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  • A revolta da Sérvia

    A revolta da Sérvia

    É como o Maio de 68, mas melhor: os protestos estudantis eclodiram a 1 de novembro de 2024 e continuam ininterruptamente até hoje. A faísca foi a morte de 16 pessoas no desabamento de um telhado na estação ferroviária de Novi Sad. A tragédia não foi entendida pela população como um acidente, mas como o resultado de algo que ultrapassa a negligência: um total desrespeito pela perícia necessária para reparar o telhado e pelas vidas humanas. Esta situação foi agravada pelo governo de Aleksandar Vučić quando negou que a renovação tivesse sido feita quatro meses antes, à vista de toda a gente. Não conseguiu responsabilizar ninguém nem fazer justiça, expondo a face mais cruel de um autoritarismo que vê todos os valores como transacionáveis entre o Leste e o Oeste[ref]Adriana Zaharijević, “Dissoluções autoritárias da humanidade”, Blogue In the Midst, 27-05- 2025, https://ctjournal.org/2025/05/27/authoritarian-dissolutions-of-humanity/[/ref]. Com uma sociedade submetida ao regime do Partido Progressista Sérvio (SNS) e dos 10 empresários que controlam a economia[ref]Vladimir Simović, “O movimento estudantil da Sérvia ainda está forte”, Fundação Rosa Luxemburgo.[/ref], os estudantes são o único grupo capaz de se mobilizar socialmente: montam barricadas, ocupam as ruas e constroem um movimento legítimo para contestar a corrupção generalizada das instituições públicas. Fazem alianças com agricultores, professores e advogados, enfrentam a repressão e organizam-se com base na democracia direta e na entreajuda.
    A sua luta já deveria ter feito história no Ocidente, não fosse o choque entre o genocídio de Gaza e a administração Trump, que ofusca a mobilização de dezenas de milhares de pessoas que ocorre a apenas 3047 quilómetros de Lisboa. Entrevisto para o MAPA Adriana Zaharijević, filósofa, e Tijana Matijevic, académica de estudos literários e culturais, ambas investigadoras do Instituto de Filosofia e Teoria Social da Universidade de Belgrado.

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    Começo por perguntar: que repressão enfrentam os manifestantes na Sérvia?
    Adriana Zaharijević – É um caso de violência económica sem precedentes sobre todo o sistema educativo de um país – uma vez que todas as universidades sérvias, cinco, foram tratadas de igual forma. Também tenho orgulho em dizer que a maior e mais antiga delas, a Universidade de Belgrado, onde eu e a Tijana trabalhamos, está no topo das universidades mundiais. Os professores, devo acrescentar, foram sempre castigados, uma vez que, a partir de meados de março, não lhes foram pagos os salários. O mesmo aconteceu com os professores do ensino secundário que protestaram. Os professores universitários receberam parte dos seus salários de fevereiro há apenas uma semana[ref]Primeira semana de agosto de 2025.[/ref].

    Não só os estudantes, mas também os alunos do ensino secundário, estiveram no bloqueio durante a maior parte do ano letivo e só voltaram às salas de aula em maio, após quatro meses de protestos. Tudo estava incerto – e foi adiado: os exames do final do ensino secundário, bem como a inscrição na faculdade. O Ministério da Educação, atualmente designado Ministério da Vingança (jogo de palavras: (pr) osveta, uma vez que prosveta é educação e osveta é vingança), continua a fazer tudo o que pode para castigar as universidades e as escolas e, através delas, os professores e as crianças, os alunos e os estudantes.

    O regime sérvio ofereceu, desde o início dos protestos, negociatas e benefícios aos estudantes e, ao mesmo tempo, difamou-os e amaldiçoou-os.

    O regime sérvio ofereceu, desde o início dos protestos, negociatas e benefícios aos estudantes e, ao mesmo tempo, difamou-os e amaldiçoou-os. Não houve repressão aberta e contínua, talvez porque o regime quisesse dar para o mundo exterior uma imagem de tolerância democrática face aos protestos. Mas internamente, a um ritmo diário, as conspirações e a caça às bruxas eram continuamente difundidas pelos meios de comunicação social controlados pelo governo, ou seja, pela maioria dos meios de comunicação social da Sérvia. Desde o início dos protestos, as narrativas mudaram e foram sendo ajustadas, embora nenhum desses ajustamentos tenha dado frutos: os estudantes foram retratados como mercenários estrangeiros, espiões dos países vizinhos, bolcheviques, nazis, fascistas, terroristas. São acusados, recorrentemente, de terem desencadeado a «revolução colorida», financiada pelo Ocidente misteriosamente codificado. Nos primeiros dois meses, os estudantes e os cidadãos que se juntaram a eles para as vigílias comemorativas diárias foram espancados ou atacados por condutores impacientes, alguns dos quais a mando do regime. Alguns dos que foram efetivamente presos foram recentemente amnistiados pelo Presidente e estão em liberdade como heróis.
    Para além da violência económica mencionada, sem precedentes, tanto quanto sei, na Europa, onde todo o pessoal universitário ficou sem salários durante meses, as pessoas que trabalham em instituições estatais foram ameaçadas de despedimento, tendo as suas contas nas redes sociais sido monitorizadas. Muitos perderam os seus empregos. Os cinco ativistas de Novi Sad foram detidos como presos políticos. Cumprem atualmente a pena de prisão domiciliária. Alguns foram recentemente libertados e aguardam a defesa em liberdade.
    No entanto, as formas mais flagrantes de repressão podem ser relacionadas com o dia 15 de março, uma das maiores concentrações da história de Belgrado, quando foi utilizada uma arma sónica. Este incidente já foi esquecido fora da Sérvia, bem como na Sérvia, devido à enorme quantidade de acontecimentos que se sucederam, mas quero salientá- -lo como um ato de terrorismo do Estado contra os seus cidadãos, em que, por pura sorte (ou uma espécie de calma aprendida durante as intermináveis vigílias comemorativas – a arma foi acionada no meio do silêncio pelos mortos), as pessoas não se puseram em perigo. Vejam o vídeo[ref]Kornja in vra, “O canhão de som quebrou 15 minutos de silêncio”, 15-03-2025[/ref].
    A repressão foi particularmente persistente nos primeiros dez dias de julho. No final de junho, cerca de 140.000 pessoas concentraram-se em Belgrado. Depois disso, o regime começou a prender os estudantes, colocando-os em carros aleatórios e levando- -os para direções desconhecidas. A resposta dos cidadãos foi a realização de manifestações pacíficas. A 29 de junho, 31 locais em Belgrado e 108 em toda a Sérvia foram bloqueados, o que se prolongou por vários dias. Após a sua dispersão, os bloqueios surgiram noutro local: as pessoas atravessavam incessantemente as passadeiras, cantavam nas ruas ou passavam da rua para a zona pedonal vezes sem conta. Tudo isto na presença da polícia, que ora «vigiava» os protestos, ora espancava ou dispersava. A repressão muito aberta está no auge, por estes dias. Ontem [13 de agosto], 29 cidades e vilas estavam em protesto. Pela primeira vez, o exército manifestou a sua presença.
    Tijana Matijevic – A repressão em curso é bastante versátil, variando entre a violência física direta e uma ameaça quase palpável de violência que paira no ar. Isto produz um efeito duradouro de angústia e influencia o nosso comportamento, quer queiramos, quer não. Trata-se de um mecanismo de repressão bastante poderoso. Recentemente, passei algum tempo no estrangeiro e pude aperceber-me claramente das circunstâncias bastante brutais em que vivemos diariamente, que foram levantadas pelo simples facto de residirmos noutro local. No que respeita à violência física, não são só espancamentos pela polícia, na melhor das hipóteses, ou por bandidos ilegalmente fardados, esta começou a escalar para a quebra literal de ossos. Há violações incomparavelmente mais graves dos direitos humanos e das vidas humanas em todo o mundo – mais graves, naturalmente, em Gaza –, pelo que a situação sérvia parece quase serena. Trata-se, no entanto, de uma forma de fascismo. Acredito firmemente que temos de começar finalmente a designar o fenómeno da violência política pelo seu verdadeiro nome, e que este inclui a violência contra a natureza, o património cultural das nossas cidades, a vida urbana e a cultura, até a ameaça à nossa própria vida. É claro que a lógica económica permeia toda esta dinâmica. Os protestos e a reação repressiva do regime marcam o culminar de um processo prolongado de desregulamentação e destruição na Sérvia. A situação agravou-se.

    Poderão ser mais bem protegidos se houver atenção internacional?
    AZ – A resposta é, naturalmente, sim. Nenhuma das quatro reivindicações iniciais dos estudantes foi satisfeita e a exigência de eleições, agora abrangente, também é ignorada. Os estudantes correram e pedalaram até Estrasburgo e Bruxelas, mas parece que o máximo que conseguiram fazer com estes fortes gestos simbólicos foi despertar a diáspora sérvia que os saudou ao longo do caminho e que desde o início apoiou os protestos, por exemplo, em Lisboa.

    Apesar das muitas e variadas tentativas organizadas para chamar a atenção de vários sectores da União Europeia, parece que falhámos. As reações são brandas ou inexistentes. Um grupo de peritos das Nações Unidas em matéria de direitos humanos apelou ao Governo sérvio para que pusesse termo a todas as formas de retaliação e intimidação contra os manifestantes, e isso foi o mais longe que chegámos[ref]Ver https://balkaninsight. com/2025/08/04/un-experts-press-serbia- -to-end-crackdown-on-protesters/[/ref].

    TM – Sem dúvida. Por vezes, sentimo-nos muito sós na nossa luta, apesar de esta se basear em princípios universais de liberdade, igualdade e paz. Várias iniciativas, especialmente as organizadas nas universidades da Sérvia, conseguiram chamar a atenção para a nossa causa. As redes académicas são inestimáveis a este respeito; de facto, também esta entrevista é o resultado desse apoio colegial e amigável de Portugal à Sérvia.
    Creio que parte da dificuldade em garantir um apoio mais amplo reside na natureza autónoma e quase não alinhada das nossas reivindicações. Estamos a defender direitos humanos e políticos básicos, mas a nossa causa não está ligada a nenhum bloco político ou interesse maior. E, infelizmente, é muitas vezes difícil ganhar apoio quando os outros não conseguem ver os seus próprios interesses refletidos numa determinada luta.

    O que é que os manifestantes conseguiram até agora e o que é que estão a tentar alcançar?
    AZ – O que estamos a tentar alcançar agora é a realização de eleições. Ainda não parece estar ao virar da esquina e é aí que o apoio externo a este regime deveria culminar. A principal conquista é, sem dúvida, um forte sentido de agência. Após 13 anos no poder, o regime está a desmoronar-se lentamente. Infelizmente, não estamos nem perto do seu último suspiro e é difícil imaginar como é que isso vai acabar por acontecer. É quase inacreditável que, durante estes meses, ninguém tenha recorrido à contraviolência. No início, os estudantes afirmavam que lutavam contra o sistema, não contra o regime em si. Entretanto, isso mudou à medida que se tornou claro que, sem a mudança de regime, o sistema permaneceria incólume. Mas a ideia da mudança de sistema só agora se torna verdadeiramente significativa: o “sistema” – o sistema de valores e como as instituições funcionam – foi revelado e foi preciso muito tempo, muita energia e reuniões pacíficas em todas as cidades e mesmo em muitas aldeias para expor o estado da repressão de décadas e a oposição que se lhe seguiu.

    TM – O movimento estudantil que lidera os protestos na Sérvia demonstrou o verdadeiro poder das instituições democráticas, que não está reservado apenas ao aparelho de Estado e à autoridade institucionalizada. Mostraram – de forma bastante graciosa, diria eu – o poder da rua como instituição, o poder da reunião e, em última análise, o potencial de novas (e velhas) formas de vida comunitária e de sociabilidade.

