Autor: Guilherme Luz

  • A cidade é de quem a ocupa

    A cidade é de quem a ocupa

     

    O número 69 da Rua Marques da Silva, edifício propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, no bairro de Arroios, foi ocupado pela Assembleia de Ocupação de Lisboa (AOLX), um grupo sem filiação institucional. Em comunicado divulgado hoje ao início da tarde, a AOLX aponta o dedo à especulação imobiliária na cidade de Lisboa afirmando que “nos últimos anos, o direito a habitar na cidade de Lisboa tem sido alvo de diversos ataques. Num cenário de crise económico-financeira e de austeridade, a alteração da lei das rendas por parte do anterior governo veio permitir novas oportunidades de negócio a fundos de investimento e demais entidades especuladoras.” O comunicado frisa ainda que “bairros onde as rendas eram outrora minimamente acessíveis viram os seus valores aumentarem de uma forma brutal” e responsabiliza a CML neste processo. Com a ocupação deste imóvel, a AOLX propõe-se a dinamizar um debate crítico sobre a cidade e defende que “a ocupação desta casa não se limita a retirá-la das malhas da especulação, querendo fazer dela um espaço de usufruto social, seja habitacional, educativo ou cultural.” Para o fim-de-semana estão já marcadas várias atividades no local, onde se destacam a apresentação de um arquivo histórico sobre a ocupação em Portugal, no sábado, e uma assembleia de ocupação de Lisboa, no domingo.

    A ocupação deste imóvel dá-se em plena campanha eleitoral onde a questão da habitação de Lisboa e os impactos da indústria turística têm estado no centro dos debates. Nos últimos meses têm sido permanentes as denúncias, por parte de coletivos e associações de moradores, de que o preço da habitação em Lisboa toma proporções astronómicas e de que o ciclo de especulação imobiliária para a criação de alojamento local leva a despejos de famílias que moram há anos em bairros históricos, como Alfama e Mouraria. Em Agosto passado, moradores, familiares e amigos, em conjunto com a Rede de Solidariedade de Lisboa, uma rede de apoio mútuo, pararam um despejo de uma família. O recém publicado documentário do coletivo Left Hand Rotation em parceria com a associação Habita expõe o problema da habitação no bairro da Mouraria através da voz de várias mulheres que descrevem a vida no bairros e as ameaças que os moradores sofrem. Sobre a sua rua dizem: “na Rua dos Lagares vão restar apenas três ou quatro prédios com moradores do bairro. De resto, é só condomínios de luxo e hostels.” O problema da habitação e da especulação imobiliária não são novos mas assumiram proporções inimagináveis nos últimos anos. No entanto, os casos de resistência e denúncia parecem estar a multiplicar-se a cada dia mostrando que a resistência dos moradores é parte da solução independentemente do discurso e das propostas dos candidatos à CML.

     

  • Violência policial no bairro do Pendão

    Violência policial no bairro do Pendão

    Uma intervenção policial no bairro social do Pendão no dia 15 de Março de 2017.

    O Mapa-jornal de informação crítica, foi ouvir a versão dos moradores do bairro que testemunham ter sido, mais uma vez, vítimas de violência policial.

     

    (foto Stress.FM/A.Guterres)

  • Concentração de apoio ao Centro Social COSA junta mais de 50 pessoas em Setúbal

    Concentração de apoio ao Centro Social COSA junta mais de 50 pessoas em Setúbal


    Mais de meia centena de pessoas esteve na tarde deste Sábado concentrada no Largo da Misericórdia no centro da cidade de Setúbal num ato público de apoio e solidariedade com a histórica Casa Okupada de Setúbal Autogestionada. A poucos meses de cumprir 17 anos de ocupação, a COSA enfrenta um processo em tribunal que tudo leva a crer que terá como desfecho uma ordem de despejo. Durante o protesto foram lidos comunicados e palavras soltas contra a ameaça de despejo, fazendo uso do microfone aberto montado no local para o efeito. Após duas horas de concentração, o protesto partiu em marcha pela ruas da cidade.

    Ocupada no ano 2000 por um grupo de jovens setubalenses, que ali queriam construir um centro social autogerido e uma casa para a juventude, a COSA tem, nos últimos anos, sido o palco de debates, concertos, ateliers, oficinas e festas e foi aí que recentemente foi inaugurado o infospot “O Covil”, um espaço de partilha livre de livros e publicações. Não obstante o facto de ter sido construída por diversas pessoas de diversas afinidades políticas, o projeto sempre se assumiu comoLibertário, tendo participado, de forma organizada, em importantes batalhas da cidade de Setúbal como a luta contra a co-incineração na fábrica de cimento da Secil, o famoso projeto do então ministro do ambiente José Sócrates, ou os protestos de repúdio contra a morte de Toni, um jovem do Bairro da Bela Vista assassinado em 2002 à queima roupa por um agente da PSP. Esta última participação valeu ao espaço uma operação policial em 2003 que, sob o pretexto de uma faixa afixada no exterior do imóvel em que era denunciada a violência policial, esta foi invadida. Anos mais tarde viu ainda o seu jardim auto-construído retirado e destruído pelos serviços da Câmara Municipal de Setúbal. O processo do centro social terá mais uma etapa a 2 de Junho, dia em que está convocado um pequeno-almoço no tribunal de Setúbal pelas 9h da manhã.

    Os eventos surgem num momento em que a cidade atravessa um intenso processo de transformação social e laboral motivado pelo desenvolvimento desenfreado da atividade turística e, à imagem de grandes cidades como Lisboa ou Porto, vem acompanhado de uma forte tendência de valorização imobiliária onde não faltam vertiginosos aumentos de rendas. Em 2016 foi anunciada a intenção, por parte do grupo Macau Legend do empresário David Chow, de investir cerca de 250 milhões de euros na construção de um resort de luxo junto à marina de Setúbal. Contudo, centenas de imóveis estão abandonados e a cair no centro de cidade, ao mesmo tempo que muitas habitações continuam sem condições em bairros desfavorecidos. Em resposta a este modelo de desenvolvimento e ao despejo do centro social ocupado fica o slogan gritado hoje nas ruas de Setúbal: “A COSA fica”

  • O modelo energético que já chegou, mas ainda está para vir.

    O modelo energético que já chegou, mas ainda está para vir.

    com J. Martins [j.martins@dev.jornalmapa.pt]

    [Sinergias #2] O segundo de uma série de artigos, entrevistas e reportagens com o objetivo de lançar um olhar crítico sobre o atual modelo de produção energética, a sua sustentabilidade e viabilidade no presente contexto de crise climática, ecológica, económica e social.

    A necessidade de uma transformação no sistema energético é consensual. Contudo o mesmo não se pode dizer sobre os caminhos que tomará esta transição. Entre comunidades locais, movimentos sociais, governos e empresas do setor, as diferenças de posição e orientação são muitas e variadas.

