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Lendo: A cegueira da guerra

A cegueira da guerra

A cegueira da guerra


A destruição dos povos ao virar da esquina

1.
Deveríamos estar mais atentos às manipulações da linguagem. Não é preciso ter lido o 1984 1 para saber que a instituição de um vocabulário autorizado visa o controlo das populações no mais simples dos seus reflexos. Nada de grandes questões de consciência, moral ou política. Basta uma habituação aos comportamentos e reacções mais básicos. A primeira expressão nazi que Victor Klemperer registou na Alemanha, pouco depois da ascensão de Hitler ao poder, foi «expedição punitiva». Ouviu-a pela primeira vez da boca de um amigo, notando-lhe o tom jocoso, mas orgulhoso: este contou-lhe que um grupo de comunistas num bairro próximo «tinha levado uma carga de porrada, nada de sangrento, mas muito eficaz, uma expedição punitiva, que diabo!» 2 Esta experiência pessoal, Klemperer viu-a ampliada ao longo dos meses seguintes. As expedições punitivas, inicialmente executadas de forma amadora, passaram a designar a acção policial e, logo depois, entraram nas ameaças de repressão e exterminação. De seguida, veio o prolífico adjectivo «histórico»: tudo no Reich deveria ser histórico, cada discurso, cada inauguração e cada feriado eram absolutamente definidores da grande missão histórica do povo alemão. Passo a passo, criou-se assim a LTI, a «Língua do Terceiro Império», no acrónimo que cunhou. Não há derramamento de sangue sem derramamento da língua sobre a população. Consagração, ou «purificação», como proferiu Putin há algumas semanas. Nada disto significa que a Alemanha dos anos 30 e a Rússia de hoje sejam a mesma coisa ou atravessem as mesmas circunstâncias. Mas o terreno está a ser preparado seguindo passos muito semelhantes aos velhos passos do fascismo, tudo transposto para as circunstâncias específicas da dissolução do modelo liberal.

De facto, a guerra lançada pelo Estado russo contra os ucranianos chegou com o seu pequeno vocabulário fascista, cuidadosamente seleccionado e historicamente paradoxal: «operação especial», «desnazificação» e «desmilitarização». Um imperativo vital para estas operações linguísticas é o de nunca se deixarem inibir por pruridos semânticos nem terem medo do ridículo ou da incongruência histórica. Não é apenas o eufemismo que está em causa, já que se visa uma justa medida de entusiasmo e unanimismo social; é uma aprendizagem doutrinal, que revela os factos ao mesmo tempo que garante uma reserva de sacrifícios por vir. Onde está «operação especial» leia-se a guerra, em lugar de «desnazificação» deve ler-se império carbónico e nuclear euroasiático e por «desmilitarização» entenda-se a militarização centralizada do espaço russo.

Vladimir Putin inaugurou o seu poder com a segunda guerra contra a Chechénia, que declarara a sua independência em 1991. Nessas duas guerras, e em particular na segunda, pereceu um quarto da população chechena. A segunda guerra passa a ser designada como «operação antiterrorista» e é marcada «por uma violência e horror indescritíveis», como relata Mylène Sauloy, documentarista francesa que lhe dedicou vários filmes. Em 2003, os russos colocam um antigo jihadista no poder, que tem por incumbência livrar-se daqueles chechenos que entendiam a sua resistência à Rússia como uma luta de descolonização. Por um lado, a «operação antiterrorista» adapta-se perfeitamente às operações dos ocidentais depois do 11 de Setembro. Por outro, as imagens das torturas praticadas por soldados norte-americanos na prisão de Abou Ghraib ajudarão a apagar das memórias os corpos torturados dos prisioneiros chechenos. Quando chega o «genial» investimento russo em Bashar el-Assad, os EUA já estão enterrados nas suas contradições, mentiras e destruição lançadas sobre o Médio Oriente. A Síria torna-se o terreno ideal da «pacificação» russa porque tem no Partido Baath sírio o parceiro ideal: o mesmo uso vertical da violência, a mesma estruturação do poder a partir dos serviços secretos militares.

