Categoria: Baldios

  • Os lobos voltam a uivar na Serra

    Os lobos voltam a uivar na Serra

    O Acampamento em Defesa do Barroso regressa para a sua 5ª edição, entre os dias 8 e 10 de agosto, num momento em que cresce de tom a luta contra a mina.

    A ameaça sobre as populações de Covas do Barroso intensifica-se depois de os projetos de lítio da mina do Barroso, em Boticas, e da mina do Romano, em Montalegre, terem sido incluídos no primeiro lote de projetos designados como estratégicos ao abrigo do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas (REMPC), beneficiando por isso de mecanismos de financiamento facilitado. O Estado português, depois de há mais de um ano atrás ter desvalorizado o pedido do Ministério Púbico de anulação da validade da Declaração de Impacto Ambiental (DIA) da mina do Barroso, prossegue contornando toda e qualquer ação legal, como as providências cautelares colocadas pela população à servidão administrativa, através da qual o Governo forçou os trabalhos de prospeção da empresa Savannah Resources em terrenos privados e comunitários.

    Depois de autorizada uma primeira servidão administrativa, em dezembro de 2024, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) veio em inícios de junho deste ano acusar a Savannah de «persistir no assédio» às comunidades ao solicitar uma segunda servidão administrativa para aceder aos terrenos e expandir trabalhos de sondagens em Boticas. Conforme declarou a UDCB à imprensa regional, essa nova servidão demonstra a expansão «dos trabalhos de prospeção através da instalação de novas plataformas de sondagem e de poços geotécnicos que aprofundam a agressão em curso às serras» e que «continua a não ter o consentimento da comunidade local de baldios e da grande maioria dos particulares».

    A luta dos últimos sete anos contra a mina do Barroso, cuja DIA foi emitida em maio de 2023 e com anúncio de início da produção em 2027, não tem esmorecido. Ao longo deste ano, tiveram lugar em diversas localidades do país, como na Europa, múltiplas ações de solidariedade. No terreno, nos inícios de março, duas máquinas de perfuração e um trator de apoio foram danificadas. O escalar da resistência voltou a ser constatado na madrugada de dia 19 de junho quando «um grupo de pessoas solidárias com a população residente na região do Barroso entrou nas instalações da Savannah Resources, em Carreira da Lebre, Boticas, tendo danificado os seus veículos, pintalgado a fachada de vermelho e escrito a frase “Não à mina”». Contrapondo com a violência do projeto mineiro, refere o comunicado enviado aos meios de comunicação social que «nos últimos anos, a população tem usado todas as ferramentas ao seu dispor para lutar contra esta violência. Organizaram encontros, convocaram protestos, deram entrevistas a meios de comunicação social, falaram com representantes políticos e até recorreram aos tribunais de forma a cancelar a licença de prospeção e exploração da empresa. Todos estes esforços têm sido em vão». Razão exposta para este grupo de pessoas declarar «este ato de violência legítimo, proporcional e provocado pela falta de alternativas».

    Mais referem que, perante «uma forte oposição dos residentes e de várias associações e organizações ambientais» ao projeto de mineração, a empresa britânica «adoptou uma postura autoritária de atropelo das vontades locais». «A Savannah Resources quer-nos convencer que o futuro verde é esburacar património mundial e transformar estas serras em zonas de sacrifício para uma indústria de automóveis elétricos que em nada resolverá a crise climática que atravessamos. Em nome do crescimento económico, querem açambarcar terras, poluir águas e destruir os montes e as serras barrosãs contra as populações locais. E o Estado, o governo e a União Europeia, que deviam proteger a sua população, pavimentam-lhes o caminho». Simultaneamente caem sobre habitantes locais processos judiciais com o objetivo de amedrontar e esgotar financeira e animicamente aquelas pessoas que são vistas como as «cabeças» da resistência.

    Em sentido contrário, de solidariedade e de apoio, irá regressar à Quinta do Cruzeiro, nas Covas do Barroso, a 5ª edição do Acampamento em Defesa do Barroso, entre os dias 8 e 10 de agosto. Este acampamento, que se quer longe de um escape festivaleiro, revolucionário e urbanita, como apontado no texto “A luta Possível no País Impossível”, publicado na revista Flauta de Luz, (nº 11, Junho 2025), constitui uma oportunidade e desafio em ultrapassar o distanciamento «ativista» para que «na falta de maturidade, tempo e meios materiais (…), o primeiro passo para uma resistência [seja], talvez, que cada um saia da sua redoma e retome os antigos processos de convívio e comunicação humanas. Que se caminhe humildemente ombro a ombro com as populações afectadas com o único e comum objectivo de parar o processo de extermínio das suas vidas».

    Nesse sentido, é incontornável atender aos esforços de consolidação d’A SACHOLA. Trata-se de um «espaço de encontro entre quem habita o território barrosão e quem com ele se solidariza», que nasceu em junho de 2023 numa das salas da antiga escola primária de Covas do Barroso. «Aqui, organizámos sessões de cinema, concertos, reuniões, exposições, residências artísticas, e albergámos gente vinda de todos os cantos do mundo para lutar lado a lado com as populações barrosãs. Foi também aqui que mantivemos um centro de informação em permanência, com documentos, panfletos, zines, flyers, cartazes e jornais sobre a luta». Atualmente, um novo espaço está a ser reconstruído para, como refere o coletivo d’A SACHOLA, «possamos continuar a fazer tudo isto, de forma autónoma». Em comunicado, não escondem a urgência desse espaço: «foi o momento atual que acelerou esta necessidade de criar um espaço. A empresa britânica Savannah Resources está a entrar em força nas aldeias de Covas do Barroso, Romainho e Muro, ferindo as águas e as terras, e trazendo os seus trabalhadores para estas aldeias».

    Tal como citado na apresentação da Jornada contra as Minas, que tiveram lugar em abril no Espaço Musas, no Porto, podemos concluir com as palavras da UDCB que «a única coisa normal aqui é RESISTIR. Em defesa da Serra e dos modos de vida que dela dependem. E por um combate à crise ecológica justo, que apenas sacrifique os responsáveis pelo estado a que chegámos. Não somos nem seremos meros territórios de extração. E nunca desistiremos de lutar contra uma empresa, um Estado e todos aqueles que se uniram para acabar com a nossa comunidade. Os lobos voltam a uivar na Serra».


    notícia publicada no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]

  • Fulgor animal

    Fulgor animal

    Escolhi viver muito com animais, não por estar desiludida dos homens, mas por crer nos animais; entre os homens e a terra, encontro neles o meu repouso, descubro que eles têm um código que nos será útil decifrar juntos.
    Maria Gabriela Llansol

    Os Fulgores de Outono são sobre a convivência: convivência animal, mineral e vegetal. Este texto envereda brevemente pelos trilhos da convivência animal, correndo o risco de mal os aflorar.

    Para o Fulgor Animal convocámos dois filmes em que o javali e as javalis são protagonistas: Va, Toto!, de Pierre Creton, e Notes for Les Sanglières, de Elsa Brès. Brès e Creton são autores de gerações, géneros, e estéticas distintas, mas têm em comum uma abordagem situada, e de longo alcance, com as comunidades e os lugares onde escolheram habitar no mundo rural francês. Se os pomos em relação, através destes filmes, é porque nos interessa propor uma convivência interespecífica, através de narrativas guiadas pelo desejo e pela possibilidade de uma partilha entre humanos e animais, a contrapelo de narrativas de discórdia e de dominação.

