Autor: Jorge Leandro Rosa

  • A cegueira da guerra

    A cegueira da guerra

    A destruição dos povos ao virar da esquina

    1.
    Deveríamos estar mais atentos às manipulações da linguagem. Não é preciso ter lido o 1984 [ref] George Orwell, 1984, Antígona, Lisboa, 2007.[/ref] para saber que a instituição de um vocabulário autorizado visa o controlo das populações no mais simples dos seus reflexos. Nada de grandes questões de consciência, moral ou política. Basta uma habituação aos comportamentos e reacções mais básicos. A primeira expressão nazi que Victor Klemperer registou na Alemanha, pouco depois da ascensão de Hitler ao poder, foi «expedição punitiva». Ouviu-a pela primeira vez da boca de um amigo, notando-lhe o tom jocoso, mas orgulhoso: este contou-lhe que um grupo de comunistas num bairro próximo «tinha levado uma carga de porrada, nada de sangrento, mas muito eficaz, uma expedição punitiva, que diabo!»[ref] Victor Klemperer, LTI, La langue du IIIe Reich, Albin Michel, Paris, 1998, p. 73.[/ref] Esta experiência pessoal, Klemperer viu-a ampliada ao longo dos meses seguintes. As expedições punitivas, inicialmente executadas de forma amadora, passaram a designar a acção policial e, logo depois, entraram nas ameaças de repressão e exterminação. De seguida, veio o prolífico adjectivo «histórico»: tudo no Reich deveria ser histórico, cada discurso, cada inauguração e cada feriado eram absolutamente definidores da grande missão histórica do povo alemão. Passo a passo, criou-se assim a LTI, a «Língua do Terceiro Império», no acrónimo que cunhou. Não há derramamento de sangue sem derramamento da língua sobre a população. Consagração, ou «purificação», como proferiu Putin há algumas semanas. Nada disto significa que a Alemanha dos anos 30 e a Rússia de hoje sejam a mesma coisa ou atravessem as mesmas circunstâncias. Mas o terreno está a ser preparado seguindo passos muito semelhantes aos velhos passos do fascismo, tudo transposto para as circunstâncias específicas da dissolução do modelo liberal.

    De facto, a guerra lançada pelo Estado russo contra os ucranianos chegou com o seu pequeno vocabulário fascista, cuidadosamente seleccionado e historicamente paradoxal: «operação especial», «desnazificação» e «desmilitarização». Um imperativo vital para estas operações linguísticas é o de nunca se deixarem inibir por pruridos semânticos nem terem medo do ridículo ou da incongruência histórica. Não é apenas o eufemismo que está em causa, já que se visa uma justa medida de entusiasmo e unanimismo social; é uma aprendizagem doutrinal, que revela os factos ao mesmo tempo que garante uma reserva de sacrifícios por vir. Onde está «operação especial» leia-se a guerra, em lugar de «desnazificação» deve ler-se império carbónico e nuclear euroasiático e por «desmilitarização» entenda-se a militarização centralizada do espaço russo.

    Vladimir Putin inaugurou o seu poder com a segunda guerra contra a Chechénia, que declarara a sua independência em 1991. Nessas duas guerras, e em particular na segunda, pereceu um quarto da população chechena. A segunda guerra passa a ser designada como «operação antiterrorista» e é marcada «por uma violência e horror indescritíveis», como relata Mylène Sauloy, documentarista francesa que lhe dedicou vários filmes. Em 2003, os russos colocam um antigo jihadista no poder, que tem por incumbência livrar-se daqueles chechenos que entendiam a sua resistência à Rússia como uma luta de descolonização. Por um lado, a «operação antiterrorista» adapta-se perfeitamente às operações dos ocidentais depois do 11 de Setembro. Por outro, as imagens das torturas praticadas por soldados norte-americanos na prisão de Abou Ghraib ajudarão a apagar das memórias os corpos torturados dos prisioneiros chechenos. Quando chega o «genial» investimento russo em Bashar el-Assad, os EUA já estão enterrados nas suas contradições, mentiras e destruição lançadas sobre o Médio Oriente. A Síria torna-se o terreno ideal da «pacificação» russa porque tem no Partido Baath sírio o parceiro ideal: o mesmo uso vertical da violência, a mesma estruturação do poder a partir dos serviços secretos militares.