Onde está «operação especial» leia-se a guerra, em lugar de «desnazificação» deve ler-se império carbónico e nuclear euroasiático e por «desmilitarização» entenda-se a militarização centralizada do espaço russo

Reentramos assim no mundo estéril do double-bind da Guerra Fria, muito embora esta guerra esteja em vias de se tornar quente sem mais delongas. Regressam as intermináveis discussões sobre quem está sentado sobre a maior pilha de crimes; as arengas sobre a necessidade de tomar partido nos jogos geopolíticos; os bons e os maus imperialismos, etc. Se percorrermos o chamado espectro político, a extrema-direita identitária exulta porque sabe que o ovo da serpente tem estado bem aquecido no ninho russo desde a dissolução da União Soviética. O seu caso, embora com diversas facetas, parece ser aquele mais articulado com os novos ciclos ocidentais, embora essa análise comporte os seus pontos cegos. Por outro lado, os globalistas ocidentais mostram-se desorientados, mesmo quando agem com relativa coerência. São muitos os factores que, tendo favorecido a sua ascensão ao longo da segunda metade do século XX, parecem agora tirar-lhes o tapete, propiciando uma aparente perda constante de posições. É certo que o seu reino já era o das coisas que se dissolvem no ar, o da imponderabilidade e das virtualizações sociais e económicas. Mas têm sofrido ataques nesse mesmo plano, como na esfera da comunicação, e por via das próprias redes que eles instalaram, o que lhes tem provocado danos enormes, notoriamente em países como as potências anglo-saxónicas. Contudo, o seu aparato bélico tem vindo a manifestar uma superioridade tecnológica no terreno ucraniano, o que logo despertou o entusiasmo dos falcões do outro lado do Atlântico, que se lançam, por estes dias, num discurso perigoso de vitória militar e já não apenas de resistência. Vitória dos ucranianos? Suspeitamos que outros se estão a perfilar como putativos vencedores. Às custas da Europa, de Lisboa aos Urais? Tal torna-se, a cada dia de guerra, um cenário cada vez mais provável. Por fim, o doente mais desorientado parece ser a esquerda. O património de ideias e estratégias da esquerda está ou em liquidação ou em acelerado processo de transformação em peça ubuesca.

A «desnazificação» tem sido um dos sucessos da «nova língua imperial» russa. É certo que é óbvia a sua inadequação à realidade da Ucrânia, com uma população muito diversificada e quase equivalente à da Península Ibérica. Todos os países do Leste europeu têm os seus grupos neonazis, e a Rússia não é o menos provido de tais gentes. Trata-se, ao mesmo tempo, de um fenómeno político e cultural, longamente incubado, e que é herança da guerra civil que acompanhou a consolidação da União Soviética, mas também das incursões do nazismo e do estalinismo, e de forma nenhuma «induzido» em Maïdan 3, como pretende Moscovo. As estratégias de demonização do inimigo, tão típicas da guerra, estão em pleno florescimento e há hoje franjas da esquerda, não contando com os velhos estalinistas nostálgicos, que reproduzem com afã a propaganda russa. De onde vem esta ficção de que a Rússia actual encarnaria o campo da resistência contra o imperialismo norte-americano? Quem pode ainda atribuir um papel libertador ao exército russo, que tanto usa nos seus tanques a bandeira do exército imperial russo como a do exército vermelho? O rol das vítimas da «solidariedade» do Kremlin é longo. Leila al-Shami, uma activista anti-autoritária anglo-síria, conta o que sentiu quando teve notícia da invasão da Ucrânia: «Mais do que qualquer outro povo, os sírios compreendem o traumatismo que os ucranianos estão a viver. Há nisso uma forma de raiva, porque todos estes anos de política de “normalização” levada a cabo pelo regime russo – na Síria, na Geórgia, na Chechénia, na República Centro-Africana – encorajaram-no a cometer tais actos com um sentimento de impunidade.» 4 Num outro texto, a que deu o significativo título de «Anti-imperialismo dos imbecis», Leila escrevia em 2018: «Que uma certa esquerda possa considerar que o Estado russo é “anti-imperialista” dá testemunho de um afastamento da realidade e de uma atitude política reaccionária, segundo a qual os Estados em competição pelo poder seriam a principal sede de conflito, ignorando em simultâneo as lutas dos povos contra os regimes repressivos.» 5 As posições da esquerda autoritária e da extrema-direita têm vindo a sobrepor-se naquilo que parece já formar uma união sagrada em torno de Estados que supostamente desafiam o domínio geomilitar dos EUA. As suas «zonas de influência» não passam, contudo, de territórios onde o poder dos Estados decide sobre a vida ou a morte de todos os seus habitantes.

