, en cada modo y en cada ni modos. Porque, después de tantos años, hemos aprendido que en cada disidencia, en cada rebeldía, en cada resistencia, hay un grito por la vida. Y, según nosotros los pueblos zapatistas, de eso se trata todo: de la vida.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    Qual é a realidade aqui? A intervenção de corpo presente do Esquadrão diante de nós. Nesse sentido, a realidade é um lapsus que nos permite teletransportar entre uma multiplicidade de tempos. Tempos existentes através de metáforas, ironias e contestações à história.

    «¿no dudó usted también de que los zapatones iban a invadir Europa? ¿Ah, verdad? Todos los seres que aquí se detallan, existen en la realidad. Si alguien no se imagina que esto sea posible, no es culpa de la realidad. Más bien es que le falta imaginación.»
    Subcomandante Galeano na comunicado Calamidad Zapatista (2019 – 2020)

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    Fotografia de Fernanda Fernández.

    Os nossos corpos comuns

    A viagem zapatista sublinhou como as transferências entre continentes significam um desafio crítico aos privilégios que um cidadão do Norte global tem na hora de viajar para qualquer lugar do mundo. Apercebemo-nos das dificuldades que enfrentam continuamente os imigrantes ao redor do mundo. O que é vivido pelos imigrantes ilegais é uma realidade que para muitos resulta distante e, não obstante, está mais próxima do que pensamos.

    Na manhã de 7 de agosto, os Lisboetas acordaram com a notícia do graffiti feito no Padrão dos Descobrimentos: «Velejando cegamente por dinheiro, a humanidade afunda-se num mar escarlate». Há barcos e barcos, há viagens e viagens. As mercadorias e os grandes cruzeiros transitam pelo mundo sem fronteiras visíveis. E, entretanto, os oceanos são enormes cemitérios. No Mediterrâneo, todos os dias flutuam corpos negros ao largo das costas de diferentes países europeus ou afundam-se ossadas nas profundezas deste líquido salgado onde já repousavam os rastos náufragos da escravidão.

    É esta a conexão entre a história passada e o nosso presente, entre o que foi a colonização e o que é hoje a imigração: o sistema de controle da vida especializou-se no uso de corpos aptos para trabalhar, para reproduzir-se e para esterilizar-se, hoje de forma mais sofisticada. A necromáquina aniquila tudo o que considera indesejável. Na realidade que nos apresentam os Zapatistas, as próprias ruas de Chiapas estão a ser inundadas por grandes caravanas de Haitianos, Venezuelanos e Africanos, particularmente Senegaleses, que deambulam pelo sul e centro da América Latina após múltiplas travessias marítimas forçadas. O seu destino é uma grande fronteira cada vez mais impenetrável. Aqueles que conseguem chegar vivos, passam os dias à espera de asilo político nos Estados Unidos da América, país que fecha tal possibilidade com uma infinidade de requisitos jurídicos e a execução de deportações massivas. O papel do México nesta difícil situação é utilitário. O programa Quedate en México obriga os requerentes de asilo a ficar à espera de uma resposta nas cidades fronteiriças, convertendo o país num tampão para os rios de gente que procuram atravessar a fronteira. Tal como o são a Turquia e Marrocos para a Fortaleza Europa.

    O passado e o presente colonial e neocolonial europeu reconhece como único cenário possível o descobrimento expansionista. Uma colonização baseada na expropriação e no despojo em nome da propriedade privada e no acto – contínuo até hoje – de sufocar outras formas de pensar e viver. A nossa catástrofe social encontra-se precisamente nas pretensões universalistas fundadas na separabilidade e na excepcionalidade do Ocidente ao declarar-se como executor do tempo e da inventiva do mundo. Dessa maneira aparecem as dicotomias entre sociedades desenvolvidas e subdesenvolvidas, centros e periferias, locais e estrangeiros, nós e os outros. As últimas guerras do Capital Global são, acima de tudo, conflitos locais e regionais que espalham destruição numa disputa eterna pelos recursos naturais. Sem o clima de medo e repulsa do diferente e do estrangeiro, sem a falsa narrativa do «Outro» enquanto perigoso e indigno, seria mais difícil justificar os muros, físicos e legais, e os programas de deportação para conter as centenas de milhares de pessoas que fogem de conflitos armados, no Médio Oriente e no continente africano, que o Ocidente criou ou alimentou. É cada vez mais claro que essa vitória ocidental significa a destruição do meio ambiente, precarização, dor, fome. Numa palavra, morte para todas e todos.