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    No passado dia 1 de Março foi anunciada a construção do maior projeto de captação de energia solar em Portugal até à data e um dos vinte maiores do mundo, o Solara4. Com uma potência instalada de 220 MW, o projeto, no concelho de Alcoutim, Algarve, prevê a instalação de 2,4 milhões de painéis solares. O investimento correspondente, de 200 M€, provém maioritariamente de duas empresas: a China Triumph International Engineering, parte do grupo China National Building Material, controlado pelo Estado chinês e pelo grupo britânico Welink, que tem ligações fortes a este e a outros grupos chineses. Investimentos desta natureza, em fontes de energia renovável, parecem à primeira vista incontroversos, mas, como qualquer outro, impõem uma abordagem ponderada. De acordo com um comunicado da associação ambientalista Almargem, o projeto ocupará e destruirá completamente uma área de serra com 600 hectares, o equivalente a cerca de 520 campos de futebol. A associação acrescenta ainda que “Como é óbvio, a Associação Almargem apoia o incremento dos sistemas de produção de energia não dependentes de combustíveis fósseis. (…) Num território como o Algarve, é preferível que se opte por implementar centrais solares mais pequenas, em zonas agrícolas abandonadas ou sem valor conservacionista, perto dos locais de consumo, onde todos os intervenientes possam ter benefícios e os impactes negativos sejam consideravelmente muito mais reduzidos.”. Esta situação tipifica o tipo de dilemas que grandes projetos definidos com “sustentáveis” frequentemente levantam, mas que raramente são reconhecidos ou debatidos pelos seus proponentes.

    Outro exemplo relevante neste contexto é o da produção de energia hidroelétrica. 10 anos após o lançamento do Plano Nacional de Barragens pelo governo de José Sócrates em 2007, subsistem ainda 3 aproveitamentos hidroelétricos dos 10 inicialmente planeados. À destruição ambiental e ao impacto social causados por estas grandes hidroelétricas, devemos necessariamente contrapor o facto de, todas juntas, estas barragens contribuírem com a irrisória parcela de 1,7% da produção elétrica de Portugal, de acordo com o grupo Rios Livres do GEOTA. A relação entre investimento, impacto e retorno de projetos como estes deve legitimamente levar-nos a questionar quer a visão que os rege, quer acima de tudo a sua adequação.

    Subindo alguns degraus na escala dos potenciais custos e impactos associados a projetos energéticos, este ano foi também o ano em que a energia nuclear voltou a estar na ordem do dia. A Central Nuclear de Almaraz, junto à fronteira com Portugal, que há poucos dias sofreu mais uma paragem não programada, coloca questões para as quais não há respostas felizes: comunidades sem voto na matéria, são forçadas a viver sob a ameaça permanente de um desastre nuclear.

    Projetos como estes permitem ainda assim aos seus promotores invocar o argumento de produzirem energia “renovável” ou, pelo menos, independente da combustão de hidrocarbonetos. Outros nem isso. Alheia à recusa de dezenas de movimentos sociais, associações ecologistas e comunidades afetadas de Norte a Sul de Portugal, a GALP tenciona este ano realizar o primeiro furo para a prospeção de hidrocarbonetos ao largo da Costa Alentejana. Em comum estes projetos têm o facto de serem de grande dimensão, de se destinarem à produção de algum tipo de energia e de serem produto do investimento ou de grandes empresas do sector energético, como a GALP ou a Iberdrola, ou de investimento público de estados, ou ambos. Sintomaticamente, têm também em comum o facto de não terem sido debatidos com as populações ou as comunidades dos locais onde se implementam, indo contra inúmeros relatórios e estudos que denunciam os impactos e as consequências sobre as mesmas e o ambiente em geral. Sem surpresa, quase todos foram motivo de mobilizações e de contestação durante anos. Estes e outros grandes empreendimentos, aos quais podemos chamar mega-projetos energéticos, tipificam uma certa agenda, alheia, no essencial, ao interesse popular e à participação comunitária, que caracteriza muita da política em geral e a política energética em particular. Não espanta portanto que sejam contestados um pouco por toda a Europa e pelo mundo fora. Projetos como o Southern Gas Corridor, o gasoduto que visa abastecer a Europa com gás a partir do Azerbaijão, a exploração de carvão lignite na região alemã da Renânia, os campos de gás de Groningen, na Holanda, ou as linhas de alta-tensão no norte da Catalunha, entre muitos outros, têm sido apontados como fontes de enormes impactos ambientais e sociais. Estes e outros projetos, para os quais se canalizam muitos milhões em fundos europeus e nacionais, são produto deste mesmo modelo de produção e consumo energético centralizado em grandes infra-estruturas sob o controlo de estados ou multinacionais, que marginaliza inevitavelmente as populações afectadas, através de processos de decisão totalmente opacos e não inclusivos, sobre os quais estas não têm qualquer controlo. O exemplo paradigmático desta tendência são as estratégias previstas no Pacote sobre Segurança Energética Sustentával, apresentado em 2016 pela Comissão Europeia, no qual, entre outras coisas, se se consagra a expansão do uso de gás natural na Europa. Na prática traduzir-se-á na canalização de biliões, através de inúmeros projetos de pequena, média e grande dimensão, incluindo a construção de novo gasodutos intercontinentais e o desenvolvimento de uma infra-estrutura europeia associada à importação, armazenamento e distribuição de gás natural, que vinculará sem debate real os europeus ao uso deste combustível durante décadas. Ao mesmo tempo oferece à indústria um tremendo incentivo para a continuação da extração do mesmo, com todas as consequências que isso acarretará. Contudo este modelo não só tem sido alvo de uma crescente chuva de críticas, como também tem motivado a proposta de inúmeras alternativas.

    Um passeio pela Europa das cooperativas.

    Face a esta política de cima para baixo, plataformas cidadãs, coletivos ecologistas, académicos, ambientalistas e comunidades afetadas têm contraposto e promovido conceitos como energia comunitária, cooperativas de energias renováveis, autossuficiência e autonomia energética, ou democracia e soberania energética, apontando os mesmos como dinâmicas incontornáveis para uma transição energética não só ambiental e socialmente sustentável, mas socialmente dinamizadora e emancipatória. Indo além de ideias e conceitos estas propostas têm-se materializado em iniciativas concretas com o intuito de desenvolver novas relações entre os sistemas energéticos e as comunidades, centradas em energias renováveis e numa visão da energia como um bem comum e essencial. A multiplicação de cooperativas de eletricidade renovável, projetos de energia comunitária e inúmeras experiências com tecnologias de uso livre e aberto é evidente.