    Pierre Creton, cineasta, agricultor, pintor de domingo, vive em Vattetot-sur-mer, na Normandia, onde filma o seu território e o seu quotidiano. Va, Toto! é da ordem da fábula ou do conto de fadas, e entrelaça três histórias. A primeira, e a que nos parece formalmente mais interessante, com o ecrã dividido em dois (splitscreen), em forma de livro ilustrado, é a história de Tótó, o javali adoptado por Madeleine. Madeleine é vizinha de Pierre Creton, e vinte anos antes tinha-se recusado a ser filmada por ele. Com o aparecimento de Tótó, Madeleine não só aceita como convida Pierre a entrar na sua vida de câmara em mãos. Creton diz-nos que esta longa espera está de acordo com a sua ideia de território: “é preciso paciência, observação, deixar as coisas acontecerem ao seu ritmo e à sua maneira. Incluindo os animais, porque foi a chegada súbita do Tótó que deu início a tudo.” Tótó devém animal de companhia, e vai crescendo em coexistência com o cão, com o cavalo, com as numerosas galinhas, com os humanos ao redor. É possível esta convivência? É, bem o sabemos, mas não é duradoura: logo virá o caçador, virá a lei…

    A segunda história é a de Vincent, companheiro de Pierre, que tem uma obsessão com macacos e viaja até à Índia ao seu encontro. A terceira é povoada por gatos, que entram e saem dos sonhos translúcidos de Joseph, outro vizinho de Pierre, trabalhador rural ligado a uma máquina respiratória. O sono e o sonho, as aparições e as desaparições ecoam por todo o filme, bem como a figura do duplo e o corpo.

    O elo entre as três histórias é Pierre, com as suas relações de proximidade e vizinhança, mas também o animal, esse outro que nos é tão próximo, e que, com Llansol, intuímos que possui «um código que nos será útil decifrar juntos».

    O que seria estabelecer uma aliança com javalis? Quem teria interesse nesta aliança? Talvez aqueles que são excluídos da propriedade privada.

    Em Notes for Les Sanglières, a artista Elsa Brès ensaia uma aproximação às javalis, enquanto bando de guerrilheiras, e aos seus movimentos nocturnos pelo território das Cévennes. Encontra nelas a potência de quem não reconhece a propriedade privada. Como o título antecipa, estas notas, ou imagens em fragmentos, pressupõem um filme por vir: Les Sanglières. Agrada-nos que o processo de investigação artística que conduz a este filme (agora em pós-produção), se materialize em diversos vídeos, instalações, cartazes, objectos, que abraçam a sua incompletude e a multiplicam, e são fruto de uma escrita colectiva.

    O que seria estabelecer uma aliança com javalis? Quem teria interesse nesta aliança? Talvez aqueles que são excluídos da propriedade privada. Como adoptar o ponto de vista do animal? O que significa adoptar o ponto de vista do javali como espécie? Para Elsa Brès: “o javali pode ser um aliado na reflexão sobre as lutas anti-capitalistas/anti-patriarcais contemporâneas, se nos colocarmos ao seu lado, no seu lugar. Esta ideia de aliança levanta então questões sobre o que liga o homem e o animal, especialmente a partir deste ambiente particular que é a floresta.” Coloca também questões de como filmar javalis, não como objecto de estudo mas como companheiros, a questão essencial de como fazer um filme «com, ou falar perto, e não sobre». Brès envereda por uma abordagem física e sensorial, recorrendo a ferramentas de mapeamento especulativo para antecipar os movimentos das javalis. Figura de recusa nómada e sem fronteiras.

    Em Mértola, no Cineteatro Marques Duque, iniciámos o fulgor com Notes for Les Sanglières e continuámos com Va, Toto!. Em São Luís invertemos a ordem. Para o Fulgor de São Luís, no Palheiro da Cultivamos Cultura, convidámos caçadores e o grupo de cooperação com animais da comunidade de Tamera. Ouvimos que há demasiados javalis, que não têm predador, destroem tudo. Ouvimos que também adoptaram um javali que perdeu a mãe, e que depois ao crescer foi à sua vida. Ouvimos que seguem as suas pistas e apanham os seus ossos pela floresta. Ouvimos que caminham lado a lado, no escuro, sem se verem, só ruído e co-presença. Ouvimos que se falarmos com os javalis eles poupam as hortas e até sulcam a terra, preparando-a para a sementeira. Não havia fogueira, mas em torno destes filmes, houve vagar para escutar as histórias de convivência com javalis, que quase todas tínhamos para partilhar.

    Num território em que os cães fazem parte das aldeias, e os seus nomes são por todos conhecidos, cabras, ovelhas, porcos e vacas são domesticadas, em que se chega à cooperativa de burro, e se ensaiam processos de cura com cavalos e sapos, selvagens são os lacraus, as ginetas, os saca-rabos, as raposas, os javalis…Os seres que não se deixam domesticar, nem governar. (O almejado lince ainda não vimos.)

    Podem animais e humanos coexistir pacificamente, perguntamos, para além das relações de poder, dominação, submissão e domesticação?

    Enquanto escrevemos, chegam-nos os uivos do animal companheiro que estamos a curar, mordido por javalis lá para os lados da ribeira do Torgal. Penso em Val Plumwood e no seu encontro com o crocodilo no parque nacional de Kakadu, penso em Nastassja Martin e na sua luta com o urso nas montanhas da Camecháteca, penso em todas as fronteiras implodidas e por implodir entre os mundos, e penso em Lin May Saee, que este ano nos deixou, e que dedicou toda a sua obra artística à libertação animal.

    Repetimos que a oferenda destes filmes é a convivência, a potência de uma vida partilhada com os animais. Volvidos dois dias destes fulgores houve em São Luís uma montaria com 50 caçadores. Nenhum javali foi morto.

     


    Texto de  Sílvia das Fadas
    Legenda da fotografia [em destaque]: cinemafulgor.org, poster do evento.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #39, Outubro|Dezembro 2023.

  • Cultivar autonomia, colher comunidade: Hortas comunitárias e o resgate de «baldios» do Porto

    Cultivar autonomia, colher comunidade: Hortas comunitárias e o resgate de «baldios» do Porto

    No início eram baldios. Não daqueles ancestrais, montes comunais que circundam aldeias e que são posse e pertença das comunidades que por lá habitam, mas dos outros – terrenos «incultos», «maninhos», «estéreis», «terréus», «inúteis», e outros sinónimos de abandono que o termo entretanto ganhou. Desbravados pela generosidade de quem se junta para cuidar de um pedaço de terra em comum, estes baldios urbanos passaram, e estão a passar, por processos de regeneração que devolvem a dignidade original do seu nome: baldios reinventados como hortas comunitárias onde se ensaia a acção colectiva em prol do bem-comum.

    Escondidas em logradouros esquecidos, ou desmarcadas nos arrabaldes da cidade, a Quinta Musas da Fontinha, a Quinta de Vila Meã e a Horta da Partilha são exemplos de hortas urbanas do Porto que colocam a comunidade no centro. Tais como compartes nos baldios rurais, juntam-se ali hortelãs e hortelãos para cultivar o próprio alimento, para pôr em prática uma intuição, pelo vício do colectivo, ou porque faz sentido, dá prazer, serve de cura para a neurastenia da vida rodeada de cimento, consumo e betão.

    Embora com diferentes nuances nas suas formas de organização, nas condições de acesso à terra, nas técnicas que orientam as suas práticas, desvenda-se em comum nestas hortas a vontade de aprender-fazendo em colectivo, à margem da Instituição –rejeitando a mercantilização da vida, a mera atribuição de lotes de terreno para cultivo e a gestão da produção.

