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Lendo: Cultivar autonomia, colher comunidade: Hortas comunitárias e o resgate de «baldios» do Porto

Cultivar autonomia, colher comunidade: Hortas comunitárias e o resgate de «baldios» do Porto

Cultivar autonomia, colher comunidade: Hortas comunitárias e o resgate de «baldios» do Porto


No início eram baldios. Não daqueles ancestrais, montes comunais que circundam aldeias e que são posse e pertença das comunidades que por lá habitam, mas dos outros – terrenos «incultos», «maninhos», «estéreis», «terréus», «inúteis», e outros sinónimos de abandono que o termo entretanto ganhou. Desbravados pela generosidade de quem se junta para cuidar de um pedaço de terra em comum, estes baldios urbanos passaram, e estão a passar, por processos de regeneração que devolvem a dignidade original do seu nome: baldios reinventados como hortas comunitárias onde se ensaia a acção colectiva em prol do bem-comum.

Escondidas em logradouros esquecidos, ou desmarcadas nos arrabaldes da cidade, a Quinta Musas da Fontinha, a Quinta de Vila Meã e a Horta da Partilha são exemplos de hortas urbanas do Porto que colocam a comunidade no centro. Tais como compartes nos baldios rurais, juntam-se ali hortelãs e hortelãos para cultivar o próprio alimento, para pôr em prática uma intuição, pelo vício do colectivo, ou porque faz sentido, dá prazer, serve de cura para a neurastenia da vida rodeada de cimento, consumo e betão.

Embora com diferentes nuances nas suas formas de organização, nas condições de acesso à terra, nas técnicas que orientam as suas práticas, desvenda-se em comum nestas hortas a vontade de aprender-fazendo em colectivo, à margem da Instituição –rejeitando a mercantilização da vida, a mera atribuição de lotes de terreno para cultivo e a gestão da produção.

"Baldio" (bal·di·o): 1. (adj.) que não está cultivado. = inculto, maninho; 2. (s.m.) terreno por cultivar. = terréu; 3. (s.m.) terreno que, pertencendo a uma comunidade local, é usado colectivamente. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

“Baldio” (bal·di·o): 1. (adj.) que não está cultivado. = inculto, maninho; 2. (s.m.) terreno por cultivar. = terréu; 3. (s.m.) terreno que, pertencendo a uma comunidade local, é usado colectivamente. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

Quinta Musas da Fontinha

Começamos por um dos pontos mais altos da cidade, a Quinta Musas da Fontinha, numa encosta a montante com inesperadas vistas para o mar. O conjunto de hortas biológicas é um dos vários projectos do Espaço Musas, na Rua do Bonjardim – sede da associação desportiva e recreativa Sport Musas e Benfica que celebra este ano o seu 75.º aniversário.

Durante décadas, o espaço esteve entregue ao silvado, às ratazanas e ao esquecimento. Uma lixeira a céu aberto chegava até ao conjunto de ilhas que marcam o limite no topo, com acesso pelo Alto da Fontinha. A regeneração do terreno começou com trabalhos de desmatamento e de limpeza por iniciativa de alguns associados, mas foi em 2011 que a Quinta Musas de Fontinha se estabeleceu como tal, graças à cooperação de várias pessoas e também ao impulso dado pela então associação informal Movimento Terra Solta.

Hoje a horta do Musas divide-se em cerca de 25 talhões individuais, familiares ou colectivos de 25 metros quadrados, cada um com o nome de um fruto. Inspirado nos princípios da permacultura, o espaço congrega também diversas zonas de acção e usufruto colectivo, como a Agrofloresta, a Terra das Crianças e o Miradouro de Aromáticas. Os limites da Quinta foram mudando com o passar dos anos, incluindo hoje – para além do logradouro arrendado ao senhorio (após uma acção de despejo noticiada pela Mapa em 2013) –lotes camarários e terrenosentretanto cedidos por vizinhos em acordos informais.Aberta à participação e visita de todas as pessoas «que se revejam no seu projecto e aceitem a sua forma de organização», a Quinta Musas da Fontinha orienta a sua acção «numa base de responsabilidade individual e de contributo para um projeto comum».

Num encontro de hortas urbanas que teve lugar no início de Julho nos Jardins do Palácio Cristal, durante o Cidade+, Andreia Ferreira, uma das hortelãs do Musas, diz que uma das dificuldades – mas também riquezas – da horta «é que tem uma biodiversidade social muito grande e privilegia a autonomia e a cooperação entre essas pessoas, o que muitas vezes é difícil, até pela sua diversidade também». Ali «decide-se tudo de forma horizontal e assembleária, por consenso», acrescenta, explicando que existem grupos de trabalho para operacionalizar alguns projectos e tarefas de manutenção, tais como a gestão das águas, a modelação do espaço, os almoços comunitários ou actividades culturais.