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    Fotografia de Guilhotina.info.

    Tem início o ano 501

    O que está a propor-nos o Zapatismo? A urgência desta Caravana pela Vida é, em primeiro lugar, a reimaginação da história da humanidade, da memória colectiva e da aceitação da diferença étnica e geográfica através de um novo cenário de descobrimentos, pacífico, onde as divisões que outrora foram impostas se dissolvem para expor o inimigo comum: o capitalismo feroz. A resposta à hegemonia da história é feita pelos Zapatistas através desta travessia que inverte os papéis “da conquista de Espanha por mar”, num ato simbólico de descolonização com dois momentos: o desembarque ou ato de possessão, em Vigo, e uma invasão inversa, pacífica e consentida, iniciada de forma discreta pela viagem do Esquadrão 421 através da Península Ibérica, França e Suíça, e consumada de forma retumbante neste 13 de agosto.

    «No venimos a traer recetas, a imponer visiones y estrategias, a prometer futuros luminosos e instantáneos, plazas llenas, soluciones inmediatas. Ni venimos a convocarles a uniones maravillosas. Estamos buscando otros rincones y queremos aprender de ellos. (…) Pero no es en actos grandes, sino que en los lugares donde ustedes resisten, se rebelan, luchan. Tal vez a alguien le parezca que nos interesan los grandes actos y el impacto mediático, y así valoren los éxitos y fracasos. Pero nosotros hemos aprendido que las semillas se intercambian, se siembran y crecen en lo cotidiano, en el suelo propio, con los saberes de cada quien.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    O pronunciamento Zapatista na Praça de Colombo inverte a narrativa linear de submissão e invisibilização. A invenção da história como progresso tornou as sociedades ancestrais antiquadas e, nessa medida, periféricas ao Norte global. A reimaginação do mito e a realidade que o Zapatismo está a imprimir na actualidade através desta viagem perturba esta narrativa ao se deslocarem fisicamente, desde as profundezas do estado de Chiapas, para esse Norte, para o centro, e desafiarem o seu calendário. Em vez do ano 0 do calendário cristão, tomam 1521, o início da resistência indígena, como ponto de referência. Ambas as decisões criam um novo tropos dentro do guião hegemónico instituído pelos conquistadores, mas também pelos maus governos da América Latina que, de tempos em tempos, com manobras mediáticas se mascaram de “progressistas e de esquerda”, ou fomentam um nacionalismo que promove as culturas indígenas, mas apenas enquanto objectos antropológicos e etnográficos. Contra esse guião instituído, os Zapatistas transformam o espaço – a Europa passa a ser o lugar de uma ocupação temporária sem pretender substituir o centro pela periferia – e o tempo – com o seu novo calendário.

    Face aos 500 anos da suposta conquista do México, anunciam 501 delegados, que virão em várias vagas para a Europa. E ao contrário de assinalarem os 500 anos com os olhos no passado, prepararam o futuro: o ano 501 em que percorrerão os recantos desta terra insubmissa.

    «Quienes formamos el Escuadrón Marítimo Zapatista, y que nos conocen como el Escuadrón 421, hoy estamos frente a ustedes, pero sólo somos el antecedente de un grupo más grande. Hasta 501 delegados. Y somos 501 sólo para demostrarles a los malos gobiernos que vamos delante de ellos. Mientras ellos simulan un festejo falso de 500 años, nosotros, nosotras, nosotroas, vamos ya en lo que sigue: la vida. En el año 501 habremos de recorrer los rincones de esta tierra insumisa.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/07/20)

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    Fotografia de Lorena Salamanca.

    Outro paradigma da colonização que os Zapatistas põem na linha de fogo é aquele que tem determinado o lugar dos povos indígenas: ao posicioná-los no lugar da representação e não da presença; no lugar da ancestralidade e não do mundo futuro; limitando-os a certas zonas do planeta. Não obstante, quando a deterioração da sua situação é iminente, não é de admirar que as suas resistências silenciadas procurem altifalantes. O cerco explodiu e até o lugar mais recôndito está em risco. Esta viagem inversa é precisamente a relocalização destas posições. O Esquadrão são sete, porque sete são os pontos cardeais, mas estes pontos são dinâmicos, já não se encontram fixados no lugar em que os geógrafos, os humanistas, e os Estados-Nação decidiram localizá-los. Os mapas são aquelas representações incómodas que há algumas centenas de anos começaram a determinar as fronteiras do mundo que conhecemos hoje, são convenções feitas de esquemas arbitrários que dividem ideologicamente o indivisível, como uma cordilheira ou uma parte do mar. Nos atlas encontramos a sistematização da norma: a esfera torna-se um plano e divide-se em quatro partes; para o Leste há a sua contraparte o Oeste, e para o Norte há o Sul… não terá já chegado a hora de romper com essas estruturas que desenham tão esquematicamente o mundo?