2.

O levantamento das circunstâncias de uma guerra concreta não deveria fazer de nós novos devotos das religiões geoestratégicas, que se apresentam como uma justificação geográfica da exposição dos povos aos poderes axiais. Vivemos um tempo singular em que, ao mesmo tempo que as redes globais continuam a ter como prioridade a passagem livre das mercadorias, se estão a constituir polos de dominação regional que não hesitam em aplicar um poder de vida e de morte sobre tudo o que se move nesse espaço. Muitos globalistas, que tinham entretanto adoptado uma doutrina militar centrada na guerra à distância e no controlo remoto das vias de passagem, voltam a adaptar-se às doutrinas clássicas de dominação do terreno e destruição dos recursos aí existentes. A extrema-direita identitária é notoriamente adepta do paradigma geoestratégico, uma vez que só ele coloca no seu centro a limpeza étnica e a formação de populações homogéneas.

Na verdade, este hibridismo doutrinal significa que a guerra está em vias de voltar a penetrar no quotidiano das populações a partir de dois vectores: de um lado, a continuação da exposição à guerra pelos recursos naturais e pelo domínio dos circuitos das matérias-primas e mercadorias; do outro, a crescente exposição a guerras pelo controlo regional que, longe de serem fins absolutos, se farão agora acompanhar de guerras pela deslocação dos próprios circuitos globais. Daqui podemos inferir que a guerra readquire crescentemente essa forma de presença quase constante que caracterizou os séculos XIX e XX. Mas dois elementos novos devem aqui ser referidos: por um lado, as doutrinas militares estão em vias de admitir o uso táctico de certas armas nucleares, rompendo com a doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD); por outro, a guerra cibernética e high-tech entra nos campos de batalha. A Ucrânia é já o terreno experimental do segundo desses desenvolvimentos, veremos se o é do primeiro.

A introdução de armas ditas «impossíveis» só vem reforçar o inquietante domínio de experimentação em que se tornou esta guerra ucraniana, primeiro confronto quase-directo entre dois Estados nucleares, a Rússia e os EUA. As inibições que imperaram durante a Guerra Fria parecem estar a desvanecer-se a cada dia que passa. A Europa, por seu turno, a tal Europa que começa em Lisboa, parece estar em vias de perder a capacidade de perceber que esta guerra que decorre no seu, no fim de contas, pequeno continente é uma guerra extremamente volátil que já envolve dezenas de actores e na qual ela se encontra cada vez mais implicada. O que fez a chamada «Europa comunitária» diante destes cenários? Decidiu transformar-se, da noite para o dia, num pequeno braço armado da democracia e começar a financiar a aquisição de armamento. Se acreditávamos que o grande braço armado, a NATO, já bastava para os nossos jogos de guerra, estávamos redondamente enganados. É um sinal da hesitação estratégica dos europeus e da corrosão interna do seu modelo. Durante décadas, a Europa alimentou um vizinho cujo regime se apoia quase inteiramente na economia carbónica, apostando nos próprios efeitos da mudança climática (degelo do Ártico, desaparecimento do permafrost siberiano) para poder expandir o seu poder. O que seria afinal um puro cepticismo climático noutras partes do mundo, na Rússia apresenta-se como o bom e velho progresso da sua força industrial predatória.

Este mesmo «regresso da guerra» justifica o ainda mais decidido regresso da «resistência à guerra», em sentido amplo, que estava obviamente bem presente na Europa quando a guerra formava esse horizonte quotidiano. Ao mesmo tempo que a quase totalidade dos Estados nos quer agora convencer da inevitabilidade das escaladas em todos os domínios militares, será necessário voltar a alargar a oposição à guerra, propondo, não apenas a resolução pacífica de um conflito específico, mas a saída colectiva das lógicas dominadas por prioridades bélico-industriais. A reinvenção das abordagens não-violentas aos conflitos é também imperativa por causa do intrincado entrelaçamento dos nossos dilemas existenciais: o modelo industrial carbónico está a entrar, por todo o lado, em crise estrutural; a mudança climática transforma-se também, por estes dias, num processo exponencial, tal como sucede com a perda de biodiversidade e a destruição dos ecossistemas. A guerra é, portanto, o luxo a que não nos podemos entregar.