    "Baldio" (bal·di·o): 1. (adj.) que não está cultivado. = inculto, maninho; 2. (s.m.) terreno por cultivar. = terréu; 3. (s.m.) terreno que, pertencendo a uma comunidade local, é usado colectivamente. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
    “Baldio” (bal·di·o): 1. (adj.) que não está cultivado. = inculto, maninho; 2. (s.m.) terreno por cultivar. = terréu; 3. (s.m.) terreno que, pertencendo a uma comunidade local, é usado colectivamente. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

    Quinta Musas da Fontinha

    Começamos por um dos pontos mais altos da cidade, a Quinta Musas da Fontinha, numa encosta a montante com inesperadas vistas para o mar. O conjunto de hortas biológicas é um dos vários projectos do Espaço Musas, na Rua do Bonjardim – sede da associação desportiva e recreativa Sport Musas e Benfica que celebra este ano o seu 75.º aniversário.

    Durante décadas, o espaço esteve entregue ao silvado, às ratazanas e ao esquecimento. Uma lixeira a céu aberto chegava até ao conjunto de ilhas que marcam o limite no topo, com acesso pelo Alto da Fontinha. A regeneração do terreno começou com trabalhos de desmatamento e de limpeza por iniciativa de alguns associados, mas foi em 2011 que a Quinta Musas de Fontinha se estabeleceu como tal, graças à cooperação de várias pessoas e também ao impulso dado pela então associação informal Movimento Terra Solta.

    Hoje a horta do Musas divide-se em cerca de 25 talhões individuais, familiares ou colectivos de 25 metros quadrados, cada um com o nome de um fruto. Inspirado nos princípios da permacultura, o espaço congrega também diversas zonas de acção e usufruto colectivo, como a Agrofloresta, a Terra das Crianças e o Miradouro de Aromáticas. Os limites da Quinta foram mudando com o passar dos anos, incluindo hoje – para além do logradouro arrendado ao senhorio (após uma acção de despejo noticiada pela Mapa em 2013) –lotes camarários e terrenosentretanto cedidos por vizinhos em acordos informais.Aberta à participação e visita de todas as pessoas «que se revejam no seu projecto e aceitem a sua forma de organização», a Quinta Musas da Fontinha orienta a sua acção «numa base de responsabilidade individual e de contributo para um projeto comum».

    Num encontro de hortas urbanas que teve lugar no início de Julho nos Jardins do Palácio Cristal, durante o Cidade+, Andreia Ferreira, uma das hortelãs do Musas, diz que uma das dificuldades – mas também riquezas – da horta «é que tem uma biodiversidade social muito grande e privilegia a autonomia e a cooperação entre essas pessoas, o que muitas vezes é difícil, até pela sua diversidade também». Ali «decide-se tudo de forma horizontal e assembleária, por consenso», acrescenta, explicando que existem grupos de trabalho para operacionalizar alguns projectos e tarefas de manutenção, tais como a gestão das águas, a modelação do espaço, os almoços comunitários ou actividades culturais.

    «Não basta atirar sementes e regar de semana a semana», desabafa sobre as incursões hortícolas de curta duração. «Muitas pessoas aproximam-se do Musas com a intenção de ter uma horta porque temos espaços disponíveis (…) mas o que acontece é que, como aquilo eram antigas ilhas e uma lixeira, o solo é árido, necessita de compostagem, necessita que se faça minhocário, que se leve para lá nutrição para a terra. Muitas pessoas ficam desmotivadas por causa do trabalho que é preciso.»

    Para quem resiste, a Quinta Musas da Fontinha significa muito mais do que produção hortícola: um espaço aberto à «experimentação» social, ecológica, colectiva, que aproxima pessoas da terra, tal como vemos à sua medida noutras hortas comunitárias do Porto.

    Foto: Margarida Peixoto. Vitor Parati a regar o viveiro que iniciou em Outubro de 2016 na Quinta de Vila Meã. O Terra Solta disponibiliza mudas de árvores autóctones graciosamente ou por donativo consciente.
    Foto: Margarida Peixoto. Vitor Parati a regar o viveiro que iniciou em Outubro de 2016 na Quinta de Vila Meã. O Terra Solta disponibiliza mudas de árvores autóctones graciosamente ou por donativo consciente.

    Quinta de Vila Meã

    Um fazedor de vassouras de milho painço, um moço inglês de chapéu e um ourives de Gondomar encontram-se num sábado de manhã num terreno entalado entre os caminhos de ferro e a via rápida, em Campanhã. Um vai de tronco nu e leva uma muda de limonete para oferecer, outro faz a monda do canteiro das cebolas como se fosse meditação, e o terceiro levanta-se quando nos vê e a primeira coisa que diz é «punk is not dead» com um gesto de cornos salpicados de terra.

    Chegamos à Quinta de Vila Meã, também conhecida como Quinta do Mitra, e é dia de trabalho comunitário na horta. O grande plano para a tarde é cortar o azevém verdeal, cultura de sete anos que «come as ervas daninhas», mas antes ainda há que cuidar do viveiro, dar um jeito aos canteiros, colher as sementes de fava, e experimentar novos engenhos para afastar a passarada das culturas mais tenras – como a palete pousada sobre a sementeira de alface ou a construção de paus espetados que faz uma cúpula por onde vai crescer o feijão.

    Aquele lugar suburbano, hoje confinado a um beco quase sem saída, já foi porta de entrada na cidade, com caminho directo até ao centro histórico do Porto. Quem hoje arrisca sair da rotunda para uma passagem sombria por baixo do viaduto, encontrará a calçada granítica que desemboca num muro de betão grafitado sob a escadaria que vai dar à estação. À esquerda, eis a única resistente das três casas de lavoura que o lugar ali congregava noutros tempos. O alargamento da estação de Campanhã e a construção da Via de Cintura Interna (VCI) levaram à expropriação da família Mitra (os últimos proprietários da quinta), no lugar da antiga passagem de nível de Vila Meã. A associação Movimento Terra Solta tomou conta do espaço em finais de 2011, num acordo com a Junta de Freguesia de Campanhã, a quem a Câmara havia doado a Quinta em regime de comodato. Hoje querem voltar às origens e preservar o nome mais antigo – estão até a tentar dar o nome à Rotunda de Vila Meã.

    «Quem entra no portão ou vem ensinar ou vem aprender, ou que faça as duas coisas», explica o Nuno Moutinho, presidente da associação Movimento Terra Solta, sobre a forma de participação nesta horta onde não há talhões individuais, «todos os camalhões são redondos» e «tudo é de todos que a trabalham». O plano geral dos trabalhos é definido em reuniões convocadas como assembleias gerais e «os recém-chegados são orientados nessas tarefas até ganharem autonomia». Sobre a partilha das colheitas, esclarece: «primeiro, aquilo que nós produzimos é para distribuir por quem nos ajuda. Nós não vendemos nada disto, ou usamos nos nossos almoços ou, quando temos em excesso, cada um leva para casa».

    Aproximamo-nos de um balcão com dezenas de pacotes de leite transformados em vasos com mudas de sobreiros, carvalhos, castanhos, pinheiros mansos, algumas nogueiras e primeiras experiências de oliveiras e cerejeiras. O viveiro de árvores autóctones é um dos projectos mais vívidos da Quinta de Vila Meã. «Começámos por fazer sementeira com fisgas numa serra próxima, depois de irmos buscar bolotas aos bairros da cidade do Porto», conta o Nuno Moutinho sobre os primórdios do projecto de reflorestação, que foi ganhando dimensão e capacidade até aos dias de hoje, em que distribuem árvores para várias zonas do país afectadas pelos incêndios. «Eles acendem um fósforo e nós vamos lá apagar com duas árvores», acrescenta Vítor Parati, responsável pelo viveiro e pela área da reflorestação, que ainda há pouco passava com uma grande beterraba na mão.

