Categoria: Que energia no futuro?

  • Os lobos voltam a uivar na Serra

    Os lobos voltam a uivar na Serra

    O Acampamento em Defesa do Barroso regressa para a sua 5ª edição, entre os dias 8 e 10 de agosto, num momento em que cresce de tom a luta contra a mina.

    A ameaça sobre as populações de Covas do Barroso intensifica-se depois de os projetos de lítio da mina do Barroso, em Boticas, e da mina do Romano, em Montalegre, terem sido incluídos no primeiro lote de projetos designados como estratégicos ao abrigo do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas (REMPC), beneficiando por isso de mecanismos de financiamento facilitado. O Estado português, depois de há mais de um ano atrás ter desvalorizado o pedido do Ministério Púbico de anulação da validade da Declaração de Impacto Ambiental (DIA) da mina do Barroso, prossegue contornando toda e qualquer ação legal, como as providências cautelares colocadas pela população à servidão administrativa, através da qual o Governo forçou os trabalhos de prospeção da empresa Savannah Resources em terrenos privados e comunitários.

    Depois de autorizada uma primeira servidão administrativa, em dezembro de 2024, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) veio em inícios de junho deste ano acusar a Savannah de «persistir no assédio» às comunidades ao solicitar uma segunda servidão administrativa para aceder aos terrenos e expandir trabalhos de sondagens em Boticas. Conforme declarou a UDCB à imprensa regional, essa nova servidão demonstra a expansão «dos trabalhos de prospeção através da instalação de novas plataformas de sondagem e de poços geotécnicos que aprofundam a agressão em curso às serras» e que «continua a não ter o consentimento da comunidade local de baldios e da grande maioria dos particulares».

    A luta dos últimos sete anos contra a mina do Barroso, cuja DIA foi emitida em maio de 2023 e com anúncio de início da produção em 2027, não tem esmorecido. Ao longo deste ano, tiveram lugar em diversas localidades do país, como na Europa, múltiplas ações de solidariedade. No terreno, nos inícios de março, duas máquinas de perfuração e um trator de apoio foram danificadas. O escalar da resistência voltou a ser constatado na madrugada de dia 19 de junho quando «um grupo de pessoas solidárias com a população residente na região do Barroso entrou nas instalações da Savannah Resources, em Carreira da Lebre, Boticas, tendo danificado os seus veículos, pintalgado a fachada de vermelho e escrito a frase “Não à mina”». Contrapondo com a violência do projeto mineiro, refere o comunicado enviado aos meios de comunicação social que «nos últimos anos, a população tem usado todas as ferramentas ao seu dispor para lutar contra esta violência. Organizaram encontros, convocaram protestos, deram entrevistas a meios de comunicação social, falaram com representantes políticos e até recorreram aos tribunais de forma a cancelar a licença de prospeção e exploração da empresa. Todos estes esforços têm sido em vão». Razão exposta para este grupo de pessoas declarar «este ato de violência legítimo, proporcional e provocado pela falta de alternativas».

    Mais referem que, perante «uma forte oposição dos residentes e de várias associações e organizações ambientais» ao projeto de mineração, a empresa britânica «adoptou uma postura autoritária de atropelo das vontades locais». «A Savannah Resources quer-nos convencer que o futuro verde é esburacar património mundial e transformar estas serras em zonas de sacrifício para uma indústria de automóveis elétricos que em nada resolverá a crise climática que atravessamos. Em nome do crescimento económico, querem açambarcar terras, poluir águas e destruir os montes e as serras barrosãs contra as populações locais. E o Estado, o governo e a União Europeia, que deviam proteger a sua população, pavimentam-lhes o caminho». Simultaneamente caem sobre habitantes locais processos judiciais com o objetivo de amedrontar e esgotar financeira e animicamente aquelas pessoas que são vistas como as «cabeças» da resistência.

    Em sentido contrário, de solidariedade e de apoio, irá regressar à Quinta do Cruzeiro, nas Covas do Barroso, a 5ª edição do Acampamento em Defesa do Barroso, entre os dias 8 e 10 de agosto. Este acampamento, que se quer longe de um escape festivaleiro, revolucionário e urbanita, como apontado no texto “A luta Possível no País Impossível”, publicado na revista Flauta de Luz, (nº 11, Junho 2025), constitui uma oportunidade e desafio em ultrapassar o distanciamento «ativista» para que «na falta de maturidade, tempo e meios materiais (…), o primeiro passo para uma resistência [seja], talvez, que cada um saia da sua redoma e retome os antigos processos de convívio e comunicação humanas. Que se caminhe humildemente ombro a ombro com as populações afectadas com o único e comum objectivo de parar o processo de extermínio das suas vidas».

    Nesse sentido, é incontornável atender aos esforços de consolidação d’A SACHOLA. Trata-se de um «espaço de encontro entre quem habita o território barrosão e quem com ele se solidariza», que nasceu em junho de 2023 numa das salas da antiga escola primária de Covas do Barroso. «Aqui, organizámos sessões de cinema, concertos, reuniões, exposições, residências artísticas, e albergámos gente vinda de todos os cantos do mundo para lutar lado a lado com as populações barrosãs. Foi também aqui que mantivemos um centro de informação em permanência, com documentos, panfletos, zines, flyers, cartazes e jornais sobre a luta». Atualmente, um novo espaço está a ser reconstruído para, como refere o coletivo d’A SACHOLA, «possamos continuar a fazer tudo isto, de forma autónoma». Em comunicado, não escondem a urgência desse espaço: «foi o momento atual que acelerou esta necessidade de criar um espaço. A empresa britânica Savannah Resources está a entrar em força nas aldeias de Covas do Barroso, Romainho e Muro, ferindo as águas e as terras, e trazendo os seus trabalhadores para estas aldeias».

    Tal como citado na apresentação da Jornada contra as Minas, que tiveram lugar em abril no Espaço Musas, no Porto, podemos concluir com as palavras da UDCB que «a única coisa normal aqui é RESISTIR. Em defesa da Serra e dos modos de vida que dela dependem. E por um combate à crise ecológica justo, que apenas sacrifique os responsáveis pelo estado a que chegámos. Não somos nem seremos meros territórios de extração. E nunca desistiremos de lutar contra uma empresa, um Estado e todos aqueles que se uniram para acabar com a nossa comunidade. Os lobos voltam a uivar na Serra».


    notícia publicada no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]

  • Quem te liga à luz?

    Quem te liga à luz?

    Em 2024, Lisboa será o palco das Jornadas pela Democracia Energética (JDE), para analisar o atual modelo energético. Assumindo a energia como uma necessidade básica, o encontro parte de membros de cooperativas (de energia e não só), investigadores e ativistas na área da justiça climática, transição e democracia energética.

    «Une-nos o objetivo de construir, nos próximos anos, um novo sistema energético e defender uma transição energética assente na democracia e na energia como bem comum», afirma o coletivo organizador, num apelo que pretende juntar diferentes atores com ou sem ligação à energia, institucionais ou não, para se debruçarem sobre questões energéticas e com um objetivo claro: propor alternativas concretas para que as comunidades tomem a energia nas suas mãos.

    No centro da crise climática, económica e social «está a forma como a energia é produzida, consumida e como se organiza o atual modelo energético». Desde logo «a atual crise do custo de vida tem, na sua génese, a explosão dos preços do gás fóssil. Mas esta explosão foi orquestrada pelas empresas fósseis como forma de recuperar os lucros que perderam durante a pandemia de Covid-19. A invasão da Ucrânia por parte do Estado russo deu-lhes então a desculpa perfeita para um aumento de preços». Por outro lado, a transição energética em marcha, focada no desenvolvimento de energias renováveis, por si só, não responde às múltiplas crises que enfrentamos. Assim, impõe-se «uma transição energética que repense, transforme e abandone o atual modelo de produção e consumo energético». «Assente na democracia energética, na suficiência, eficiência e circularidade de recursos, respeito pelo património ecológico e biodiversidade e sem onerar as futuras gerações». A grande questão está em como traçar essa trajetória.

    Para os promotores da JDE, a democracia energética divergirá do atual modelo energético detido por grandes empresas privadas, sem qualquer controlo social, que gerem infraestruturas – como redes de distribuição e transmissão de eletricidade, ou centrais de produção – de modo centralizado, concebendo a energia como uma mercadoria alimentada pela ideia de um consumo infinito. É esse o cenário que permanece na atual instalação de centrais renováveis. A concentração da produção em poucos locais e de grande dimensão, fazendo com que a eletricidade tenha de ser transportada ao longo de grandes distâncias e aumentando as suas consequências ambientais e sociais sobre territórios «sacrificados». Desigualdades regionais, aqui, somadas à brutal assimetria no acesso à energia entre os países do norte global – que mais contribuem para as alterações climáticas e mais energia consomem – e os do sul global, historicamente menos responsáveis pelas emissões de CO2.