    «Dicen que somos ignorantes, retrasados, conservadores, opositores al progreso, pre-modernos, bárbaros, incivilizados, inoportunos e inconvenientes… Tal vez estamos atrasados porque como mujeres que somos o como otroas, podemos salir a pasear sin temor de que nos ataquen, nos violen, nos descuarticen, nos desaparezcan. Tal vez estamos en contra del progreso porque nos oponemos a los megaproyectos que destruyen la naturaleza y nos destruyen como pueblos, y que heredan muerte para las generaciones que siguen. Tal vez estamos en contra de la modernidad porque nos oponemos a un tren, una carretera, una presa, una termoeléctrica, un centro comercial, un aeropuerto, una mina, un depósito de material tóxico, la destrucción de un bosque, la contaminación de ríos y lagunas, el culto a los combustibles fósiles. Tal vez somos atrasados porque honramos a la tierra en lugar de al dinero. Tal vez somos bárbaros porque cultivamos nuestros alimentos. Porque trabajamos para vivir y no para ganar paga. Tal vez somos inoportunos e inconvenientes porque nos gobernamos a nosotros mismos como pueblos que somos. Porque consideramos el trabajo de gobierno como un trabajo más de los comunitarios que habremos de cumplir. Tal vez somos rebeldes porque no nos vendemos, porque no nos rendimos, porque no claudicamos. Tal vez somos todo eso que dicen de nosotros.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    A mensagem é directa, nem os colonizadores centenários nem os maus governos de hoje os conquistaram. Não nos conquistaram! Apesar da violência infligida sobre os povos indígenas através dos séculos, na reimaginação deste novo cenário de conquista, os seus corpos e a sua viagem são o testemunho vivo desta outra história. Por outra parte, esse grito de rebeldia, impresso na enorme faixa que precedia ao barco zapatista durante a mobilização na capital espanhola, abre interrogações sobre a definição da palavra conquistar.

    «Y también decimos que sólo con la destrucción total de ese sistema será posible que cada quien, según su modo, su calendario y su geografía, habrá de levantar otra cosa. No perfecta, pero sí mejor. Y a eso que se construya, a esas nuevas relaciones entre los seres humanos y entre la humanidad y la naturaleza, se le pondrá el nombre que a cada quien le dé la gana. Y sabemos que no será fácil. Que no lo es ya. Y sabemos bien que no podremos solos, cada quien en su parcela combatiendo contra la cabeza de la hidra que le toca padecer, mientras el corazón del monstruo se rehace y crece todavía más.»
    do Comunicado lido pelo Esquadrão 421 em Madrid (13/08/2021)

    Na contemporaneidade, parece que esta nova definição se enquadra numa porta aberta para as múltiplas resistências e também numa total e global rejeição do sistema moderno e das suas retóricas civilizatórias e extractivistas sobre a terra e sobre os corpos.

    Obrigada Esquadrão 421! Temos saudades vossas.

    «Porque vivir no es sólo no morir, no es sobrevivir. Vivir como seres humanos es vivir con libertad. Vivir es arte, es ciencia, es alegría, es baile, es lucha. Y claro, vivir también es estar en desacuerdo con una u otra cosa, discutir, debatir, confrontar.»
    as palavras de Lupita ressoaram na Praça de Colombo, mas
    ressoam acima de tudo nos nossos corações (Madrid, 13/08/2021)

     


    Texto de Lorena Salamanca, Raquel Pedro e Francisco Norega
    Ilustração de IX


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.


    #caravanazapatista #esquadrão421 #madrid #travessiazapatista #zapatistas #terrainsubmissa #mapa32

  • I. Uma montanha no alto mar

    I. Uma montanha no alto mar

    BD de Lisa Lugrin | tradução de Júlio Henriques

    A invasão zapatista já começou. No início de Maio, uma delegação saída de Chiapas fez-se ao mar a bordo da Montanha Zapatista e, durante 50 dias, atravessou o Atlântico rumo à Europa. A 20 de Junho avistaram as costas da Península Ibérica e, a 22 de Junho, desembarcaram em Vigo, onde foram recebidas por centenas de pessoas. Deu-se assim início a esta invasão inversa, feita de centenas de encontros com as lutas e resistências de toda a Europa, agora rebaptizada “Terra Insubmissa”. 

