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Lendo: Refugiados nos seus próprios países: o maior número de sempre

Refugiados nos seus próprios países: o maior número de sempre

Refugiados nos seus próprios países: o maior número de sempre


Entre guerras permanentes, colapso climático e pilhagem económica, nunca houve tantas pessoas que fogem sem nunca conseguirem sair das fronteiras do próprio país.

Um novo relatório (World Migration Report 2026) do Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC), produzido em colaboração com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), revela que o número de pessoas deslocadas dentro dos seus próprios países atingiu, no final de 2024, os 83,4 milhões – o valor mais elevado desde que existem registos sistemáticos. O relatório sublinha ainda que o número total de deslocados internos duplicou em apenas seis anos. Em 2018 eram cerca de 40 milhões; hoje ultrapassam os 83 milhões.

A expressão «deslocado interno» designa quem é forçado a abandonar a sua casa mas permanece dentro das fronteiras do seu país, encurralado no interior do mesmo território que deixou de lhe garantir sobrevivência, segurança ou abrigo. Em muitos casos, estas populações tornam-se invisíveis para o sistema internacional de asilo e para os grandes ciclos mediáticos do Ocidente.

O Sudão, a República Democrática do Congo, a Palestina, o Haiti, a Síria e a Ucrânia surgem entre os territórios mais afectados por deslocações massivas, sendo que os dois primeiros concentraram quase metade destes casos. Em Gaza, praticamente toda a população foi deslocada ao longo do último ano, num processo de destruição sistemática conduzido pelo Estado israelita com apoio político, diplomático e militar das potências socidentais.

A directora-geral da OIM, Amy Pope, classificou os números como «um aviso claro». Mas o vocabulário diplomático das organizações internacionais tende a ocultar aquilo que os números efectivamente mostram: o deslocamento em massa tornou-se uma condição estrutural do capitalismo contemporâneo. Ao contrário da narrativa dominante sobre «crises migratórias», o que os dados revelam é uma crise política global produzida por um sistema económico incapaz de garantir condições mínimas de vida a uma parte crescente da população mundial.

A esmagadora maioria das deslocações resulta de conflitos armados, ocupações militares, perseguições políticas, pilhagem de recursos naturais e eventos climáticos extremos agravados por décadas de devastação ambiental. Ou seja, os deslocados internos não são uma anomalia temporária: são o retrato humano de uma ordem internacional construída sobre guerra, a desigualdade e a destruição ambiental.

As guerras que devastam o Sudão, a Palestina, o Congo ou o Iémen não surgem num vazio. São alimentadas por décadas de colonialismo, pilhagem mineira, fronteiras impostas, militarização e ingerência internacional. Também a crise climática não é um acidente natural: resulta de um modelo económico assente na extracção incessante, no consumo fóssil e na concentração da riqueza. Enquanto os países mais pobres acumulam mortos, deslocados e fome, as grandes empresas energéticas e o complexo industrial-militar continuam a registar lucros históricos.

Foto de Wikimedia Commons – Wikimedia.org


Written by

Teófilo Fagundes

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