    A que custo?

    A questão Transição Energética? Sim, mas a que custo?, foi eleita como o tema do IV Encontro da Convergência Ecológica e Ambiental, que se realizou nos dias 14 e 15 de outubro de 2023 em Vimioso, distrito de Bragança, organizado pela Associação dos Amigos do Mindelo para a Defesa do Ambiente, pela Associação Portuguesa de Turismo Sustentável e pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural.

    Com foco nas mega centrais solares, o encontro abordou as «consequências negativas diretas no coberto vegetal e impactos nos ecossistemas e paisagem». Citando Pedro Alves, biólogo da Palombar, «o Plano Nacional de Energia e Clima estabelece como meta atingir 9 GW de potência solar até 2030, dos quais 7 GW em solar centralizado e apenas 2 GW em solar descentralizado. O foco deveria ser a potência solar descentralizada, em telhados e comunidades de energia. Além de salvaguardar os ecossistemas, é a opção mais democrática e energeticamente eficiente».

    Quanta energia precisamos?

    Resgatar o direito a questionar e a decidir quanta energia precisamos é uma premissa central. Incontornável, no quadro de sobrevivência planetária, «que é necessário inventar, criar e defender um modelo 100% baseado em energias renováveis que compatibilize e otimize produção centralizada e descentralizada, procurando que a eletricidade renovável seja gerada, sempre que possível, próxima dos locais de consumo», os organizadores das JDE frisam que «este sistema energético alternativo deve ser orientado por uma lógica de bem comum, critérios sociais e ambientais e deve garantir o direito universal à energia para todas as pessoas e gerido de baixo para cima, ou seja, a partir das comunidades, das cidades, dos municípios». Adaptado ao contexto ecológico local e direcionado «a suprir as necessidades energéticas reais das sociedades e não para alimentar os lucros das empresas, o crescimento económico».

    A realidade portuguesa acompanha uma vaga global de crítica às injustiças do sistema energético. Como resultado da conferência O futuro é público decorrida em Santiago do Chile em 2022, sindicatos, representantes indígenas, coletivos ecofeministas e de solidariedade, organizações do movimento da justiça climática e ONG assinaram uma declaração conjunta. Aí pode-se ler que «à medida que milhares de milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam pobreza energética e os preços da energia batem recordes, este é um momento crucial para a transição para um sistema público de energia enraizado na justiça, na solidariedade e na democracia. É hora de nos unirmos a nível mundial para colocar o cuidado das pessoas e do nosso planeta à frente do lucro. À medida que nos levantamos contra a injustiça, trabalhamos juntos pela democracia energética. Vemos a luta pela democracia energética como parte de um processo mais amplo de luta pela justiça climática que reconheça a intersecção entre racismo, classismo, capitalismo, injustiça económica, exploração de género e danos ambientais. É preciso fazer as mudanças sistémicas necessárias para realinhar as nossas economias com os nossos sistemas naturais. Desde coletivos locais a regionais, nacionais e transformações internacionais: temos soluções.»

    Constatando que a «forma como produzimos e consumimos energia é um reflexo fidedigno da forma como nos organizamos enquanto sociedade» as JDE pretendem não somente analisar o atual modelo energético no quadro da transição energética, e discutir o desmantelamento da infraestrutura fóssil, como, na prática, compreender como combater a pobreza energética e discutir propostas para a transição energética a partir dos municípios. Para lá do foco municipal que transparece nas JDE, estas visam – na senda da declaração de Santiago do Chile – alargar as perspectivas e soluções técnicas à integração de «visões feministas, ecossocialistas, anti-colonialistas, anti-racistas e decrescentistas». «Pensar como podem dialogar entre si diversas lutas na transição energética, da luta contra as grandes centrais fotovoltaicas e o extrativismo “verde”, às estratégias conjuntas dos movimentos pela habitação e pela democracia energética»

     


    Texto de  Guilherme Luz e  Filipe Nunes


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #39, Outubro|Dezembro 2023.

  • O que nos liga à Europa? Energia em tempos de crise social, ecológica e climática

    O que nos liga à Europa? Energia em tempos de crise social, ecológica e climática

    energia_pirineus_destNo passado dia 20 de Fevereiro, o primeiro-ministro francês Manuel Valls e o seu homólogo espanhol Mariano Rajoy inauguraram a linha de Muito Alta Tensão (MAT) na localidade de Montesquieu-des-Albères, nos Pirenéus Orientais, junto à fronteira com a Catalunha na província de Girona. Pouco dias depois, a 4 de Março, teve lugar em Madrid a cimeira tripartida Espanha-Portugal-França onde os chefes dos governos dos três países, incluindo Pedro Passos Coelho, apresentaram três novas interligações de MAT através dos Pirinéus e, como se não bastasse, defenderam que estas deveriam ser classificadas como Projetos de Interesse Comum (PIC).

     

    A linha agora inaugurada, com uma tensão de 400 kV, tem como objetivo aumentar o nível de interligação elétrica entre a Península Ibérica e França de 3 para 6%, de uma potência de 1400 para 2800 MW. Com tão baixo nível de interligação, a península é considerada uma ilha energética face ao resto da Europa. A linha atravessa os Pirinéus Orientais entre as localidades de Baixás, em França, e Sta. Logaia, na Catalunha, num traçado de 64.5 Km dos quais 8.5 se fazem através de um túnel subterrâneo por baixo da montanha. Admite dois regimes de tensão, transportando-se em corrente alternada numa parte do percurso e corrente contínua noutro troço. O projeto é da responsabilidade da gigante elétrica espanhola Red Electrica de Espanha (REE) e da Réseau de Transport d’Électricité (RTE), o operador francês da rede elétrica de Alta Tensão, organizadas na corporação INELFE (interconexão França Espanha) criada para o efeito.

    A prioridade dada às interligações elétricas foi aprovada no acordo sobre Clima e Energia do Conselho Europeu, em Outubro de 2014, em Bruxelas, após uma forte pressão do Ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva. O objetivo é estabelecer, até 2020, um nível de interligação elétrica de 10% da capacidade instalada em cada país e 15% até 2030. Para esse objetivo contribuirão uma ligação marítima de 360 Km de cabo submarino através do Golfo da Biscaia para ligar Aquitânia, em França, e o País Basco com capacidade para uma potência de 2000 MW. Entre as novas linhas de 400 kV, conta-se também uma entre a localidade de Peñalba, em Huesca, e a localidade de Isona, em Lérida, que pretende ligar as subestações presentes nestas localidades e tenciona reaproveitar, numa parte do traçado, as velhas torres, nunca demolidas, do antigo projeto de interconexão com França chamado Aragón-Cazaril. A juntar a esta existe ainda a linha entre Navarra, no País Basco, e Bordéus no País Basco Francês, bem como a linha entre a localidade entre Sabiñánigo, na comuniddae autónoma de Aragão, e Marsillon, em França.

    Os PIC para a área da energia foram revelados em 2013 pela Comissão Europeia (CE) e contam com 5.85 mil M€ de investimento para cerca de 250 projetos em toda a Europa. O interesse pelas interligações é explicado à luz do processo de liberalização que atravessa o sector energético Europeu onde é essencial a existência de uma infraestrutura de suporte ao gigantesco mercado de compra e venda de eletricidade que se começa a delinear. Embora a liberalização permita, de certa maneira, a participação de pequenos produtores no mercado (como é o caso das cooperativas de produção elétrica) são os gigantes da eletricidade e os Estados, com especial participação nas empresas elétricas, que têm interesse numa autoestrada de transporte de eletricidade já que as linhas serão sempre sua propriedade. O mercado energético liberalizado, embora se torne mais flexível nas duas extremidades do processo, ou seja, na produção e na comercialização, continua a ser um monopólio assumido no transporte e na distribuição onde a operação da rede e gestão das linhas são adjudicadas pelo Estado às empresas. Em Portugal é a REN que opera a rede de Muito Alta Tensão e Alta Tensão e a EDP a operadora da distribuição em Baixa Tensão.