    Qual é o papel do lítio nesta luta?
    AZ
    Possivelmente, um papel muito importante. Por muito que a UE, e sobretudo a Alemanha, se interesse pelo lítio, a questão torna- -se cada vez mais forte na Sérvia e não é negociável. A hipocrisia da Comissão Europeia e dos principais atores que têm apoiado o regime, apesar do facto de o Parlamento Europeu ter, por vezes, expressado que os estudantes lutam pelos valores europeus, fez com que muitos verdadeiros europeístas na Sérvia se opusessem a estes acordos nada sinceros. TM – Esta resposta está relacionada com uma das perguntas anteriores sobre o olhar do mundo. O lítio é a questão da desigualdade, pois revela que as transições ecológica e digital são futuros projetados apenas para os privilegiados. Os cidadãos da Sérvia não parecem dispostos a sacrificar o seu próprio bem- -estar – ou o bem-estar da natureza – por essa causa. Quem é que não percebe isso? Em Portugal, vocês também têm a vossa própria resistência local à corrida ao lítio. A transição verde tem de ser justa, isso é muito claro.

    Que alianças internacionais podem ser forjadas?
    AZ – Algumas. Entre os académicos, com certeza, porque nestes atuais tempos precários para o mundo académico, o caso sérvio pode ser um sinal do que poderá ser o futuro. Uma academia livre, pela qual todos lutamos, pode ser séria e facilmente comprometida pela violência económica. No entanto, para além do mundo académico, parece-me que qualquer pessoa descontente com o rumo que o mundo está a tomar, e a Europa tem a sua quota-parte nisso, pode encontrar inspiração em nove longos meses de luta persistente contra a usurpação do Estado – e das mentes e almas do seu povo – por um grupo de indivíduos mal-intencionados e poderosos. Embora a Sérvia tenha um contexto e uma história particulares, esta situação acaba por soar familiar a muitas pessoas em todo o mundo.

    TM – E se as organizações de ativistas ecologistas e os progressistas de todo o mundo se juntassem, então – com plena consciência do carácter potencialmente utópico da ideia – poderia ser forjada uma espécie de nova internacional de esquerda. Afinal de contas, as utopias não denotam apenas o impossível, mas também o que ainda está para vir.

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    Entrevista de Borboleta Azul
    [publicada na edição nr. 47 do Jornal MAPA – Out.-Dez. 2025]

  • As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura

    As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura

    Entrevista a José Paulo Viana, membro das BR

    Desde os primeiros dias a seguir ao golpe militar de 25 de Abril de 1974 até tempos recentes, qualquer referência às Brigadas Revolucionárias (BR) remetia imediatamente para as figuras de Carlos Antunes (falecido em 2022) e Isabel do Carmo, os únicos integrantes desta organização armada que se deram a conhecer publicamente como tal. Sabia-se também o nome de Carlos Curto «Luís», um dos dois operacionais mortos e o pseudónimo do outro, «Ernesto». A sua identidade só viria a ser revelada muitos anos depois. Morreram quando colocavam cargas explosivas no decorrer de acções de sabotagem contra objectivos militares da ditadura.

    No seio do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionarias), o partido “herdeiro” do prestígio alcançado pelas acções das BR, os militantes incorporados depois do derrube da ditadura podiam imaginar, com acerto, a mais que provável participação de Tomás da Fonseca, Vitor Ramos, Pedro Goulart, Humberto Machado, Laurinda Queiroz, José Francisco Ribeiro, Fernando Cipriano e mais uns poucos militantes do partido nas actividades das BR, mas estas figuras não faziam ostentação dessas práticas anteriores e mantinham em segredo esse vínculo no dia-a-dia partidário. A generalidade dos militantes que aderiram ao PRP-BR, durante o processo revolucionário e nos anos seguintes até à sua extinção em 1980, desconhecia também que no decorrer da primeira parte do 2º congresso [ref]A 2ª parte deste congresso realizou-se uma semana depois numa vivenda na zona de Sesimbra, já sem os militantes que abandonaram o PRP. O 1º congresso decorrera em Agosto de 1973, na clandestinidade, na Argélia.[/ref] do partido, realizado na escola do Centro Republicano do Lumiar, em Agosto de 1974, se tinha verificado uma ruptura que levou à saída da maioria dos membros das BR e de outros congressistas.

    Com a publicação do livro Mulheres em Armas [ref]Mulheres em Armas, de Isabel Lindim, com introdução de Isabel do Carmo, mãe da autora. Editorial Objectiva – Carnaxide, 2012.[/ref], de Isabel Lindim, em 2012, passam a conhecer-se os nomes de três das seis mulheres com intervenção directa em acções das BR, as outras três são identificadas pelos pseudónimos usados na organização. Nesta obra centrada na participação feminina nas BR são ainda reveladas as identidades de oito mulheres ligadas à logística e outros sectores da organização e aparecem pela primeira vez ao longo da narrativa os nomes de três outros membros das BR não assumidos até então: Orlando Lindim Ramos, pai da autora do livro, José Francisco, companheiro de uma das entrevistadas, e José Paulo Viana, que recrutou a maioria das mulheres que tiveram intervenção directa nas acções – daí a referência.

    Teve de passar quase meio século para se conhecer publicamente a generalidade dos homens e mulheres participantes de alguma forma nas actividades da única organização que prosseguia a luta armada em Portugal à data do derrube da ditadura. As outras organizações armadas: a FAP (Frente de Acção Popular), a LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária) e a ARA (Acção Revolucionária Armada) não tinham resistido à forte repressão que se abatera sobre elas, estando então inactivas.

    A poucos dias da estreia pública [ref]O Jornal MAPA foi convidado para a primeira projecção privada e publicou, no nº 36, uma breve recensão do filme.[/ref] do documentário As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1970-1974), [DOCLISBOA, 26 de Outubro às 15:30 horas no Cinema São Jorge], filme [ref]Documentário de Luís Gobern Lopes, Fernando Silva Cadenas e Francisca Serrão.[/ref] onde são revelados os implicados até agora desconhecidos e uma parte importante da história desta organização armada, entrevistamos para a rubrica «Outros 50 Anos» José Paulo Viana, membro das BR, com intervenção destacada em muitas das acções realizadas e que manteve, também, em segredo o vínculo à organização, como, diga-se de passagem, todos os outros que, como ele, abandonaram o congresso do PRP em Agosto de 1974.

    José Paulo Viana, conhecido durante as últimas quatro décadas como distinto professor e exímio divulgador da Matemática, através de publicações, conferências e sessões onde mostra os aspectos lúdicos, divertidos ou insólitos desta ciência, conta-nos a seguir essa parte desconhecida da sua história: como chegou a fazer parte das BR e a sua participação nas acções, numa conversa focada no seu empenho naquele projecto, mas onde fala também da sua vivência do 25 de Abril, do processo iniciado com a «Revolução dos Cravos» e, brevemente, dos «tempos duros» que vivemos e da esperança na juventude.

    Logotipo das BR
    Logotipo adoptado pelas BR. Apareceu pintado nas paredes de Amesterdão em 1973. Autoria atribuída a Leonel Moura

    Fernando Silva (FS) – Como entraste nas Brigadas Revolucionárias?
    José Paulo Viana (JPV) – Eu nasci em Angola. Em certo momento, achei que devia contribuir para a libertação de Angola, mas não tinha maneira de chegar ao contacto com o MPLA. Por coincidência, conheci uma pessoa que passava de vez em quando na casa onde eu vivia, com quem conversava bastante, e, um dia, disse-lhe que gostaria de colaborar com o MPLA. Ele respondeu-me: «se quiseres eu ponho-te em contacto com eles». Eu fiquei entusiasmadíssimo. A seguir disse-me: «olha, tens de ir a Paris…». Lá fui a Paris. Não tinha dinheiro, foi ele, a organização, que pagou a viagem, eu ainda não sabia que ele era das Brigadas. Era o Carlos Antunes.

    Pedro Mota (PM) – Conheceste o Carlos Antunes assim, em convívio?
    JPV Ele passava lá por casa, ficava a dormir de vez em quando. Vivíamos lá dois casais e ele conhecia os outros, que não pertenciam a nada. Nunca se percebeu que era clandestino, dizia que era engenheiro de florestas.

    PM – Que idade tinhas?
    JPV – Vinte e seis. Em Paris o contacto disse-me que tinha de ir a Argel.

    PM – Em que ano?
    JPV – No início de 1972. Em Argel falei com o representante do MPLA, mas a proposta de trabalho que ele me fez não ia servir rigorosamente para nada e fiquei um bocado desmoralizado. O Manuel Alegre explicou-me que o representante que lá estava era um guerrilheiro importante, mas diplomaticamente estava a começar… Resumindo, vim para Portugal sabendo que não ia conseguir fazer nada quanto a isto.

    PM – E o Manuel Alegre também estava nas BR?
    JPV Sim, era representante em Argel da organização. Ele e o Piteira Santos. Quando cheguei a Lisboa voltei a falar com o Carlos Antunes e ele disse-me: «olha, se quiseres ajudar a libertar Angola, uma hipótese é entrares para as Brigadas Revolucionárias». Fiquei de boca aberta, novamente, e entrei…

    PM – As BR tinham quanto tempo de existência?
    JPV Eles tinham feito a primeira acção dois meses antes, por aí, foi em Novembro de 1971. Eu voltei de Argel no início de Fevereiro de 72. Tinham feito a base da NATO e depois uns canhões em Santo António, ao pé do Barreiro. Tinham feito duas acções. Entrei para as Brigadas e, pronto, depois começou…

    O que via era as pessoas a falar muito, mas a não fazer nada. E achava que, para fazer cair a ditadura, era preciso usar métodos mais activos do que simplesmente manifestar-se de vez em quando e fazer-se abaixo-assinados.

    FS – Mas o que é que te motivava a entrar na luta armada?
    JPV Ah, eu achava que era importante fazer a luta armada. Não tinha grande experiência política, evidentemente. O que via era as pessoas a falar muito, mas a não fazer nada. E achava que, para fazer cair a ditadura, era preciso usar métodos mais ativos do que simplesmente manifestar-se de vez em quando e fazer-se abaixo-assinados. Eu tinha lido muitas coisas sobre a Revolução Cubana, sobre a Revolução Argelina, e achava que era a luta armada que tinha de ser para que a ditadura acabasse aqui.

    PM – Dizes que não tinhas grande experiência política. Mas em que sentido?
    JPV Porque nunca tinha pertencido a nenhuma organização.

    PM – Tu estudavas na altura?
    JPV Andava a estudar, sim. Tinha vivido no Porto e tínhamos uns grupos de discussão, mas era tudo teórico e nada concreto. Não se fazia rigorosamente nada, a mim custava-me imenso aquilo. Vim para Lisboa e comecei a reunir com as Brigadas, a fazer parte das Brigadas.

    PM – E nessa altura já estavam todos…
    JPV Não, porque depois eu acabei por trazer bastante gente para as Brigadas.

    FS – Como correu a primeira acção em que participaste?
    JPV A primeira foi a sabotagem dos camiões Berliet que estavam na Avenida de Berlim, para serem entregues ao exército português. A acção exigiu bastantes preparativos prévios, porque era preciso fabricar as cargas explosivas e as incendiárias e, depois, ir lá colocá-las.
    Feito isso, depois foi esperar até às duas da manhã. Fomos para a Graça ouvir as explosões. Quando a seis quilómetros de distância ouvi aquilo… aí pensei: «Agora estou metido a sério». Depois fizemos as reivindicações para as agências de notícias.