    Chamam-nos da sala de convívio para dizer que o almoço está pronto, como todas as quartas e sábados, dias de trabalho comunitário na horta, abertos a todas as pessoas que queiram vir aprender ou ensinar. «Só pedimos uma coisa», diz o Nuno antes de abalar, «não nos avisem que vêm».

    Dia de trabalho colectivo na Horta da Partilha. Foto: Luísa Carvalho, 2015
    Dia de trabalho colectivo na Horta da Partilha. Foto: Luísa Carvalho, 2015

    Horta da Partilha

    Lá para os lados de Arca d’Água, bem perto do lugar onde o estádio do Salgueiros alagou, encontramos a Horta da Partilha, implantada nos terrenos de uma antiga quinta agrícola com mais de 15 anos de pousio. O terreno, com uma área total de cerca de 3.500 metros quadrados, foi cedido em 2012 através de um acordo informal. Sara Alves, matriarca da Partilha – e guardiã do acordo – namorava pela janela aquele baldio escondido sempre que se dirigia a um estabelecimento de serviços local. Conversa-puxa-conversa e rapidamente chegou o aval para meter as mãos na terra.

    O objectivo era criar um espaço de experimentação de permacultura e de agricultura natural, que permitisse preservar o espaço da antiga quinta e os seus recursos naturais. Uma horta comunitária onde as pessoas interessadas pudessem trabalhar em prol do todo, partilhar conhecimentos e experiências agrícolas e simplesmente desfrutar dos ares do campo na cidade – com o som dos carros na VCI ao fundo que, em dias claros, quase parecem as ondas do mar. Desde então a horta vai-se fazendo pelas mãos de gentes que por lá passam, sempre com a orientação da guardiã septuagenária.

    Planeada como um todo indivisível (definindo que a utilização do espaço é sempre colectiva), a Horta da Partilha inclui zonas de hortícolas, pomar, charcos, estufa, compostagem, aromáticas e zonas mais extensas, quase por explorar, incluindo um bosque de carvalho e loureiro, que em certas noites de Verão presenteia os hortaleiros com um espectáculo de pirilampos luminescentes. Em tempos teve galinheiros, culturas de cereais, colmeias, e chegou a fazer parte da Associação para a Manutenção da Economia de Proximidade, num esquema de trocas entre «prossumidores» com recurso à moeda social ECOSOL (ver Jornal Mapa n.º 19).

    Não demasiado aberta, nem completamente fechada, na Partilha não existe uma estrutura associativa formal (ao contrário do Musas e Terra Solta), tornando talvez mais opaca a forma de organização e as condições de participação. O grupo informal vai reunindo conforme as necessidades das pessoas e da terra para tomar decisões, delinear futuras investidas e também pelo convívio – normalmente, a cada virada de estação, há uma festa para celebrar as colheitas, onde se acende a fogueira e convoca a sabedoria popular e os espíritos pagãos.

    Quanto ao acolhimento de novos compartes, este envolve sempre o acompanhamento de alguém mais experiente nas lides da horta, como a Luísa Carvalho e a Filipa Almeida, hortelãs ininterruptas da Partilha desde 2015. Para elas a horta é «um espaço onde nos podemos encontrar, partilhar experiências e aprender com os erros (…) uma experimentação de todas as pessoas que gostam de estar na terra, de tempo de cura e de convívio». E acrescentam: «claro que todos gostamos de levar para casa aquilo que cuidamos desde a sementinha (…) mas o objectivo nem é vender nem produzir massivamente». Participam numa feira por ano para angariar uns trocos para as ferramentas e vão fazendo vaquinhas extra para cobrir alguns investimentos em infraestruturas, como o sistema de rega. Pelo caminho, vão experimentando, aprendendo, observando «quando é que a semente germina espontaneamente na terra» para saber que «esse é o tempo dela e não quando nós queremos».

    Tal como a vontade própria das sementes, também há circunstâncias que condicionam a continuidade destas hortas, já que a posse da terra é alheia e o futuro é incerto. No caso da Partilha, o proprietário poderá, quando entender, recusar a cedência – avisando com o tempo necessário para que seja feita a colheita. Será essa uma das maiores fragilidades destas hortas: as condições de acesso à terra. Ao contrário dos baldios ancestrais, aos quais se reconhece uma titularidade própria de base comunitária – distinta da propriedade publica-estatal e privada-mercantil – estes «baldios» urbanos regenerados ora são arrendados, cedidos ou ocupados, deixando-os sempre à mercê dos donos da propriedade. Não obstante, a terra não olha a posses – é generosa – e as plantas continuam a crescer.


    Autora: Sara Moreira (saritamoreira@gmail.com)
    Fotos: Margarida Peixoto (Terra Solta), Luísa Carvalho (Horta da Partilha)
    e Frederico Lobo (Musas)
    Revisão: Mariana Vieira
    Artigo publicado originalmente no Jornal Mapa #24
    (Julho-Setembro 2019)
  • Comunix:

    Comunix:

     

    Num ano trágico que pôs o país a olhar para um interior desertificado e a reclamar soluções para o mundo rural e florestal, a governação de terras comunitárias foi o tema de fundo de  uma Escola de Verão que juntou dezoito jovens da Galiza, Portugal e Itália no passado mês de Agosto, em torno da realidade dos baldios e dos montes vicinais. A Escola Comunix terminou com uma apresentação pública no dia 2 de Setembro, no Clube
    Recreativo de Vilarinho, Lousã, onde os jovens compartes, os promotores do projecto e os gestores das áreas comunitárias associadas partilharam as suas impressões sobre o caminho percorrido.

    Ao longo de quinze dias, repartidos entre Pontevedra e Vilarinho da Lousã, os jovens visitaram diversas comunidades locais, onde puderam conhecer de perto diferentes abordagens de gestão e aproveitamento de recursos comuns, confrontando-se com os desafios que as áreas comunitárias enfrentam.

    Fizeram-no, por exemplo, num dia de pastoreio em Pontevedra, onde puderam “viver a realidade” dos pastores de cabras no monte, enquanto aprendiam sobre o dia-a- dia daquela cooperativa galega. Em visita aos Baldios dos Lugares da Extinta Freguesia de Vilarinho, viram-se em mãos com alguns dos problemas reais com os quais aquela comunidade de compartes se debateu nos últimos anos, ficando a seu cargo a proposta de soluções possíveis. Através de rodas de conversa, os jovens exercitaram a busca de consensos e a tomada de decisões horizontal sobre formas de melhorar a situação daquelas terras colectivas.

     

    “Quando as gentes cuidam do monte, o monte também cuida das suas gentes

    Na abertura da sessão “A Escola Comunitária vista pelos participantes” no seminário final Comunix, salientou-se como «o abandono das terras é o panorama geral que ninguém consegue esquecer. Pior é sabermos que o desígnio deste problema é vinculado ao longo de todo o território pelos mais diversos proprietários do solo que não sabem reverter este processo. Este problema começa a atingir no mínimo o intolerável a partir do momento em que temos aldeias-fantasma ou territórios simplesmente entregues ao tempo.»

    De dedo apontado à “privatização dos montes pelas grandes empresas que exploram os recursos e levam todos os lucros para fora”, deixando as comunidades sem terras nem oportunidade para desenvolver novos projectos, os jovens ressaltaram a necessidade de leis que protejam as propriedades comunitárias e fomentem a criação de projectos cooperativos. Preocupados com a preservação ambiental dos montes, mas também com o desemprego, o empobrecimento e o abandono das zonas rurais, defenderam o potencial de criação de valor económico e social dos baldios através da adopção de “modelos diversos e diversos
    aproveitamentos”, permitindo que “mais comunidades vicinais possam viver destes montes”.