    Na prática a perspetiva de uma “Europa energética” coloca em marcha muitos outros projetos de linhas de MAT em Portugal, no País Basco ou na Galiza. As interligações elétricas querem-se ainda fazer desde o Norte de África, através de Tarifa, até aos Balcãs num anel em torno do Mediterrâneo. Para além da eletricidade, é também no gás que se pensam as ligações depois de Jean-Claude Juncker, presidente do Concelho Europeu, ter defendido, em Março, uma união energética com o objetivo de liberalizar a circulação de energia, onde se inclui também o gás.

    Os projetos para as interligações elétricas entre França e Espanha não são novos, remontando ao início dos anos 90 e, se não fosse devido à forte resistência, mobilização popular e denúncia pública suscitadas pelas linhas de MAT na Catalunha, nos últimos anos, seria apenas mais um mega-projecto numa infindável lista de infraestruturas energéticas que se edificam atualmente no velho continente.

    protesto_matNa Catalunha o processo foi tudo menos pacífico e, nos últimos anos, contou com inúmeros momentos de resistência e luta por parte de uma quantidade e diversidade de coletivos, plataformas, grupos ecologistas, agricultores, agentes de turismo e até Câmaras Municipais. Embora as dinâmicas partidárias não tenham ficado de fora de todo o processo, foi com base na autonomia política que uma grande parte da resistência se desenvolveu. Contou com cortes de estradas em inúmeras localidades e manifestações em Girona, Barcelona, nas localidades afetadas, junto às obras e junto à fronteira com França onde participaram milhares de pessoas. Em Março de 2010 uma operação da polícia Catalã, Mossos D’esquadra, despejou uma ocupação de protesto contra a MAT num bosque junto à torre 114 do traçado. Como resultado do despejo, 9 pessoas foram detidas e presentes a tribunal. Mesmo com a inauguração da nova linha a verdade é que a mobilização contra a MAT tem continuado ao longo dos anos e continua ainda hoje.

    Mais recentemente, em Janeiro de 2014, um indivíduo cavou um buraco onde se enterrou a si próprio  e se prendeu ao solo, no município de Villadesens, no local exato onde estava prevista a construção da torre número 66 do traçado da MAT, com o objetivo de parar as obras. Junto ao local, uma concentração de apoio ao ativista foi fortemente reprimida pela polícia. Durante o mesmo ano muitas foram as sabotagens realizadas contra as infraestruturas de apoio tais como veículos da REE e empresas que realizam a segurança da infraestrutura.

    noalmatAssim como atualmente existem projetos de MAT em praticamente toda a Península Ibérica, existem também processos de mobilização e resistência. Veja-se a plataforma “Autoestrada Elétrica Não” no País Basco ou os protestos contra a ligação entre o Norte de Portugal e a Galiza em 2014. Desta e de muitos outras lutas a ter lugar na atualidade é notório que as visões que as comunidades locais afetadas têm sobre os diversos projectos contrastam fortemente com aquela que têm as empresas promotoras.

     

    Para que serve a MAT na Catalunha?

    Os argumentos que os políticos portugueses e espanhóis, e empresas como a REE, apresentam para sustentar o projeto são de aparente simplicidade. O seu discurso defende que a Interligação é uma estrutura essencial para garantir a “segurança energética” tanto a nível nacional como local e aporta uma contribuição importante para acabar com o isolamento energético da Península Ibérica relativamente ao resto da Europa. A linha é também anunciada como essencial para o abastecimento elétrico do Comboio de Alta Velocidade (TGV), projeto que no País Basco tem também enfrentado uma forte resistência organizada através da mobilização popular. Mas a razão mais esclarecedora para esta linha é o facto de as interligações elétricas possibilitarem a entrada no mercado europeu de energia das empresas Ibéricas atualmente a negociar apenas no mercado ibérico de energia, o MIBEL. Concretamente, no caso da linha de Peñalba-Isona o objetivo é escoar o excesso de produção eólica proveniente da zona de Monzón mas também os excedentes de origem fóssil resultantes da produção elétrica das centrais térmicas. Do lado das importações as linhas permitem ainda importar energia nuclear de França. O projeto da MAT é um projeto das grandes companhias elétricas espanholas REE, mas também das portuguesas EDP e REN que beneficiarão diretamente com a nova ligação já que poderão passar a exportar e importar eletricidade para a Europa. O grande objetivo da sua construção é possibilitar que o negócio da eletricidade e da energia alcance um novo patamar com a entrada nos mercados Europeus de um conjunto de novas entidades que poderão vender no mercado europeu liberalizado os seus excedentes. Desta forma os lucros astronómicos registados pelas grandes companhias elétricas podem continuar a aumentar já que o business as usual continua a alimentar-se das necessidades energéticas dos indivíduos. Para a plataforma No a LA MAT Girona, “o real objectivo da MAT é resgatar o setor elétrico espanhol e permitir que este exporte os seus brutais excedentes elétricos para a Europa e assim evitar ter que parar as novas centrais de ciclo combinado a gás e reduzir a sua potência ou parar reatores nucleares”.

    Em janeiro de 2014 o blog Crash Oil publicava uma entrada onde se lia que “é claro que Espanha não necessita de traçar uma grande autoestrada para transportar os excedentes elétricos para França mas reforçar a sua própria rede interna para redistribuir os seus próprios excedentes. (…) Do ponto de vista da produção e distribuição local trata-se de uma infraestrutura tremendamente sobredimensionada: a potência que a MAT transporta é 10 a 30 vezes o consumo de áreas como Girona.”

    A MAT é, de facto, uma infraestrutura megalómana cujos impactos ambientais, sociais e económicos são gigantes. Representa um modelo de produção energética que se baseia na existência de grandes centros produtores e grandes centros consumidores e a sua construção é apenas justificada se se quiser transportar grandes quantidades de eletricidade ao longo de grandes distâncias. Outra das razões que tem servido de argumento base para a instalação de linhas de MAT é a crescente necessidade de integração da produção elétrica de fontes renováveis proveniente dos grandes parques eólicos ou centrais fotovoltaicas que podem atingir muitas centenas de MW de potência instalada. Através da MAT é de facto possível escoar a produção renovável, caracterizada por uma enorme variabilidade, através de enormes distâncias mas é também possível escoar qualquer outro tipo de produção, fóssil ou renovável, para que esta seja comercializada e consumida noutro ponto. A questão é que, independentemente da origem da energia, fóssil ou renovável, estamos a falar de produção em grande escala e não podemos compreender as grandes estruturas se não tivermos em conta o grande consumo que atualmente registamos nas sociedades ocidentais, fruto de um intenso nível de industrialização. A propósito da dimensão da linha, o grupo espanhol Ecologistas En Accion refere, no seu comunicado do passado dia 11 de Março sobre a linha Peñalba-Isona, que “as redes de transporte e acesso à eletricidade devem-se reestruturar de acordo com a gestão local e distribuída, limitando custos, reduzindo perdas no sistema e fomentando os sistemas de microredes”. De facto, quando consideramos o autoconsumo e a produção local de eletricidade estamos a garantir que existe muito menos energia a transitar na rede de grande dimensão (Alta Tensão) e mais energia a transitar na rede local (Baixa Tensão). Para agravar o contexto em Espanha, em 2013 o governo espanhol aprovou um pacote de medidas que impõem o pagamento de taxas por cada kWh produzido em instalações fotovoltaicas bem como uma série de outras obrigatoriedades técnicas que tornam o autoconsumo renovável economicamente inviável. Desde então fala-se do imposto solar. energiacomunitariaDe um outro prisma é de sublinhar a projeção ganha na Península Ibérica pelas experiências cooperativas de produção energética como forma de criticar e desenvolver uma outra relação com a energia. No atual contexto de crise económica e ecológica, cooperativas como a Som Energia na Catalunha contam já com quase 20.000 membros. Estas têm servido para desenvolver a autonomia energética de pequenas empresas e cidadãos perante os monopólios das grandes companhias elétricas como a REE. Portugal não tem sido imune a estas experiências e a Coopérnico tem já quase 200 associados.