    FS – Após a sabotagem dos camiões, levam a cabo uma acção de características diferentes. Soltam em zonas centrais de Lisboa, no Rossio e em Alcântara, dois porquinhos fardados de almirante. Explica-nos a razão de ser desta acção e como decorreu.
    JPV Foi muito poucos dias depois. Nós estávamos a preparar essa [acção] também. O Américo Tomás ia ser eleito. Eleito é uma força de expressão, porque já não havia eleições directas.

    PM – Como é que era eleito, então?
    JPV – «Eleito» por uma comissão eleitoral formada só por elementos do regime. Simultaneamente, o Américo Tomás era um personagem bastante ridículo, toda a população achava que ele era insignificante, e resolvemos fazer uma acção que salientasse esse ridículo e simultaneamente entusiasmasse as pessoas, mostrando que havia quem estivesse a fazer coisas.

    PM – Conta melhor esta acção dos porquinhos, vocês largaram-nos lá e ficaram a ver a reacção?…
    JPV Tínhamos pensado largar os porquinhos, que eram uns leitõezinhos, no Rossio, e que eles iam começar a correr, assustados com a agitação da cidade. Nós tínhamos feito uns simulacros de farda e esperávamos que as pessoas identificassem aquilo. Ora, aquilo acabou por correr de maneira completamente diferente e mal. Os porquinhos iam com falta de ar porque os levámos dentro de um saco de serapilheira. Largámos o porquinho e ele ficou parado no sítio, não se mexeu. Nós fomos embora, mas dois elementos das Brigadas estavam lá para assistir ao que ia acontecer. O que viram foi três ou quatro pessoas que se juntaram à volta do porco, a olhar. Apareceram logo uns homens da PSP ou da PIDE que chamaram um varredor da rua e mandaram-no guardar o porco. Aquilo durou um minuto, um minuto e meio… Praticamente ninguém viu. O casal, a seguir, deixou um petardo que ao rebentar distribuía panfletos a dizer: «estas eleições são uma porcaria, nada melhor que o porco para simbolizar quem vai ser eleito». O petardo rebentou, fez barulho, os papéis voaram, aí as pessoas viram. Algumas apanharam um panfleto, mas apareceram logo cinco ou seis homens a recolher todos os papéis. Tinha sido um fiasco completo.

    «Sabes, aqui na aldeia contam a história de um porco fardado de almirante»…

    PM – Mas o de Alcântara correu melhor?
    JPVNão, igualzinho. Marcámos uma reunião para dois dias depois para discutir o que é que tinha falhado. Meti-me num táxi para ir para a reunião. O taxista arranca, vira-se para trás e diz: «Sabe o que é que aconteceu?… Largaram um porco fardado de almirante. Um porco enorme. Que desatou a correr por ali fora, ninguém o conseguia apanhar, toda a gente a rir…». E ele insistia que estava fardado, «até botas tinha». Não tinha, evidentemente. De repente, toda a gente no país começa a falar do porco e, claro, não tinha saído nos jornais nem na televisão… Quinze dias depois fui a Trás-os-Montes passar a fronteira com uns contrabandistas que colaboravam connosco, numa aldeia lá no fim do mundo. O contrabandista vira-se para mim e diz-me: «Sabes, aqui na aldeia contam a história de um porco fardado de almirante»…

    PM … com o boca a boca, cresceu assim…
    JPV Foi de longe a acção que teve mais impacto na população, porque foi ao encontro do que as pessoas desejavam. As pessoas estavam fartas da ditadura, da repressão. Ao ridicularizarmos o regime, a acção transformou-se em algo muito maior. Porque o porquinho não fez nada. Na versão final já o porco tinha sido morto duas ou três horas depois, a tiro, pela polícia que não o conseguia apanhar.

    Transmissor do centro de comunicações telegráficas com as ex-colónias e a África do Sul, em Sesimbra, destruído, em Setembro de 1972, numa das acções das Brigadas Revolucionárias.

    FS – Em Setembro de 1972 as Brigadas provocaram um corte nas comunicações entre Portugal, as ex-colónias e a África do Sul com a destruição dos centros de transmissões em Palmela e Sesimbra. Lembras-te dos pormenores desta acção?
    JPV Participei quer na organização quer na execução. Íamos fazer [os cortes] em três centros de comunicação, um em Palmela e dois em Sesimbra. Colocámos as cargas no de Palmela e num de Sesimbra mas quando íamos para o terceiro tivemos um acidente e já não arriscámos fazê-lo. A acção resultou em pleno, embora fosse uma pena não termos conseguido o terceiro.

    PM – O terceiro era onde?
    JPV – Era também em Sesimbra, mesmo no centro de Sesimbra. E essa era mais complicada porque tinha guardas lá.

    PM – Como obtinham as informações para as acções?
    JPV Havia quem nos desse informações, claro. Depois fazíamos vigilâncias e observávamos o local, como é que aquilo funcionava, etc.

    PM – Basicamente, vocês todos já estavam a tempo inteiro nas Brigadas?
    JPV Não, a maioria trabalhava. Eu, nessa altura, já estava completamente ligado às Brigadas. Não fazia mais nada, mas havia outros que faziam vida normal.

    PM – Estavas na clandestinidade?
    JPV – Não, ainda estava legal. Estive quase sempre legal, felizmente. Porque é muito mais agradável estar legal do que clandestino.

    PM – Tinham alguma preparação prévia?
    JPV – [Preparação] militar?… Nada. Depois, mais tarde, haveríamos de ter, mas nessa altura, ninguém tinha. Alguns tinham feito a tropa, mas, fora isso, nada.

    PM – Tu não tinhas feito nada?
    JPV Nada. Nunca iria fazer a tropa, isso estava fora de questão. É uma história engraçada também, essa da tropa, no meu caso…

    FS – Para financiar as atividades recorreram a assaltos a bancos. Como foi o primeiro assalto?
    JPV Em Portugal não havia assaltos a bancos. Era uma coisa que não existia.

    PM – A LUAR já tinha feito alguma coisa, não é?
    JPV – Tinham feito o [Banco de Portugal] da Figueira da Foz. E, que eu saiba, tinha havido três assaltos não políticos, além deste. Três assaltos a bancos em Portugal, nos últimos vinte anos. Portanto, não havia assaltos a bancos…

    PM – Nem de crime comum havia?
    JPV Não, não havia mesmo. E, portanto, é claro que para nós aquilo também era uma novidade absoluta…

    PM – …para vocês e para os bancários…
    JPV Foi preparado com muito cuidado. Fizemos muitas reuniões preparatórias. Fomos com dois carros. Éramos quatro, só quatro, mas com dois carros para garantir que se houvesse algum problema com um, conseguíamos sair com o outro. E correu mesmo impecavelmente.

    PM – Foi onde?…
    JPV Foi em Alhos Vedros e, passados uns tempos, voltámos a esse banco… Para chamar mais a atenção das pessoas. Esse primeiro assalto foi notícia de primeira página de todos os jornais durante quatro ou cinco dias, sempre a dizer que os assaltantes estavam quase a ser presos. E nós ríamo-nos, porque eles não tinham pista nenhuma. Sabíamos, tínhamos a certeza. E as notícias sobre o banco depois foram diminuindo. Dez dias depois, um ou dois jornais ainda traziam uma pequena nota sobre o assalto. Porque era uma novidade, não havia assaltos a bancos.

    MP – Seria por quê?…
    JPV – É por sermos um povo pacífico (risos). Não havia…

    PM – É curioso, não é?… Porque às vezes quando falamos de Espanha, os anarquistas espanhóis, antes da Guerra Civil, já andavam a assaltar bancos… E em França já se assaltavam bancos desde o início do século…
    FS – Esta é a primeira operação em que empunham armas. Que tipo de armas usavam as Brigadas? Tinham experiência de tiro? E o medo? Como se convive com ele?
    JPV Ora bem, não tínhamos praticamente armas nenhumas. Tínhamos uma pistola com duas ou três balas, que nunca experimentámos porque não tínhamos mais balas. Havia ainda uma pistolinha, pequenina, e uma coisa que parecia uma arma, mas era um artefacto para lançar aqueles foguetes de emergência. Nós fazíamos luta armada sem armas, praticamente sem armas (risos)… E experiência, então, nenhuma, nunca experimentámos nenhuma arma antes…

    Antes [da acção] sentia-se um certo receio, mas depois, quando começava, não sentia rigorosamente medo nenhum

    PM – Ou seja, tu nunca te viste numa situação de ter de disparar…
    JPV – Mais à frente, sim. O medo, era engraçado… Antes [da acção] sentia-se um certo receio, mas depois, quando começava, não sentia rigorosamente medo nenhum, pelo contrário, sabia que era eu o dono da situação e não o outro lado. Isso dava-me até uma sensação de liberdade que não tinha no dia-a-dia. No dia-a-dia a gente estava sempre com algum receio da polícia, mas naquelas alturas da acção, não. Éramos nós que decidíamos o que fazíamos.

    PM – … na altura a segurança dentro do banco devia ser muito reduzida, não é?…
    JPV – Não havia. Não havia assaltos, não havia segurança. O problema era a coisa correr mal e aparecer a polícia.
    No segundo assalto ao banco de Alhos Vedros participou uma rapariga que ia de minissaia. Nós pedimos-lhe para ir de minissaia porque o que ia ficar na mente das pessoas era a minissaia e mais nada, e realmente assim foi. Um assalto a banco… com uma minissaia, as testemunhas e os jornais só falavam da minissaia. Era uma boa cobertura para todos, incluindo para ela, que aliás nunca usava minissaia. Ela era a encarregada de recolher os dinheiros. Viu um dinheiro em cima duma mesa, umas moedas, uma quantia pequena, e meteu para o saco. E um dos do banco disse: «Não, esse é o dinheiro do estafeta, do rapaz…». Mas já estava tudo metido no saco e ninguém sabia quanto era. Peguei numa nota e disse: «Então fica isto para o rapaz» e ele ficou mesmo com o dinheiro, que era mais… O objectivo não era assustar as pessoas. Claro que queríamos que não reagissem, mas tratávamos sempre bem as pessoas.

    Mapa militar do sector de Bedanda, a que pertence Guiledje, o primeiro quartel do exército português tomado pelos guerrilheiros do PAIGC em Maio de 1973. Mapas como este de todo o território de Angola, Moçambique e Guiné, foram entregues pelas BR aos respectivos movimentos de libertação.

    FS – A vertente anticolonial é a característica distintiva da maioria das ações das BR. Daquelas em que participaste qual consideras a que mais impacto teve no fim da guerra? Conta como foi.
    JPV A que teve mais impacto, sem dúvida nenhuma, foi a ação dos mapas militares.
    Quando eu estive em Argel e falei com o representante do MPLA, uma das coisas que me disse ser fundamental para eles era ter mapas militares.

    PM – Quando tiveste aquele primeiro encontro?
    JPV Exactamente. Porque eles faziam a guerrilha sem mapas, não tinham mapas. Quando voltei para Portugal e entrei para as Brigadas, disse: «nós temos de arranjar os mapas». Propus-me ser eu a tratar disso, e demorámos muitos meses a conseguir a recuperação dos mapas. Porque… nem sabíamos sequer onde estavam.