    Para contar esta viagem, a desenhadora Lisa Lugrin tem vindo a publicar uma banda desenhada sobre a vinda dos Zapatistas à Europa em diferentes medias. A partir de hoje, numa colaboração entre a Flauta de Luz, o Jornal Mapa e a Guilhotina.info, publicaremos de 4 em 4 dias as traduções de Júlio Henriques para português das suas pranchas.

     



    Sobre a autora:

    Lisa Lugrin [1983, Thonon-les-Bains, França]. Estudou antropologia e cinema, interessando-se depois pela banda desenhada. Diplomada pela Escola de Banda Desenhada de Angoulême. Com o seu companheiro Clément Xavier, fundou a editora Na. Obteve o Prémio Revelação no Festival de Angoulême, em 2015, pelo álbum Yékini, le roi des arènes (Éditions FLBLB). É autora de várias BD, nomeadamente nas Éditions Delcourt (Géronimo, mémoires d’un résistant apache, Jujitsuffragettes, entre outros títulos).

  • A Montanha Zapatista nos Açores

    A Montanha Zapatista nos Açores

    Na manhã do dia 11 de junho as zapatistas aportaram aos Açores a bordo da Montanha, assim rebatizado o veleiro que atravessa o Atlântico com a comitiva zapatista que a 3 de Maio saiu do México em direção à Europa. Dentro de dias chegarão a Vigo, na Galiza, onde serão esperados por diversos apoiantes, muitos deles vindos desde os vários pontos da Europa, que acolherão as/os/oas zapatistas que prevêem percorrer a Europa «dos de baixo». A comitiva que agora chega é um primeiro marco nesta viagem pela vida, como é apelidada pelos insurgentes indígenas de Chiapas.

    Pelo tempo e calendário da geografia mexicana «seriam as 22:10:15 horas do 10 de Junho, quando, entre as brumas da madrugada europeia, desde o cesto da gávea de La Montaña se alcança vislumbrar a montanha irmã, Cabeço Gordo, na ilha do Faial do arquipélago dos Açores, região autónoma da geografia chamada Portugal, na Europa.». Assim relata o Subcomandante Galeano, transmitindo no site zapatista, o relato que lhe chega da viagem.

    «Seriam 02:30:45 de 11 de Junho quando avistamos, já de muito próximo, as costas do porto da Horta humedecendo os olhares do navio e tripulantes. Nas montanhas dos Açores eram 07:30 da manhã desse dia. Seria 03:45:13 quando uma lancha rápida da autoridade portuária da Horta se aproximou de La Montaña para indicar onde haveriam de fundear. Seriam 04:15:33 quando o navio fundeou frente às outras montanhas. Seriam as 08:23:54 quando o bote da Capitania do Porto recolheu os tripulantes de La Montaña e os levou a terra para as testagens PCR de Covid, e os trouxe de volta ao barco para esperarem os resultados. Em todo o momento a “Autoridade Marítima”, no porto da Horta, comportou-se com amabilidade e respeito.»

    A tripulação encontra-se animada e nesse seu breve testemunho deixou «para reflexão» o «lema dos Açores» que é «Antes morrer livres que em paz sujeitos». Acrescentando como «ao longe, a oriente, as colunas de Hércules [estreito de Gibraltar] – que no seu tempo eram o limite do mundo conhecido –, olhavam assombradas uma montanha que navegando desde o ocidente vêem».

    Em Portugal diversos indivíduos/as/as continuam a organizar-se para acolher os zapatistas. Para o efeito foi lançado um crowdfunding para financiar a Gira Zapatista em Portugal.

  • A Montanha Zapatista navega rumo à Europa

    A Montanha Zapatista navega rumo à Europa

    A delegação zapatista saiu de barco para dar início à caravana zapatista pelos 5 continentes. Em Junho chegam às costas da península ibérica.

    Em Quintana Roo, nas costas mexicanas de Cancún há um veleiro de chapa meio gasta, mas pleno de força e capacidade, batizado A Montanha e que hoje – a 3 de maio, dia de Santa Cruz – se faz ao mar. O dia de Chan Santa Cruz evoca o nome original da capital de um território maia independente de finais do século XIX e dos indígenas aí sublevados numa revolta esmagada em 1901. Agora, em 2021, daí embarcam a caminho da europa n’A Montanha os insurgentes zapatistas. Os descendentes maias que resistem há cinco séculos e há 26 anos se sublevaram em Chiapas. Mantêm, desde então, uma luta e resistência num território cercado por quartéis e acossado pelos ataques de paramilitares, onde ergueram Municípios Autónomos Rebeldes Zapatistas com formas de governo alternativas nas chamadas Juntas de Bom Governo.