    A razão para uma forte oposição ao projeto na Catalunha é consequência, em primeiro lugar, dos gigantescos impactos ambientais e sociais que estruturas físicas tais como torres de mais de 50 metros de altura, centenas de quilómetros de cabos, subestações, transformadores e valas têm no território. Principalmente por estarmos a falar da região dos Pirinéus, uma zona natural montanhosa com um ecossistema único e precioso. Em geral a grande estrutura impacta de forma violenta não só na paisagem mas também na fauna e flora que se encontra nas zonas intersectadas pelo traçado da linha. Para a sua instalação é necessário que se desmate a vegetação circundante num perímetro de vários metros e, no caso das linhas na Catalunha, o traçado servirá também para eletrificar o projeto do TGV o que potencia ainda mais o seu impacto. Para isto ser possível é necessário abrir caminho à passagem de maquinaria, gruas e transportes diversos. No caso da linha de Peñalba, um extenso levantamento realizado em 2013 por associações e grupos locais contra a linha de Alta Tensão revela o que os estudos de impacto ambiental apresentados pela REE tentam esconder: a existência de ecossistemas únicos com um sem número de espécies cuja linha afetará de forma permanente.

    A juntar a isto surgem os impactos dos campos eletromagnéticos nas pessoas e nos animais. Esta questão tem sido fonte de uma longa polémica sobre o seu real impacto e diversos estudos defendem a inexistência de impactos percetíveis para os seres humanos. Na prática muitos dos estudos são financiados pelas empresas promotoras, já que estas são as principais interessadas em provar que os efeitos dos campos eletromagnéticos são desprezáveis.

    Mas o impacto nas comunidades não se fica por aqui já que qualquer um dos projetos de MAT, em execução neste momento ou planeados no futuro, não se fará sem expropriações de terras aos seus proprietários, ocupação de zonas e uma forte repressão contra quem ouse criticar e lutar contra a MAT. Em 2013, foi usada a lei das expropriações forçadas de 1956, para expropriar dezenas de terrenos na província de Girona e assim permitir que as obras e o levantamento das torres metálicas pudessem avançar. Em certos troços o traçado real da linha era diferente daquele que estava contemplado nos estudos, havendo um desprezo total das companhias pelas distâncias mínimas a respeitar para este tipo de obras.

    O processo de implementação da MAT nos Pirinéus não é novo mas toma novo fôlego com a inauguração da nova interligação entre França e o Estado espanhol e pela projeção de três novos traçados. Ele serve para ilustrar a forma de atuação das grandes empresas elétricas por todo o globo e, obviamente, também em Portugal. Nos seus gabinetes concebem projetos com o objetivo exclusivo de garantir os seus lucros milionários, já que a venda de energia é, para elas, um negócio antes de ser uma necessidade. Para isso omitem impactos e consequências seja das linhas de Alta Tensão, das barragens ou das centrais nucleares. Ocupam e transformam territórios e regiões onde existem comunidades que têm economias locais deles dependentes, fazendo dos recursos comuns um bem privado. De seguida, “nacionalizam” os custos através de subsídios pagos por todos nós e privatizam os ganhos. Para tudo isto, fazem uso da força e da violência da polícia e dos tribunais.

    Os inúmeros projetos de interligação elétrica em MAT a decorrer pela Europa fora, lado a lado com os projetos para o início da fratura hidráulica, catalisados pelo recente TTIP, a manutenção de centrais a gás e carvão bem como as nucleares trazem consigo a reprodução de um modelo de produção energético que tem sido responsável pela destruição da Terra e da natureza. Para além disso, este modelo traz a promessa de que, energeticamente, os indivíduos e as suas comunidades continuarão a ser totalmente dependentes de grandes empresas que atuam de forma monopolista no setor energético. A implementação de fontes de energia renovável, embora tenha a potencialidade de se desenvolver através de modelos económicos cooperativos e comunitários, é ainda feita em grande parte de forma “centralizada”, através do investimento privado de empresas. Para além disso a aposta é sempre na grande dimensão e, inevitavelmente, nos grandes impactos. Neste sentido pouco há que distinga o modelo económico das centrais nucleares ou a produção fóssil quando comparado com o dos grandes parques eólicos ou das monoculturas para a produção de biocombustíveis, mesmo que os impactos ambientais sejam, obviamente, diferentes. O grande problema é que as empresas do setor energético olham para as fontes de energia renovável como mais um negócio contrapondo ao facto de um número crescente de comunidades urbanas e rurais, coletivos e movimentos sociais as considerarem uma alternativa para a sua autonomia e independência. Para que essa alternativa se torne numa realidade é necessário que a energia seja interpretada não como um produto submetido à especulação e à geração de lucros mas como uma necessidade e um bem a que todos os seres humanos devem ter acesso caso seja essa a sua vontade. Da mesma forma é importante abordar o problema do lado do consumo energético galopante verificado sob o atual modelo económico e social. As tecnologias de produção energética renovável permitem hoje traçar objetivos reais na direção da autonomia e sustentabilidade.

    No entanto, a lógica do monopólio, o lucro e a tentativa de hegemonia energética de grandes grupos limitam e constrangem a discussão e a reflexão sobre, talvez, a questão mais importante da atualidade. O isolamento energético da Península Ibérica, ou de diversas das suas sub-regiões, não é necessariamente um problema e as “ilhas” podem até tornar-se uma realidade a ter em conta na idealização e concretização de um sistema energético sustentável para a Terra, livre de monopólios e auto-organizado desde a base pelos seus utilizadores e produtores. Quando pensamos que a uma intensa crise ecológica e climática global se junta uma violenta crise social e económica é importante pensar em soluções para todas as crises de uma só vez já que a sociedade que é capaz de perturbar os ciclos naturais climáticos, arrasar uma montanha ou uma floresta é a mesma que impõe a miséria económica, a pobreza energética, a austeridade e o controlo social como forma de se manter. O problema não se resolve de forma parcial e acima de tudo não se resolve mantendo a circulação global de mercadorias, serviços, capital e, agora, também de energia.

     

     

  • Novas energias, velhos poderes

    Novas energias, velhos poderes

    solarserpa

    De acordo com um comunicado emitido pela associação ambientalista Quercus, com base em dados da Rede Eléctrica Nacional, durante o ano de 2013 as fontes de energia renovável (ER) foram responsáveis por 60% da produção de electricidade, nomeadamente eólica e hidroeléctrica[ref]A classificação das centrais hidroeléctricas como forma de geração de energia renovável é meramente técnica pois, embora seja assim classificada, os impactos ambientais e sociais das grandes barragens fazem com que esta seja uma tecnologia que está longe de poder ser considerada como ecológica.[/ref], sendo que a contribuição da primeira se manteve inferior à da segunda[ref]Comunicado da associação Quercus: http://goo.gl/qqHggR[/ref]. Mais concretamente, este recorde de produção deve-se aos quase 5000 MW de capacidade instalada através dos mais de 2000 aerogeradores distribuídos por mais de 200 parques eólicos concentrados, maioritariamente, na zona norte de Portugal, bem como à rede nacional de barragens[ref]Notícia do Jornal Expresso: http://goo.gl/FPGDnN[/ref]. De facto, Portugal tem assumido políticas energéticas que fazem recair sobre as ER grandes esperanças na resposta aos desafios colocados pela necessidade de “independência energética” ou pelas imposições decorrentes das alterações climáticas[ref]Para 2020 foi definida a meta de ter cerca de 20000 MW de potência instalada proveniente de fontes de energia renovável em Portugal.[/ref]. Na prática, trata-se da dinamização desse novo negócio de grande rentabilidade que são as ER. Exemplo disso são os lucros de 135 milhões obtidos em 2013 pela EDP Renováveis, subsidiária da EDP no sector das ER.

    Embora exista um potencial enorme para a produção de energia de forma ecológica no território português, inúmeros projectos de ER, tomando formas e dimensões industriais, têm sido apresentados como soluções sustentáveis para o futuro por governos e empresas do sector. Desta forma, as ER não poderão resolver o problema fundamental da exaustão de recursos e do colapso ambiental já que não questionam o paradigma do permanente crescimento económico.

    Nos próximos anos continuaremos a assistir à engorda de grandes empresas do sector Solar e Eólico ou ao nascimento de novas barragens numa lógica de criação de um monopólio que retira às ER o seu potencial de alternativa sustentável ou o seu contributo para a autonomia energética de comunidades e populações.

    Mais que dissecar a realidade portuguesa, é importante compreender que o entusiasmo luso com as ER é apenas parte de uma tendência global de aposta em novas formas de produção energética de forma a dar resposta a uma suposta crise energética com origem na escassez de recursos energéticos ou como medida de resposta às alterações climáticas.

    A ideia que tem surgido com força nos últimos anos é a de que a composição da mistura de fontes de energia que alimentam a sociedade e a economia terá de se alterar de forma a permitir uma transição para uma sociedade que não seja movida a combustíveis fósseis. É então que se defende a “segurança” e “independência energética” dos países, surgindo diversas soluções para satisfazer estes objectivos. Como veremos, de lado ficam a segurança e independência energética das comunidades e populações.