    PM – Essa acção foi mesmo pensada, foi sugerida por ti, a partir do que te tinham dito…
    JPV Sim, sim. Para mim era um ponto de honra conseguir os mapas. Também porque achei que para eles era fundamental. Claro que o objectivo principal era os de Angola, que eram os que nos tinham sido pedidos, mas, já que trazíamos os de Angola, trazíamos também os da Guiné e de Moçambique, isso tinha que ser. Os mapas militares são numa escala muito boa, com tudo o que existe no terreno. Portanto, para quem organiza a guerrilha é fundamental ter um bom mapa.
    Felizmente havia uma camarada nossa que tinha entrado para as Brigadas, minha conhecida, era uma mulher incrível. Uma mulher incrível. Quando lhe propus entrar, ela disse logo que sim. Conseguia informações sobre tudo. A gente pedia-lhe uma coisa e passados dois dias ela já dizia: «há esta hipótese, há aquela…». Foi ela que conseguiu o contacto com um rapaz, que estava a fazer o serviço militar nos serviços cartográficos do exército.

    PM – Onde é que eram os serviços cartográficos?
    JPV – Eram ali na Rua da Escola Politécnica. Comecei a reunir com esse rapaz, que se prontificou a dar todas as informações. Durante mais de dois meses encontrava-me com ele duas vezes por semana para fazermos um brainstorming. Traçámos primeiro um plano, depois desistimos porque não era seguro. Depois traçámos outro, desistimos porque não era garantido. Era seguro para nós, mas não era garantido conseguirmos trazer os mapas. Até que chegámos a um que achámos que era seguro, por um lado, que iria resultar, que conseguiríamos trazer os mapas. Em Dezembro de 72, organizámos essa operação. Envolvia duas Brigadas…

    PM – Mas entraram à força?…
    JPV – Não. Eles tinham um portão por onde passavam os jipes para um pátio interior.
    Os soldados que trabalhavam lá usavam esse portão para vir cá fora tomar um café, fazer uma escapadela. Aquilo fechava às sete. O que o nosso contacto fez foi garantir que ao fim da tarde, às seis e meia, deixava o portão encostado e eu entrava por ali. Ele tinha-me feito o plano do pátio e de tudo o que havia no rés-do-chão. Mostrou-me, no plano que fez, uma sala onde não ia ninguém e a porta estaria aberta, encostada, para eu ficar lá escondido. E assim foi. Por acaso o portão até estava aberto de par em par, porque estava um jipe a passar, não interessa. Eu entrei, com o ar de quem era da casa. Fui para a tal salinha. Ele foi ter comigo para me entregar umas coisas de que eu iria precisar. Os serviços fechavam às sete, mas havia uma secção que ficava a fazer horas extraordinárias até à meia-noite. Era preciso esperar que eles acabassem. Havia ainda um guarda que vivia no sótão. Era preciso esperar que ele adormecesse. Portanto, a operação só iria começar efetivamente às duas da manhã. Lá estive fechado desde as seis e meia da tarde até às duas da manhã. Tínhamos combinado um sistema de comunicações com o exterior com umas tiras de cartolina por baixo do portão. Às duas da manhã vim abrir o portão, entraram mais dois, os restantes ficaram lá fora, estacionaram o carro muito perto do portão, para depois carregar os mapas quando saíssemos. Fomos para a arrecadação dos mapas, que era no pátio. Forçámos a porta, felizmente chovia, a chuva abafava os barulhos. Começámos a retirar os mapas. Aquilo eram estantes enormes do chão até ao tecto, da largura dos mapas. Eram centenas de mapas.

    PM – São mapas grandes?…
    JPV – Sim, têm oitenta centímetros por um metro, mais ou menos, não sei bem. Por acaso tenho alguns lá em casa.

    PM – Ah, guardaste?
    JPV – Não, não são desses, agora já os pude ir buscar legalmente (risos)…

    PM – Agora não se deve ter acesso a todos legalmente…
    JPV – Agora, pode-se comprar.

    PM – Os mapas militares?
    JPV – Eles vendem… Os que tenho lá em casa são os de Portugal, não tenho nenhum de Angola. Outro dia fui lá aos Serviços Cartográficos, estivemos a ver os mapas…

    PM – Ainda estão no mesmo sítio?
    JPV – Não, agora têm umas instalações modelo.

    Foi o momento mais importante da minha vida, foi aí que eu percebi que aquilo tinha mesmo valido a pena, todas aquelas dificuldades por que passámos…

    PM – Mais seguras?! (risos) Vocês não fizeram nenhuma selecção?
    JPV – Não, porque estavam separados… Cada prateleira tinha um grupo de mapas todos iguais, da mesma região. Não me lembro agora quantos, sei que trouxemos mais de duzentos mapas. E, pronto, trouxemos os mapas para fora. A operação correu bem.
    Depois era preciso levá-los para a Argélia. Foi preciso organizar uma operação para os levar para Paris, também cheia de aventuras, tivemos de o fazer clandestinamente. A seguir, para Argel, foi mais fácil. E depois fui a Argel fazer a entrega dos mapas às três organizações. O governo argelino fez mesmo uma sessão oficial, com o ministro dos negócios estrangeiros, e entregámos os mapas aos movimentos [de libertação]. Depois mandaram-nos cartas de agradecimento, todos eles. Nós só temos a carta do MPLA, as outras não sei o que aconteceu, desapareceram. Tínhamos conseguido o objectivo principal, entregar os mapas militares ao MPLA, à FRELIMO e ao PAIGC. Mas, para mim, a parte mais importante foi que, pouco mais de um ano depois de ter reunido com o MPLA em Argel, voltava ali para entregar os mapas militares às delegações dos movimentos de libertação das colónias.
    Agora vem o que mais me marcou! Em Setembro de 1973, a Guiné-Bissau declarou a independência que foi reconhecida pela grande maioria dos países do mundo, com excepção de quase todos os países da Europa Ocidental, do Canadá e dos Estados Unidos, que não reconheceram.
    No início de 1974 tive de ir a Argel levar uma informação ao PAIGC e à chegada o camarada nosso que lá estava disse-me que no dia seguinte chegava um elemento do novo governo guineense e que eu poderia falar directamente com ele. E assim foi. Aconteceu uma coisa incrível nessa reunião. Estávamos numa mesinha redonda, eu, o nosso camarada em Argel e, à minha esquerda, o ministro. O meu camarada dirigiu-se ao ministro: «Este é o camarada que conseguiu os mapas». Tive de corrigir, que não fui eu, foi um trabalho de grupo, de muita gente, eu sozinho não teria nunca conseguido.
    O ministro olhou para mim e pôs-me a mão no braço: «sabe, esses mapas foram fundamentais para nós conseguirmos a independência. Graças a eles conseguimos conquistar o quartel de Guileje, libertar uma enorme porção de território e formar um governo». Depois, continuando inclinado sobre o meu braço, disse: «mas mais importante do que isso é que muitos camaradas meus estão vivos graças a esses mapas» e caiu-lhe uma lágrima em cima do meu braço. Foi o momento mais importante da minha vida, foi aí que percebi que aquilo tinha mesmo valido a pena, todas aquelas dificuldades por que passámos… (emociona-se).

    PM Tinham valido muitas vidas…
    JPV – …muitas vidas, nunca mais esqueci esse momento, claro.

    PM – Quem é que era o ministro?
    JPV – Julgo que era o da agricultura, mas já não tenho a certeza. Sabes, nós não ficávamos com registos. Depois, a memória vai falhando, os pormenores vão desaparecendo… A ideia que tenho é que era da agricultura, mas não tenho a certeza.

    Carta do MPLA dirigida às Brigadas Revolucionárias agradecendo a entrega dos mapas militares, assinada por Agostinho Neto. Espólio de Fernando Piteira Santos no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra.

    FS No final do ano de 1972 as Brigadas intervêm na vigília contra a guerra colonial realizada na Capela do Rato com a colocação de petardos em vários locais de Lisboa e da Margem Sul. Estavam coordenadas com os católicos progressistas?
    JPV Havia um grupo de católicos muito activo, sobretudo contra a guerra colonial, os contactos vinham já detrás, começaram antes de eu entrar para as Brigadas. Houve sempre um apoio muito grande da parte deles.

    FS Como era essa ligação?
    JPV – Não ao nível da execução das acções, mas ao nível de arranjar casas, guardar documentos, guardar material e passar informações. Havia muita troca de informações entre nós. Houve sempre um trabalho muito grande de colaboração entre nós e eles. Quando soubemos que a acção da Capela do Rato ia acontecer…

    PM – A acção constou de quê?
    JPV – Era uma iniciativa de oração e de reflexão sobre a guerra colonial, iniciada por um grupo de pessoas que entraram em greve de fome. No fundo, uma forma de chamar a atenção, quer às pessoas que lá apareceram, mas essas já não precisavam de ser convencidas, mas também de alertar o resto da igreja. A estrutura e a hierarquia da igreja estavam ligadas ao regime. Era uma forma de passar a mensagem de que dentro da igreja também havia quem não concordasse com o que se passava cá em Portugal.

    PM – E como é que entram os petardos?
    JPV – Foi, no fundo, a propaganda, com uma distribuição de panfletos assinados por «Trabalhadores Revolucionários» a divulgar a iniciativa. Foram deixados em locais onde houvesse muita gente. Eu não me lembro já quantos petardos foram, mas foram mesmo muitos. Portanto, foram precisas muitas pessoas a fazer isso. Houve quem não fizesse parte das Brigadas, mas estivesse disposto a colaborar e, a seguir, a integrar-se nas BR. Incluindo a minha irmã e o meu cunhado.

    PM – Ah, tu também meteste a família!
    JPV – Vieram cá porque eu sabia que aquela minha irmã andava desejosa de fazer coisas e este era um bom momento para a integrar. Telefonei-lhe a dizer que ia haver um baile de passagem de ano, se ela não queria vir cá. Claro, ela percebeu logo que era um código, eu não era de bailes de passagem de ano. Vieram e depois tiveram um papel importante nas Brigadas.

    FS – As acções seguintes são de sabotagem contra instalações do aparelho militar. Em Março de 73, em Lisboa, as Brigadas têm as suas primeiras baixas. Como encararam este revés?
    JPV – Nós tínhamos três programadas para rebentarem durante a noite. Três, não, perdão, quatro. Três em Lisboa e uma em Caxias. As cargas explosivas eram colocadas durante o dia no DRM [Distrito de Recrutamento e Mobilização] da Avenida de Berna e no Quartel-Mestre-General, que fica ali na Rua Rodrigo da Fonseca. Os camaradas entraram nos sítios e, ao colocar as bombas, nunca soubemos porquê, rebentaram.
    Eu estava na terceira, no Quartel da Graça, nos Serviços Mecanográficos do Exército. Não fui eu que entrei lá, estava cá fora no carro. A minha correu bem, acabou como previsto por só rebentar durante a noite, sem fazer vítimas. Um dos nossos pontos importantes era não ferir ninguém. Tínhamos sempre algum cuidado, não queríamos de modo nenhum que houvesse pessoas feridas ou mortas, embora houvesse sempre riscos. Nestas duas acções morreram os dois operacionais, o Arlindo Garrett e o Carlos Curto, e houve alguns feridos sem gravidade. Quando percebemos que aquilo estava a correr mal, ainda tentámos parar a da Avenida de Berna, mas quando chegámos lá, já tinham rebentado.

    PM – Então, foi alguma coisa que correu mal na forma como estavam feitas [as bombas]?
    JPV – Na forma como as cargas estavam acondicionadas. Houve ali um problema qualquer e já nem fizemos a de Caxias. Eu tenho uma possível explicação, o deficiente isolamento dos circuitos eléctricos duplos que usávamos, mas não há garantias nenhumas de que tenha sido assim.

    FS – Um mês depois levam a cabo uma acção contra o mesmo tipo de alvos no Porto. Tiveste algum papel nesta acção?
    JPV – Fui apenas dar apoio à Brigada do Porto. Era a primeira acção que eles faziam.