«Não basta atirar sementes e regar de semana a semana», desabafa sobre as incursões hortícolas de curta duração. «Muitas pessoas aproximam-se do Musas com a intenção de ter uma horta porque temos espaços disponíveis (…) mas o que acontece é que, como aquilo eram antigas ilhas e uma lixeira, o solo é árido, necessita de compostagem, necessita que se faça minhocário, que se leve para lá nutrição para a terra. Muitas pessoas ficam desmotivadas por causa do trabalho que é preciso.»

Para quem resiste, a Quinta Musas da Fontinha significa muito mais do que produção hortícola: um espaço aberto à «experimentação» social, ecológica, colectiva, que aproxima pessoas da terra, tal como vemos à sua medida noutras hortas comunitárias do Porto.

Foto: Margarida Peixoto. Vitor Parati a regar o viveiro que iniciou em Outubro de 2016 na Quinta de Vila Meã. O Terra Solta disponibiliza mudas de árvores autóctones graciosamente ou por donativo consciente.

Foto: Margarida Peixoto. Vitor Parati a regar o viveiro que iniciou em Outubro de 2016 na Quinta de Vila Meã. O Terra Solta disponibiliza mudas de árvores autóctones graciosamente ou por donativo consciente.

Quinta de Vila Meã

Um fazedor de vassouras de milho painço, um moço inglês de chapéu e um ourives de Gondomar encontram-se num sábado de manhã num terreno entalado entre os caminhos de ferro e a via rápida, em Campanhã. Um vai de tronco nu e leva uma muda de limonete para oferecer, outro faz a monda do canteiro das cebolas como se fosse meditação, e o terceiro levanta-se quando nos vê e a primeira coisa que diz é «punk is not dead» com um gesto de cornos salpicados de terra.

Chegamos à Quinta de Vila Meã, também conhecida como Quinta do Mitra, e é dia de trabalho comunitário na horta. O grande plano para a tarde é cortar o azevém verdeal, cultura de sete anos que «come as ervas daninhas», mas antes ainda há que cuidar do viveiro, dar um jeito aos canteiros, colher as sementes de fava, e experimentar novos engenhos para afastar a passarada das culturas mais tenras – como a palete pousada sobre a sementeira de alface ou a construção de paus espetados que faz uma cúpula por onde vai crescer o feijão.

Aquele lugar suburbano, hoje confinado a um beco quase sem saída, já foi porta de entrada na cidade, com caminho directo até ao centro histórico do Porto. Quem hoje arrisca sair da rotunda para uma passagem sombria por baixo do viaduto, encontrará a calçada granítica que desemboca num muro de betão grafitado sob a escadaria que vai dar à estação. À esquerda, eis a única resistente das três casas de lavoura que o lugar ali congregava noutros tempos. O alargamento da estação de Campanhã e a construção da Via de Cintura Interna (VCI) levaram à expropriação da família Mitra (os últimos proprietários da quinta), no lugar da antiga passagem de nível de Vila Meã. A associação Movimento Terra Solta tomou conta do espaço em finais de 2011, num acordo com a Junta de Freguesia de Campanhã, a quem a Câmara havia doado a Quinta em regime de comodato. Hoje querem voltar às origens e preservar o nome mais antigo – estão até a tentar dar o nome à Rotunda de Vila Meã.

«Quem entra no portão ou vem ensinar ou vem aprender, ou que faça as duas coisas», explica o Nuno Moutinho, presidente da associação Movimento Terra Solta, sobre a forma de participação nesta horta onde não há talhões individuais, «todos os camalhões são redondos» e «tudo é de todos que a trabalham». O plano geral dos trabalhos é definido em reuniões convocadas como assembleias gerais e «os recém-chegados são orientados nessas tarefas até ganharem autonomia». Sobre a partilha das colheitas, esclarece: «primeiro, aquilo que nós produzimos é para distribuir por quem nos ajuda. Nós não vendemos nada disto, ou usamos nos nossos almoços ou, quando temos em excesso, cada um leva para casa».

Aproximamo-nos de um balcão com dezenas de pacotes de leite transformados em vasos com mudas de sobreiros, carvalhos, castanhos, pinheiros mansos, algumas nogueiras e primeiras experiências de oliveiras e cerejeiras. O viveiro de árvores autóctones é um dos projectos mais vívidos da Quinta de Vila Meã. «Começámos por fazer sementeira com fisgas numa serra próxima, depois de irmos buscar bolotas aos bairros da cidade do Porto», conta o Nuno Moutinho sobre os primórdios do projecto de reflorestação, que foi ganhando dimensão e capacidade até aos dias de hoje, em que distribuem árvores para várias zonas do país afectadas pelos incêndios. «Eles acendem um fósforo e nós vamos lá apagar com duas árvores», acrescenta Vítor Parati, responsável pelo viveiro e pela área da reflorestação, que ainda há pouco passava com uma grande beterraba na mão.