    De forma mais directa, a ideia que subjaz ao presente sistema económico e social é a de que, enquanto a Terra “financiar” a expansão e o crescimento da indústria e do consumo, ele cá estará para aproveitar. Quando a Terra entrar em total exaustão estarão já desenvolvidas toda uma série de novas tecnologias de produção energética que manterão o mesmo tipo de economia como modelo dominante.

     

    fracking_orig_destPetróleo não-convencional

    De acordo com a Agência Internacional de Energia, 80% da energia primária no mundo advém de combustíveis fósseis. No entanto, a era do petróleo barato parece ter acabado, o que significa que os custos de extração e produção de petróleo através dos clássicos poços se tornaram insustentáveis por várias razões.

    Neste contexto, surgem por todo o mundo técnicas de exploração dos chamados combustíveis fósseis não-convencionais que visam manter o uso dos combustíveis fósseis durante muitos anos. A verdade é que existem enormes impactos ambientais e sociais associados à extracção de areias betuminosas ou à famosa fractura hidráulica (FH) para a obtenção de gás de xisto[ref]Ver o artigo “A Elevada Factura da Fractura Hidráulica” na edição número 4 do jornal MAPA ou disponível em goo.gl/ay1MRq[/ref]. Na prática, são uma colectânea de diferentes técnicas e tecnologias que se encontram em pleno desenvolvimento. A FH, especificamente, tem efeitos devastadores no ambiente já que na perfuração e fracturação das rochas são usados milhares de químicos cuja listagem é muitas vezes desconhecida e há fortes possibilidades de se libertar metano durante o processo, gás este que gera mais efeito de estufa que o dióxido de carbono. Conta-se ainda o problema da mistura de camadas estratificadas da crosta terrestre, para além do facto de o processo exigir consumos de água astronómicos, e, devido à acção de perfuração horizontal, poder provocar acidentes sísmicos e contaminação de lençóis freáticos.

    Até há poucos anos a FH era totalmente desconhecida mas o seu suposto “sucesso” nos EUA ditou que uma corrida frenética se iniciasse em diversos países em todo o mundo. A FH tem sido vendida, desde então, como uma tabua de salvação e tem-se tornado uma aposta para certos países reivindicarem a sua independência energética já que reduz as dependências através da produção doméstica. De acordo com um relatório publicado pelo Post-Carbon Institute[ref]Relatório Drill, Baby, Drill disponível em postcarbon.org[/ref], nos EUA existem mais de 65.000 poços e a produção de gás de xisto representa 40% do total de gás produzido. No entanto, o relatório mostra também que a taxa de produção dos poços de gás de xisto se pode reduzir para 15% ao fim de 5 anos, colocando em xeque as promessas da indústria e do governo de que o gás de xisto é o garante do crescimento económico a longo prazo.

    No final de 2013, o ex-presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch assinou acordos com os gigantes energéticos Chevron e Royal Dutch Shell para a exploração de gás de xisto em diversas zonas da Ucrânia. De acordo com o relatório BP Statistical Review, a Ucrânia detém a 3.ª maior reserva de gás de xisto na Europa. Recentemente Hunter Biden, filho do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, foi contratado para a direcção da maior empresa privada ucraniana de produção de gás Burisma Holdings[ref]goo.gl/kMmK8Z[/ref]. Com a crise política, militar e social na Ucrânia o gás e o petróleo tornam-se uma questão central perante a dependência energética face à Russia. A FH será, também ai, usada como forma de atingir a “indepedência energética” arrastando consigo todos os impactos.

    Na verdade, é justamente na criação de um contexto de emergência, crise energética e medo que as empresas e os governos apostam. O motivo da crise e da ameaça de escassez de recursos e preços altos tem servido à criação do contexto ideal para que se generalize a aposta na FH. Apenas o tempo dirá em que mais projectos industriais de produção de energia.

    A avaliar pela concessão de exploração de gás de xisto dada pela Direcção Nacional de Energia e Geologia à empresa canadiana Oracle Energy Corporation até 2021 na margem sul do Tejo, tudo indica que o processo de lavagem e propaganda, para além dos impactos ambientais, estão também a chegar a Portugal. No site da empresa[ref]www.oracleenergy.com[/ref], Portugal é apresentado como um paraíso. Para além das estimativas e números apresentados relativamente às potencialidades energéticas do investimento e das condições técnicas a empresa sublinha as condições fiscais benéficas para o investimento, a existência de modernas autoestradas e de um governo estável. Embora não se conheçam, em profundidade, os pormenores e detalhes associados a esta concessão, é essencial estar atento à iniciativa do movimento anti-gás de xisto no Barreiro que começa a preparar a resistência a este projecto[ref]Mais informação em movimentoantigasdexistobarreiro.wordpress.com[/ref].

     

    novosventosRenováveis

    No que toca às variadas tecnologias de ER a questão é mais complexa. Por um lado existe um grande potencial para a produção autónoma e descentralizada de energia através de variadas tecnologias como turbinas eólicas de pequeno tamanho, painéis solares fotovoltaicos domésticos ou solar térmico ou tantas outras que estão em pleno desenvolvimento e experimentação. As ER de pequena dimensão, numa perspectiva local de auto-suficiência, são um importante passo em direcção a uma maior independência das companhias eléctricas, das petrolíferas ou da energia nuclear. Por outro lado, a opção política é, muitas vezes, a instalação de aerogeradores de grandes dimensões ou enormes campos de painéis solares que, tal como as grandes centrais termoeléctricas ou centrais nucleares estão ligadas a um sistema energético centralizado gerido por governos e empresas e operado por técnicos especializados. Obviamente que a natureza industrial e as grandes dimensões acarreta gravíssimos impactos nos locais onde se instalam os grandes aerogeradores ou os campos de painéis solares.

    As ER encontram-se cheias de contradições que as afastam, muitas vezes, do seu potencial de sustentabilidade. Em 2012, 86% da produção global de módulos fotovoltaicos teve lugar na Ásia o que é apenas um entre os inúmeros dados que caracterizam o mercado global das energias renováveis[ref]Relatório Renewables 2013, Global Status Report[/ref].

    No entanto, é o seu uso político e económico que é preocupante. Não são só os parques eólicos, as centrais solares ou as monoculturas para a produção de biodiesel que estão a potenciar uma economia, apelidada de verde, que, tal como a sua irmã fóssil, almeja os mesmos lucros fáceis. Existe todo um uso das ER na criação de uma imagem e um discurso de responsabilidade, sustentabilidade e respeito pela natureza que é, nos dias que correm, transversal a governos e grandes grupos económicos. Inevitavelmente, o discurso “verde” sequestra o debate em torno do modelo energético sob o qual vivemos e como nos queremos relacionar com os recursos naturais.

    É justamente neste ponto que as alterações climáticas (AC) ganham importância. Concretamente, os cenários que têm vindo a ser traçados pelo IPCC[ref]O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas é uma colaboração científica internacional criada sob o auspício das Nações Unidas para sintetizar e informar sobre o estado das alterações climáticas. O IPCC emite regularmente relatórios de avaliação sobre a ciência climática, a economia e as medidas de mitigação.[/ref], referentes à relação entre as emissões de gases com efeito de estufa e o aumento da temperatura média da atmosfera, mais que servirem para questionarmos de forma profunda o sistema económico e social em que vivemos, têm servido para criar uma capa de emergência e crise climática. Não está em causa a crença ou a descrença nos modelos climáticos usados no traçado dos cenários mas, tal como no caso das ER, o uso político que tem sido feito ao nível da governação e das empresas.

    Mais que uma genuína preocupação com a Terra e a natureza, a grande consequência da exploração do medo e da emergência, na questão do clima e da energia, traduz-se na criação da ideia de que apenas o estado bem-intencionado e as empresas responsáveis poderão solucionar o problema

    Efectivamente, muitas grandes empresas que têm sido os actores principais na criação do colapso ecológico a que hoje assistimos passaram a adoptar todo um discurso centrado na necessidade de eficiência energética ou na transição para “modelos sustentáveis” tentando varrer o lixo para debaixo do tapete.