    João Paulo Viana, com a irmã, Paula Viana, uma das mulheres das BR, numa foto da época

    FS – A participação directa de mulheres nas acções armadas é um aspecto distintivo das Brigadas. A maioria delas, segundo as próprias, foram recrutadas por ti. Eram pessoas das tuas relações?
    JPV – As Brigadas eram uma organização onde as mulheres tinham um papel igual ao dos homens. Para mim isso era normal. Porque é igual, ser um homem ou uma mulher é igual… Eu dava-me com muita gente e percebia o que é que as pessoas sentiam. Quando lhes propunha aderir, era já com uma certa garantia de que a resposta ia ser positiva. Todas estas acções de que estive a falar tiveram mulheres a participar directamente. Neste aspecto acho que as Brigadas funcionavam de uma forma exemplar, não tenho qualquer dúvida. Além disso, quem entrava decidia o nível de participação até onde podia ir. Houve uns que ficaram sempre na rectaguarda e houve outros que entravam directamente nas acções. E quando digo “outros”, é “outros e outras”. É verdade, realmente houve uma série de mulheres que convidei para as Brigadas.

    PM – Mas eram pessoas que tu já conhecias?
    JPV – Sim. Com quem andava e com quem ia tendo discussões. Muitas delas já vinham de antes de eu entrar para as Brigadas.

    Lembro-me de que fui levar os petardos ao Porto, para os colocarem pelo Norte. No regresso a Lisboa, vinha com uma série deles, e ia parando em várias terras… a deixar.

    FS – Nas vésperas do 1º de Maio de 1973 as Brigadas colocaram petardos em 200 locais diferentes de Norte a Sul do país. Ao deflagrar espalhavam folhetos com o apelo de participação nas greves e manifestações. Na madrugada do dia do trabalhador rebentou também uma bomba provocando graves danos nas instalações do Ministério das Corporações. Fala-nos destas acções.
    JPV Na colocação dos petardos, acho que entrou toda a organização e mais uns que ajudaram. Foi uma coisa incrível. E exigiu uma coordenação grande, porque era preciso preparar os petardos. Depois foi preciso distribuir os petardos por vários grupos. Lembro-me que fui levar os petardos ao Porto, para os colocarem pelo Norte. No regresso a Lisboa, vinha com uma série deles, e ia parando em várias terras… a deixar. Ainda dei boleia a um soldado e lembro-me bem de chegar a Leiria e dizer-lhe: «olhe, desculpe, agora tenho de ir ali tratar de um assunto, venho já». Saí com o saquinho (risos) e lá fui pôr o petardo no centro de Leiria. Nunca mais esqueci essa.

    PM – Isso foi no mesmo dia?
    JPV Os petardos rebentaram no dia 29 de Abril. No dia seguinte, uma Brigada de duas pessoas fez a outra acção. Uma mulher, que ficou no carro, e eu, que entrei no Ministério das Corporações. Tínhamos todas as informações do sítio onde iria colocar a bomba. As indicações eram extremamente precisas, foi muito simples e correu muito bem. Explodiu durante a madrugada no quarto andar do edifício.

    PM – Todas essas acções já eram bastante noticiadas?
    JPV Sim, quando havia explosões, a notícia tinha de sair sempre. E esta bomba no equivalente ao Ministério do Trabalho, ainda mais, não é?

    PM – Nesta altura, tu contarias quantas pessoas, assim, activas, a sério, nas Brigadas?
    JPV Pouca gente, 30, 40 pessoas. Eu nunca fiz as contas, mas no filme, o Luís Gobern, o realizador, andou à procura, e aparece um número parecido com esse. Ele encontrou quase toda a gente, fez um trabalho incrível!

    FS – A Argélia acolheu desde a sua independência da França, em 1961, várias levas de exilados portugueses e das ex-colónias. Ali se instalou a sede da FPLN (Frente Popular de Libertação Nacional) que agregava até 1970 praticamente todas as organizações que lutavam contra o regime ditatorial português. As BR nascem de uma ruptura que resultou na expulsão do PCP desta frente. Pode concluir-se que as BR estavam ligadas organicamente à FPLN?… Explica-nos como funcionava essa ligação.
    JPV Sim, estavam ligadas. No fundo, a FPLN mantinha o nome, mas já não era verdadeiramente uma frente. Já só tinha as Brigadas. Eventualmente, teria contactos com outras organizações, mas funcionava só para as Brigadas e tinha um papel importante, porque era, no fundo, o elo de ligação diplomático com o exterior. Por outro lado, com as emissões da rádio para Portugal, garantia a propaganda e uma certa informação cá para dentro.

    FS – Uma parte importante dos operacionais das Brigadas viria a participar num curso de aperfeiçoamento militar na Argélia, imediatamente antes da realização do congresso de fundação do PRP, realizado nos arredores da capital argelina no verão de 1973. Quantos participaram?
    JPV Fomos aí uns 10 ou 12, já não lembro quantos.

    FS – Foi importante essa formação? O que é que aprenderam?
    JPV Claro que foi importante para nós, sobretudo porque foi a primeira vez, para muitos, que pegámos uma arma e a disparámos. Desse ponto de vista foi importante. Lembro-me de um dos camaradas que tinha feito a tropa, o Tomás da Fonseca, que desertou quando foi mobilizado para as colónias, a dizer que tinha aprendido mais em 10 dias que em todo o tempo que tinha passado no exército português. Segundo ele, teve mais contacto com armas nesse curso do que tinha tido durante toda a recruta e a especialidade cá em Portugal. Nesse aspecto foi importante. Do outro ponto de vista, de organização de guerrilha, não. Porque a experiência argelina era a guerrilha rural, para nós não servia para nada.

    PM – Qual era a intenção? Vocês pensavam escalar a coisa para outro nível?
    JPV – Conseguir mais armas.

    PM – Mas para fins mais específicos? Ou só para protecção? Vocês têm sempre esta questão da vida humana.
    JPV A questão da vida humana só se põe mais no início de 1974. Mas para nós era importante ter mais armas. Havia a possibilidade de se conseguirem mais armas e eram precisas pessoas que soubessem mexer nas armas. Portanto, esse foi o aspecto importante.

    Eu participei no congresso e foi vergonhosa a forma como o Manuel Alegre e o Piteira Santos foram expulsos!

    FS – A realização do congresso de fundação do PRP na Argélia, em Agosto de 1973, desencadeia um processo que leva à expulsão de dois dos fundadores das Brigadas, Piteira Santos e Manuel Alegre. Qual é a explicação para estas expulsões?
    JPV Eu participei no congresso e foi vergonhosa a forma como o Manuel Alegre e o Piteira Santos foram expulsos! Sinto-me culpado. Tive culpa por não conseguir perceber o que estava a acontecer. E o que estava a acontecer não era uma questão política, nem ideológica, era de poder, entre aquelas duas personalidades, que tinham uma grande projecção internacional, e o Carlos Antunes, que os queria pôr fora. Essa é a explicação. Porque o motivo que foi invocado, o envolvimento num possível golpe de estado contra o presidente argelino, não fazia qualquer sentido. No meio daquela pressão acabei por não ter o discernimento de tomar uma posição, mas mal saí do congresso percebi… Percebi que tinha sido uma luta que não tinha nada a ver com questões ideológicas. Eram questões de poder político, era o Carlos Antunes que queria tomar conta daquilo. Sobre isso não tenho qualquer dúvida.

    PM – Estás a dizer que saíste do congresso e percebeste logo isso?
    JPV – Apercebi-me logo a seguir.

    PM – Mas falaste com o Piteira Santos ou o Manuel Alegre?
    JPV – Depois disso, não. Lembro-me de vir com a minha irmã na viagem de regresso e lhe dizer: «os próximos a serem expulsos vamos ser nós». A questão é que já tínhamos alguns atritos com a direcção por causa das Brigadas. Nós [os operacionais] estávamos a ser tratados como os homens de mão para executar coisas e não para ter um papel directo nas questões políticas e ideológicas. Portanto aquilo já estava a ficar um pouco…

    PM – … mas isto foi o congresso de fundação do PRP? Quantos participaram neste congresso?
    JPV – Uns vinte e tal, tinha ido gente do interior. Teve aspectos caricatos, como por exemplo, decidiu-se fundar o partido porque era preciso criar uma organização política que aparecesse. Ficou decidido chamar-se Partido Revolucionário dos Trabalhadores, mas quando chegámos a Portugal já era Partido Revolucionário do Proletariado. Na viagem tinha mudado de nome (risos)…
    Sim, tinha ficado decidida uma coisa no congresso, mas depois houve duas pessoas, o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo, que acharam que no final era melhor Proletariado do que Trabalhadores, pronto.

    PM – Aí começaste a desconfiar, não é?
    JPV As Brigadas eram clandestinas, os grupos não se conheciam uns aos outros, não havia reuniões alargadas, porque era perigoso… não tínhamos as informações todas. Só a seguir ao 25 de abril é que a gente se começa a aperceber… Foi por isso que, logo depois, saímos.

    PM – Eu pensei que tu estavas mais próximo da Isabel do Carmo e do Carlos Antunes…
    JPV Oficialmente eu fazia parte do Comité Central, já não sei como é que se chamava (risos)… Mas depois não havia reuniões, era muito difícil organizar essas coisas, portanto as decisões eram sempre tomadas parcelarmente. Realmente eu era da direcção, mas era uma direcção que não funcionava enquanto tal…

    PM – Uma direcção que tinha outra direcção dentro…
    FS – Depois deste congresso, já em Outubro, as Brigadas atingem, pela segunda vez em meio ano, o Quartel-General do Porto e interrompem as acções armadas até Fevereiro de 1974, quando regressam com a sabotagem do Quartel-General da Guiné. Esta paragem foi motivada pelas prisões em Novembro de vários católicos progressistas com quem tinham ligações?
    JPV Ora bem. Houve a segunda operação do Porto, que foi gira porque foi exatamente no sítio onde tinha sido a primeira. Foram os do Porto que fizeram, evidentemente. Logo a seguir, eu entro num de dois assaltos simultâneos a bancos. Houve um problema com um dos carros e ficámos com receio de que a PIDE conseguisse chegar a mim. Como havia uma série de assuntos a tratar no estrangeiro, vou para a França. Estive lá até ao início de Fevereiro de 1974.

    PM – O assalto foi quando?
    JPV O assalto foi em Outubro de 1973, depois do Quartel-General, logo a seguir.

    PM – Então ficaste em França até Fevereiro de 1974?
    JPV – Sim. Antes de sair já se estava a falar na hipótese de fazer a acção da Guiné. Tínhamos uma pessoa, que estava a fazer o serviço militar na Guiné, que não era das Brigadas, mas que se dispôs a colaborar. A acção foi preparada e foi discutida, ainda participei no início da discussão.
    Enquanto estive fora não houve realmente acções aqui, mas não sei os motivos. Sei que foram presos vários católicos progressistas que tinham contactos connosco. Não sei se isso teve influência ou não no facto de não ter havido acções nesse lapso de tempo.

    FS – Dos activistas presos acusados de praticarem luta armada na última década da ditadura, foram raros os que resistiram aos métodos de tortura da PIDE, a generalidade falou. É o que se conclui da consulta dos processos da FAP, da LUAR, da ARA e das BR depositados na Torre do Tombo. Como é que vivias a possibilidade de ser preso e torturado?
    JPV – É assim… Eu sabia que era um risco que corria permanentemente. Aliás, lembro-me, na altura, no início de 74, quando voltei, a casa onde eu ficava era em Paço d’Arcos, e eu vinha para Lisboa de mota, passava em Caxias, em frente à prisão, via-se a prisão lá em cima, e todas as vezes que passava ali, pensava: «qualquer dia estou lá!». Eu sabia que era assim, não havia outra opção, mas nunca me fez recuar.