    Onde está «operação especial» leia-se a guerra, em lugar de «desnazificação» deve ler-se império carbónico e nuclear euroasiático e por «desmilitarização» entenda-se a militarização centralizada do espaço russo

    Reentramos assim no mundo estéril do double-bind da Guerra Fria, muito embora esta guerra esteja em vias de se tornar quente sem mais delongas. Regressam as intermináveis discussões sobre quem está sentado sobre a maior pilha de crimes; as arengas sobre a necessidade de tomar partido nos jogos geopolíticos; os bons e os maus imperialismos, etc. Se percorrermos o chamado espectro político, a extrema-direita identitária exulta porque sabe que o ovo da serpente tem estado bem aquecido no ninho russo desde a dissolução da União Soviética. O seu caso, embora com diversas facetas, parece ser aquele mais articulado com os novos ciclos ocidentais, embora essa análise comporte os seus pontos cegos. Por outro lado, os globalistas ocidentais mostram-se desorientados, mesmo quando agem com relativa coerência. São muitos os factores que, tendo favorecido a sua ascensão ao longo da segunda metade do século XX, parecem agora tirar-lhes o tapete, propiciando uma aparente perda constante de posições. É certo que o seu reino já era o das coisas que se dissolvem no ar, o da imponderabilidade e das virtualizações sociais e económicas. Mas têm sofrido ataques nesse mesmo plano, como na esfera da comunicação, e por via das próprias redes que eles instalaram, o que lhes tem provocado danos enormes, notoriamente em países como as potências anglo-saxónicas. Contudo, o seu aparato bélico tem vindo a manifestar uma superioridade tecnológica no terreno ucraniano, o que logo despertou o entusiasmo dos falcões do outro lado do Atlântico, que se lançam, por estes dias, num discurso perigoso de vitória militar e já não apenas de resistência. Vitória dos ucranianos? Suspeitamos que outros se estão a perfilar como putativos vencedores. Às custas da Europa, de Lisboa aos Urais? Tal torna-se, a cada dia de guerra, um cenário cada vez mais provável. Por fim, o doente mais desorientado parece ser a esquerda. O património de ideias e estratégias da esquerda está ou em liquidação ou em acelerado processo de transformação em peça ubuesca.