    Os impactos na Terra decorrentes do uso de combustíveis fósseis e das suas várias formas de produção e transporte é diferente do impacto das grandes centrais eólicas ou fotovoltaicas. No entanto, a expectativa de que todas em conjunto poderão assegurar um futuro energético para a sociedade e a economia faz com que as ER industriais nos sejam impostas de forma austera sob o pretexto de uma crise energética, que se soma a uma crise económica e, inevitavelmente, a uma crise social. Assim, interessa pensar sobre que formas de produção energética queremos e para que é que as queremos.

    A utilização que podemos fazer das ER é grande, variada e há ainda um longo caminho para percorrer. É possível dar-lhes um uso sustentável, dimensionado em função das nossas necessidades reais e equacionado a partir da base.

     

    centralsinesO modelo energético, a economia e o crescimento

    A concentração de grandes centrais de produção de energia nas mãos de governos ou grandes grupos económicos determina, hoje em dia, o poder que estes possuem.

    O sistema energético, composto por todas as etapas que vão da detecção de recursos naturais à distribuição de electricidade e combustível, é, portanto, um reflexo fidedigno do projecto do sistema económico capitalista não só pela forma utilitarista e violenta como suga os recursos energéticos mas também pela forma centralizada como está organizado retirando aos utilizadores a possibilidade de controlarem e fazerem parte do processo. A energia nuclear, com a sua complexa tecnologia e necessidade de especialização, é o expoente máximo desta “ideologia energética”, ou seja, muita energia concentrada num reactor que só pode ser operado por físicos e engenheiros com altas qualificações só pode ser o resultado de um extenso processo de concentração de poder.

    Poderíamos fazer exactamente a mesma afirmação sobre o sistema alimentar, sobre a água e o acesso à terra mas, perante as quantidades de energia que são necessárias para fazer movimentar a actual sociedade, recai sobre o sector energético um papel bem mais determinante, já que a maioria dos restantes sectores da sociedade dependem da disponibilidade energética. O panorama é, portanto, evidente: grandes companhias orientadas pela ideia de monopólio tratam de nos fornecer energia através de complexas redes que alimentam, para lá das nossas necessidades mais imediatas, infraestruturas de transporte, de defesa, de comércio. Em qualquer dos casos não nos é permitido decidir sobre a forma ou o estado dessa rede e estamos dependentes dos preços praticados pelas companhias que monopolizam o mercado. Assim, recai sobre elas o poder de criar incluídos e excluídos no acesso à energia. Os cortes de luz levados a cabo no Bairro do Lagarteiro, na cidade do Porto, no fim de 2013, são disso um exemplo. Nessa altura, dezenas de pessoas ficaram sem acesso a electricidade. Mais ilustrativo é ainda o facto de, no ano de 2013, a EDP ter cortado a luz a cerca de 285 mil familias em Portugal[ref]Notícia Dinheiro Vivo: goo.gl/jrfwsm[/ref].

    As grandes companhias eléctricas têm o poder de decretar qual é o nosso acesso à energia ao mesmo tempo que impõem arrogantemente, ao longo do território, barragens, gigantes turbinas eólicas e a rede de Alta Tensão ignorando os seus impactos imediatos.

    No entanto, há certamente uma diferença entre a quantidade de energia necessária para sustentar a vida dos indivíduos e das suas comunidades e as necessidades energéticas da economia global, do permanente transporte de mercadorias, da grande indústria ou da criação de guerras em todo o globo.

    De facto vivemos numa sociedade que é viciada em grandes quantidades de energia e desperdício para se manter em funcionamento e esse vício tem um impacto gravíssimo no ar, na terra, nos ecossistemas e na biodiversidade. Na prática este é o resultado do crescimento económico, ou seja, uma economia mais forte, com um movimento de mercadorias mais intenso, um maior fluxo de capital que resulta num consumo de energia maior e, inevitavelmente, num planeta cada vez mais inabitável para todos os seres vivos.

    A transição para um modelo energético sem combustíveis fósseis, de que tanto se fala hoje em dia, pode ter várias interpretações e caminhos. Ela terá sentido se construirmos alternativas à sociedade que necessita do petróleo ou das infraestruturas megalómanas industriais de produção energética para existir. Caso contrário, estaremos a construir apenas uma versão “verde” e “sustentável” da sociedade em que vivemos hoje. Inevitavelmente esta continuará com os mesmos problemas de desigualdades sociais, de exploração, de violência estatal, de prisões, de pobres e ricos.

    Se os membros do governo se transportarem em automóveis ecológicos, livres de emissões de dióxido de carbono para a atmosfera isso não impedirá que poucas pessoas com poder continuem a decidir sob a vida de milhões.

    Quando olhamos para o problema da energia a longo prazo vemos que as soluções não passam por decisões políticas ou delegações de responsabilidades em candidatos verdes. É justamente no caminho de nos dotarmos a nós próprios de capacidades de produção e distribuição energética colectiva e a partir de uma escala local que pode estar o início de uma solução.

    Simultaneamente, é imprescindível que projectos como a produção de gás de xisto através da fractura hidráulica não se materializem, de nenhuma forma, nem em Portugal nem em lado nenhum, sendo óbvio que é na resistência a esses projectos que começamos a construir o futuro.

     Ana Rute Vila
    anarutevila@dev.jornalmapa.pt

  • Os ventos ocultos da energia eólica

    Os ventos ocultos da energia eólica

     

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    1‒ Breve história das turbinas eólicas

    O aproveitamento da energia eólica remonta aos primórdios da humanidade, mas só no final do século XX se tornou, para o vigente sistema económico, competitivo como forma de produzir electricidade[ref]Ver «Wind Power, na Wikipedia.[/ref].

    A partir de 1995 e até ao corrente ano de 2014[ref]Consultar, por exemplo, dados da EWEA – European Wind Energy Association.[/ref] deu-se a instalação maciça de aproveitamentos eólicos devido à conjugação, por um lado, do aumento do consumo energético com o esgotamento dos combustíveis fósseis e consequente aumento do preço da energia, e, por outro, da consciencialização para as alterações climáticas materializada no Protocolo de Quioto, que determina limites para as emissões de gases com efeito de estufa. Este cenário favoreceu os recentes desenvolvimentos e a expansão dos parques eólicos, que hoje já pesam 10% na electricidade europeia[ref]Idem,  EWEA.[/ref], estimando-se que venham a pesar 20% em 2030.

    A maioria destes empreendimentos está localizada nas cumeadas florestais. Juntam-se aqui as condições ideais: baixo valor monetário dos terrenos, vento abundante e afastamento das populações. Mas, em contrapartida, altera-se a paisagem natural para um cenário industrializado e invadem-se os últimos redutos da vida selvagem. A avifauna mais ameaçada, como as águias, grifos, corvos, cegonhas ou morcegos, fica particularmente exposta a este perigo inusitado.

    Segundo inúmeros estudos de monitorização, as turbinas eólicas são comprovadamente nefastas para os habitats protegidos. Está demonstrado que a mortandade é uma consequência de as turbinas serem colocadas nos habitats avifaunísticos de nidificação, repouso, caça ou como barreira nas rotas habituais. Como os cumes das serras já eram irresistíveis para os empresários e políticos, a investigação académica[ref]Ver Teresa Esteves, Base de dados do potencial energético do vento em Portugal – Metodologia e desenvolvimento, 2004, ou Paulo Costa, Atlas do potencial eólico para Portugal continental, 2004.[/ref] e a indústria[ref]Ver os sites Enercom, Vestas, Gamesa ou Nordex.[/ref] reforçaram esta tendência. A pesquisa e o desenvolvimento de soluções fora-de-costa têm provocado problemas ainda mais graves[ref]Os custos iniciais dos investimentos off-shore obrigam a uma escalada de potência e impacto dos parques. Os efeitos nefastos na vida marinha, nas rotas migratórias e na navegação marítima são amplamente conhecidos.[/ref] e as soluções tendentes à implantação de eólicas em ambientes industriais ou de baixa pressão urbana não passam de pequenos devaneios de ordem estética[ref]A título de exemplo veja-se a incipiência do estado-da-arte no site www.urbanwind.org, galardoado pela U.E.[/ref]. No entanto, estas seriam as localizações mais adequadas, tendo em conta os impactos geológicos e geomorfológico nos recursos hídricos, na ocupação e capacidade de uso do solo, na flora, fauna e biótopos, na paisagem, no ambiente sonoro, sem incumprir os instrumentos de ordenamento territorial nem destruir o património e, de maneira geral, sem aumentar a pegada humana no planeta.