    PM – Psicologicamente não te preparavas… A questão da tortura, por exemplo, que é uma coisa que é mais…
    JPV – É assim, eu achava que não iria falar, mas uma pessoa só pode saber isso quando está perante essa situação. Claro que eu tinha convicções, mas muitas pessoas com convicções acabaram por falar. Penso que nós trabalhávamos bem, tínhamos bastantes cuidados, mas havia sempre imponderáveis e um dia…

    PM Na altura, ao nível sentimental, vivias com alguém?
    JPV Vivia, tinha uma companheira que não fazia parte das Brigadas, mas sabia que eu andava nisso. Quando penso como é que ela aguentou aquilo, até me custa a crer. Mas foi sempre impecável, sempre impecável.

    A acção da Guiné implicava alguns riscos do ponto de vista da integridade física dos militares.

    FS – Os dirigentes das BR, como de resto os dirigentes das outras organizações portuguesas de luta armada, afirmam reiteradamente que pautaram a sua acção seguindo o princípio de não afectar vidas humanas. Concretamente, na acção de sabotagem do Quartel-General da Guiné [ref]A explosão da bomba ocorreu no dia 22 de Fevereiro de 1974, no Q-G da Guiné, junto às dependências do primeiro e do segundo comandantes, respectivamente, Brigadeiros Banazol e Figueiredo, e do chefe de Estado Maior, Coronel Gonçalves Vaz. Os dois últimos ficaram feridos.[/ref], pela hora da explosão, foi abandonado o princípio de evitar vítimas?
    JPV Pois é, havia esse perigo e embora o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo, nos últimos anos, tenham dito que nunca se pôs essa questão, isso é falso. Neste caso, nós não sabíamos se haveria perigo de morte ou não, e havia. A questão pôs-se noutras acções, que foram pensadas, mesmo como possibilidade de matar, uma contra a PIDE do Porto e outra contra a polícia de choque, em Oeiras. Discutiu-se, e quando os ouço agora a dizer, o Carlos Antunes já faleceu, mas também disse isso várias vezes, «que não, que nunca se pôs a questão», isso é falso. Isso era discutido e, até certo ponto, justificado, só que agora acham… E, por exemplo, se fosse o chefe da PIDE, eu acho que não haveria hesitações.
    A acção da Guiné implicava alguns riscos do ponto de vista da integridade física dos militares porque a carga iria ser colocada na sala ao lado de onde se reuniam os comandantes principais da Guiné. Nós achávamos que não iriam morrer, mas que poderiam ficar feridos, isso foi discutido e decidiu-se avançar. Eu não assisti à parte final das decisões, porque estava em Paris, mas a acção foi feita. Não foi logo reivindicada, eu nunca percebi exactamente por que é que o Carlos Antunes não quis reivindicar logo. Só foi reivindicada [pelas BR] muito mais tarde. Aliás, o PAIGC chegou a reivindicar essa acção logo a seguir.

    PM – Mas houve mortes?
    JPV – Não, não houve mortes, houve feridos.

    PM – Mas participação tua não houve?
    JPV – Não, não. Só assisti à discussão prévia para ver se se fazia, porque ia ser colocada em risco a vida dos militares.

    FS – Bomba no Quartel-General da Guiné e sabotagem do navio de transporte de tropa, Niassa, em 9 de Abril de 1974, no Porto de Lisboa, quando se procedia ao embarque de um contingente de soldados com destino às colónias, revelam capacidades de acção difíceis de conceber. Pode falar-se de uma escalada das acções das Brigadas contra a guerra?
    JPV – Não, eu não diria escalada, mas um dos nossos objectivos sempre foi combater a guerra colonial. Uma boa parte das acções que fizemos era especificamente contra a guerra colonial. Acho que não corresponde a uma escalada, corresponde à linha que vínhamos seguindo desde o início.

    PM – Era mais uma acção…
    JPV – Era.

    A carga explosiva foi colocada num sítio onde não haveria soldados. Eles estavam todos no deck a olhar para o cais, a dizer adeus às famílias.

    PM Esta como é que foi?… O navio foi mesmo sabotado?
    JPVFoi sabotado e não partiu. Sem provocar vítimas, mas já estavam os soldados todos embarcados. A carga explosiva foi colocada num sítio onde não haveria soldados. Eles estavam todos no deck a olhar para o cais, a dizer adeus às famílias. O barco não chegou a sair, ficou retido dois dias, em reparações.

    FS – A poucos dias do 25 de Abril as Brigadas realizam um proveitoso assalto a banco no Bombarral.
    JPV O do Bombarral foi feito seis dias antes do 25 de Abril. O assalto que tínhamos feito antes não tinha rendido nada e… não tínhamos dinheiro nenhum, apesar de a PIDE dizer que nós éramos financiados por Moscovo. Era justamente o caso contrário, Moscovo não gostava nada de nós. A Argélia dava-nos apoio, mas não financeiro. Dava-nos apenas apoio logístico lá, em Argel.

    PM – A esse nível foi sempre a partir de assaltos.
    JPV – Assaltos, assaltos, que eu saiba, assaltos. Esse foi o maior de todos e correu muito bem. Ficámos com imenso dinheiro, para aquela altura, foi mesmo muito bom.

    FS – E dá-se o 25 de Abril. As BR sabiam do golpe em preparação ou foram apanhadas de surpresa?
    JPV Uma das versões que corre, posta a circular pelo Carlos Antunes, é que ele estava a par do 25 de Abril. Isso é absolutamente falso. Porque se ele soubesse, eu também teria sabido. E mais: a instrução, a ordem, que chegou da direcção foi manter tudo na clandestinidade e ninguém aparecer publicamente. Não participámos no 1º de Maio, «porque não era seguro!!!». Evidentemente, não estávamos a par do golpe militar. Aliás, o Carlos só põe isso a correr nos últimos anos. Uma das coisas que me desgostava nele é que falava sempre como se não houvesse mais ninguém nas Brigadas. Evidentemente ele teve um papel importantíssimo, mas as Brigadas funcionavam porque havia muito mais gente a fazer as coisas. Não eram só aquelas duas pessoas.

    PM – Ele achava que ninguém voltaria a falar sobre o assunto?
    JPV Não sei, não sei.

    PM – Os egos… estas personalidades mais narcisísticas que às vezes vivem num mundo separado… Mas todos seguiram essas ordens de não participar no 1º de Maio?
    JPV – Menos um. Houve um camarada nosso, o Gabriel Correia, que foi lá e disse que se estava marimbando para as instruções. Nós não sabíamos. Nas Brigadas ninguém sabia realmente o que era o 25 de Abril. É uma das coisas que mais me custa… Um milhão de pessoas na rua e eu não.

    FS – Tendo presente a vaga repressiva que se abateu sobre o entorno das Brigadas a partir do verão de 73 podemos especular que o 25 de Abril salvou as Brigadas do mesmo destino que a PIDE já tinha dado à FAP, à LUAR e à ARA?
    JPV Não, isso eu não acho. Não acho porque nós tínhamos várias estruturas a funcionarem mesmo. E, repara, dos operacionais das Brigadas nenhum foi preso, das pessoas que participaram directamente em acções ninguém foi preso.

    PM – Isso é importante, às vezes cai um e desmonta tudo
    JPVMas havia compartimentação. Se eu fosse preso e falasse, acredito que caísse alguma gente.

    PM – Mas serias dos poucos que levaria muitas coisas atrás…
    JPV Eu tinha contactos com quase todas as Brigadas.

    PM – Ou seja, eras a única pessoa para quem havia esse risco?
    JPV E o Carlos Antunes.

    PM – A Isabel do Carmo também?
    JPV A Isabel do Carmo não tanto porque quase não contactava directamente com as Brigadas.

    FS – Que razões te levaram a abandonar o PRP em Agosto de 74?
    JPV Já havia um certo descontentamento dentro das Brigadas, de tal forma que nós, antes do 25 de Abril, já tínhamos feito duas reuniões, duplamente clandestinas, ou seja, sem conhecimento da direcção, para debater a forma como estávamos a ser utilizados.

    E tivemos algumas conversas a seguir com a direcção do PRP, porque não queríamos continuar a ser os homens de mão da cúpula política.

    PM – Mas a seguir ao congresso da fundação do PRP?
    JPV Sim, estive fora e, quando voltei de Paris, em Fevereiro, começámos novamente a falar e pudemos fazer uma reunião um pouco mais alargada das Brigadas, não de toda a gente, evidentemente, mas dos representantes, para discutir o que estava a acontecer dentro do PRP e connosco. E tivemos algumas conversas a seguir com a direcção do PRP, porque não queríamos continuar a ser os homens de mão da cúpula política. A seguir ao 25 de Abril há uma reunião muito tensa entre nós, Brigadas, e a direcção política do PRP. As coisas não ficaram completamente sanadas e depois, em Agosto, quando se realiza o congresso, resolvemos pôr em cima da mesa as nossas dúvidas, aquilo com que não estávamos de acordo. A discussão foi bastante grande e, a certa altura, percebemos que não tínhamos qualquer hipótese de fazer valer as nossas posições, e fomos embora.

    PM – Quantas pessoas saem?
    JPV No congresso não estavam os militantes todos, evidentemente. A reunião teria umas 40 pessoas e nós, os que saímos, tenho ideia de um número, 17, falado na altura. Mas das Brigadas saíram praticamente todos. E infelizmente alguns dos que ficaram acho que ficaram porque era um emprego. Mas isto é uma impressão que eu tenho.

    PM – Mas era um sentimento maioritário?
    JPV Não, porque estavam de acordo com as nossas posições. Tinham participado nas discussões e estavam de acordo e depois, no momento, não saíram…

    PM – As vossas discussões passavam sobretudo por quê?… Deixar de ser «mão de obra»?
    JPV Por um lado… e por outro porque eles queriam continuar a luta armada. Nós achávamos que o objectivo principal era a democracia e a seguir são as pessoas todas que têm de se organizar e de decidir o futuro do país. Não é um grupinho que vai dizer que é por aqui ou por ali e, portanto, estávamos em desacordo nisso. Felizmente saímos porque, como se viu depois, aquilo foi um desastre completo. Eu e a maioria dos que saíram já tínhamos percebido que era preciso ir embora ou mudar a linha política do partido. Mas para isso não tínhamos força, porque a nossa influência era muito menor do que a das «personalidades».

    PM – Que justificação para continuar a luta armada era dada naquela altura?… A revolução estava na rua, a ocupar casas e a ocupar terras…
    JPV Isso é que era importante, exactamente, era aí que era preciso estar.

    FS – Os membros das BR que saem no congresso mantiveram-se juntos… constituíram uma organização?
    JPV – Não, mantivemos aquilo a que chamámos de «grupos autónomos», continuámos a trabalhar juntos. Estava em Lisboa, mas havia gente no Porto, também na Margem Sul. E continuámos a fazer coisas, mas não eram armadas, isso acabou. Tentámos ter alguma influência política, mas depois este país entrou em convulsão, felizmente, e foi lindíssimo.

    PM – De que modo participaste, então, nesse processo revolucionário?
    JPV – Nós tentávamos ter contactos sobretudo com comissões de moradores nas zonas em que vivíamos. Ocupação de casas, criação de creches, mas o nosso papel era apoiar aquilo que as pessoas queriam, tinham de ser elas a organizar-se. Apoiámos uma série de fábricas quando entraram em luta e a gestão passou a ser dos trabalhadores. Muitos clientes deixavam de lhes comprar e nós organizávamos estruturas de escoamento dos produtos.

    FS – Como encaraste a derrota deste movimento social revolucionário a partir do 25 de Novembro de 1975?
    JPV – Foi um choque para todos nós, foi um choque.