    Um dos jovens participantes na escola de verão alertava como «o meu vínculo com a terra permite-me dizer hoje, perante esta plateia, que se um local não tem as condições ideais para uma família lá viver ou uma empresa lá laborar, alguém falhou, e isso é muito grave. Para finalizar, o gosto que alguém tem por um local por si só não chega para o recuperar, mas é condição necessária para o fazer.»

    Nas lições que levam da escola, os jovens lembraram ainda a importância da divulgação da realidade dos baldios (“não há interesse pelo que não se conhece”), e o papel fundamental da educação para que as várias gerações estejam conscientes e capacitadas para a gestão e participação democrática nos destinos das terras comunitárias – ideia que resumiram nas palavras da Rita Serra, coordenadora da Escola Comunix e investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, “a maior fraqueza dos montes é a ignorância das pessoas, que não sabem que são parte deles”.

    O seminário final Comunix contou ainda com intervenções dos parceiros do projecto na Galiza (Cooperativa Cultural Trespés), Itália (Partecipanza Agraria de Nonantola) e Portugal (Baldios dos Lugares da Extinta Freguesia de Vilarinho, Lousã), com interlúdios musicais de ANALOG ART MAN, e com a apreciação institucional do projecto pela Agência Nacional do Erasmus + Juventude em Acção (entidade financiadora), Câmara Municipal da Lousã e Junta de Freguesia da Lousã – Vilarinho. O fecho coube à euro-deputada Marisa Matias, responsável pelo intergrupo dos bens-comuns no Parlamento Europeu.

     

    Sara Moreira

    saritamoreira@gmail.com

  • Baldio da Serra de Serpa

    Baldio da Serra de Serpa

    Até há um século atrás o mais vasto território comunal do país situava-se a Sul na raia de Serpa. O baldio da Serra de Serpa totalizava perto de 40.000 hectares delimitados a Norte pela Aldeia Nova de São Bento, a Sul pelo concelho de Mértola, a nascente pela Ribeira de Chança e Vila Verde de Ficalho e a poente pelo Rio Guadiana. A forma como este baldio desapareceu é um perfeito retrato de como o fim da gestão comunal de um território descrito em 1751 como “um matagal que havia sido anteriormente uma selva natural”, obedecendo à demanda da agricultura intensiva, resultou na desértica aridez dos solos.

    O mel serve de narrativa inicial a esta história. Se as abelhas falassem, zumbiriam tal como hoje o drama dos incêndios de mão humana e a perda dos seus horizontes. A acidentada Serra de Serpa era um extenso matagal de azinheiras, sobreiros e vegetação arbustiva com predomínio da esteva, rosmaninho, alecrim, urze, lentisco, sargaço, medronheiro, etc. Aí durante seis séculos o uso comum da lenha e pastos conviveu com uma peculiar concessão privada do uso do baldio que, remontando à Idade Média, foi regulamentada no final do século XV no chamado Aranzel das Malhadas. As 26 malhadas concessionadas somavam perto de 10.000 colmeias, com o cuidado de abarcar em torno de cada malhada uma légua colmeeira para garantia dos pastos florais desse gado do ar.

    A sobreposição desses direitos e usos comuns no baldio veio a acentuar-se nos séculos XVII e XVIII. A apicultura comportava uma relação com o pastoreio e a agricultura que colidia na prática incendiária das roças para conquista de terras. Esta é acentuada em 1690 com a instituição do Celeiro Comum de Serpa com o qual se dá início à perda das terras comunais. O arrendar do baldio em troca de um sexto do cereal das roças abriu caminho ao manifesto desprezo dos usos e recursos da serra. Desordenados cortes de madeira e queimadas que levam à infrutífera proibição régia das roças em 1726, para que a serra voltasse a ser terreno baldio, para que se não lavrasse lá e se restabelecesse o seu uso comum. Repetem os Juízes da serra – que haviam substituído a gestão medieval dos homens bons ou homens antigos – a importância de evitar-se cortes de mato e arvoredos das serras.

    Em maio de 1775 o povo de Aldeia Nova de S. Bento dirige-se a Serpa, em grande clamor para “se acabar com a prática de alguém ter eitos na Serra de Serpa ou de possuir o usufruto de parte dela, pois deveria ficar totalmente para pastos comuns a utilizar por todos”. Quatro anos depois reclamam, com respeito pelos direitos das malhadas, que tão pouco lhes deveria ser impedido colocar as suas colmeias ao pé das moitas.

    Somado ao não pagamento dos foros, chega a surgir em 1897 a proposta de uma Colónia Militar Agrícola e Disciplinar na Serra de Serpa. A questão no século XIX era a falta de trigo e o aumento demográfico. Dessa pressão resulta o aforamento do baldio em lotes. E rapidamente à Câmara de Serpa surgem disputas entre vizinhos e freguesias e a soberba de proprietários. Em 1904, uma firma de Lisboa pretende abarcar o aforamento da Serra de Serpa, que aprovado inicialmente veio a ser anulado judicialmente face à onda de protestos. Em 1906, inicia-se por fim a desamortização do maior baldio do país.

    Uma iniciativa que rapidamente se revelou desastrosa para os povos e lucrativa para as grandes famílias que concentram a propriedade. Contra qualquer lógica sã e natural, cabe a um empreiteiro de obras públicas de Serpa impor uma grelha geométrica que resultará em 5516 lotes de 6 hectares, sendo às malhadas concedidos 18 hectares. Da ilusão mercantilizada e colonizadora resultou a destruição dos pastos comunais e afetada a riqueza secular das abelhas. Sorteadas as terras, seguiu-se a intensificação da cultura cerealífera. Resta na paisagem as ruínas dos montes. Sol de pouca dura em terras pobres. Esgotados os solos, as glebas foram vendidas e abandonadas aos grandes proprietários.

    Caía por terra a ilusão da propaganda agrária que desmantelou o baldio, uma terra comum com lugar à concessão de malhadas respeitando a natureza do lugar. A diabolização modernista do Portugal inculto inscrito na política nacionalista da agricultura nunca quisera ouvir os ensinamentos do voo do gado do ar. Já não restam muitos matos por onde este andaria. Mas fica o convite feito, com início num conjunto de roteiros pedestres do concelho de Serpa, a descarregar no site municipal e de que destacamos o PR3 – Vila Verde de Ficalho (12,6 km), para reler de outro modo a paisagem do outrora baldio da Serra de Serpa.

  • Baldios de Vilarinho: entrevista a Rita Serra

    Baldios de Vilarinho: entrevista a Rita Serra

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    Os baldios de Vilarinho na Lousã filmados em En Todas as Mans foram durante 3 anos um caso de estudo em torno da gestão comunitária da floresta. Rita Serra, a investigadora responsável por esse projecto, respondeu a algumas questões que lhe colocámos animada pela discussão fundamental sobre a governação dos recursos comuns e as relações possíveis e desejáveis entre os seres humanos e os recursos naturais. Um campo polarizado e foco de controvérsias entre distintas correntes de pensamento académico e propostas políticas, tal como expresso claramente nesta entrevista pela investigadora do Centro de Estudos Sociais de Coimbra. Posições que abrem campo à discussão de noções que vão da floresta comunitária à crise da democracia e a democracia directa, sem esquecer precisamente a criação de bens comuns.

     

    [Entrevista realizada por Filipe Nunes e publicada na versão impressa nº10,  em Julho de 2015]

     

    Os baldios de Vilarinho são o exemplo português de En todas as Mans. Mas não será antes este a excepção à regra da verdadeira realidade dos baldios em Portugal. Um dos poucos – dos cerca de 20% – de compartes que se gerem directamente sem co-gestão do Estado; um raro exemplo de quem se opôs ao Estado e viu reconhecido esse vínculo comunitário e não estatal da gestão do território; um dos poucos – senão o único – que se viu envolvido num projecto académico que veio à procura e pretendeu valorizar a gestão comunitária… Afinal que história é essa do Vilarinho no quadro dos baldios, o que tem de comum, o que a distingue? Regra, excepção?