    De acordo com o site rescoop.eu, da Federação Europeia de Cooperativas de Energia Renovável, existem na Europa cerca de 2400 REScoops, localizadas maioritariamente na Europa Ocidental, tendo a Alemanha, a Dinamarca e a Áustria o maior número de cooperativas em funcionamento. Neste universo a federação representa cerca de 1200 destas iniciativas e desde que foi fundada, em 2013, os seus membros investiram cerca de 2 biliões de euros em instalações para a produção de energia, que somam uma capacidade instalada de 1 GW. Tratam-se, na sua maior parte, de cooperativas de consumo de energia elétrica de origem renovável sem fins lucrativos. São idealmente estruturas transparentes com processos internos democráticos para a tomada de decisões, que podem ainda ser uma forma de investir coletivamente em infraestruturas locais de produção energética renovável com o fim de beneficiar uma comunidade. Uns cliques no mapa interativo disponível no site e fazemos zoom-in sobre a Península Ibérica. Automaticamente surgem pontos como a SOM Energia na Catalunha, a Zencer na Andaluzia, a Goiener no País Basco, a Nosa Enerxia na Galiza e a Coopérnico em Portugal, entre algumas outras. As várias regiões de Espanha têm sido palco nos últimos anos de um autêntico boom de cooperativas, onde a Catalã SOM Energia, primeira a constituir-se em 2010, é a maior de todas elas. Para compreendermos as razões que levaram a este rápido desenvolvimento temos de olhar quer para a natureza do mercado espanhol, quer para o impacto da crise financeira. De acordo com um artigo na revista El Ecologista, a persistência da crise, combinada com a subida dos preços da eletricidade nos últimos anos, gerou escandalosos problemas de pobreza energética. Estima-se que, em 2012, pelo menos 7 milhões de pessoas tiveram de destinar uma quantidade desproporcionada dos seus rendimentos para pagar faturas de eletricidade. Paralelamente, a chamada liberalização do sector energético, em curso desde os anos 90, traduziu-se na criação de um oligopólio com amplas ramificações na política espanhola. As 5 maiores empresas de geração elétrica, agrupadas na Unesa, associação espanhola da indústria, são responsáveis por 76% da geração, 85% da comercialização e 98% da distribuição no país. Estas empresas têm influência direta na legislação aprovada, diabolizam as energias renováveis com o objetivo de manter os seus investimentos em centrais de ciclo combinado a gás natural e manipulam preços. Um artigo publicado no jornal espanhol Diagonal, no final de 2016, notava que o preço da energia pago pelas famílias espanholas esteve entre os mais altos da Europa. No primeiro semestre de 2016, segundo dados do Eurostat, estava nos 0,218 €/kWh, acima da média europeia de 0,206 €/kWh e acima de França e Suécia, mas abaixo de Portugal, com um preço médio da eletricidade de 0,23 €/kWh (fonte: Pordata). Estes valores traduziram-se em lucros, entre 2008 e 2015, na ordem dos 56 624 M€ para as três maiores elétricas espanholas, Endesa, Iberdrola e Gás Natural Fenosa. Este período não é apenas um espaço de tempo em que o preço da eletricidade não parou de aumentar, mas também o da crise económica. O facto de os que mais sofreram com a crise terem sido os mesmos a paga-la não evitou a tragédia de cerca de meio milhão de habitações com a luz cortada em 2015, número só ultrapassado em 2012, um dos anos mais violentos da crise, com quase 1,5 milhões de cortes de luz em Espanha. É neste contexto de monopólio, ganância e prepotência que a proposta das cooperativas ganhou terreno. O número de membros das cooperativas não mais parou de aumentar. A SOM Energia, um projeto local impulsionado por 150 sócios, evoluiu para uma cooperativa com quase 33500 sócios em 2017, organizados numa estrutura descentralizada com dezenas de grupos locais por todo o país. Outras cooperativas surgiram entretanto. A Goiener, no País Basco, conta já com mais de 6153 sócios, e a Nosa Enerxia, na Galiza com cerca de 300.

    Em Portugal o sector elétrico é igualmente dominado por empresas monopolistas. Em 2016 a EDP, concessionária da rede de distribuição nacional, obteve um resultado líquido de 961 M€ (mais 5% que em 2015) e em outubro passado, poucos dias após a inauguração do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), gerido pela Fundação EDP, a empresa voltou aos cortes de abastecimento em bairros sociais. Um comunicado conjunto de associações de moradores de vários bairros da grande Lisboa descreve que no Bairro da Torre, em Loures, a EDP “cortou, sem qualquer aviso, o acesso à energia a cerca de 70 famílias que aí vivem, incluindo a iluminação pública.” Após o corte a Câmara disponibilizou dois geradores, mas, esgotado o gasóleo, as famílias voltaram a ficar sem luz, pois era-lhes impossível pagar o combustível. Num outro episódio a EDP colocou em tribunal a associação de moradores do bairro da Jamaika, no Seixal, exigindo o pagamento de uma avultada soma. No bairro vivem 215 famílias em habitações com humidade, parco saneamento, frequentes inundações e prédios degradados. Em causa está a recusa, por parte da EDP, em realizar contratos individuais aos moradores e exigir que a associação faça a gestão das faturas, situação que não colheu acordo entre moradores e gerou conflitos. Em 2013 a empresa tinha já cortado a eletricidade nos bairros do Lagarteiro e de Contumil, no Porto. De acordo com o 2.º relatório da União energética da Comissão Europeia, de fevereiro passado, o país com o preço mais alto da eletricidade era o Reino Unido, seguido de Portugal, Grécia, Espanha e Itália. Foi também nestes países mediterrânicos que, entre 2013 e 2015, o preço por MWh de eletricidade mais subiu. Os relatos da pobreza energética não se ficam por aqui, como conta Miguel Heleno na edição de fevereiro de 2016 da versão portuguesa do jornal Le Monde Diplomatique. Pelo menos 22% da população vive em casas com défices graves de isolamento térmico. Os mais vulneráveis são, naturalmente, os idosos, que em grande parte habitam em meios rurais ou urbanos envelhecidos. ainda um outro dado importante: o peso da eletricidade na energia consumida em Portugal é muito superior à média da UE. 61.2% das famílias usa aquecimento elétrico, o que as torna, na prática, reféns da eletricidade, e do seu preço, para o aquecimento.

    Mas também em Portugal existem experiências alternativas. Uma das que tem recebido mais destaque é a Coopérnico, uma cooperativa para a produção e comercialização de energia renovável. Criada em 2013, conta com 636 membros e fornece mais de 300 contratos para a venda de eletricidade sustentável de fontes renováveis. Tem investido na instalação de inúmeras centrais solares em meio urbano e tem já concluídos com sucesso inúmeros projetos, totalizando investimento superior a 500000€. A maior instalação está localizada em Mangualde, com uma potência instalada de 86 kW. Curiosamente, outros exemplos interessantes remontam não a 2013, mas aos anos 30 do século passado. Existem ainda hoje em Portugal cerca de 10 cooperativas elétricas locais, a maioria no norte do país, que datam desse período. Estas cooperativas formaram parte de uma resposta frequentemente colectiva aos desafios da eletrificação do interior rural. Inúmeras deixaram de funcionar ao longo do século passado, à medida que a rede nacional se desenvolvia, nomeadamente durante os anos 80, período aziago a projetos desta natureza, mas as dez que sobrevivem são na maioria casos de sucesso a vários níveis. Cooperativas como a CELER, de Rebordosa, a A Lord de Lordelo, CEL de Loureiro ou a CEVE de Vale d’Este, entre outras, são exemplos vivos e vitais de eletrificação cooperativa vinculada às comunidades a que pertencem. São locais, enraizadas e representativas do seu território, da sua população e da sua história, para os quais contribuíram ao longo de décadas. Fornecem eletricidade a preços inferiores à média nacional, com uma qualidade de serviço superior, fruto da proximidade aos utente e membros, dão lucros que em grande medida revertem para a comunidade, entre outros aspetos a destacar. Naturalmente, a maior parte da eletricidade que fornecem não provém de fontes renováveis e, como organizações quase centenárias, terão alguma bagagem associada ao contexto sociopolítico que as envolve. Mas não custa imaginar que poderão adoptar com maior facilidade soluções renováveis de menor impacto do que as descritas atrás. Finalmente, o AECT Duero-Douro, uma organização transfronteiriça sem fins lucrativos devotada ao desenvolvimento da região, anunciou no início do ano a criação de um uma cooperativa transfronteiriça, a EFI-Duero Energy, em parceria com mais de 200 municípios e entidades de ambos os lados da fronteira, com a promessa de oferecer eletricidade a preço de custo, sem margem comercial e de combate ao oligopólio que domina os dois mercados. Ao contrário da Coopérnico que tem um compromisso claro com a energia renovável produzida localmente, estes projetos, pelo menos nesta fase, oferecem propostas essencialmente interessantes no que toca ao comportamento dos mercados e à integração comunitária de serviços.