    PM – Pensaste em voltar à luta armada?
    JPV – Não. Ou teria havido alguma resistência e organização no 25 de Novembro ou a seguir já não se justificava outra vez. Não é que não apetecesse, mas não se justificava…

    PM – Estavas a estudar engenharia mecânica…
    JPV – Eu não queria ser engenheiro. Não tinha nada a ver com a minha maneira de ser, só depois é que descobri que gostava de ensinar e tornei-me professor. Comecei a dar aulas perfeitamente por acaso e percebi que era o que eu gostava de fazer na vida. Eu não conseguiria ter um trabalho se não gostasse dele. Só aos 30 anos é que comecei a ensinar, aí percebi que era o que eu gostava e foi o que fiz o resto da minha vida.

    FS – Depois deste percurso de vida que reflexões nos deixas sobre os tempos que vivemos e as perspectivas futuras?
    JPV – Está um bocado duro, agora é que nós vamos ter de nos organizar mais e melhor para evitar que isto descambe completamente, não sei… mas a luta armada não se justifica.

    Eu acho que as pessoas se vão conseguir organizar de uma forma minimamente eficaz.

    PM – A nível de uma certa juventude houve aqui umas brechas imensas para entender como é que as pessoas se podem organizar em momentos assim, porque vêem este fascismo. Digo isto porque vivi também muito tempo em Espanha, conhecendo a França e a Grécia. Em Portugal, há um buraco grande entre o que vem dos finais de 74, 75 e tudo o resto a nível mesmo de organização juvenil… de militância, não sei, mas, pronto, vontades existem…
    JPV – Eu acho que as pessoas se vão conseguir organizar de uma forma minimamente eficaz. Tenho esperança, senão estamos perdidos (risos)… Se os novos não pegam nisto…

    FS – Só agora com este documentário se fica a conhecer a importância do teu papel nas Brigadas. Como explicas que tenha passado quase meio século para se conhecer a generalidade dos homens e mulheres que participaram nelas?
    JPV Quando saí das Brigadas não me apetecia estar a contar os «feitos» de antes do 25 de Abril. A seguir ao 25 de Abril toda a gente tinha feito coisas, e várias vezes me vieram contar que tinham feito aquilo onde eu tinha estado e isso irritava-me tanto… E pensava: não consigo ser como esta gente e, pronto, encerrei aquele meu capítulo.

    PM – Mas, tal como tu, a maioria dos outros também se mantiveram silenciosos. Foi por algum medo ainda?
    JPV Não, de modo nenhum. A partir de Maio de 1974 comecei a sentir-me completamente seguro, percebi que aquilo estava encerrado e não corria perigo por ali.
    O que mais me custou foi começar a aparecer a visão de que afinal a ditadura tinha sido uma coisa meio suave… Isso irritou-me e foi aí que comecei a falar. Depois, também me entristeceu o facto de o Carlos Antunes e a Isabel do Carmo falarem como se os outros não existissem, só eles é que existiam.

    PM – Existia, por exemplo, toda a família do Arlindo, os Baptista do Barreiro…
    JPV Os Baptistas saíram, tinham saído todos antes do 25 de Abril já incompatibilizados com o Carlos Antunes. E começou-me a irritar que não se falasse em mais nada. Claro que eu não ia falar, mas depois com o aparecimento de Luís Gobern a querer fazer um filme, aí percebi que era mesmo o momento de começar, felizmente.


    Entrevista de Fernando Silva, Pedro Mota e Pedro Cartaxo, publicada na edição nr. 47 do Jornal MAPA (Out. – Dez. 2025)

    Ler também a notícia sobre o documentário As Brigadas Revolucionárias na luta contra a ditadura, de Luiz Gobern Lopes, Fernando silva e Francisca Serrão, publicada na edição nr. 36 (Dez. 2022 – Fev. 2023)

  • Jornal MAPA 47 nas ruas

    Jornal MAPA 47 nas ruas

    A edição 47 do Jornal MAPA destaca na sua capa (ilustrada por Inês Pucarinho) a resposta popular e auto-organizada perante os incêndios do verão passado, assim como a urgência de uma nova paisagem florestal. Nesse âmbito, damos conta da história política e ambiental dos incêndios em Portugal e do que era outrora o papel do uso do fogo nas nossas serras. Mas outras matérias se destacam na última edição trimestral do MAPA: o anticiganismo patente de Norte a Sul no acesso à habitação, uma questão que faz ponte com a memória da periferia de Lisboa contada nas visitas guiadas de Noz Storia. Depois, duas entrevistas que são incríveis testemunhos de vida: José Paulo Viana recorda a sua participação nas Brigadas Revolucionárias e na luta contra a ditadura; Luís Mendão revela-nos o seu percurso pessoal e como surgiu o Grupo de Ativistas em Tratamento nas lutas por uma saúde comunitária.

    E outro tanto há para ler neste MAPA: da atualidade da revolta na Sérvia à memória de Mário Castelhano ou ao refletir sobre a urgência de se passar da Internet para a rua, passando pelas propostas de um anarquismo social na vizinha Galiza. Para lá de diversas recensões a livros vários, terminamos esta edição celebrando a continuidade do espaço da Disgraça em Lisboa!

    E desta vez não são apenas as habituais 40 páginas. Acompanha-as um novo suplemento em papel das Outras Economias, uma publicação digital sobre economia e alternativas económicas editada pelo Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral – CIDAC.

    Já o vosso apoio continua a ser crucial. Precisamos de mais assinantes! Um gesto solidário e simples que pode ser feito no formulário em jornalmapa.pt.

  • Lisboa quente pela Palestina – um relato sobre a mobilização popular da semana passada

    Lisboa quente pela Palestina – um relato sobre a mobilização popular da semana passada

    [ngg src=”galleries” ids=”24″ display=”basic_thumbnail” thumbnail_crop=”0″](este é um relato individual e anónimo de uma manifestante e não pretende ser uma descrição imparcial dos eventos)

    Quinta-feira, dia 2 de outubro. Milhares de manifestantes estão reunidos frente à embaixada de Israel, em Lisboa. Como noutros protestos, ao microfone anuncia-se aquilo que já sabemos: o genocídio em Gaza. Ocasionalmente, erguem-se gritos coletivos que abafam os discursos que saem das colunas – “greve geral, parar o capital”, ou “agora que estamos juntas, e agora que sim nos veem, abaixo o sionismo que vai cair, que vai cair! E viva a Palestina a resistir, a resistir!”

    Torna-se claro que muitas de nós ali presentes queremos tornar aquele momento mais produtivo, mas não há nada (de muito) organizado. Quando a noite cai, um grupo começa a elevar a energia com tambores, faixas e gritos. Pergunto a uma das pessoas ali se o plano é seguir para fora dali e bloquear uma estrada mais movimentada, ela responde-me que sim e eu sinto-me aliviada pela primeira vez desde que ali cheguei (até porque sabemos que há já meses que a embaixada de Israel está vazia e sem funcionários, e localizada numa rua cuja paralisação não faz grande mossa ao trânsito da cidade).

    A multidão começa a avançar e desce até ao Saldanha, somos facilmente milhares de pessoas num protesto que é, a partir daqui, espontâneo. Quando chegamos ao Marquês de Pombal, parece-me que muitas outras pessoas se juntaram pelo caminho. Não há trajeto definido, mas algumas pessoas vão tentando comunicar umas com as outras, decidir, reagir a novas informações. Descemos a avenida da Liberdade e viramos em direção ao Rato, no que parece ser uma tentativa de chegar ao Parlamento, mas o cimo da rua já está fechado pela polícia. A multidão vira duas vezes à esquerda e desce novamente até à avenida da Liberdade, passando em frente à Cinemateca – parecia mover-se como água.

    A inteligentsia coletiva levou o protesto até ao Museu do Design (MUDE), na baixa de Lisboa, onde decorria o debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Lisboa. No MUDE, a multidão circulou o edifício, bloqueou as três entradas e gritou de forma a perturbar o debate. O barulho ouviu-se bem nos microfones e forçou o jornalista a explicar o que estava a acontecer às pessoas lá em casa. Por essa altura, já seriamos menos de 1000 pessoas. A polícia não carregou sobre a multidão e já o tem feito por muito menos. A multidão segurou-se ali por umas horas, ainda diversas e organizadas, e os autarcas tiveram de esperar mais de uma hora para sair do edifício. Foi muito bonito, foi organização popular.

    Sábado, dia 4. O protesto começa no Martim Moniz. Desta vez estão muitos milhares de pessoas e uma multidão ainda mais diversa, recheada de famílias e crianças. A multidão atravessa o Rossio, caminha ao longo de três ruas da baixa e regressa ao Rossio. À nossa espera estão, novamente, microfones. Depois dos discursos, chega a mensagem – “o pessoal vai entrar na estação de comboios do Rossio”. Um grupo começa a levantar a energia com tambores e gritos – “ocupa, bloqueia, pela Palestina!”. O objetivo fica claro e alto, e avançamos: centenas de pessoas entram na estação. Somos muitas, e bloquear a estação durante umas horas parece possível. Mas assim que começamos a chegar à plataforma entre os comboios, ouve-se um estrondo gigante: uma pessoa jovem foi eletrocutada depois de subir para cima de um comboio. Depois de uns minutos indescritíveis de pânico e desorientação, ficamos a saber que aquela pessoa companheira está viva e a ser assistida pelo INEM. Não sabemos ainda o que pode acontecer, está em estado grave no hospital: o meu coração pesa e ainda está contigo. 🖤

    Na estação, a multidão tensa e preocupada tenta segurar o chão durante um bocado, cercada por polícia de intervenção, mas chega a informação que a nossa companheira ferida está a passar mal com o barulho, e pesa ainda o facto de termos de garantir corredores abertos por onde consiga passar uma maca. Foi demasiada tensão para gerir e acabámos por sair. Foi uma tarde bonita e terrível ao mesmo tempo e só espero que com ela possamos viver, ficar mais atentas, mais calmas, mais bem organizadas. Depois de um pequeno ajuntamento no Rossio, somos avisadas que a polícia anda a identificar pessoas e seguimos para casa. Continuemos a espalhar mensagens importantes, falando umas com as outras, organizando-nos ali mesmo. Não posso deixar de notar a presença de malta muito jovem nestas ações espontâneas. Isso deve deixar-nos orgulhosas e descansadas de que nem toda a juventude está a ser manipulada pelo Chega. Esta é a juventude que não se confundiu quanto aos seus valores e que está a precisar de uma sociedade aliada, que esteja à altura dos seus discursos. Aqui e em todo o lado, parar tudo pela Palestina, e por todos os outros povos que serão dizimados no futuro se o fascismo por aqui continuar.

    PS: Fico feliz por saber que as 4 pessoas portuguesas detidas em Israel já estão em Lisboa. Falta libertar muitas outras. Não esqueçamos que para além das cerca de 70.000 mortes em Gaza (número conservador), entre as quais dezenas de milhar de crianças, jornalistas e pessoal médico, há também milhares de pessoas palestinianas ainda detidas pelo estado israelita, entre elas crianças!, e cerca de meio milhão de sobreviventes a precisar urgentemente de ajuda. O que queremos é a libertação de todas as pessoas presas e oprimidas por Israel, já! Encontramo-nos nas ruas!

  • Simona Kossak, a mãe da floresta

    Simona Kossak, a mãe da floresta

    Uma mulher amamenta sete corças com leite de vacas. O propósito é observá-las sem que sintam medo. A mulher é Simona Kossak, e o procedimento está descrito na Acta Theriologica, 1981[ref]“Simona Kossak (1981). Hand-rearing and care of a group of roe-deer”. Acta Theriologica, 26 (11), 207-218. Disponível em: https://tinyurl.com/55jzvaah[/ref]. As corças estão no bosque de Białowieża, na fronteira da Polónia com a Bielorrússia, o que resta da floresta gigantesca que ocupou as planícies europeias há cinco mil anos.