     

    Rita Serra: Em Portugal existem cerca de 1441 baldios e é difícil saber o que constitui ou não regra porque estas experiências não estão estudadas em profundidade quanto às formas de utilização e gestão de recursos naturais e quanto à sua importância para as populações locais. Os baldios de Vilarinho no Município da Lousã representam um exemplo duma forma de possível gestão da floresta dos baldios: a gestão comunitária da floresta tendo em conta múltiplos usos, entre os quais a exploração comercial de madeira sem fins lucrativos, tendo como propósito o benefício da população local. As empresas florestais comunitárias (efc) são um modelo de dimensão internacional, que existe tanto em países do Norte global, como a Itália, como em países do Sul global, como o México. O modelo das efc é defendido por alguns académicos e consultores de organizações internacionais, como a FAO, como uma forma das comunidades locais se “adaptarem aos tempos modernos” e aproveitarem os recursos do mercado para a criação local de empregos qualificados, gerirem de forma sustentável a floresta e terem capacidade de prover bens públicos, tais como a construção e reparação de infraestruturas locais, apoio social, eventos culturais, entre outros. Os baldios de Vilarinho no documentário En todas as mans não pretendem ser um exemplo representativo dos baldios em Portugal, assim como nenhum dos outros casos pretende ser representativo dos montes veciñais en man común na Galiza. Na minha visão, pretendem ser exemplos demonstrativos do potencial que a gestão comunitária tem para oferecer às populações locais quando os dilemas e obstáculos da ação coletiva conseguem ser superados para gerir os recursos em comum.

    A política de devolução dos baldios às populações locais após o 25 de Abril de 1974 ofereceu duas possibilidades à comunidade de compartes: gerir em exclusivo os seus territórios ou a cogestão com o Estado. Muitas comunidades de compartes optaram pelo modelo de cogestão com o Estado pois não tinham desenvolvidas as capacidades necessárias para gerir um recurso natural com a qual não estavam familiarizados: a floresta moderna baseada na gestão científico-técnica. Neste ponto, temos de assinalar que o uso florestal não predomina em todos os baldios. Originalmente, os baldios eram espaços agro-silvo-pastoris, onde se combinava a recolha de matos com a pastorícia e a recolha de lenha, entre outros usos para satisfazer as necessidades da população local. Em muitos baldios, predomina o uso da pastorícia, tal como exemplificado por alguns dos casos galegos no documentário. Nas áreas que não estão submetidas ao regime florestal, a gestão é feita sem intervenção do Estado. Nos baldios que optaram pelo regime de cogestão das florestas, na prática este funcionou como uma distribuição de rendimentos entre a administração do Estado e a comunidade de compartes.

    Tal como em muitos outros lugares do mundo, as populações locais reclamam para si a gestão florestal quando o Estado é incapaz de gerir o recurso de forma a trazer benefícios às populações locais. Como resultado de sucessivas reformas da administração pública nas últimas décadas alinhadas com a ideologia neoliberal, os serviços florestais foram submetidos a uma instabilidade e vulnerabilidade institucional crescente que os descapacitou para gerir de forma sustentável as florestas e fazer frente a novos problemas, como os incêndios de grandes dimensões, as espécies invasoras e o nemátodo-da-madeira-do-pinheiro. Simultaneamente, o autoritarismo dos serviços florestais herdado do passado face às populações locais persistiu, motivando a revolta dos locais perante o passivo ambiental que se acumulava através de décadas de má gestão. O propósito original das políticas revolucionárias era capacitar progressivamente as populações locais para gerirem os seus próprios recursos, o que nunca veio a acontecer. No entanto, algumas comunidades de compartes foram adquirindo progressivamente recursos cognitivos para compreender os impactos negativos que resultavam da gestão insustentável das florestas para as populações locais e a sociedade em geral, e os benefícios que poderiam resultar da gestão comunitária. Através de rendimentos próprios e duma política descentralizadora do Estado na área da defesa da floresta contra incêndios, o programa dos sapadores florestais, muitos baldios são hoje capazes de assegurar a tempo inteiro ou parcial os profissionais florestais para assegurar a gestão científico-técnica das florestas sob controlo da comunidade de compartes, e contam com os recursos humanos necessários para levar a cabo atividades de silvicultura preventiva nos seus territórios. À medida que as comunidades de compartes vão gradualmente adquirindo capacidades para a gestão em exclusivo das florestas, as sucessivas reformas do Estado submetido a ciclos crescentes de dívida e austeridade minam cada vez mais a capacidade do Estado prover bens públicos a nível local. Os baldios oferecem a possibilidade das populações locais contarem com recursos próprios para a provisão de bens públicos em situações de necessidade. Talvez possamos assistir a uma tendência para mais florestas serem geridas em exclusivo pelas comunidades de compartes no futuro, se conseguirem ultrapassar os desafios da organização local.

    O direito à posse, uso e gestão dos baldios pelas comunidades locais está inscrito na Constituição da República Portuguesa, artigo 82, ponto 4 alínea b. Por isso, todas as populações locais que reclamaram os baldios até hoje têm os seus direitos reconhecidos pelo Estado, mesmo os que estão em cogestão. Talvez a singularidade dos baldios de Vilarinho na Lousã seja a abertura do Conselho Diretivo à possibilidade de promover ativamente a participação e o envolvimento de novos compartes na governação da floresta, tendo em vista a sustentabilidade social do projeto de recuperação da floresta que iniciaram há poucos anos e que tem em vista trazer benefícios não só à população atual mas também às gerações vindouras. Certamente que a experiência de colaboração entre o Centro de Estudos Sociais de Coimbra e a Comunidade de Compartes dos Baldios de Vilarinho para a gestão comunitária foi uma novidade, mas uma primeira experiência não significa que venha a ser a única experiência. É um caminho que começou a ser percorrido.

     

    Tens vindo a procurar explicar a vida e a memória dos baldios através dos cogumelos. Podes dar-nos uma ideia do que iríamos conhecer numa caminhada sobre cogumelos no Vilarinho?

     

    Rita Serra: Os baldios e as populações locais sofreram um processo histórico violento de desvinculação desde o final do séc. XVIII e XIX até aos dias de hoje. O que pretendemos com as caminhadas sobre cogumelos é por um lado, promover dois novos usos nos baldios – a apanha não comercial de cogumelos silvestres e as caminhadas – e por outro, abrir a possibilidade de vincular as pessoas através destes novos usos ao governo comum do território. As caminhadas sobre cogumelos são uma organização conjunta entre o Centro de Estudos Sociais de Coimbra e a Comunidade de Compartes dos Baldios de Vilarinho que tem lugar todos os anos, onde procuramos dar a conhecer simultaneamente a diversidade dos cogumelos silvestres e a história ambiental e social dos baldios. As espécies que existem no baldio são indissociáveis dos usos de terra que têm lugar no presente, que tiveram lugar no passado e que podem existir no futuro. Elas são a prova viva duma história que deixa marcas, mesmo quando a memória se apaga. Procuramos resgatar essa memória ao passar pelas árvores plantadas pelos compartes, depois pelos serviços florestais, e depois pelas invasoras, contando a partir dos cogumelos uma história duplamente invisível: a que se esconde na terra junto às raízes das árvores, e as práticas florestais humanas que moldaram e moldam a paisagem ainda hoje. Os cogumelos são assim uma porta de entrada para caminhantes diversos se encontrarem e tomarem contacto com as responsabilidades que podem assumir perante um recurso comum. Nas caminhadas é frequente haver pessoas que descobrem pela primeira vez que são compartes e as instituições que governam democraticamente os baldios. É também uma porta aberta para estudantes, investigadores e ativistas ambientais e políticos conhecerem uma realidade não muito divulgada onde têm a oportunidade de caminhar juntos e conversar com as pessoas que administram este recurso. Através das caminhadas, alguns compartes começam a envolver-se com os baldios e ter vontade de integrar uma narrativa que foi interrompida pela ocupação das terras comuns pelo Estado. No fundo, esperamos abrir espaços para a emergência do que no documentário alguns descrevem como o sentimento de que fazemos parte dum lugar – esse é o vínculo que está na base do conceito de comparte e de vizinho, que foi quebrado historicamente e que nos deixou desde então uma necessidade que até agora a sociedade moderna não foi capaz de satisfazer.