    Para lá das cooperativas

    As diversas experiências e perspetivas cooperativas na área da energia têm sido alvo de um alargado debate e estudo quer no meio académico, quer por inúmeros grupos e coletivos dedicados à soberania energética, mas também por sindicatos e outras organizações políticas. O trabalho de Conrad Kunze e Sören Becker, investigadores alemães sobre modelos cooperativos de produção energética, realça o papel que movimentos sociais desempenham quando unem iniciativas de transição energética a propostas de decrescimento ou abrandamento económico. Assim, definem “projectos colectivos de energia renovável politicamente motivados”, ou seja, iniciativas que se posicionam para lá da mera geração de eletricidade ou calor a partir de fontes renováveis, mas que assumem uma dimensão política, através de estruturas que promovem a participação, a propriedade coletiva, bem como processos de tomada coletiva de decisões. Os investigadores lançam-se na identificação desses projetos na Europa, usando ainda outros critérios, como o compromisso com objetivos ecológicos ou a criação de emprego ao nível local. O exemplo da SOM Energia surge na lista, lado-a-lado com muitos outros projetos. Um deles começou em 2003, quando a comunidade de Machynlleth, no País de Gales, através da cooperativa Bro Dyfi Community Renewables, foi responsável pela instalação da primeira turbina eólica comunitária, comprada em segunda-mão, com uma potência de 75 kW. Para os investigadores, o projeto de energia eólica em Machynlleth segue uma agenda de decrescimento: fornece energia renovável gerada localmente, acompanhada pela tentativa de impactar o estilo de vida da comunidade em termos energéticos, sem seguir um modelo comercial tradicional. A vila é também o local onde, desde os anos 70, está instalado o Centro para a Tecnologia Alternativa (CAT, na sigla em inglês), um centro de educação e investigação em sustentabilidade. Inicialmente uma parte da energia produzida pelo gerador servia para alimentar o CAT, sendo o excesso de produção injetado na rede de distribuição local. De acordo com a página do projeto, toda a energia gerada hoje em dia é injetada na rede local e em 2010 a comunidade instalou uma segunda turbina de 500 kW.

    Em 2013 Berlin foi palco de uma tentativa de compra e municipalização da rede de distribuição local de energia. A campanha que antecedeu o referendo, a 3 de novembro, foi dinamizada pela Berlin Energy Roundtable, uma aliança de ONG’s, grupos ambientalistas, ativistas, coletivos anti-gentrificação e profissionais de energias renováveis. A proposta do referendo era retirar a concessão da rede à Vatenfall, companhia pública sueca, que é proprietária da rede desde a sua privatização, em 1997. A empresa é particularmente mal vista na Alemanha, pelo facto de ser dona de diversas centrais nucleares e minas de lignite perto de Berlin e porque, em 2012, processou o governo alemão, pedindo biliões de euros de indemnização pela decisão de encerrar gradualmente centrais nucleares na sequência do desastre de Fukushima. A aliança propunha que a rede local viesse a ser propriedade de uma nova companhia publica de energia 100% renovável, de base comunitária, gerida pelos cidadãos, pelos próprios trabalhadores e membros da Câmara Municipal. A companhia estaria ainda orientada para uma redução geral do consumo energético na cidade e para a implementação de tarifas sociais de eletricidade que prevenissem a pobreza energética. A proposta, aprovada por 83% dos votantes, falhou ficando 21,000 votos atrás do resultado necessário para a sua implementação.

    Estes dois modelos, os mega-projetos e projetos de pequena e média dimensão, assentes em ação e soberania comunitárias, são em grande medida antagónicos e fazem parte do autêntico turbilhão que percorre o sistema energético. É preciso ainda não esquecer os avanços tecnológicos da ultima década que têm tornado cada vez mais acessíveis módulos fotovoltaicos, painéis de energia solar térmica para a produção de águas quentes e turbinas eólicas adaptáveis a todos os regimes de ventos urbanos ou rurais. O custo da energia fotovoltaica, por exemplo, diminuiu 85% nos últimos 7 anos, de acordo com o relatório Carbon Tracker do Imperial College de Londres, ganhos que, à luz de avanços tecnológicos previsíveis, tenderão a aumentar ainda mais. Estes avanços tornam cada vez mais viáveis e relevantes quer soluções comerciais convencionais, quer, crucialmente, soluções locais e comunitárias sem fins lucrativos. Por outro lado, a indústria de combustíveis fósseis reinventa-se e redobra esforços para atrasar este progresso e a sua aplicação abrangente. A política europeia reflete claramente estas tensões. Se o Pacote sobre Segurança Energética Sustentável da UE, que mencionamos, pode ser descrito como uma “carta de amor” à indústria fóssil, o mais recente Winter Package: Clean Energy for All Europeans (Pacote de Inverno: Energia Limpa para Todos os Europeus) lançado em novembro passado, estabelece, entre outras coisas, as bases para uma muito maior abertura para com iniciativas locais e regionais de base comunitária ou cooperativa, focadas na produção de energia provinda de fontes renováveis. Estes dois pacotes de medidas representam o que a UE espera que seja visto como uma política estratégica multipolar e complementar. O problema é que claramente onde uns são filhos, outros são enteados. O primeiro representa um esforço estrutural, assente em infraestrutura construída ou a construir, com claras implicações a médio e longo prazo; enquanto o segundo, bem vindos que sejam alguns dos seus elementos constituintes, representa acima de tudo uma maior abertura institucional a alternativas. Enquanto isso, o planeta aquece…

    Some like it hot.