    E assim se chegou à situação actual: os aerogeradores parecem uma boa ideia e são apontados como tendo o mais curto retorno da energia despendida e o menor impacto ambiental[ref]William Cameron Weimar, Land Use, Land Conservation, and Wind Energy Development Outcomes in New England, 2011.[/ref] face a qualquer outra opção. No entanto, a sua implementação tem-se revelado desastrosa para a natureza: mortandade directa da avifauna por choque ou por barotrauma (hemorragias internas provocadas pelas ondas de pressão), efeito barreira, perda e fragmentação de habitats, alteração dos padrões migratórios, redução do número de aves, diminuição da reprodução, maior intrusão humana com impactos na fauna e flora e impactos cumulativos das suas linhas de alta tensão[ref]Travassos et al., 2005.[/ref].

     

    2 ‒ A situação de ilegalidade actual

    Avisa-se desde já que estamos a entrar num território sem lei. Em primeiro lugar, por estarmos a falar da mudança do paradigma energético de base fóssil para o renovável, ou seja, o fim do motor de combustão e a emergência do rotor elétrico[ref]A este respeito, recomenda-se a leitura do livro de Thom Hartmann, As Últimas Horas da Antiga Luz do Sol (Sinais de Fogo, Lisboa, 2002).[/ref]. Além disso, até agora não se impunha discutir o direito de propriedade do vento ou do sol. Mas a partir do momento em que estes se tornam bens valorizados, passa a haver discussão sobre a sua posse. Esta mudança levanta questões legais imprevistas, por onde circulam os poderosos grupos do sector energético.

    Este é o cenário global, mas há uma grande diferença entre o caso norte-americano e o europeu. Nos Estados Unidos da América a propriedade dos recursos naturais é, por norma, atribuída ao dono dos terrenos, ao passo que na Europa é o Estado que habitualmente detém a posse sobre os recursos naturais. Esta é a principal causa apontada para que a rejeição dos empreendimentos eólicos seja mais acentuada na Europa, onde já existem mais de 600 pequenos grupos de oposição, que crescem dia após dia[ref]EPAW – European Platform Against Windfarms.[/ref].

    Na Europa, ainda assim, existem algumas diferenças de país para país[ref]Nadai et al., Une comparaison de l’émergence de paysages éoliens en France, Allemagne et Portugal, 2010.[/ref]. Na costa norte da Alemanha, desde os anos 80 promove-se a energia eólica recorrendo a projectos privados, cívicos e cooperativos que remuneram os próprios habitantes dos locais afectados. Neste caso, foi o resto do país que reagiu contra a densa paisagem energética, falando-se de «loucura eólica», como noticiou o semanário Der Spiegel.

    Em Portugal é o Estado que centraliza as decisões. A promoção das energias renováveis derivou sempre da cúpula do poder, especialmente em 2005 (Resolução do Conselho de Ministros nº 169/2005), ano em que se determinou a aposta fundamental na energia eólica. Os concursos públicos trazem decisões previamente detalhadas e isso transformou os estudos de impacto ambiental em meros instrumentos políticos[ref]Susana Amaral, Análise comparativa da avaliação de parques eólicos em Portugal, 2009.[/ref]. Desde o início da corrida ao vento, em mais de 200 casos só 5 projectos foram travados por questões ambientais. Os estudos de monitorização ficam abaixo do exigível. As medidas de mitigação, quando existem, são irrisórias. A Avaliação Ambiental Estratégica está inquinada pelas mesmas orientações[ref]Veja-se, a título de curiosidade, a omissão de matérias ambientais em Avaliação Ambiental Estratégica do Programa Operacional Competitividade e Inovação, Fevereiro de 2014.[/ref].

    Em todos estes casos existe sempre o mesmo binómio entre quem promove e quem se sente prejudicado com a decisão. Os urbanistas chamam-lhe ironicamente «fenómeno NIMBY (Not in my backyard)», reacção de oposição às obras públicas com benefícios difusos e prejuízos locais. Este fenómeno pode ser ligeiro, moderado ou arrastar-se nos tribunais durante anos. Pode ter uma base de desconfiança, de ignorância, de justiça, de egoísmo ou uma mistura personalizada destes vários aspectos. As turbinas eólicas repetiram este clássico fenómeno reactivo, acentuado pela falta de informação ou diálogo e pela pressa com que tudo tem sido feito. Assim, à medida que a energia eólica ganha terreno, é natural que cresça a contestação, pois a paisagem é fruto de um processo social aberto ao desenvolvimento e cruzamento de pontos de vista, locais e distantes, de pessoas e instituições, de tecnologias e práticas administrativas[ref]Nadai, 2010.[/ref]. Ter opinião, expressá-la, defender direitos ou condenar comportamentos inaceitáveis, é uma parte legítima desse processo.

     

    3 ‒ O que devemos fazer agora

    Não cabe aqui questionar o papel das energias renováveis no paradoxo energético global. O padrão de desenvolvimento das sociedades ditas «civilizadas» tem-se pautado pela delapidação dos recursos naturais e isso continua a ser a norma, também no verde campo das fontes de energia renováveis: os biocombustíveis levantam sérios problemas, inerentes às monoculturas transgénicas, a biomassa florestal prepara-se para arrasar os últimos recursos para regeneração dos solos, as hídricas, as fotovoltaicas e as eólicas tenderão sempre a esticar a corda do lucro e dos impactos ambientais[ref]Leia-se, a este respeito, sobre o conceito de energetic sprawl (disseminação energética), que se debruça sobre a necessidade crescente de espaço para captação de energia.[/ref]. Esta problemática tem origem no elevado nível de consumo energético promovido durante um século de petróleo barato e a solução terá de passar pelo decrescimento energético pessoal, com ou sem crise a «ajudar».

    Mas enquanto não se alcança a utopia do consumo responsável, devemos acautelar que não se ameace ainda mais a vida selvagem.

    Deve-se exigir a definição de zonas de exclusão[ref]Weimar, op. Cit.[/ref] de aproveitamentos energéticos, por forma a garantir que a fauna e a flora em risco não tenham aqui a sua extinção. A monitorização deve ser a regra habitual e deve ter credibilidade científica. Deve ser exigida a publicação dos resultados, que interessa a todos, por forma a reduzir a erosão da confiança social nas instituições e, simultaneamente, a criar histórico para ampliar o conhecimento e melhorar as práticas.

    Finalmente, todos devemos despertar para a vigilância diária dos nossos bens públicos e diligenciar para que todos os projectos sujeitos a Estudos de Impacto Ambiental respeitem a obrigação de operar apenas durante o tempo previsto e reponham as condições naturais após o seu desmantelamento – condição inerente a qualquer projecto sob Avaliação de Incidências Ambientais.

    A história da energia eólica, longe de ser verde, lembra-nos outros ecocídios cometidos no século XIX, quando se dizimaram os tigres de Bengala para tapetes, as martas para casacos ou os elefantes para marfim. Nessa altura não se soube defender a vida selvagem. Agora, dois séculos depois, são as águias que estão em perigo. É nosso dever individual agir para que a história não se repita e para que esta mensagem se propague: energia eólica sim, mas longe das águias e dos habitats de preservação da vida selvagem. Talvez então esta história possa ter um final feliz.

    José paulo Ramalho

     

     

  • Muito Alta Tensão ameaça Norte e Galiza

    Muito Alta Tensão ameaça Norte e Galiza

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    O projecto para a construção de uma linha eléctrica de Muito Alta Tensão (MAT) desde Fontefria, na Galiza, até Vila do Conde, tem motivado desde o inicio do ano diversos protestos entre as populações de ambos os lados da fronteira. O traçado previsto atravessa 121 freguesias dos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto, incluindo a maioria dos municípios do Alto Minho: Monção, Melgaço, Valença, Paredes de Coura, Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Esta linha de MAT será  uma das mais potentes em território portugês (400 KVs), deixando as populações residentes nas zonas circunscritas alarmadas com os impactos nocivos para a saúde, fauna e flora, assim como para o património natural.

     

    linha_da_morte_gemieiraNa aldeia de Gemieira, Ponte de Lima, estão previstas pelo menos cinco torres de 75 metros de altura e uma área de implantação de 200 metros quadrados, além de margens de segurança de 45 metros para cada lado. Os habitantes de Gemieira e Refóios realizaram já várias acções de protesto e sessões de esclarecimento contra a “linha da morte” em relação ao projecto da REN (Rede Eléctrica Nacional), perante a ausência e o silêncio da Câmara Municipal de Ponte de Lima. Na Gemieira, o traçado previsto coloca a linha na proximidade de 20 habitações, de um aglomerado de 14 moinhos, de áreas de produção agrícola e de uma ecovia. Há vários meses que os populares “se dizem dispostos a tudo” para travar a passagem da linha pela aldeia. Foi várias vezes apontado o boicote às eleições europeias como forma de protesto, tendo o mesmo vindo a concretizar-se no passado dia 25 de Maio, quando mais de uma centena de populares de Gemieira impediram a entrada de membros da mesa, na sede da Junta de Freguesia, onde estava instalada a urna de voto.