    Está previsto que aportem a Vigo, na Galiza, em meados de Junho. Junto com a tripulação do veleiro de bandeira alemã, a tripulação zapatista foi apelidada de Esquadrão 421 por ser composta 4 mulheres, 2 homens e unoa otroa. E ficou decidido que a primeira pessoa zapatista que porá os pés em solo europeu… a «iniciar a invasão… ok, a visita à Europa»…«não será um homem, e tão pouco uma mulher. Será unoa otroa». Marijose, 39 anos, tojolabal da zona fronteiriça da selva. Como diria o defunto Subcomandante Marcos: uma «chapada de luva preta para toda a esquerda heteropatriarcal». Marijose, foi milicianoa, promotoroa de saúde e educação, faz parte deste grupo inicial de 7 zapatistas, que inclui Lupita, 19 anos, Tzotzil dos Altos de Chiapas, coordenadora regional de jovens e administradora local de trabalho coletivo; Carolina, 26 anos, Tzotzil e agora Tzeltal da selva Lacandona, atualmente Comandanta na direção político-organizativa zapatista; Ximena, 25 anos, Cho’ol do norte de Chiapas, igualmente Comandanta; Yuli, que fará 38 anos em maio, em alto-mar, originalmente Tojolabal, agora Tzeltal da selva Lacandona, promotora de educação, formadora de educação; Bernal, de 57 anos, Tojolabal da zona selva fronteiriça, foi miliciano, professor na escola Zapatista e membro da Junta de Bom Governo; e Felipe, 49 anos, Tzeltal, foi miliciano e responsável local de um Município Autónomo e membro da Junta de Bom Governo.

    Há 8 meses atrás, no início de Outubro de 2020, das montanhas de Chiapas no Sudeste mexicano, o Subcomandante Insurgente Moisés do Comité Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) anunciara que em 2021 chegariam à Europa diversas delegações Zapatistas: «sairemos para percorrer o mundo, caminharemos ou navegaremos por terras, mares e céus remotos, em busca não da diferença, não da superioridade, não da afronta, muito menos do perdão e da lástima. Iremos ao encontro daquilo que nos faz iguais». No dia anterior à saída, 2 de Maio, uma delegação zapatista falou perante observadores de direitos humanos, organizações sociais, imprensa nacional e internacional e sociedade civil solidária, assinalando a partida d’A Montanha. Moisés voltou a afirmar o mandato dos povos zapatistas para que esta caravana marítima leve longe o seu pensamento, ou seja, o seu coração – «As/os/oas nossas/os/oas delegadas/os/oas levam um coração grande,  não só para abraçar quem no continente europeu se revolta e resiste, mas também para escutar e aprender as suas histórias, geografias, calendários e modos».

    Em Portugal, cresce a vontade e a organização que acolherá a sua passagem. (…) As propostas surgem desde as cidades aos campos e serras

    Os/as/oas zapatistas do EZLN irão estar em Madrid a 13 de Agosto, data em que se assinalam 500 anos da “conquista” do que é hoje o México, para afirmar algo que têm como muito claro: «Primeiro: Não nos conquistaram. Continuamos em resistência e rebeldia. Segundo: Que não têm por que pedir que os perdoemos. Já chega de jogar com o passado distante para justificar, com demagogia e hipocrisia, os crimes actuais e em curso: o assassinato de lutadores sociais (…) os genocídios escondidos atrás de megaprojectos, concebidos e realizados para contentamento do poderoso – o mesmo que flagela todos os cantos do planeta”.»