    Como cenário de fundo surgem as alterações climáticas e os seus impactos. 2016 foi o ano mais quente de que há registo e é muito provável que 2017 lhe tome o lugar. Na sequência do seu mais recente relatório anual que realçava estas tendências, David Carlson, diretor do programa de investigação climática global da WMO (Word Meteorological Organization) afirmou que “estamos a ver alterações notáveis à escala planetária, que questionam os limites da nossa compreensão do sistema climático. Estamos realmente a entrar em terreno desconhecido”. Em perfeito contra-ciclo, no final de março correu na imprensa mundial uma fotografia de Donald Trump, ladeado de mineiros. Também ao seu lado, durante a assinatura do decreto que deita por terra o Clean Power Act, a legislação aprovada por Barack Obama para cortar as emissões de gases com efeito de estufa, estava ainda o recém-nomeado diretor da Agência de Proteção Ambiental, Scott Pruitt, personagem fortemente associado à indústria petrolífera e que rejeita o consenso científico em torno do aquecimento global. Dois meses antes, em janeiro, Trump tinha revertido outro marco da administração Obama, o cancelamento do Dakota Access Pipeline, conseguido após largos meses de protestos e de repressão de ativistas indígenas e ambientais. No entanto, o que é surpreendente em Trump não é o seu compromisso com a reativação das indústrias do petróleo, gás e carvão. A administração Obama, mesmo tendo aprovado medidas limitadas contra as alterações climáticas, nomeadamente no que toca ao carvão, foi um proponente e dinamizador inicial do gasoduto Keystone XL, um dos projetos potencialmente mais danosos da atualidade. Foi ainda durante o seu mandato que a indústria da fratura hidráulica teve o seu momento áureo, com o seu apoio declarado. Ainda assim, Trump devolve o American Dream à indústria fóssil com um assustador orgulho e consequências possivelmente devastadoras, pela mensagem que passa à indústria e ao mundo. 8 de novembro de 2016 não foi apenas o dia em que este ganhou as eleições nos EUA, mas também o segundo dia da COP22, a conferência das Nações Unidas para as alterações climáticas. Reunidos em Marraquexe, líderes e delegações mundiais congratulavam-se com a ratificação do Acordo de Paris, que visa impedir que a temperatura média do planeta não suba (idealmente) mais de 1,5º C, perante um coro de consternação de especialistas e cientistas que, louvando o passo em frente, não conseguiam deixar de reconhecer o irrealismo do mesmo, perante a falta de metas vinculantes e de mecanismos, nomeadamente face às reservas de combustíveis existentes e consumos já previstos. O acordo sugere um fluxo de muitos milhões para todo o tipo de investimentos energéticos, ao mesmo tempo que estudos recentes como o Emissions Gap Report 2016, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que mesmo cumprindo o estabelecido, o aumento ronde os 3ºC ou mais, o que teria inevitavelmente consequências desastrosas para o ecossistema global. O problema é que já passaram quase 8 anos desde a Conferência do clima em Copenhaga, no ano de 2009, 20 desde o Protocolo de Quioto e quase 30 desde o histórico testemunho do cientista da NASA, James Hansen, ao Congresso americano acerca do aquecimento global. As temperaturas médias do planeta não pararam de aumentar e estudos e notícias recentes começam a lançar sérias dúvidas sobre se não ultrapassámos já o ponto de não-retorno nos níveis de CO2 na atmosfera, para além do qual alterações catastróficas serão inevitáveis. Todas as estimativas e resultados previstos ao longo dos anos têm sido consistentemente ultrapassados, seja no que toca a temperaturas, gelo oceânico e polar ou outros indicadores, demonstrando que os modelos pecam por defeito e refletindo a natureza altamente complexa e dinâmica do sistema climático global. Se no plano puramente científico existe ainda incerteza, não no que toca ao fenómeno, mas à sua real magnitude, existem outros aspectos desta situação que são bem menos incertos. O site carbonmap.org mostra um dos aspetos mais perturbantes do atual modelo energético: as assimetrias em termos de acesso à energia entre os países do sul e do norte do globo e sua relação com a proveniência dessas fontes energéticas. Se é no hemisfério norte que se consome a maioria da energia, é no hemisfério sul que estão localizadas a maior quantidade de reservas de combustíveis. Contudo os efeitos de eventos climáticos extremos, as cheias e as mudanças profundas nos ecossistemas terão consequências diferentes e serão os mais pobres, em toda a parte, a pagar a fatura mais alta do modelo energético fóssil com especial ênfase no sul global. O problema é, ao mesmo tempo, muito complexo e extremamente simples. Não pode existir uma economia realmente “verde” que não seja também justa e fundamentalmente distinta da atual. À luz do escasso progresso das últimas décadas, as soluções parecem residir em grande parte nas comunidades e não nos líderes.

    Mais fundo na transição energética.

    A introdução do livro Transições Energéticas: Sustentabilidade e Democracia Energética, publicado em 2015 por elementos de alguns grupos de investigação (1) da Universidade do País Basco e pelo grupo Ekologistak Martxan, é uma rara e completa síntese das questões que se deveriam colocar a qualquer pessoa ou organização dedicada a pensar um novo sistema energético. Os autores analisam a transição energética na intersecção de questões não só ecológicas mas também sociais, políticas e económicas, trazendo claridade a um debate que muitas vezes esbarra na simplicidade de análises que se centram apenas nas consequências dos níveis de CO2 na atmosfera e na necessidade de mais energias renováveis. Mais do que simplesmente entender estas problemáticas de um ponto de vista puramente ecológico, estendem a discussão ao âmbito sistémico e socioeconómico da organização social:“Os recursos energéticos renováveis também não estão a salvo porque colocámos em perigo a sua disponibilidade através de uma utilização muito superior à sua taxa de renovação. E, claro, estamos a esgotar os depósitos de resíduos: já não sabemos o que fazer com o lixo, com os resíduos radioativos, com a contaminação que todos eles produzem, com as alterações climáticas nem com o CO2. Prosseguem, afirmando que se verifica “o esgotamento de um modelo político e económico injusto e insustentável. A crise da democracia liberal capitalista é palpável. Cada vez são menos os que confiam na classe política ou no sistema de representação. E nós também estamos esgotadas. Uma sociedade espremida pela exploração laboral, pela invisibilidade dos trabalhos de assistência, pelos ajustes estruturais e pelo culto do crescimento económico. Uma economia que gira em torno dos processos de acumulação e especulação financeira e se esquece da manutenção da vida, das pessoas, das comunidades e dos ecossistemas. Um sistema enraizado na injustiça em múltiplas escalas, que saqueia o Sul para o consumo do Norte e para o enriquecimento de companhias transnacionais e elites político económicas.”

    No entanto o livro está longe de ser um compêndio de ideias catastróficas. Nesse sentido, consideram que uma das questões chave para a transição energética é “a capacidade de suprir a procura de energia atual das sociedades do norte através de energias renováveis” e referem os estudos de Carlos de Castro Corranza, físico da Universidade de Valladolid, para concluir que esta substituição não é possível. Acrescentam ainda que As energias renováveis também requerem a utilização de materiais não-renováveis e produzem uma série de impactos no território. O debate sobre a escala e a forma em que se desenvolvem as renováveis é algo central em todo o processo. O facto de que muitas organizações não considerem como renováveis as grandes hidroelétricas devido ao impactos irreversíveis que produzem, ou o lema ‘eólicas sim, mas não assim’ são reflexo da discussão sobre sustentabilidade ambiental das renováveis. Não é apenas o ‘que’, mas também o ‘como’ (e para quem e para quê). Portanto se o novo modelo deve ser renovável e ambientalmente sustentável, o decrescimento no consumo, por parte das comunidades e sociedades do Norte é indispensável”. Lançam-se então numa tentativa de definir o que poderá ser a Transição Energética, questionando-se se será uma revolução ou uma mudança suave. “(…) a transição que desejamos implica uma rutura nos processos de acumulação e de saque ambiental e humano, mas também uma desconstrução de muitas estruturas de dominação tanto externas como internas. Se queremos imaginar e construir horizontes ambientalmente mais sustentáveis e socialmente mais justos, é necessária também uma revolução cognitiva, social e cultural.” Por último, é preciso compreender quais serão os atores desta transição e qual a sua natureza e métodos. Se por um lado existem organizações e empresas que, tendo um papel central neste processo, atuam no âmbito do mercado, há ainda outras que são parte da sociedade civil e mesmo de governos locais ou dos próprios municípios. Para os autores o importante é que se tratem de “iniciativas nascidas desde baixo” e apontam os “movimentos sociais, as cooperativas e os governos municipais” como os agentes de mudança energética mais relevantes.