    A «desnazificação» tem sido um dos sucessos da «nova língua imperial» russa. É certo que é óbvia a sua inadequação à realidade da Ucrânia, com uma população muito diversificada e quase equivalente à da Península Ibérica. Todos os países do Leste europeu têm os seus grupos neonazis, e a Rússia não é o menos provido de tais gentes. Trata-se, ao mesmo tempo, de um fenómeno político e cultural, longamente incubado, e que é herança da guerra civil que acompanhou a consolidação da União Soviética, mas também das incursões do nazismo e do estalinismo, e de forma nenhuma «induzido» em Maïdan [ref] A divisão entre pró-europeus e pró-russos atravessa toda a história da Ucrânia independente. No fim de 2013, o presidente Ianukovitch, pressionado por Moscovo, rejeita os acordos com a Europa. Surgem então as manifestações massivas na Praça da Independência (dita Maïdan), em Kiev, onde se encontram todas as correntes da oposição: liberais, anarquistas, neonazis, etc. A ferocidade da repressão (mais de cem mortos e dois mil feridos) transforma o movimento em revolução, culminando na fuga de Ianukovitch, em Fevereiro de 2014. Este reapareceu providencialmente na Bielorrússia durante os primeiros dias da incursão sobre Kiev.[/ref], como pretende Moscovo. As estratégias de demonização do inimigo, tão típicas da guerra, estão em pleno florescimento e há hoje franjas da esquerda, não contando com os velhos estalinistas nostálgicos, que reproduzem com afã a propaganda russa. De onde vem esta ficção de que a Rússia actual encarnaria o campo da resistência contra o imperialismo norte-americano? Quem pode ainda atribuir um papel libertador ao exército russo, que tanto usa nos seus tanques a bandeira do exército imperial russo como a do exército vermelho? O rol das vítimas da «solidariedade» do Kremlin é longo. Leila al-Shami, uma activista anti-autoritária anglo-síria, conta o que sentiu quando teve notícia da invasão da Ucrânia: «Mais do que qualquer outro povo, os sírios compreendem o traumatismo que os ucranianos estão a viver. Há nisso uma forma de raiva, porque todos estes anos de política de “normalização” levada a cabo pelo regime russo – na Síria, na Geórgia, na Chechénia, na República Centro-Africana – encorajaram-no a cometer tais actos com um sentimento de impunidade.» [ref]«De la Syrie à l’Ukraine: l’ombre du campisme», in CQFD, n.º 208, Abril de 2022, p. VIII.[/ref] Num outro texto, a que deu o significativo título de «Anti-imperialismo dos imbecis», Leila escrevia em 2018: «Que uma certa esquerda possa considerar que o Estado russo é “anti-imperialista” dá testemunho de um afastamento da realidade e de uma atitude política reaccionária, segundo a qual os Estados em competição pelo poder seriam a principal sede de conflito, ignorando em simultâneo as lutas dos povos contra os regimes repressivos.» [ref] Ver leilashami.wordpress.com.[/ref] As posições da esquerda autoritária e da extrema-direita têm vindo a sobrepor-se naquilo que parece já formar uma união sagrada em torno de Estados que supostamente desafiam o domínio geomilitar dos EUA. As suas «zonas de influência» não passam, contudo, de territórios onde o poder dos Estados decide sobre a vida ou a morte de todos os seus habitantes.

    2.

    O levantamento das circunstâncias de uma guerra concreta não deveria fazer de nós novos devotos das religiões geoestratégicas, que se apresentam como uma justificação geográfica da exposição dos povos aos poderes axiais. Vivemos um tempo singular em que, ao mesmo tempo que as redes globais continuam a ter como prioridade a passagem livre das mercadorias, se estão a constituir polos de dominação regional que não hesitam em aplicar um poder de vida e de morte sobre tudo o que se move nesse espaço. Muitos globalistas, que tinham entretanto adoptado uma doutrina militar centrada na guerra à distância e no controlo remoto das vias de passagem, voltam a adaptar-se às doutrinas clássicas de dominação do terreno e destruição dos recursos aí existentes. A extrema-direita identitária é notoriamente adepta do paradigma geoestratégico, uma vez que só ele coloca no seu centro a limpeza étnica e a formação de populações homogéneas.

    Na verdade, este hibridismo doutrinal significa que a guerra está em vias de voltar a penetrar no quotidiano das populações a partir de dois vectores: de um lado, a continuação da exposição à guerra pelos recursos naturais e pelo domínio dos circuitos das matérias-primas e mercadorias; do outro, a crescente exposição a guerras pelo controlo regional que, longe de serem fins absolutos, se farão agora acompanhar de guerras pela deslocação dos próprios circuitos globais. Daqui podemos inferir que a guerra readquire crescentemente essa forma de presença quase constante que caracterizou os séculos XIX e XX. Mas dois elementos novos devem aqui ser referidos: por um lado, as doutrinas militares estão em vias de admitir o uso táctico de certas armas nucleares, rompendo com a doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD); por outro, a guerra cibernética e high-tech entra nos campos de batalha. A Ucrânia é já o terreno experimental do segundo desses desenvolvimentos, veremos se o é do primeiro.