    A vinda zapatista à Europa não tem sido um processo fácil. Como referem em comunicado «tem sido tortuoso. Para chegar a este calendário, tivemos que enfrentar objeções, conselhos, desencorajamentos, pedidos de contenção e prudência, francas sabotagens, mentiras, palavrões, relatos detalhados das dificuldades, mexericos e insolências, e uma frase repetida até ao enjoo: “isso que querem fazer é muito difícil, para não dizer impossível” e, claro, dizendo-nos, ordenando-nos, o que deveríamos, ou não, fazer. Tudo isso, deste e do outro lado do oceano». Assim, é certo que a vinda dos/as zapatistas «não será bem vista pela ortodoxia feita vanguarda, que, como deve ser, vai tão à frente das massas que nem a vemos…»

    barca zapatista

    Ao sair dos mares da américa central, a comissão que aportará a Vigo – seguido de dezenas de outros/as/oas zapatistas por avião – fez já chegar uma calorosa aceitação dos convites a 30 geografias do velho continente, como se auto-intitula a europa. São elas Alemanha; Áustria; Bélgica; Bulgária; Catalunha; Sardenha; Chipre; Croácia; Dinamarca; Eslovénia; Estado Espanhol; Finlândia; França; Grécia; Holanda; Hungria; Itália; Luxemburgo; Noruega; País Basco; Polónia; Portugal; Reino Unido; Roménia; Rússia; Sérvia; Suécia; Suíça; Turquia e Ucrânia.

    coimbraEm Portugal, cresce a vontade e a organização que acolherá a sua passagem. Uma coordenadora surgiu juntando vontades desde os territórios do Alentejo, Lisboa, Coimbra e Porto, sem esquecer outros convites que lhes foram feitos de outras geografias portuguesas. A agenda, a anunciar nos meses em diante após Junho, ainda não se encontra definida e será elaborada com as disponibilidades e com a articulação dos/as Zapatistas. As propostas surgem desde as cidades aos campos e serras. A sul o convite à partilha e discussão de lutas é feita a pensar no ataque da agroindústria sobre o território e o lastro da exploração dos migrantes trabalhadores agrícolas; ou pensando (como em outras regiões do país) em partilhar as experiências de novas comunidades e os problemas das comunidades locais, com a autonomia como pano de fundo. Em Lisboa, Coimbra e no Porto, reiterando a importância das lutas ecológicas e de defesa do território; assim como na partilha das lutas das comunidades urbanas excluídas, com enfoque nas questões raciais e das mulheres; as lutas colectivas pela habitação frente ao avanço da gentrificação; sem esquecer o ir ao encontro e a passagem dos/as zapatistas pelos territórios em luta, como seja a Bajouca, protagonista de uma vitória contra a exploração do gás, ou junto das populações que a norte e no centro se erguem contra a lógica extrativista da mineração. Esse é afinal um fio condutor que em território de Chiapas constituiu outra guerra aberta em defesa da dignidade da vida, contra os megaprojectos do “desenvolvimento e do progresso” e pelos quais lutadores sociais têm sido assassinados. Os encontros prevêem-se ainda momentos de festa, música e animação, sejam em contextos mais fechados, sejam de forma aberta e participativa.

    O entusiasmo face à caravana zapatista cresce também no resto do continente europeu. Nos últimos dias, centenas de pessoas reuniram-se em dezenas de geografias diferentes, em marchas, concentrações ou outras actividades, para assinalar a partida do Esquadrão 421 e, com ela, o início da Caravana Zapatista. Em Coimbra, no passado dia 30, cerca de 40 pessoas reuniram-se numa roda de conversa e, no Porto, estão a realizar-se assembleias abertas semanais.

    barca zapatistaQuando o/a compo/a Zapatista, Marijose, pisar o solo europeu, dirá – assim nos diz um dos regulares comunicados do EZLN –, em voz solene: «Em nome das mulheres, crianças, homens, anciãos e, naturalmente, outroas Zapatistas, declaro que o nome desta terra, que seus nativos agora chamam de “Europa”, será doravante chamada: SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa “Terra Insubmissa”, ou “Terra que não se resigna, que não desmaia”. E assim será conhecida tanto pelos locais como por estranhos, enquanto haja aqui alguém que não desista, que não se venda e que não ceda».
    Por agora sabemos que «nos mares de todos os mundos que no mundo existem, foram vistas montanhas movendo-se sobre a água e, com o rosto negado, mulheres, homens e outroas sobre elas.»

     


    Texto de Filipe Nunes e Francisco Norega [guilhotina.info]

  • Acendemos uma pequena Luz

    Acendemos uma pequena Luz

    chiapas

    Mais de 7000 mulheres encontraram-se de 8 a 10 de Março de 2018 nas montanhas de Chiapas. Este foi o primeiro encontro internacional convocado pelas zapatistas, no qual participaram mais de 2000 mulheres Zapatistas e 5000 mulheres de mais de 28 países.