Ao mesmo tempo que a quase totalidade dos Estados nos quer agora convencer da inevitabilidade das escaladas em todos os domínios militares, será necessário voltar a alargar a oposição à guerra, propondo, não apenas a resolução pacífica de um conflito específico, mas a saída colectiva das lógicas dominadas por prioridades militar-industriais

Interessa também falar daqueles que são sempre apresentados na comunicação dos beligerantes e dos seus apoiantes como vítimas indefesas. Tudo se passa como se o povo ucraniano estivesse ali quase por acaso e fosse arrebanhado pelos beligerantes, acabando, algumas vezes, por ser massacrado, outras apanhado no fogo cruzado. Esta visão de uma cena quase abstracta onde vilões e heróis se defrontam, e que acompanha a história bélica da Humanidade, é insuportável. Não se trata aqui de negar a agressão que a Ucrânia sofre. Essa agressão tem um agente indiscutível e directo, que corresponde à múltipla ofensiva russa. Trata-se de perceber que há uma população que não é tida nem achada neste conflito, mas que hoje é utilizada por ambos os lados. Essa população é composta, num proporção muito superior ao que se passa na Europa Ocidental, por camponeses, pessoas muito próximas da terra escura ucraniana, terras já muito martirizadas pelo industrialismo soviético, que ali despejou os produtos químicos e radioactivos mais diversos.

A Ucrânia é um território que tem servido de laboratório a russos e ocidentais: laboratório geopolítico, claro, mas também energético, agrícola, industrial. É uma terra que tem sido palco, no último século, do mais variado tipo de experiências: a experimentação sociológica da fome, a experimentação da guerra em terreno aberto, evidentemente, a experimentação industrial e a experimentação nuclear, uma vez que a posição periférica na União Soviética o favorecia. Procede-se agora à grande experimentação da reunificação da Grande Rússia. Esta constatação da natureza laboratorial deste conflito deveria despertar a nossa atenção para as múltiplas perspectivas de alargamento que ela contém.

A situação torna-se, de dia para dia, mais parecida com aquela que se vivia em 1914. Mergulhados no estupor e na desorientação – um historiador chamou-lhe «sonambulismo» –, estamos a dirigir-nos para uma guerra generalizada, que pode surgir muito rapidamente e sem mais aviso. É urgente um clamor geral contra este estado de coisas. Tal como em 1914, vão-se fechando as janelas de oportunidade para um outro rumo. Entretanto, o fetichismo bélico congrega os seus devotos em todos os quadrantes e as vozes unem-se numa só injunção: «Armas, armas e armas!»

 


Ilustração [em destaque] de T. Treprowski | Revista Acracia


Artigo publicado no JornalMapa, edição #34, Maio|Julho 2022.

Notas:

  1. George Orwell, 1984, Antígona, Lisboa, 2007.
  2. Victor Klemperer, LTI, La langue du IIIe Reich, Albin Michel, Paris, 1998, p. 73.
  3. A divisão entre pró-europeus e pró-russos atravessa toda a história da Ucrânia independente. No fim de 2013, o presidente Ianukovitch, pressionado por Moscovo, rejeita os acordos com a Europa. Surgem então as manifestações massivas na Praça da Independência (dita Maïdan), em Kiev, onde se encontram todas as correntes da oposição: liberais, anarquistas, neonazis, etc. A ferocidade da repressão (mais de cem mortos e dois mil feridos) transforma o movimento em revolução, culminando na fuga de Ianukovitch, em Fevereiro de 2014. Este reapareceu providencialmente na Bielorrússia durante os primeiros dias da incursão sobre Kiev.
  4. «De la Syrie à l’Ukraine: l’ombre du campisme», in CQFD, n.º 208, Abril de 2022, p. VIII.
  5. Ver leilashami.wordpress.com.

Written by

Jorge Leandro Rosa

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