     

    Tomo as palavras no documentário de Eugénia Rodrigues, engenheira florestal dos baldios do Vilarinho, que refere como a floresta não são as árvores, mas as pessoas, apontando como o ponto fulcral e frágil de qualquer gestão florestal precisamente as comunidades. Esta observação indesmentível em qualquer território ganha porém acrescido sentido quando falamos dos baldios, de gestão comunitária. Como a floresta, os baldios são as pessoas, a comunidade. Nesse sentido serão milhares os que em teoria respondem directamente pela gestão do território do baldio, mas na prática são meia dúzia ou escassas dezenas os que comparecem numa assembleia de compartes e assumem a sua cota parte. A gestão comunitária desliza nesse ponto frágil à semelhança do modelo de delegação representativa que enforma o nosso dia-a-dia. E os órgãos directivos dos compartes tão pouco creio que sintam essa revogabilidade e escrutínio assembleário, mais do que o escrutínio eleitoral em que acaba por se resumir. Na abordagem que coordenaste pelo CES no Vilarinho e na relação que mantêm até hoje o que encontraste nesse campo da participação comunitária?

     

    Rita Serra: A importância da participação comunitária na governação democrática dos recursos comuns é algo que não pode ser subestimado. Trata-se duma herança do processo revolucionário que determinou a devolução dos baldios aos seus legítimos utentes – os povos. No entanto, como já mencionámos brevemente, a relação das populações locais com os baldios foi dramaticamente alterada ao longo do tempo. Desde os finais do séc. XVIII e XIX que os baldios foram alvo de várias vias de desapossamento. Uma das vias foi a privatização através da municipalização da administração. Apesar das populações locais poderem usar e fruir os baldios para os fins tradicionais, as câmaras podiam dispor dos baldios para gerar rendimentos económicos, para alienar terra a fim de dotar os novos residentes com “casa e horta” e para fins de interesse público, como por exemplo a construção de instalações. Por diversas vezes os mais pobres foram lesados pelas elites locais e chegaram mesmo a apelar às Cortes. Outra via foi a divisão dos baldios em parcelas de acordo com a necessidade de matos, o que beneficiava os mais ricos com maior proporção de terras privadas em detrimento dos que não tinham outra terra além das áreas comuns. Durante o Estado Novo sofreram a via da nacionalização, mas que teve a virtude de não fragmentar as terras comuns o que facilitou o processo de devolução no período revolucionário. As instituições para a governação comunitária das terras comuns foram sistematicamente erodidas e violentadas ao longo dos anos, e em muitos lugares os moradores perderam as práticas de governar os recursos de forma comunitária.

    Na ausência de usos e costumes locais, a lei dos baldios propôs e impôs um modelo de governação democrático baseado na assembleia dos compartes, onde todos os residentes duma área geográfica com direitos históricos de uso e fruição poderiam participar a fim de eleger, se assim o desejassem, um Conselho Diretivo ou delegar poderes de administração noutra entidade, tipicamente a junta de freguesia, e votar a aprovação do plano de atividades e relatório de contas, com subsequente distribuição de verbas às instituições locais capazes de prestar serviços à comunidade. Assim, as assembleias de compartes são um espaço aberto à participação de todos os residentes, pois em Portugal o estatuto de comparte e o direito à participação é concedido automaticamente a todos os residentes sem restrições assim que têm capacidade de votar. As assembleias de compartes são espaços onde as pessoas podem verdadeiramente fazer a diferença e experimentar a democracia. No entanto, apesar de ser um espaço aberto, existem vários obstáculos à participação que fomos identificando ao longo do tempo no âmbito do projeto SCRAM – crises, gestão de risco e novos arranjos para as florestas que teve lugar entre 2010 e 2013 financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e no âmbito da colaboração que temos em curso com a Comunidade de Compartes dos Baldios de Vilarinho. Um dos obstáculos mais importantes e que já referimos é a desvinculação dos compartes dos usos do baldio e da sua história, que atinge o extremo com o desconhecimento da existência das instituições de governação comunitária a nível local. Outro obstáculo prende-se com a crise profunda da democracia nas sociedades ocidentais. A política tornou-se sinónimo de lutas pelo poder, o que nos baldios se pode materializar na forma de conflitos locais. A dimensão do conflito é constitutiva à criação de bens comuns e pode fazer parte dum processo saudável de escrutínio de melhores formas de trazer benefícios às populações locais, mas também pode ser destrutiva e mesmo violenta, colocando em oposição grupos sociais com distintas capacidades e poder para se apropriarem de recursos comuns. Este potencial para a existência de conflito não precisa de se verificar para afastar os compartes das assembleias, e é o reflexo da descapacitação progressiva dos cidadãos em lutarem coletivamente pela realização de bens comuns. Outro obstáculo é a capacidade de assumir responsabilidades perante os bens comuns de forma não remunerada. Numa sociedade em que cada um está sujeito a uma severa autodisciplina a fim de adquirir as capacidades necessárias para ter valor no mercado de trabalho, qualquer trabalho comunitário se torna numa atividade dispendiosa de tempo. As mulheres podem ser excluídas da participação por outros motivos, em particular pelo acumular do trabalho com tarefas domésticas e pelo cuidado de filhos pequenos.

    Apesar de na prática a abertura das instituições democráticas à participação dos cidadãos não corresponder às expectativas da teoria, existe uma diferença fundamental entre o modelo de democracia direta e o de democracia representativa que está atualmente em crise: o último implica uma delegação integral de poderes dos cidadãos nos governantes sem direito a apelo a não ser o voto nas eleições. Por esta razão, o sistema de democracia representativa pode resultar na atual oligarquia de partidos, em que as decisões adquirem um carácter de irreversibilidade enquanto os mandatos estão em vigor. Na democracia direta as instituições mantêm uma porta aberta para reverter, impedir ou modificar as decisões, o que obriga a um trabalho mais exigente da parte da administração e dos participantes na assembleia para produzir decisões de maior qualidade. Tudo isto requer condições políticas e capacidades pessoais e coletivas para o exercício virtuoso da democracia que só podem ser adquiridas através da prática, mas esta é a forma de construir consensos a longo prazo sobre o que pode ser um projeto ao serviço do bem comum, como é o caso da recuperação duma floresta degradada com altos custos de investimento tendo em conta o bem-estar das gerações vindouras.

     

    A abordagem entre 2010/2013 pelo CES no Vilarinho aportou ferramentas e cientificidade na gestão florestal, particularmente úteis no combate às espécies invasoras, mas que levanta algumas questões de maior âmbito. Uma das áreas que trabalha é “sobre as interações ciência-sociedade que resultam numa boa vida para as comunidades humanas e em ecossistemas sustentáveis.” Mas em que medida formar um quadro técnico de saber científico, ou um relatório legitimado pela academia, não é formar apenas um quadro dirigente numa gestão que afasta a participação não técnica ou a relega para um segundo plano? Como conciliar o contributo e o discurso dos primeiros num plano de horizontalidade com os demais? Como ultrapassar o país dos engenheiros e doutores, mais ainda nas encostas de um baldio, onde se esperaria que os compartes não sejam chamados apenas a decidir localmente o destino dos dinheiros?