    A 7 de março de 2018, a três horas de San Cristobal de las Casas, o Caracol de Morelia abre as suas portas para os milhares de mulheres que chegam em autocarros de todo o país. Em cima do portão, vigiado por mulheres do Exército Zapatista de Libertação Nacional (ELZN), está pendurada uma enorme faixa com a frase «Bem-vindas, mulheres do mundo» e em baixo outra faixa com a frase «proibido homens». Foi decidido colectivamente entre as zapatistas que os homens não podem entrar porque é importante haver encontros só entre mulheres, não para ser separatista, mas para criar uma oportunidade de conviver num espaço onde se organizem e se confrontem problemas que afetam unicamente as mulheres neste mundo patriarcal. «Pensamos que só assim, entre mulheres, podemos falar e ouvir, olhar, festejar sem o olhar dos homens, não importa se são homens bons ou homens maus». Este encontro foi organizado por assembleias constituídas unicamente por mulheres. Porque, como dizem elas, «Não é trabalho dos homens nem do sistema dar-nos a liberdade. Pelo contrário, o trabalho do sistema capitalista patriarcal é manter-nos dominadas. Se queremos ser livres, temos de conquistar a liberdade nós mesmas, como mulheres que somos». O objectivo do encontro foi partilhar a experiência de lutas contra os «maus governos que, não só nos utilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam como seres humanos, mas também que nos reutilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam por sermos mulheres».

    chiapas

    Durante três dias, mais de 7000 mulheres discutiram sobre saúde, educação, lesbianismo, racismo, etc., mas sobretudo falou-se da violência de género e da violência de estado. Desenvolveram-se mais de 180 workshops e debates, jogou-se futebol e basquetebol, viram-se obras de teatro, falou-se e pintou-se em conjunto. O encontro foi aberto pelas mulheres zapatistas com a apresentação dos 5 caracoles (centros administrativos do território e comunidades zapatistas) e da história de como, em cada um, começou a organização entre mulheres. A Insurgente Erika iniciou o discurso sublinhando que elas, mesmo não tendo os estudos e talvez não tendo lido tantos livros como as mulheres da cidade, têm tanta raiva e tanta coragem como todas as que sofrem chingaderas, porque vivem o desprezo, a humilhação, as burlas, a violência, os golpes e as mortes por serem mulheres, por serem indígenas, por serem pobres e agora também por serem zapatistas. E esta exploração e esta violência não são feitas unicamente por homens, senão também por mulheres que dela participam.

    Neste encontro, elas não querem julgar nem ser julgadas, nem pediram que lutem por elas, assim como elas não lutaram pelas outras. Afirmaram que existem muitas diferenças entre as lutas em várias partes do mundo, mas que uma coisa é certa: este «pincho sistema» capitalista existe em toda a parte. E que todas devem lutar contra um sistema que faz crer e pensar que as mulheres valem menos.

    chiapas

    No México vivem 15 milhões de indígenas que hoje em dia sofrem discriminação, enfrentam a pobreza, o difícil acesso à saúde pública, a falta de alimentos e o ensino institucional, que as educa a abandonar por completo o seu território, a sua cultura e a sua identidade. Um território estatal em que já 7,8% está em mãos de empresas mineiras ou de empresas dedicadas à exploração de terras. Muitas vezes estas terras pertencem a comunidades indígenas que acabam por ser expropriadas. Também em outras zonas de interesse turístico, as terras comunitárias (terras sem proprietário para uso das comunidades) são vendidas pelos municípios e pelos governos corruptos a investidores estrangeiros. A própria população indígena é afastada dos olhares dos turistas. Este encontro de mulheres abriu a possibilidade de organização e partilha de táticas de luta entre as diferentes comunidades indígenas e outras partes do mundo.

    Muitos debates focaram-se na auto-organização e em como recuperar velhos conhecimentos de maneira a afrontar um sistema neoliberal. Deu-se grande importância e voz às mães em luta cujos filhos e filhas foram assassinadas ou estão desaparecidas por causa de um estado que actua baseando-se na opressão, na criminalização, na violência e na morte.

    chiapas

    Mais de 10000 mulheres foram mortas nos últimos 5 anos no México, mas menos de 20% destes casos foram classificados como feminicídios. A maior parte dos crimes ficam por resolver, provavelmente, porque não é do interesse do estado. O feminicídio define-se como um acto de violência extrema contra as mulheres, que entra dentro de um conceito mais vasto que é a violência de género.