    Talvez a questão central para a definição de quais os caminhos a tomar na transição energética tenha que ver com a forma como concebemos a energia. Cecile Blanchet, ativista e investigadora na Commons Network e colaboradora com a fundação P2P, no seu blog energycommonsblog.wordpress.com, deixa-nos duas visões diferentes sobre a energia. Quando a energia é uma mercadoria “é produzida para produzir lucros (mesmo que verdes): somos clientes/consumidores e o nosso poder de decisão é escolher entre diferentes companhias de energia. O incentivo neste caso é produzir a maior quantidade de energia possível (ou aumentar os preços) de forma a aumentar os lucros. Os preços são determinados ou pelo produtor (o dono da central) ou pelo mercado”. Por outro lado quando a energia é um bem comum “é produzida para responder a uma necessidade e somos produtores e consumidores. A isto é chamado ‘prosumers’. Podemos decidir juntamente com vizinhos qual o sistema que queremos. O incentivo é produzir o que é preciso e armazena-lo. Sendo um bem comum não significa que a energia é grátis mas que os preços podem ser adaptados às nossas necessidades (somos nós que a controlamos e usamo-la para promover justiça social e climática). Pensemos na água que é também um bem comum: tem um custo para o consumidor. Mas não vais fazer lucro a partir dela porque é considerada um direito humano. Devemos olhar para a energia da mesma maneira”

    Notas:
    (1) Grupos de investigação EKOPOL (Ekonomia Ekologikoa eta Ekologia Politikoa) e PARTE HARTUZ

     

  • Entrevista com Nea Guinea

    Entrevista com Nea Guinea

    O primeiro de uma série de artigos, entrevistas e reportagens com o objectivo de lançar um olhar crítico sobre o actual modelo de produção energética, a sua sustentabilidade e viabilidade no presente contexto de crise climática, ecológica, económica e social.

    energia de base 01

    A energia de base

    A ideia de que estamos em pleno processo de Transição Energética, de um sistema baseado em energias fósseis para um outro composto, maioritariamente, por energias renováveis (ER), é hoje incontornável. Em grande parte, as alterações climáticas antropogénicas, a necessidade de que o aumento da temperatura média da atmosfera seja inferior a 2ºC e a consequente necessidade de abandonar os combustíveis fósseis têm sido os argumentos que acompanham a maioria dos discursos em torno desta transição. O acordo de Paris, em Dezembro de 2015, põe em evidência que as soluções vindas “de cima”, das lideranças políticas, de pouco servirão para resolver o problema do clima, uma vez que, paralelamente à assinatura deste acordo por parte dos líderes mundiais, temos assistido a uma aposta generalizada na indústria do gás com especial destaque para a criação do hub ibérico de recepção de gás com o porto de Sines à cabeça ou a aposta na exploração de gás e petróleo no Algarve.

    De facto, seria muito incompleto julgar que as implicações de um sistema energético, seja ele fóssil ou renovável, se ficavam pelo impedimento de certos níveis de CO2 na atmosfera e desconsiderássemos muitas outras consequências, nomeadamente a nível económico e social. Algumas consequências da mudança de paradigma energético podem ser parcialmente deslindadas se nos debruçarmos sobre quem são os agentes que farão parte dessa mudança, bem como o tipo de sociedade a que ela nos levará. Em 2015 o investimento global em ER atingiu o recorde de 285.9 biliões de dólares (1) e hoje poucos são os que arriscam conceber um futuro sem ER. A questão é que, maioritariamente, as razões económicas e de maximização de lucro estão no topo das prioridades das grandes corporações e gigantes como a Google, o Ikea ou mesmo as empresas do ramo das energias fósseis como a BP, que apostam em força no mercado das tecnologias renováveis. A abordagem do capitalismo é fazer uso das ER de forma a manter os níveis de crescimento económico e, consequentemente, os níveis de exploração laboral e ambiental.

    Existe, no entanto, um empurrão diferente que vem de um amplo leque de comunidades rurais ou urbanas, projetos, iniciativas e modos de pensar que olham para a energia e sua produção, partindo da ideia de que esta é um recurso comum, que deve ser gerido de forma sustentável, horizontal e que é uma necessidade básica. É neste ambiente heterogéneo de transformação que a transição energética, tal como todas as transições energéticas antes desta, nos chega carregada de implicações sociais, económicas e ambientais, bem como inúmeras contradições às quais não podemos fugir. Em 2014, o livro “Na espiral da energia: História da humanidade a partir do papel da energia”, da autoria do já falecido Ramon Fernandez Duran (2) e de Luis Gonzales Reyes, é editado em Espanha. Ao longo das suas páginas, entre um sem fim de outras coisas, é colocado ênfase nas implicações sociais do modelo energético quando, por exemplo, os seus autores afirmam que “as fontes energéticas marcam um determinado contexto social que não é neutro” ou concluem que “a energia vai muito para lá de um conceito físico que se mede em Jules, pois é também um elemento social, político, económico e cultural. Não se pode entender sem o contexto em que se usa e se extrai “. Afirmam também que “as renováveis estão mais distribuídas, são mais dificilmente privatizáveis, requerem tecnologias mais simples e são mais autónomas que os combustíveis fósseis ou que a energia nuclear. Isto significa que, potencialmente originam sociedades mas igualitárias, justas e sustentáveis que as energias sujas”.

    Numa contribuição semelhante sobre as ER, Kolya Abramsky avança que “o processo de construir um novo sistema energético, baseado em torno de um crescente uso de energias renováveis, tem o potencial de fazer uma importante contribuição para a construção de novas relações de produção, troca e sustento que são baseadas em solidariedade, diversidade e autonomia e são substancialmente mais democráticas e igualitárias que as actuais. Além disso, a construção de tais relações é necessária de forma a evitar “soluções” desastrosas para as múltiplas e intersectadas crises financeiras, económicas e políticas”. (3) Talvez o “potencial” das ER carregue o peso de uma questão que, antes de ser técnica, seja política e social, e dependa do mundo que queremos construir. Olhemos, então, para alguns exemplos daquilo que a transição energética pode, infelizmente, ser.

    A recente rejeição, no início deste ano, por parte da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) do parque eólico de Torre de Moncorvo, em Bragança, é uma boa notícia mas não uma tendência. A APA emitiu uma declaração de impacte ambiental desfavorável relativamente à instalação de 30 aerogeradores de 120 metros de altura em plena Zona Especial de Proteção do Alto Douro Vinhateiro num investimento da multinacional irlandesa Islands com um investimento de 75M€ (4). De facto, os grandes parques eólicos têm sido motivo de conflitos ambientais e sociais desde há muito.