     

    Rita Serra: Quando nos cruzámos com os baldios de Vilarinho no âmbito do projeto SCRAM, o Conselho Diretivo já tinha apoio técnico especializado para a gestão da floresta através de Eugénia Rodrigues. Procurámos trabalhar com ela e com o Conselho Diretivo para trazer pontualmente recursos que pudessem contribuir para um conhecimento multidisciplinar mais ampliado do território, mas deparámo-nos com uma série de desafios específicos aos modos de produção de conhecimento que pretendem ter relevância local. A produção de conhecimento científico tem dificuldades em escapar às pretensões de universalidade, pois de alguma forma assenta no pressuposto de que isso a diferencia do senso comum e do conhecimento local. Assim, frequentemente as suas recomendações são inúteis até serem traduzidas, transformadas e apropriadas pelos que vão agir a nível local para transformar o território. O combate às espécies invasoras é um exemplo disso: com base no conhecimento científico-técnico disponível através da sua formação profissional e dos recursos da academia, Eugénia Rodrigues está a inovar e experimentar formas de combater localmente o problema. O protocolo de colaboração que o CES estabeleceu com a Comunidade de Compartes dos baldios de Vilarinho assenta numa interpretação particular da ecologia de saberes de Boaventura de Sousa Santos onde se encontram, e por vezes se confrontam, os saberes científicos, profissionais e locais. Não se parte do pressuposto que a academia tem o conhecimento e os compartes a ignorância, nem vice-versa. O conhecimento tem de ser posto à prova, e a sua validade é verificada a posteriori, não a priori. Assim, a validade do conhecimento técnico, científico e local não assenta exclusivamente no status dos seus detentores. Ele está necessariamente aberto à revisão e à apropriação mútua. Por esta razão, é essencial um processo de construção de confiança, responsabilidade e precaução na experimentação para arriscar com segurança.

    Acreditamos que o contexto atual da floresta comunitária é particularmente favorável à criação de ecologias de saberes, por duas razões. A primeira é que os baldios que herdaram ou pretendem gerir florestas de forma moderna precisam do saber técnico, pois a floresta e as espécies utilizadas são muito diferentes dos sistemas agro-silvo-pastoris tradicionais. A segunda é que nos baldios os compartes têm autonomia para tomar as suas decisões. A conjugação destas duas condições torna a gestão comunitária muito exigente para os profissionais florestais que precisam de aprender a trabalhar num contexto muito diferente do Estado, tradicionalmente baseado em relações autoritárias. Este contacto íntimo e tensão entre saberes técnicos e não técnicos pode resultar em aprendizagens mútuas e novos conhecimentos, mas também pode levar a tecnocracias em pequena escala. Mais uma vez se destaca a importância da participação dos compartes nas assembleias, mas salienta-se que a participação num contexto onde os saberes são postos à prova é um processo exigente e sujeito a escrutínio, e tem de o ser, pois estão em causa decisões coletivas sobre bens comuns.

     

    Os Baldios são hoje apenas um espaço comunitário praticamente rendido ao seu usufruto económico e produtivista. Parece haver simplesmente como ambição a integração e dependência no contexto económico que nos rodeia, o qual funciona sempre numa base de assédio mercantilista constante. Mas território e bens comuns são mais do que isso e dessa percepção mais alargada dependem enquanto futuro natural e enquanto comunidade. Creio que faz por isso sentido falar dessa percepção mais alargada. Como a entendes? Está a mesma de alguma forma patente no Vilarinho?

     

    Rita Serra: O modelo de floresta comunitária gera grandes expectativas para resolver problemas complexos onde o Estado e o Mercado falharam, e cumprir com objetivos como a sustentabilidade ambiental, dinamização de economias locais e justiça social na distribuição dos rendimentos. Estas expectativas são acrescidas por se tratar duma propriedade coletiva gerida em comum, o que de alguma maneira evoca no nosso imaginário formas alternativas de relacionamento social entre as pessoas que não seja o predomínio das relações capitalistas. Entre os académicos, a gestão comunitária de recursos naturais passou por fases de encantamento e desencantamento, quando os estudos empíricos não foram capazes de estar à altura das expectativas. Imediatamente após a devolução dos baldios, Portugal recebeu a atenção de investigadores nacionais e internacionais que procuravam averiguar se a propriedade coletiva podia conduzir efetivamente ao comunismo. O resultado foi em muitos casos uma desilusão, com a degradação de recursos naturais, apropriação individual e captura dos baldios para benefício das elites locais, em detrimento dos mais pobres. Desde então, diversos estudiosos, como por exemplo Elinor Ostrom laureada com o Prémio Nobel na área da economia, procuraram compreender quais as condições necessárias para a emergência da ação coletiva e a governação sustentável dos bens comuns. No entanto, mesmo quando os recursos são geridos de forma sustentável podem continuar a existir relações hierárquicas nas comunidades a longo prazo, que podem conduzir a uma apropriação desigual dos bens.

    No relatório final do SCRAM, Raúl Garcia-Barrios, nosso amigo e investigador da Universidade Nacional Autónoma do México, definiu a floresta comunitária como um sistema de práticas de uso, gestão e governação da floresta e dos seus recursos que são realizadas num território de propriedade ou uso e fruição compartilhado por uma população humana que trata de satisfazer, mesmo que de maneira parcial, um sistema de necessidades construído em função de uma noção mais ou menos coerente de bem comum e no contexto estabelecido por uma ecologia evolutiva complexa de poderes e de saberes. É com este conceito com o qual temos vindo a trabalhar desde então: a floresta comunitária como um espaço para a existência de práticas sociais potencialmente formadoras de comunidades humanas que procurem contribuir para o bem comum. A nível de formação de comunidade, Vilarinho enfrenta um desafio gigantesco, o mesmo desafio que enfrenta toda a sociedade moderna: criar vínculos entre os seres humanos, com o território e com as espécies que nele vivem. A sustentabilidade social do projeto de recuperação da floresta para produzir bens comuns depende disso.

     

    Tens anunciado um livro sobre o regime jurídico e fiscal dos baldios, junto com José Augusto Ferreira da Silva, que julgo particularmente crítico à nova Lei dos Baldios pela ameaça de privatização e pelo ataque aos aspectos comunitários. Independentemente do parecer pendente do Tribunal Constitucional à Lei dos Baldios cabe perguntar: não está na altura de se ouvir o uivo dos lobos na serra contra essas investidas?

     

    Rita Serra: O lobo é um animal muito especial. Vive em comunidade, mantém laços fortes entre os seus membros, e é conhecido pela sua lealdade. Por vezes, caminha sozinho. Será fundamental nos próximos tempos ver se os lobos, mesmo os que caminham sozinhos, serão capazes de se organizar para enfrentarem a ameaça de extinção enquanto espécie. Com a nova lei dos baldios, alguns lobos poderão continuar a existir com algum sucesso, mas inevitavelmente ficarão confinados a parques biológicos, pois muitos serão extintos, principalmente os que não se conseguirem organizar num espaço de 15 anos. É expectável uma redução dramática do número de baldios e a área das serras que poderia ser governada de forma comunitária. Com esta extinção encerra-se uma possibilidade, e não se faz justiça histórica pois nunca se capacitou as comunidades locais para gerirem os recursos em comum.