    A introdução de armas ditas «impossíveis» só vem reforçar o inquietante domínio de experimentação em que se tornou esta guerra ucraniana, primeiro confronto quase-directo entre dois Estados nucleares, a Rússia e os EUA. As inibições que imperaram durante a Guerra Fria parecem estar a desvanecer-se a cada dia que passa. A Europa, por seu turno, a tal Europa que começa em Lisboa, parece estar em vias de perder a capacidade de perceber que esta guerra que decorre no seu, no fim de contas, pequeno continente é uma guerra extremamente volátil que já envolve dezenas de actores e na qual ela se encontra cada vez mais implicada. O que fez a chamada «Europa comunitária» diante destes cenários? Decidiu transformar-se, da noite para o dia, num pequeno braço armado da democracia e começar a financiar a aquisição de armamento. Se acreditávamos que o grande braço armado, a NATO, já bastava para os nossos jogos de guerra, estávamos redondamente enganados. É um sinal da hesitação estratégica dos europeus e da corrosão interna do seu modelo. Durante décadas, a Europa alimentou um vizinho cujo regime se apoia quase inteiramente na economia carbónica, apostando nos próprios efeitos da mudança climática (degelo do Ártico, desaparecimento do permafrost siberiano) para poder expandir o seu poder. O que seria afinal um puro cepticismo climático noutras partes do mundo, na Rússia apresenta-se como o bom e velho progresso da sua força industrial predatória.

    Este mesmo «regresso da guerra» justifica o ainda mais decidido regresso da «resistência à guerra», em sentido amplo, que estava obviamente bem presente na Europa quando a guerra formava esse horizonte quotidiano. Ao mesmo tempo que a quase totalidade dos Estados nos quer agora convencer da inevitabilidade das escaladas em todos os domínios militares, será necessário voltar a alargar a oposição à guerra, propondo, não apenas a resolução pacífica de um conflito específico, mas a saída colectiva das lógicas dominadas por prioridades bélico-industriais. A reinvenção das abordagens não-violentas aos conflitos é também imperativa por causa do intrincado entrelaçamento dos nossos dilemas existenciais: o modelo industrial carbónico está a entrar, por todo o lado, em crise estrutural; a mudança climática transforma-se também, por estes dias, num processo exponencial, tal como sucede com a perda de biodiversidade e a destruição dos ecossistemas. A guerra é, portanto, o luxo a que não nos podemos entregar.

    Ao mesmo tempo que a quase totalidade dos Estados nos quer agora convencer da inevitabilidade das escaladas em todos os domínios militares, será necessário voltar a alargar a oposição à guerra, propondo, não apenas a resolução pacífica de um conflito específico, mas a saída colectiva das lógicas dominadas por prioridades militar-industriais

    Interessa também falar daqueles que são sempre apresentados na comunicação dos beligerantes e dos seus apoiantes como vítimas indefesas. Tudo se passa como se o povo ucraniano estivesse ali quase por acaso e fosse arrebanhado pelos beligerantes, acabando, algumas vezes, por ser massacrado, outras apanhado no fogo cruzado. Esta visão de uma cena quase abstracta onde vilões e heróis se defrontam, e que acompanha a história bélica da Humanidade, é insuportável. Não se trata aqui de negar a agressão que a Ucrânia sofre. Essa agressão tem um agente indiscutível e directo, que corresponde à múltipla ofensiva russa. Trata-se de perceber que há uma população que não é tida nem achada neste conflito, mas que hoje é utilizada por ambos os lados. Essa população é composta, num proporção muito superior ao que se passa na Europa Ocidental, por camponeses, pessoas muito próximas da terra escura ucraniana, terras já muito martirizadas pelo industrialismo soviético, que ali despejou os produtos químicos e radioactivos mais diversos.

    A Ucrânia é um território que tem servido de laboratório a russos e ocidentais: laboratório geopolítico, claro, mas também energético, agrícola, industrial. É uma terra que tem sido palco, no último século, do mais variado tipo de experiências: a experimentação sociológica da fome, a experimentação da guerra em terreno aberto, evidentemente, a experimentação industrial e a experimentação nuclear, uma vez que a posição periférica na União Soviética o favorecia. Procede-se agora à grande experimentação da reunificação da Grande Rússia. Esta constatação da natureza laboratorial deste conflito deveria despertar a nossa atenção para as múltiplas perspectivas de alargamento que ela contém.