    Apesar de se tratar de um artigo invulgar, por razões que serão apresentadas a seguir, a vida de Simona teria provavelmente passado desapercebida fora da Polónia não fossem as fotografias do seu companheiro, Lech Wilczek. As fotografias documentam a convivência de ambos com animais selvagens, como javalis, corujas, linces, corvos, entre muitos outros. Estes animais viviam na sua casa, Dziedzinka, uma cabana de madeira no meio do bosque, sem água nem eletricidade, que habitaram por mais de 30 anos. Os animais eram órfãos ou deficientes, entregues por populares quando souberam que Simona tomava conta deles. Tal feito mereceu-lhe a alcunha de bruxa, que ela adotou: «Após viver tanto tempo no Bosque de Białowieża, a um certo momento apercebi-me que cruzei a linha e estou do lado das árvores e dos animais (…). Conheço tão bem a sua linguagem que deveria ser queimada como uma bruxa» (Simona, 2022)[ref]Simona (2022). Realizado por Natalia Koryncka-Gruz. https://dafilms.com/film/15924-simona[/ref]. Ao longo da vida cruzou sistematicamente outras linhas, entre a ciência e o animismo, o ativismo, a arte e a literatura, sempre com o propósito de diminuir a distância entre os humanos e as outras espécies.

    Simona formou-se em biologia e ciências florestais, mas considerava-se zoopsicóloga. O seu objetivo era estudar os mamíferos no ambiente selvagem e para os compreender absorveu a floresta toda. O livro A Saga do Bosque de Białowieża[ref]Simona Kossak (2016). Saga Puszczy Białowieskiej. Marginesy.[/ref] é um tributo a todos os mortos que a constituem ao longo de milénios e ao seu potencial de gerar vida continuamente, que se encontra ameaçado pela incompreensão, por encontros violentos com humanos e por engenheiros florestais que pretendem disciplinar a floresta, transformando-a num espaço onde as criaturas selvagens já não têm lugar. Apesar de muitas pessoas advogarem o respeito por espécies selvagens, Simona estabelece com as criaturas da floresta uma relação muito particular, visceral e íntima, usando como porta de entrada a maternidade.

    Simona estabelece com as criaturas da floresta uma relação muito particular, visceral e íntima, usando como porta de entrada a maternidade.

    Ao longo da história, existem numerosos relatos de mulheres que amamentaram crias de outras espécies, assim como de crias humanas amamentadas por animais[ref]https://tinyurl.com/z9w5jdyw[/ref]. A amamentação pode momentaneamente diluir as barreiras que separam os indivíduos entendidos como autónomos e distintos. Simona Kossak entra na floresta de Białowieża como cientista que estuda mamíferos, e como mamífera: «a fundação de todos os comportamentos sociais e da sociedade está em algo simples, na mãe e na sua criança (…) dois indivíduos têm de virar as costas ao seu egoísmo pelo bem dos interesses do outro (…) quando o indivíduo egoísta vai ao resgate de outro indivíduo ou partilha o seu corpo alimentando o outro com leite (…) é o início de comportamentos altruístas, que começa sempre com a vinda de um bebé a este mundo»[ref]Excerto do filme Infância, em Simona (2022).[/ref]. Enquanto mamífera, a sua história é traumática: foi rejeitada pela mãe, que se recusou a amamentá-la. Não teve filhos (humanos), mas era uma cuidadora nata; a sua história é contada por outras mulheres da sua família (Simona, 2022). Enquanto cientista, amamenta crias de corças para se incorporar no grupo social e seguir o seu comportamento sem lhes causar stress ou medo.

    A observação de mamíferos no seu habitat é extremamente difícil e são frequentemente estudados à distância, a partir de análise das fezes e outros materiais biológicos e marcas deixadas para trás. A telemetria permitiu a monitorização remota de animais e a obtenção de dados sem observação humana direta, método que requer que os animais sejam capturados para lhes colocarem aparelhos que podem ameaçar a sua vida ou causar-lhes desconforto se mal aplicados. Simona desenvolveu outro método: criou um habitat na floresta de forma a satisfazer as necessidades psicofísicas das corças. Montou uma cerca de 21,34 hectares numa parcela de bosque onde as corças tinham alimento e lugares de repouso todo o ano, onde podiam viver sem stress de sobrepopulação, mas impedidas de emigrar. As corças exibem fenómenos de imprinting, estabelecendo vínculos com a pessoa cuidadora como se fosse a mãe nos primeiros dias de vida. Para a vinculação ser bem sucedida, a pessoa tem de participar nas atividades de carácter social, isto é, comportar-se como uma mãe corça. As mães lambem as crias, em particular a região anal, para estimular a defecação e a micção, e consequentemente a sucção do leite. Se na primeira fase da vida estas práticas são unilaterais, mais tarde tomam um carácter recíproco.

    Antes e após alimentar os animais, Simona massajava-lhes o rabo com um toalhete humedecido em água morna. Os habitantes locais observavam o seu comportamento, atónitos. Os roços e lambidelas na cabeça e no pescoço tornaram-se mútuos. A incorporação de Simona no grupo de corças foi completa, e estas avisavam-na de perigos como fariam a qualquer outro membro do grupo.

    Foi desta forma que Simona pode estudar os hábitos alimentares com proximidade, observando as plantas consumidas e rejeitadas, e o seu comportamento livre da pressão antrópica. Este método também tinha as suas limitações, devido à territorialidade e agressividade dos machos que impedia as observações e perturbava o comportamento em certas alturas do ano. Mas estudar mamíferos com proximidade teve também efeitos na observadora. Simona começou, nas suas palavras, a aprender a linguagem dos animais. Adotou uma cria de lince como filha, e quando esta morreu num acidente doméstico trágico, experimentou o luto como qualquer mãe. Porém, a relação empática que Simona estabeleceu com a floresta não se restringia aos mamíferos: ela reconhecia a alma da floresta. Diz-nos na Saga: «a floresta Białowieża está a morrer (…) a ameaça mortal é o orgulho do homem – a floresta gerida (…) devora lugar após lugar a natureza selvagem e livre (…) a sua alma, exilada do tronco apodrecido, chora nos seus últimos refúgios». A linguagem aparentemente poética de Simona contrastava com a sua racionalidade: cortou relações com a sua sobrinha quando esta levou o filho a um xamã na Mongólia, após ter ficado paralisado supostamente por tomar uma vacina. O que seria para Simona a alma da floresta, entendida de forma científica? Parece estar em linha com o entendimento de alma que o antropólogo Eduardo Kohn constrói a partir do seu estudo na floresta amazónica do Equador[ref]Eduardo Kohn (2013). How forests think: Toward an anthropology beyond the human. Univ. of California Press.[/ref]: a alma é o que nos permite relacionar com outros seres enquanto seres. É essencial para ver o mundo de uma forma encantada, repleta de sentido, entendendo os outros seres como pensantes. A alma é incorporada, e a floresta gerida sem alma é o desencantamento do mundo. O único sentido passa a ser ditado pelos florestais: a produção de madeira.

    É essencial para ver o mundo de uma forma encantada, repleta de sentido, entendendo os outros seres como pensantes.

    A floresta gerida, tal como ditada pela engenharia florestal, assenta na autoridade e na disciplina. Em Białowieża, essa autoridade assumiu configurações particulares após a Segunda Guerra Mundial. A floresta ficou nas mãos da burocracia do estado, e a vontade dos florestais disciplinarem a natureza ganhou um novo fôlego. Mas a partir da vitória do Solidariedade nas revoluções de 1989, a visão produtivista foi enfrentada ferozmente pelos movimentos ambientais[ref]Eunice Blavascunas (2023). How the communist past troubled relationships between foresters and biologists. Disponível em: https://tinyurl.com/3yducfu6[/ref], e em Białowieża os florestais foram confrontados por biólogos e por ativistas que queriam romper com a autoridade e a disciplina, deixando a floresta entregue a si mesma. Este desejo de libertação manifestou-se na ordem social e na recusa de papéis fixos para as mulheres, na reabertura das feridas entre pessoas de diferentes etnicidades, e na vontade de outra globalização, do combate à corrupção e de democracia. Białowieża viveu bloqueios de máquinas e buldózeres, ativistas acorrentados a árvores centenárias e batalhas sócio-legais contra a exploração de madeira ilegal. Simona foi consultora da Pracownia[ref]Tracie Wilson (2006). Science, Cynicism, and the Greater Good: Identity and Environmental Discourse in Poland. Anthropology of East Europe Review, 24 (1), 66-75.[/ref], uma organização ambiental que advoga a filosofia da ecologia profunda e vê os humanos como parte da natureza ao invés de separados dela, central na proteção de lobos e da floresta Białowieża. Empregou todas as suas forças para este fim e ficou conhecida pela sua «visão inflexível» relativamente à natureza[ref]https://tinyurl.com/te6nbj74[/ref].

    Simona comunicou constantemente a perspetiva dos animais com quem contactou diariamente: «eu atuo em nome deles; formei-me em biologia como especialista em psicologia animal, mas só os anos passados na floresta me ensinaram a sua linguagem» (Simona, 2022). Procurou de todas as formas conectar empaticamente os seres humanos com as criaturas da floresta, para adotarem o seu ponto de vista, recordando as inúmeras dádivas do bosque à humanidade, desmistificando o comportamento dos predadores e encontrando alternativas para uma coexistência respeitosa e pacífica. Simona estabeleceu ligações emocionais com animais que as outras pessoas viam como assustadores e agressivos, que eram mortos ao menor incidente com humanos sem intérpretes de comportamento. Escreveu livros para adultos e crianças onde as plantas e animais são os protagonistas, e fez programas de rádio ao longo da vida. Fumou sempre. Morreu em 2007, e está enterrada em Porytem, onde os seus avós se casaram.

    ——–

    Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 46 [Jul. – Set. 2025]

  • Danijoy e Daniel, quatro anos de impunidade.

    Danijoy e Daniel, quatro anos de impunidade.

    Ruth Wilson Gilmore há muito que nos ensinou que o racismo é a produção e a exploração, pelo Estado e/ou extra-legalmente, da vulnerabilidade diferenciada de um grupo à morte prematura. Danijoy Pontes, jovem, negro de 23 anos, faleceu há quatro anos, dia 15 de Setembro, sob tutela estatal, no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Na mesma noite, perdemos também Daniel Rodrigues, 37 anos, alguns minutos mais tarde. E Alguns meses depois, Miguel Cesteiro respirou pela última vez em Alcoentre.
    Se é verdade que nada se sabe sobre as circunstâncias e as causas das suas mortes – e, não fosse a coragem das suas famílias talvez nem das suas mortes se soubesse –, há demasiado tempo se sabe que nada se sabe, concretamente, sobre o que se passa no EPL, em Tires, no Linhó, em Alcoentre ou em Vale de Judeus. Sabe-se, no entanto, que muitas das pessoas que vivem entre-grades são pobres, muitas negras, muitas ciganas; sabe-se que ali se desumaniza, se maltrata psicológica e fisicamente e que ali se vão criando as condições para que alguém ache que a melhor solução para a sua vida é acabar com ela. Sabe-se que ali se pune, se perde. Sabe-se que ali brotam dores, insuportáveis que se alojam para sempre no peito. E, se há peitos que reiteradamente não aguentam, se é lugar onde ninguém quer estar, então é certo que não deveriam existir. 
    Respondam a estas mães, que não estão sós.

    Ana Rita Alves