    «O feminicídio não é exclusivamente um acto homicida, mas estende-se também a um contexto mais complexo, que inclui a trama social e política que o encobre e que fornece os mecanismos para que este permaneça impune» (Julia Monarrez, 2009). Uma sociedade patriarcal que, através de estruturas, propaganda, rituais, tradições e ações quotidianas que reproduzem a dominação constante sobre as mulheres, faz com que aumente a violência de género, que serve ao próprio sistema para se manter em pé. O feminicídio é um crime de ódio: matar uma mulher pelo facto de ser mulher. Esta violência extrema estendeu-se a todo o país. Quase 7 mulheres são assassinadas por dia no México. O feminicídio segundo a lei: «Comete o delito de feminicídio quem, por razões de género, prive uma mulher da sua vida»; mas só 11 dos 32 estados da federação juntaram outras 7 razões pelas quais se define o feminicídio. Aliás, ainda há estados que aplicam «crime passional» em vez de feminicídio, em que a agressão é considerada como sendo feita sob um estado de «emoção violenta». Muitos feminicídios são cometidos por maridos ciumentos ou familiares e frequentemente são escondidos como suicídios. Esta impunidade está estreitamente ligada ao violento e corrupto governo Mexicano. As famílias que pedem justiça e o conhecimento da verdade encontram muitas vezes razões para desconfiarem das autoridades. No encontro, as familiares que lutam sustentam que nas zonas mais tensas, onde a taxa de feminicídios e de desaparecimentos é alta, como por exemplo na Ciudad Juárez, estes crimes estão relacionados com os grandes projetos governamentais ou estrangeiros de exploração de terras, como as indústrias mineiras ou as petrolíferas. É uma estratégia para aterrorizar a população em zonas economicamente débeis, para militarizá-las e posteriormente desalojá-las. Assim como o número de feminicídios, também o número de desaparecidas é altíssimo, igualmente encoberto pelo governo Mexicano. Entre elas, muitas ativistas e estudantes que são brutalmente assassinadas pela polícia federal, nacional ou pelos próprios militares. Estavam também presentes no encontro as mães dos 43 estudantes desaparecidos em Aotzinpa em 2014. Sabendo perfeitamente quem cometeu estes crimes, o governo quer encerrar as investigações e ainda ameaça as famílias que não se calam enquanto não se souber a verdade. Todas elas, juntamente com outras famílias de outros países, como por exemplo as «madres de mayo» da Argentina, prometeram encontrar-se no próximo ano.

    chiapas

    Em todos os debates e workshops estavam presentes pelo menos 10 zapatistas de maneira a levar os conteúdos às suas comunidades. O encontro em si estava muito bem organizado e não faltou nada, desde a comida até às casas de banho. Ao redor do caracol estava o ELZN, para vigiar a zona. Infelizmente, aconteceu uma companheira curda, algumas argentinas e também algumas gregas terem sido impedidas de entrar no México, pelas autoridades mexicanas no aeroporto, por irem participar no encontro.

    “Foi um encontro muito especial, carregado de emoções
    Com uma energia única de 7000 mulheres que LUTAM”.

    chiapas

    No primeiro dia, as mulheres zapatistas surpreenderam-nos brutalmente. Cada uma com uma vela na mão, 2000 mulheres em fila, deslumbraram-nos com estas palavras:

    Acendemos uma pequena luz.
    Leva-a, irmã e companheira
    Leva-a quando te sentes triste,
    quando tens medo,
    quando sentes que é muito dura a luta e a vida.
    Leva-a no teu coração,
    nos teus pensamentos,
    no teu interior,
    e não fiques com ela, irmã e companheira,
    mas Leva-a às desaparecidas
    Leva-a às assassinadas
    às prisioneiras
    às violadas
    às culpadas
    às abusadas
    Leva-a a todas as violadas de diferentes modos
    Leva-a às imigrantes
    às exploradas
    Leva-a aos mortos
    Leva-a e diz-lhes a todos e todas que não estão sozinhas,
    que lutarás por elas
    que lutarás pela verdade e pela justiça
    e que vale a pena a sua dor
    que lutarás tão forte que a sua dor não se repetirá em nenhuma outra mulher.
    Leva-a e transforma-a em raiva em coragem e em decisão
    Leva-a e une-a com outras luzes
    Leva-a
    E se continua nos teus pensamentos que não haverá nem justiça, nem liberdade
    no sistema capitalista patriarcal
    então voltaremos a encontrar-nos para incendiar o sistema
    e talvez te juntes a nós
    Cuidado que ninguém apague este fogo
    até que não fique nada mais que cinza.

    Texto e fotografias de Mimic