    A situação torna-se, de dia para dia, mais parecida com aquela que se vivia em 1914. Mergulhados no estupor e na desorientação – um historiador chamou-lhe «sonambulismo» –, estamos a dirigir-nos para uma guerra generalizada, que pode surgir muito rapidamente e sem mais aviso. É urgente um clamor geral contra este estado de coisas. Tal como em 1914, vão-se fechando as janelas de oportunidade para um outro rumo. Entretanto, o fetichismo bélico congrega os seus devotos em todos os quadrantes e as vozes unem-se numa só injunção: «Armas, armas e armas!»

     


    Ilustração [em destaque] de T. Treprowski | Revista Acracia


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #34, Maio|Julho 2022.

  • Mercadorias de Marte, precipícios da Terra

    Mercadorias de Marte, precipícios da Terra

    A mudança climática vista daqui 

    Aqui é a posição partilhada – exposta a agressões velhas e novas – por todos nós neste ano de alto risco de 2022. Mesmo tomando em conta as variações nas coordenadas que cada um ocupa, o mais certo é todos estarmos expostos a altas doses de desinformação veiculada pelos dispositivos sociais, publicitários, tecnológicos e económicos que visam a nossa «anuência» à gestão dos acontecimentos, ao mesmo tempo que pretendem turvar a percepção do estádio a que a situação já chegou. A tudo isso, que até aqui possuía mais ou menos as cores da pax americana, podemos somar dois vectores de agressão relativamente novos: em primeiro lugar, a emergência de novos pólos de projecção de poder militar e industrial que se apresentam como forças «alternativas» na cena internacional, mas que se limitam a oferecer formas corruptas e pós-soviéticas do Estado autocrático e militarista, como na Rússia, ou o modelo do hiper-industrialismo neoconfuciano, como na China; em segundo, a entrada em cena – e que cena! – de novos actores cibernéticos e tecnológicos prestes a serem lançados numa sociedade «demasiado humana» que está a ser preparada para a «inevitabilidade» daqueles. Este cenário adquire toda a sua amplitude quando tomamos em conta a avançada destruição do meio ambiente e da biosfera, de que a mudança climática é hoje o grande acelerador, mas não o único actor. É a essa amplitude que dedicamos esta reflexão.

    «Aceleração» é uma palavra-chave. Aceleração de tudo, entendida como incremento exponencial da velocidade das transformações antropogénicas do sistema-Terra, que se ramificam e se implantam em todos os sistemas ambientais à nossa volta, adquirindo processos autónomos e interligados cada vez mais significativos. Mas essa implantação não é apenas a que se dá nos sistemas físicos naturais. Toda a vida política, tecnocientífica, económica e cultural penetra e mistura-se com esta aceleração sistémica e paradoxal. Também todos os indicadores de extracção de matérias naturais, do reino mineral ao reino animal, crescem exponencialmente e produzem híbridos cuja existência se dá muito para além dos limiares da sustentabilidade. Tudo o que hoje é certificado como «sustentável» é, na verdade, manifestação de uma produção imaginária já exterior aos limites planetários, como se as nossas fábricas já estivessem em Marte e pudessem alimentar a circulação de mercadorias aqui na Terra. Todos os indicadores industriais, congregando as culturas intensivas dos campos e do mar, a rentabilização das bioengenharias, a «betonização» dos territórios, a «penetração» do mundo pelo incremento das velocidades, a virtualização promovida pela expansão das redes telemáticas, crescem de forma quase síncrona a partir de um pressuposto exoplanetário. Ao mesmo tempo, acelera-se a integração das mediações tecnológicas, operem elas na comunicação, na medicina, na educação e na cultura, nas práticas sociais, de forma a que qualquer existência fora desses dispositivos seja considerada como um risco, uma prática criminosa ou, literalmente, impossível. Apesar de todo esse aparato, neste e nos próximos anos, é já visível o modo como, de forma cada vez mais evidente, toda e qualquer fuga em frente pode sempre ser ultrapassada pelo carácter abrupto das transformações climáticas.

