Desculpa, mas não encontramos nada.
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Lendo: Deus, Nação e Cabeças Cortadas
Na Basílica Real de Castro Verde, percorrendo a majestosa nave da igreja, somos assombrados pelos imponentes painéis de azulejos. Erguida no século XVI por emulação da Batalha de Ourique, que na disputa entre possíveis cenários se reclama ter tido lugar em Castro Verde, os azulejos setecentistas ilustram a batalha eleita mito fundador da nacionalidade portuguesa: antes desta batalha, Cristo surgira a Afonso Henriques, garantindo-lhe a vitória sobre os cinco reis mouros e a consagração de Portugal como reino. A vitória é aclamada com a decapitação dos reis muçulmanos. Assim ficaram registadas as suas cabeças nos azulejos neste lugar santo, atestando que a esfera divina presidiu à fundação do reino de Portugal e, desde então, ao nacionalismo português.
Trata-se obviamente de uma falsidade. O mito da batalha ocorrida no século XII (1139) foi uma criação dos séculos XV e XVI, pois até aí nenhuma intervenção divina surge referida acerca da batalha tida nos «Campos de Ourique». Alexandre Herculano lançou no século XIX uma polémica anticlerical sobre o milagre de Ourique e longo tem sido o debate em torno do processo de criação do mito da nacionalidade, nele se destacando o trabalho da historiadora Ana Isabel Buescu. A mesma demonstrou como a lenda nasceu no séc. XV e foi consolidada no séc. XVI, vindo a ser uma peça-chave no contexto da Restauração do reino português no século seguinte. Incorporava-se a intervenção divina na génese da memória nacional. Este é, como sabemos, um dos processos mais eficazes da legitimação de um poder, assim como da missão sagrada do herói fundador, tirando partido de um confronto entre a Cristandade e o Islão.
Tão pouco é atestado por qualquer evidência documental, muito menos arqueológica, que a Batalha de Ourique tenha ocorrido em Castro Verde. Mas, para qualquer mito, a falsidade não constitui um problema, sendo repetida até à exaustão nos currículos escolares. Na página dos Dicionários Infopédia da Porto Editora ainda lemos que «terá sido nestas terras, mais precisamente no outeiro de S. Pedro das Cabeças, que terá culminado a batalha de Ourique, ocorrida nos Campos de Ourique, a que pertence Castro Verde, com a decapitação dos resistentes inimigos. Neste local foram encontrados vários esqueletos separados da caveira, que comprovam a degolação dos reféns, mandada executar por D. Afonso Henriques».
A falsidade é, atualmente, difícil de contrariar. A ciência histórica pouco pode contra a força do mito fundacional do nacionalismo português. As falsidades são constitutivas da ênfase nacionalista e do lastro religioso que molda a sociedade portuguesa. Marcelo Rebelo de Sousa, na sua última tomada de posse como Presidente da Républica em 2016, não quis deixar de evocar entre os «sentimentos que não sabemos definir, mas que nos ligam a todos os portugueses» a «crença em milagres de Ourique».
Há, porém, um fator inquietante que acompanha o milagreiro fundador da nação. Perturbador, esperar-se-ia, para quem resguardado do calor alentejano contempla o painel de azulejos dos cinco muçulmanos decapitados da Basílica de Castro Verde e formula a seguinte questão: não são as decapitações a expressão bárbara que nos chega dos jihadistas que neste século nos entraram casa adentro pela propaganda do Estado Islâmico, esse terrorismo religioso difundido sem qualquer agravo nas redes sociais e impossível de não dar conta nos media?
Assim sendo, por que razão a exaltação do nacionalismo português, a heroica gesta fabricada do rei fundador Afonso Henriques, difundiu e comunicou visualmente o gesto cruel da decapitação? Celebramos e evocamos o nacionalismo fundador de Portugal tal qual a lâmina ensanguentada do jihadista, cristãos e muçulmanos, alternando a mão que ergue a espada?