Chamam-nos da sala de convívio para dizer que o almoço está pronto, como todas as quartas e sábados, dias de trabalho comunitário na horta, abertos a todas as pessoas que queiram vir aprender ou ensinar. «Só pedimos uma coisa», diz o Nuno antes de abalar, «não nos avisem que vêm».

Dia de trabalho colectivo na Horta da Partilha. Foto: Luísa Carvalho, 2015

Dia de trabalho colectivo na Horta da Partilha. Foto: Luísa Carvalho, 2015

Horta da Partilha

Lá para os lados de Arca d’Água, bem perto do lugar onde o estádio do Salgueiros alagou, encontramos a Horta da Partilha, implantada nos terrenos de uma antiga quinta agrícola com mais de 15 anos de pousio. O terreno, com uma área total de cerca de 3.500 metros quadrados, foi cedido em 2012 através de um acordo informal. Sara Alves, matriarca da Partilha – e guardiã do acordo – namorava pela janela aquele baldio escondido sempre que se dirigia a um estabelecimento de serviços local. Conversa-puxa-conversa e rapidamente chegou o aval para meter as mãos na terra.

O objectivo era criar um espaço de experimentação de permacultura e de agricultura natural, que permitisse preservar o espaço da antiga quinta e os seus recursos naturais. Uma horta comunitária onde as pessoas interessadas pudessem trabalhar em prol do todo, partilhar conhecimentos e experiências agrícolas e simplesmente desfrutar dos ares do campo na cidade – com o som dos carros na VCI ao fundo que, em dias claros, quase parecem as ondas do mar. Desde então a horta vai-se fazendo pelas mãos de gentes que por lá passam, sempre com a orientação da guardiã septuagenária.

Planeada como um todo indivisível (definindo que a utilização do espaço é sempre colectiva), a Horta da Partilha inclui zonas de hortícolas, pomar, charcos, estufa, compostagem, aromáticas e zonas mais extensas, quase por explorar, incluindo um bosque de carvalho e loureiro, que em certas noites de Verão presenteia os hortaleiros com um espectáculo de pirilampos luminescentes. Em tempos teve galinheiros, culturas de cereais, colmeias, e chegou a fazer parte da Associação para a Manutenção da Economia de Proximidade, num esquema de trocas entre «prossumidores» com recurso à moeda social ECOSOL (ver Jornal Mapa n.º 19).

Não demasiado aberta, nem completamente fechada, na Partilha não existe uma estrutura associativa formal (ao contrário do Musas e Terra Solta), tornando talvez mais opaca a forma de organização e as condições de participação. O grupo informal vai reunindo conforme as necessidades das pessoas e da terra para tomar decisões, delinear futuras investidas e também pelo convívio – normalmente, a cada virada de estação, há uma festa para celebrar as colheitas, onde se acende a fogueira e convoca a sabedoria popular e os espíritos pagãos.

Quanto ao acolhimento de novos compartes, este envolve sempre o acompanhamento de alguém mais experiente nas lides da horta, como a Luísa Carvalho e a Filipa Almeida, hortelãs ininterruptas da Partilha desde 2015. Para elas a horta é «um espaço onde nos podemos encontrar, partilhar experiências e aprender com os erros (…) uma experimentação de todas as pessoas que gostam de estar na terra, de tempo de cura e de convívio». E acrescentam: «claro que todos gostamos de levar para casa aquilo que cuidamos desde a sementinha (…) mas o objectivo nem é vender nem produzir massivamente». Participam numa feira por ano para angariar uns trocos para as ferramentas e vão fazendo vaquinhas extra para cobrir alguns investimentos em infraestruturas, como o sistema de rega. Pelo caminho, vão experimentando, aprendendo, observando «quando é que a semente germina espontaneamente na terra» para saber que «esse é o tempo dela e não quando nós queremos».

Tal como a vontade própria das sementes, também há circunstâncias que condicionam a continuidade destas hortas, já que a posse da terra é alheia e o futuro é incerto. No caso da Partilha, o proprietário poderá, quando entender, recusar a cedência – avisando com o tempo necessário para que seja feita a colheita. Será essa uma das maiores fragilidades destas hortas: as condições de acesso à terra. Ao contrário dos baldios ancestrais, aos quais se reconhece uma titularidade própria de base comunitária – distinta da propriedade publica-estatal e privada-mercantil – estes «baldios» urbanos regenerados ora são arrendados, cedidos ou ocupados, deixando-os sempre à mercê dos donos da propriedade. Não obstante, a terra não olha a posses – é generosa – e as plantas continuam a crescer.


Autora: Sara Moreira (saritamoreira@gmail.com)
Fotos: Margarida Peixoto (Terra Solta), Luísa Carvalho (Horta da Partilha)
e Frederico Lobo (Musas)
Revisão: Mariana Vieira
Artigo publicado originalmente no Jornal Mapa #24
(Julho-Setembro 2019)

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Sara Moreira

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