    Num mundo em aceleração, multiplicam-se aquelas situações a que os media chamam «crises». Nesta novilíngua (Orwell) da era neoclimática, a crise é sempre entendida como uma disfunção temporária que ocorra em algum processo. Em última análise, a crise-padrão é aquela do ciclo económico e financeiro, onde a crise é reorientada como uma «destruição criadora» que acaba por relançar com pujança novas estruturas socioeconómicas. Foi esse o modelo seguido na Segunda Guerra Mundial: a destruição da velha Europa permitiu lançar as bases do capitalismo global, num período em que a retaguarda industrial se encontrava abrigada no continente americano ou no oriente russo. Setenta anos depois, é a destruição ecológica que é vista como a oportunidade para um novo ciclo, ciclo de destruição e criação. Enquanto a produtividade do sistema não enfrentava limites físicos aparentes e se mantinha alta, a guerra constante era remetida para zonas geográficas nas margens dos centros industriais. Foi o que alimentou a ilusão da secundarização da violência militar, confinada a certas áreas ricas em matérias-primas e fontes energéticas primárias. Acontece, contudo, que as lógicas de destruição criadora nunca põem de parte qualquer recurso, voltando a tirá-lo dos seus arsenais estratégicos mal se apresenta uma oportunidade para o seu uso. Essa oportunidade foi agora rebaptizada sob a designação inócua de «alterações climáticas» (preferimos falar de «mudança climática»), mas que devem ser vistas, para além do seu aspecto climático, como um agregado de fenómenos. É assim que vastos territórios que haviam sido desindustrializados voltam a permitir-se pensamentos de guerra.

    Greve_Climática_Estudantil

    A mudança climática é tudo menos um mero acidente natural. Ela decorre inteiramente da lógica de dominação do planeta, que tem uma história multi-secular. Como o planeta é, no essencial, um sistema dinâmico cujas modificações se dão, salvo catástrofe, num tempo longo, processos aos quais todos os seres vivos, incluindo os humanos, se foram adaptando, torna-se evidente que a introdução de modificações antropogénicas transportadas pelo factor decisivo da aceleração retira à generalidade dos seres vivos qualquer hipótese de adaptação. Por essa razão, sempre que deparamos com algum discurso sobre a necessidade de adaptação à mudança climática, podemos estar certos de que o conceito é aí reorientado para o domínio da adaptação tecnológica e biotecnológica. O que está em questão é a transformação genética e a deslocação, em virtude das dinâmicas climáticas, das espécies, uma engenharia do vivo a céu aberto, que privilegia os vertebrados humanos e algumas espécies animais e vegetais ditas «úteis» ou esteticamente eleitas. É fundamental compreender que quase tudo o que se passa na «resposta» das sociedades dominantes à mudança climática decorre do conhecimento de que só a tecnologia pode, potencialmente, ser um agente tão veloz quanto as transformações ambientais e climáticas que se avizinham. Esse é, no essencial, um sistema de crença baseado nos processos instalados pela sociedade industrial e na sua potenciação. Mas é também um conto do poder, uma vez que o sistema-Terra e o sistema tecnocientífico entram aqui numa competição inédita.

    Este conhecimento da inviabilidade de uma adaptação «natural» à mudança climática, que se tornará mais e mais evidente já nesta década, leva-nos a interrogar o que se está a passar no espaço público das nossas sociedades ou, mais particularmente, nas grandes reuniões político-científicas, como as Conferências das Partes (COPs) sobre as Alterações Climáticas, instituídas pelas Nações Unidas. Estes rituais de salvação do mundo tiveram o seu ponto alto na COP de Paris, em 2015. A partir daí, passou a existir um acordo (não-vinculativo) que enunciava objectivos quantificados, quer em graus celsius, quer na quantificação de emissões. É evidente que já aí se tornava notória a vontade de dotar o planeta de um termóstato. Qualquer observador objectivo pode verificar que esses acordos climáticos transportam, em si mesmos, uma contradição fatal: quem negoceia e subscreve esses documentos são os mesmos Estados que se esforçam por expandir e acelerar as causas directas e indirectas da mudança climática. Uma análise superficial bastará para que se verifique que os esforços de descarbonização são ainda, e assim permanecerão, residuais, face aos esforços de carbonização que decorrem numa espécie de mundo paralelo, mas igualmente real.