    Um caso bem mais grave, antigo e escandaloso teve lugar na comuna de Oaxaca, México e alcançou o mundo através do documentário Somos Viento lançado em 2013 (5). O documentário narra o conflito social, económico e ambiental decorrente da instalação de 132 aerogeradores de 3MW com torres de 180 metros de altura, espaçados de 200 metros cada um. Importante para compreender a potencialidade económica do projeto é também o facto de o parque eólico estar posicionado numa das zonas com maior potencial eólico do mundo, o Istmo de Tehuantepec, uma fina faixa de terra, rodeadas por mar de ambos os lados, em Oaxaca. O projecto era da autoria da empresa Mareñas, criada especialmente para o construir com capital de empresas australianas, japonesas, holandesas e acima de tudo bancos. Alguns dados saltam ainda à vista sobre este projeto: vem enquadrado no chamado Plan-Pueblo-Panama, ou Projecto Mesoamérica, que é essencialmente um acordo de livre comércio impulsionado em 2001 pelo então presidente mexicano Vicente Fox e que tinha como um dos objetivos facilitar a gestão e execução de projectos orientados para a extração de recursos naturais na Mesoamérica, bem como interligar o oceano Atlântico e Pacífico para facilitar a exportação da produção obtida com a exploração no território através da extracção de minérios, instalação de fábricas e exploração de recursos energéticos (6). Como é visível no documentário, a resistência por parte das comunidades afectadas foi grande já que, entre muitas outras razões, a presença dos aerogeradores entrou em conflito directo com a actividade económica local, principalmente a pesca, resultando numa perda de autonomia daquelas comunidades. Por esse mundo fora, exemplos deste tipo multiplicam-se.

    De facto a energia e, concretamente, o controlo sobre as infraestruturas de conversão e produção energética são sinónimo de acumulação de poder. Mas o que hoje é aparentemente possível é escolher entre concentrar esse poder nas mãos de grandes empresas que gerem gigantes parques eólicos ou nas mãos de comunidades que gerem a sua própria produção, recorrendo, por exemplo, a pequenas ou médias turbinas ou um crescente catálogo de tecnologias, modelos, métodos e ideias que diariamente surgem. É neste contexto que algumas iniciativas e projetos no campo energético põem em causa a narrativa das grandes empresas eléctricas, dos grandes projetos, do negócio da energia e da visão da energia como uma mercadoria e uma fonte de lucro. Das iniciativas de autonomia e auto-suficiência energética ao movimento das cooperativas de energia renováveis em grande expansão na Europa, passando pelos processos de produção abertos e colaborativos, das iniciativas de apropriação tecnológica ou as micro-redes comunitárias, surgem janelas de oportunidade para pensar o actual sistema energético a partir de baixo e apresentar experiências concretas. De facto, “na espiral da energia” apresenta-nos a conclusão de que “a energia vai muito para lá de um conceito físico que se mede em Jules, pois é também um elemento social, político, económico e cultural. Não se pode entender sem o contexto em que se usa e se extrai “

    Nesta primeira peça olhamos para a organização Nea Guinea na Grécia a partir da entrevista com Kostas Latoufis. Nea Guinea é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 2009, com o principal objetivo de se reapropriar das necessidades do quotidiano em termos de comida, saúde, energia, habitação e roupa. Desde então, a organização tem estado a operar vários projetos nos quais desenvolve diferentes práticas e técnicas alternativas enquanto ferramentas para aumentar a auto-suficiência e resiliência de pessoas e comunidades na Grécia. O projeto tem como objetivo informar, educar, encorajar e apoiar pessoas a redefinir as suas práticas diárias e tornarem-se activamente envolvidas em diferentes processos de produção, de forma a cobrir as suas necessidades, baseando-se no conhecimento individual e colectivo, e nos recursos locais, de forma a tornarem-se menos dependentes dos bens e serviços do mercado industrial global.

    Entrevista com Kostas Latoufis e Nea Guinea

    energia de base 03Nos últimos anos, entre outras coisas, a NG tem-se dedicado à construção, estudo, desenvolvimento e divulgação de pequenas turbinas para a produção de energia eólica. Qual é o potencial destas pequenas turbinas? Podem conferir autonomia energética a comunidades rurais e isoladas? Podem também funcionar em meio urbano?

    As pequenas turbinas eólicas construídas nos workshops da Nea Guinea são, tipicamente, parte de sistemas híbridos off-grid (7) com uma capacidade instalada de fontes de energia renovável (FER) até 10 kW. Estes sistemas são, normalmente, constituídos por um gerador PV (fotovoltaico), cujo tamanho depende do recurso eólico disponível, um banco de baterias de chumbo-ácido, um inversor/carregador e, possivelmente, um gerador a diesel para servir de backup ao sistema de energia renovável. Estas pequenas turbinas eólicas, fabricadas localmente, têm rotors cujo diâmetro da pá têm entre 1.2 a 7 metros e são capazes de produzir uma potência entre 200W e 4kW, respectivamente, para velocidades do vento de 10 m/s. Estes sistemas de energia renovável off-grid produzem eletricidade suficiente para alimentar uma quinta, em termos de refrigeração, iluminação, ferramentas eléctricas, comunicações e uma máquina de lavar roupa. Tipicamente estes sistemas são usados para eletrificar aldeias nos países do Sul (8), onde os níveis de eletrificação rural são bastante baixos. Nestes casos, os sistemas podem providenciar eletricidade para iluminação doméstica e refrigeração comunitária, bem como outras aplicações, de forma a aumentar a actividade económica local e providenciar serviços básicos de saúde e educação. As turbinas de eixo horizontal não são comuns em espaços urbanos devido à grande turbulência causada pelos edifícios. Turbinas de eixo vertical são mais frequentemente usadas, mas com uma produção energética menor que a esperada já que o vento é desacelerado devido à rugosidade dos edifícios, o que faz com que transporte pequenas quantidades de energia.

    As pequenas turbinas eólicas são desenvolvidas partir do desenho Open-Source (9) de Hugh Piggot (10). Que importância têm os sistemas de partilha Open-Source e o conhecimento aberto na divulgação e no sucesso deste projecto?

    As pequenas turbinas eólicas que são descritas nos manuais de construção escritos por Hugh Piggot não estão sujeitas a nenhuma patente. Isto significa que qualquer um as pode fabricar para qualquer propósito e pode fazê-lo livremente. Adicionalmente, os manuais de construção têm direitos de autor e são vendidos pelo próprio autor mas a um preço baixo e com um critério social. Estas duas características tornaram o seu design muito popular entre hobbyists, entusiastas do DIY (11) e praticantes da apropriação de tecnologia nos países do Sul. A isto junta-se obviamente o facto de que as máquinas produzidas com este design se comportarem muito bem no terreno e a manutenção poder ser facilmente realizada pelos utilizadores. Durante a década passada, desde a primeira edição do manual do design por Hugh Piggot, emergiu uma rede global de fabricantes de pequenas turbinas eólicas que desenvolve a tecnologia de uma forma colaborativa e baseada no feedback dos próprios utilizadores. Além disso, uma associação ao nível global chamada Wind Empowerment foi criada para facilitar este processo. O processo é apenas uma pequena parte do movimento Open Hardware (Hardware aberto) em todo o globo que, desde impressoras 3D (12) até maquinaria para agricultura (13), e desde espaços Hacker/Maker (14) até oficinas cooperativas, está a tentar desenvolver um modelo alternativo para desenhar e fabricar produtos tecnológicos. Este movimento assemelha-se ao movimento do Software Livre e Aberto e está centrado em desenhar globalmente e produzir localmente.