    Monção-Alta-TensãoEm Monção, os habitantes das diferentes freguesias só foram informados sobre as intenções da REN e o traçado da linha no final do mês de Dezembro de 2013, através de extensa documentação enviada pela Agência Portuguesa do Ambiente, apesar da elaboração do projecto ter começado no início de 2011. O prazo para a consulta pública do EIA (Estudo de Impacto Ambiental[ref]Eixo RNT entre “Vila do Conde”, “Vila Fria B” e a Rede Eléctrica de Espanha, a 400Kv[/ref]) estava inicialmente previsto terminar a 13 de Fevereiro de 2014, data-limite para que a população se  pronunciasse sobre o projecto. Este estudo, encomendado à empresa Ws Atkins, apresenta os impactos negativos na fauna e flora de forma amenizada, dando a entender que podem ser minimizados e reversíveis, mesmo se a construção desta linha eléctrica ameaça várias espécies protegidas, como é o caso do lobo, ou a possível extinção de aves migratórias em todo o Alto Minho, além da desfiguração de extensa paisagem natural. Não foi efectuado qualquer estudo sobre os impactos na saúde das populações.

    Também em Barcelos o traçado previsto atravessará 63 freguesias do Concelho (segundo a divisão administrativa anterior), tendo motivado já contestação popular e mesmo institucional quando, em Fevereiro passado, a Câmara Municipal aprovou uma moção de “rejeição absoluta” do traçado proposto, declarando que “usará todos os meios à sua disposição” para o “travar”.

    flyer_manif_matMinho e Galiza estão unidos nesta luta e fizeram já algumas manifestações conjuntas. A última aconteceu no passado dia 27 de Abril na ponte internacional de Melgaço, onde foi cortado o trânsito automóvel, após o culminar das duas manifestações que partiram de Melgaço e Arbo, exigindo o enterramento da linha, denunciando os efeitos negativos na saúde, no ambiente e nas economias locais. De ambos os lados da fronteira, as autoridades responsáveis pelo projecto são acusadas de terem decidido tudo “sem virem ao local”, “a partir de Lisboa e de Madrid”.

    São inúmeros os exemplos em Portugal de prejuízos para a população, ambiente e património nas zonas atravessadas pelas linhas de Alta Tensão. O enterramento das linhas é uma solução que a REN não considera porque fica mais cara. Assim consegue minimizar custos sacrificando a saúde das pessoas e o ambiente. Não fosse a impunidade da REN, garantida pelo aparato politico-legal do estado, resultando no escasso poder de decisão dos indivíduos e comunidades, e as linhas de Alta Tensão seriam incomportáveis social e economicamente, bem como o modelo de produção e distribuição de energia inerente. Noutro cenário, compensaria o investimento em alternativas de produção, distribuição e consumo, cuja prioridade fosse o bem-estar dos indivíduos e a preservação dos ecossistemas. Este seria, contudo, um passo subsequente à crítica dos vários factores de desperdício, actualmente justificados em grande parte com a falácia do “crescimento económico”.

     

     

    alfena_caixaPrejuizos para a população, ambiente e património

    Os moradores de Adanaia, pequena aldeia de Calhariz, no concelho de Vila Franca de Xira, têm-se queixado do ruído insuportável vindo das linhas de MAT localizadas na proximidade das suas casas e que se faz sentir em dias de vento ou humidade. O “zumbido” forte e prolongado, denominado por “efeito coroa”[ref]Fenómeno fisico causado pela ionização do ar, junto aos cabos condutores e isoladores, nas linhas de alta tensão.[/ref], martiriza os habitantes de Calhariz, que não conseguem dormir. Alguns moradores tiveram de começar a usar tampões nos ouvidos e, em casos mais extremos, tomar medicamentos[ref]Zumbido das linhas de muito alta tensão não deixa dormir habitantes de Adanaia. Artigo publicado a 14 de Março de no diário online, O Mirante (www.omirante.pt)[/ref]. Têm sido também reportadas interferências frequentes nos comandos dos portões das garagens, comandos das televisões, e nos aparelhos auditivos e de medição cardiovascular.

    Em situação idêntica estão os habitantes de Recarei, em Paredes, que também se queixam do ruido igualmente insuportável, acentuando em dias de chuva, desde que a linha entrou em funcionamento, no final de Março. Alguns moradores tiveram igualmente de recorrer a medicação para conseguirem dormir[ref]http://portocanal.sapo.pt/noticia/22200/[/ref]. A linha passa por cima de várias habitações nos lugares de Terronhas e Rochão. Foram entretanto feitas várias queixas à REN, que não deu qualquer resposta. A Junta de Freguesia salienta ainda que no final da instalação da linha, a REN não efectuou reparações nas estradas e caminhos danificados para esse propósito.

    Os moradores de Lombelho, na freguesia de Alfena, concelho de Valongo, estão preocupados com o aumento da voltagem da linha de Alta Tensão que atravessa aquele lugar para o dobro do existente desde há 13 anos. Contrariamente ao que tinha sido acordado com a REN, a voltagem de 220 KVs foi alterada para 400 KVs “sem aviso prévio”, causando um “barulho ensurdecedor”[ref]Semanário Verdadeiro Olhar, 30-12-2013[/ref]. Vários moradores confirmaram que ao realizarem testes em compartimentos das suas casas, através do uso de busca-pólos, este se “acende no ar sem estar em contacto com aparelho algum”[ref]A Voz de Ermesinde, 15-4-2014[/ref], detectando electricidade. Além de moradias que ficam junto à linha, localiza-se ali também a escola Básica do 1.º Ciclo de Lombelho.

    No Alto Douro, o atentado ambiental perpetuado pela EDP, através da construção da barragem da foz do Tua, não se ficou por aí. Agora é a linha de Muito Alta Tensão, projectada para escoar a energia produzida no AHAT (Aproveitamento Hidroeléctrico Alto Tua) para a Rede Nacional de Transporte de Electricidade, que continua o processo de destruição do habitat e das características especiais dessa região.

    matAs linhas de Alta Tensão e os riscos para a saúde

    Têm sido efectuados vários estudos por diferentes grupos de cientistas internacionais sobre a ocorrência de leucemia infantil, alzheimer ou esclerose lateral amiotrófica, resultantes da exposição a longo prazo aos campos electromagnéticos das Linhas de MAT.

    A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera ser possível que campos electromagnéticos de baixa frequência possam estar associados a algumas formas de cancro, nomeadamente a leucemia infantil, recomendando medidas de precaução. No que diz respeito ao campo eléctrico, a OMS considera que só há efeitos sobre o sistema nervoso acima dos 10 kV/m, o que só é possível de atingir muito perto dos condutores de Alta Tensão. Estes limiares correspondem a reconhecidos efeitos agudos e foram traduzidos numa recomendação da OMS de 1998, adoptada pela União Europeia em 1999, e que veio a ser transposta para a lei portuguesa em 2004.

    No entanto, o grupo “Bioiniciativa”[ref]www.bioinitiative.org[/ref], incorporando vários cientistas internacionais, apresentou em 2007 um relatório[ref]BioInitiative Report: A Rationale for a Biologically-based Public Exposure Standard for Electromagnetic Fields (ELF and RF), 31-08-2007[/ref] em que são contestadas as posições da OMS relativamente aos valores padrão considerados prejudiciais para a saúde. Assim, o grupo Bioiniciativa reclama mais medidas e maior precaução contra as fontes geradoras de campos eletromagnéticos, nomeadamente o enterramento generalizado das linhas de Alta Tensão.

    A proposta de enterramento das linhas de MAT, sendo um mal menor, resolve apenas parcialmente o problema de exposição aos campos magnéticos e a destruição de património natural. O enterramento das linhas implica a construção de um corredor de 13 a 14 metros de largura (para um cabo de 400 KVs), o equivalente a uma estrada secundária, aumentando inclusive o campo magnético à superfície desse corredor.

     

    Júlio Silvestre
    Fotos (linhas de MAT em Alfena): Ursula Zangger