     

    A questão da energia é, a este propósito, sintomática. Inúmeros agentes políticos e empresariais promovem as energias renováveis recorrendo-se de um discurso que só pode ser caracterizado como publicitário. Mas fazem-no com base no falso pressuposto de que a energia a que se recorre é sempre neutra e não determina, para além desta ou daquela forma de poluição, a sociedade e o mundo em que vivemos. Apresentadas como substitutas das energias carbónicas, é fácil verificar que as energias renováveis são e permanecerão recursos que estão limitados, pela sua natureza, a um papel de complemento das três grandes fontes energéticas que impulsionaram a sociedade do crescimento: o carvão, o petróleo e o gás. Pura e simplesmente, são estas as fontes energéticas que moldaram, e ainda definem, os nossos regimes económicos e sociopolíticos desde o dealbar da Revolução Industrial, cujo necessário enterro ninguém parece ter a ousadia de enunciar. Um dos problemas que mais prejudica a nossa reflexão sobre estas questões é a ignorância, que atravessa o espectro político, sobre a natureza da energia no mundo real. Ora, o que a energia vale é sempre expresso pela sua tradução em trabalho que as máquinas podem realizar versus o trabalho realizado por humanos e animais. A expansão das fileiras de escravos mecânicos e electrónicos condiciona hoje quase todas as escolhas sociais. Tudo o resto passou a ser decorativo. Se ainda queremos salvar o nosso habitat, é suicida continuarmos sentados no topo da pirâmide energética do industrialismo (ver esquema): torna-se evidente que uma sociedade fundada em energias renováveis de proximidade é uma sociedade onde o trabalho humano e animal necessita de readquirir o seu papel social, coexistindo com máquinas muito menos potentes e complexas que já não sejam os produtos de centros fabris mais ligados aos circuitos globais do que às necessidades locais.

    O ilusionismo em torno da energia é, hoje, uma das práticas político-tecnológicas de que os diversos regimes não podem abrir mão; mas ela adquire o seu grau mais extremo na Europa comunitária, onde a fantasia da sociedade rica 100% descarbonizada vai de vento em popa. A agravar esse estado de coisas, muitos daqueles que protestam contra a inacção dos Estados padecem da mesma cegueira energética quando se limitam a denunciar os subsídios canalizados para as empresas de prospecção e extracção de petróleo e gás. Esses subsídios sustentam um modelo que não vemos ser objecto de idêntica contestação pelos mesmos. Daí que o pior erro dos movimentos pelo clima seja a sua exposição aos green new deals, alianças de conveniência entre o sindicalismo industrialista e a ideologia do capitalismo smart, que corroem uma causa decisiva. Por outro lado, movimentos importantes como o Extinction Rebellion ou a Greve Climática parecem ter atingido o tecto da sua capacidade de influência sobre as opções das sociedades onde estão activos, em grande parte porque não se mostram dispostos a aprofundar as suas práticas de desobediência civil, dando o passo que vai da petição dirigida aos poderes à disrupção dos mesmos.

    Embora a mudança climática mostre até à evidência que não há regiões descarbonizadas versus regiões «poluentes», as metas dos 1,5ºC ou 2ºC (eloquente indecisão) inscritas no acordo de Paris são, no século XXI, o equivalente da ilusão da «Guerra que acabará com todas as guerras» no século XX. Ou seja, tudo indica que se repetirá o padrão da guerra depois da última das guerras: depois da competição em sede onusiana visando demonstrar quem cumpre as «metas» (que, no fim de contas, estão em vias de ser ultrapassadas) e é capaz de salvar, ao mesmo tempo, a sociedade industrial, explodirão os conflitos pelos recursos, os nacionalismos obcecados com o seu estatuto de potências regionais, a guerra aos migrantes, a imposição de aquisições regionais recorrendo a armas nucleares tácticas, etc. Perante tudo isso, necessitaríamos de reavivar imediatamente uma consciência antimilitarista, absolutamente necessária à consciência ambiental e climática.