Poder ritual
Michael Vlahos, um académico americano ligado à área da segurança nacional e militar, refletia, em crónica de 2014 no Huffington Post 1, como, depois de uma noite familiar de pizza e cinema, o rolar de cabeças decapitadas hollywoodescas chocava nesse ano com a realidade crua e televisionada da decapitação de americanos pelo ISIS. «Ao celebrarmos assim este ato primitivo na fantasia cinematográfica, ficamos ainda mais à sua mercê na nossa realidade. A decapitação é central para a política humana porque tem um poder ritual extraordinário. Além disso, é primitiva não na sua baixeza humana, mas sim na sua capacidade bruta de afirmar autoridade. É por isso que a tomada de cabeças tem dominado a consciência ocidental até muito recentemente. A decapitação é culturalmente satisfatória, um poderoso ato de Estado e uma ferida profunda no inimigo. Este entrelaçamento de satisfação, poder e ferimento do inimigo é, eu diria, central para a nossa consciência. Todos partilhamos a compulsão ritual do decapitar.»
A nossa «civilização» associa à decapitação, resumia Vlahos, a rituais significantes: como a «enunciação da autoridade dirigente. Cortar a cabeça é, em termos simbólicos, cortar a própria autoridade dominante». Por isso o latim de (fora) caput (cabeça) está próximo de termos políticos, como «capitólio» e «capital», ou militares, como «capitão». Decapitar potencia a expressão de «ritos passionais que anunciam um novo mundo». Uma grande decapitação pode perturbar um mundo inteiro, e basta recordar a revolução francesa e a cabeça guilhotinada de Luis XVI mostrada efusivamente às dezenas de milhares reunidos em Paris às 10h20m de 21 de janeiro de 1793. Estamos perante a «prostração simbólica, a subjugação». Um aviso simbólico que é simultaneamente um troféu em que assenta a nova legitimidade.
Para Michael Vlahos «o maior problema que enfrentamos ao confrontar as decapitações do Estado Islâmico é o facto de não compreendermos e aceitarmos o significado da decapitação, o ADN do seu código, para a afirmação de uma nova legitimidade governamental. A decapitação – especialmente como um ato de teatro cívico – não é apenas um ato bárbaro: é a mais profunda e poderosa ferramenta de legitimidade política. Isto tem sido verdade ao longo da história, e precisamos de assumir o seu significado aqui, para nós.»
Amalendu Misra, da Universidade de Lancaster, publicou em 2017 um ensaio sobre «uma das mais decisivas e profundas variantes da violência corporal – a decapitação», na revista portuguesa Defesa e Nação (do Instituto de Defesa Nacional), em edição dedicada aos grupos islamistas radicais 2. Misra sublinha a decapitação na perspetiva da Violência Performativa, realçando, na senda de vários autores, que «mais do que apenas uma tática para transmitir uma mensagem – gera novos símbolos e dinâmicas sociais (perpetuando-se assim) e aumenta a coesão social». «Gera-se uma dinâmica identitária especifica e articulada de forma mais clara como um ato de “alterização”: na presença do “outro” que é decapitado». O aspeto religioso é primordial. «A demonização dos inimigos permite àqueles que se consideram soldados de Deus matar sem qualquer impunidade moral».
A análise destes dois autores à expressão visualizada da decapitação (espoletado pelo horror jihadista), serve como uma luva à explicação do painel de azulejos da Batalha de Ourique e ao mito fundador do nacionalismo português, incorporando a representação de cinco cabeças decapitadas. O enquadramento conceptual da decapitação sob a lâmina do jihadista ou pela espada do rei-fundador Afonso Henriques é precisamente o mesmo. Sobra o horror. Ao qual nos cabe ora a repulsa ora a aceitação.
Rapidamente fechamos os olhos para melhor aproveitar o fresco da Basílica Real de Castro Verde. Mas não conseguimos afastar das nossas cabeças o horror desta narrativa visual do decapitado, e o nacionalismo, ungido de milagres divinos, revela-se na sua mais abjeta crueldade, que ao longo da história sempre encerrou.
Notas:
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