    Se ainda queremos salvar o nosso habitat, é suicida continuarmos sentados no topo da pirâmide energética do industrialismo

    Entretanto, já não basta dizer que a mudança climática é real, uma afirmação que nos colocou em confronto com forças que tudo fizeram para poderem continuar a explorar, nas últimas décadas, o actual sistema de dominação do planeta e dos seus seres vivos. Dada a dinâmica própria dos acontecimentos, essa concepção de um processo real que podemos isolar de maneira científica, ou que podemos transformar em mais um tópico noticioso, fez-se fonte de uma estranha anomia a que chamaremos a normalização do visível climático. A percepção da mudança climática torna-se, de dia para dia, o transe de um terror espoletado por certas imagens canónicas desta. Espectacularizada como furacão, cheia, onda de calor, incêndio, a agregação e potenciação dos fenómenos decisivos nos quais convergem todas as circunstâncias climáticas pode assim ser activamente dissimulada. Depois do negacionismo, entramos na fase em que se dá a ver o espectáculo das alterações climáticas a fim de melhor as instituir como matéria destinada aos poderes demiúrgicos dos Estados e da tecnociência. Desse modo, escapam ao observador todas as interligações entre sociedade e atmosfera, quotidiano e vida não-humana, tecnologia e sobrevivência. Trata-se de operar pela dissimulação do indissimulável, assim transformando toda a matéria do mundo num líquido fluído e incaracterizável.

    A produção académica e mediática de material sobre a mudança climática, os relatórios de milhares de páginas do IPCC (Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas), muitas vezes de elevado nível científico, não são o equivalente, per se, da partilha da verdade no que diz respeito à viabilidade das nossas sociedades e mesmo à nossa sobrevivência. O que se passa no sistema comunicacional – e nele incluímos tanto os self media como os media tradicionais – tem provado ser uma constelação de representações que, mesmo quando aponta factos, se integra quase sempre num sistema mais vasto de produção de ilusões. Por que razão as dinâmicas fundamentais da mudança climática – como o aquecimento já potenciado no clima global, os efeitos reais dos colapsos das grandes correntes marítimas e atmosféricas, a iminência de um Ártico sem gelo no Verão, os impactos desastrosos nas principais culturas agrícolas, etc. – não são objecto de imediata e urgente discussão pública, mas aparecem antes como representações melancólicas de alguma inevitabilidade cósmica? Por que motivo o sistema comunicacional vai acenando com a iminência de tecnologias milagrosas de descarbonização, de espelhamento da radiação solar ou novas fontes energéticas infinitas e, em todos os sentidos, gratuitas? Entretanto, o único beneficiário parece ser o lobby nuclear, agora renascido das cinzas. A COP de Glasgow foi, em 2021, mais uma «última oportunidade» que se revelará eminentemente real. Mas antes disso, ela foi a confirmação do colapso do Acordo de Paris, armadilhado pelo «mercado do carbono» e pelas «oportunidades de crescimento» que a pacificação das relações entre economia e política prenunciavam.

    A nossa posição comum não é boa e não parece vir a melhorar a muito breve prazo. Nessa altura, as nossas cidades começarão a ser colocadas diante da escolha entre recorrerem a todas as formas possíveis de produção de alimentos e ao êxodo urbano ou enfrentarem a disrupção (e a violência) que se aproxima quando as cadeias de produção e distribuição de alimentos passarem por colapsos cada vez mais frequentes. Nada disso seria inevitável se não continuássemos a acreditar que as mercadorias nos vão chegar de Marte quando vier a hora da grande deslocalização climática. Quando nos dizemos que é preciso tratar da Terra e ao mesmo tempo embarcamos em foguetões cósmicos, acaba por ser a Terra a tratar de nós. Mas os novos promotores dos negócios climáticos, sugestionados por essas imagens có(s)micas, apregoam aos quatro ventos um «alinhamento do modelo de negócio com os factores de equilíbrio ambiental». O desaparecimento da única espécie capaz de erradicar toda a vida de um planeta merece esse alinhamento dos corpos celestes. E decerto, no fim de tudo, o riso do cosmos.

     


    Fotografias da Greve Climática Estudantil de 2019.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.