    A energia eólica, através das suas grandes instalações turbinas multi-MW, além de criar grandes impactos ambientais gera, frequentemente, grandes conflitos entre as empresas promotoras e as comunidades afectadas pelos projectos. As pequenas turbinas eólicas podem ser uma alternativa de produção local à produção massiva ou servem apenas para conceder acesso à electricidade a comunidades isoladas?

    energia de base 02Ambas as tendências estão a ter lugar e a energia eólica está a ir nos dois caminhos. Os grandes negócios na casa dos Mega-Watt (MW) estão, maioritariamente, a deslocar-se para o offshore onde existem bons ventos e menos resistência local, mas custos maiores, já que a maioria dos bons locais para a instalação de turbinas multi-MW em terra foram já ocupados. Entretanto, no continente, a propriedade municipal e comunitária de infra-estruturas de energias renováveis está ganhar terreno, especialmente no Norte da Europa, onde tem uma história mais longa. Cooperativas de energias renováveis na Europa (15) estão a expandir-se em termos de números e aplicações, e providenciam uma perspetiva viável para um modelo de produção energético renovável orientado para a participação comunitária e os recursos comuns. Claro que estas duas tendências são antagónicas entre si até um certo ponto e são mais a materialização do discurso público/privado, com o público a representar mais a ideia da gestão comunitária dos recursos comuns, do que a ideia da regulação estatal. Neste sentido, à medida que o capitalismo neo-liberal toma a forma de uma vasta privatização, pelo menos na Europa, está nas mãos das cooperativas de energia tentar comunalizar a produção de energia contra esta tendência.

    Em geral a produção energética é ainda hoje organizada a partir de uma estrutura centralizada composta por grandes centros produtores e grandes centros consumidores a partir de combustíveis fosseis, nuclear e grandes barragens. Obviamente é também controlada ou por grandes empresas do sector energético ou pelo Estado que opera, na maioria das vezes, como uma agência dessas mesmas empresas que detêm o monopólio sobre todo o mercado e o processo de produção energética. No entanto hoje fala-se muito em sistemas descentralizados de energias renováveis. Em linhas gerais para onde pensas que devem evoluir os sistemas de produção energética e que tecnologias e modelos constituem a sua base?

    É verdade que as tecnologias de energia renovável, devido à distribuição de recursos extremamente localizada tal como vento e principalmente o sol, chamam por um modelo de produção energética descentralizado. De um ponto de vista técnico esta mudança tem estado a acontecer na década passada à medida que os sistemas de distribuição evoluem em direção à chamada “smart grid” [rede inteligente] com micro-redes e mini-redes a absorverem a produção local das fontes renováveis. Em particular, os sistemas solares estão a ficar mais baratos e fáceis de instalar a nível doméstico, tornando esta tecnologia acessível para muitos habitantes das cidades. Com políticas tais como o net-metering na Europa, estes sistemas domésticos ou a nível dos bairros podem injetar a sua produção energética na rede ou destiná-la ao uso próprio. Através de tecnologias de comunicação apropriadas e regulação dos preços da eletricidade, estes sistemas podem ser interconectados e automatizados para usar eletricidade como um novo tipo de moeda tal como tem acontecido na cidade de Nova Iorque, por exemplo, onde prosumers (consumidores e simultaneamente produtores) de eletricidade gerem os seus eletrões através dos seus telemóveis (16). Como as tecnologias de armazenamento tem custos significativamente elevados, armazenar esta nova moeda na tua casa não é economicamente viável e por isso a rede é usada como pool (piscina de energia) comum de armazenamento onde todos dão e tiram ao mesmo preço. Obviamente, a regulação da pool comum de energia está nas mãos de agências estatais enquanto há um grande conflito em torno da privatização da actual infra-estrutura de distribuição de energia. Ao mesmo tempo a produção fóssil e renovável de energia das grandes corporações é ainda parte do sistema de produção e estas têm a sua parte neste mercado de ações de energia. O que tudo isto não consegue resolver é a atual mercantilização da energia renovável, que garante valor de troca aos eletrões, em vez de considerar a energia eléctrica como parte de um recurso comum ao qual todos temos direito a aceder. Os modelos cooperativos de produção energética são, potencialmente, a única forma de resolver essas questões desde que façam parte de um discurso centrado nos recursos comuns.

    Ao nível da gestão, propriedade e participação das comunidades e indivíduos é possíveis hoje pensarmos na adopção de modelos de produção energética organizados a partir da base da sociedade e pelos seus indivíduos? Que experiências conhecem?

    energia de base 04A experiência na Grécia é bastante pequena em termos modelos cooperativos de produção energética localizados. Como a nossa organização Nea Guinea está mais envolvida em auto-suficiência e resiliência de pequena escala, temos experimentado com pequenos projectos agrícolas rurais ao produzir e gerir a sua eletricidade a partir de fontes de energia renováveis. Por exemplo, duas pequenas turbinas de 2.4 e 3 metros de diâmetro foram instaladas numa eco-comunidade nos subúrbios de Atenas, que experimentam formas de vida comunitária e tecnologias para a produção de comida a nível local. A comunidade cobre totalmente as suas necessidades energéticas através das duas turbinas e alguns painéis solares. Também uma cooperativa de produção de azeitona biológica no sul da Grécia teve a sua quinta eletrificada com o uso de um gerador solar de 4kW e uma pequena turbina eólica de 2.4 metros construída num workshop da Nea Guinea. O workshop de energia comprometeu-se com o desenho e a instalação do projecto, ajudando assim a comunidade em termos de resiliência energética. Finalmente uma Bomba de Água Solar de 750W de potência nominal foi instalada na Grécia ocidental, na ilha de Leukada, de forma a bombear a água destinada a irrigação de um poço para a quinta biológica de uma pequena comunidade de pessoas que participa numa rede de protecção de sementes a nível nacional. Adicionalmente, o workshop de energia da Nea Guinea desenvolveu o design de uma pequena hidroeléctrica baseado nas técnicas de fabrico usadas para a construção do gerador das pequenas turbinas eólicas. O pequeno gerador hidroeléctrico de 500W de potência nominal foi instalado em Março de 2013 na quinta rural ‘Rodokalo’, na montanha de Iti, na Grécia central. A pequena comunidade que lá vivia e que praticava um caminho em direcção do decrescimento não tinha, previamente, eletricidade. O workshop da Nea Guinea comprometeu-se com a tarefa de construir a resiliência energética daquela comunidade, e desenhou e instalou o projecto da pequena hidroeléctrica, não apenas para cobrir as suas necessidades energéticas mas também as suas necessidades em termos de água quente. Este é um exemplo prático de como as tecnologias Open-Source podem ser aplicadas em contextos locais e transformarem-se assim em ferramentas para a auto-suficiência. Todos os exemplos acima são parte de um projecto mais amplo do workshop de energia, de forma a providenciar serviços de eletrificação para comunidades em decrescimento e iniciativas educacionais através do uso de tecnologias Open-Source.

    A ecologia parece ter entrado no léxico das grandes empresas e dos governos. Hoje fala-se em “crescimento verde” e “economia verde”. No entanto a energia continua a ser vista como uma mercadoria e um produto com a qual estes geram lucros e fortunas. Isto acontece paralelamente a um crescente movimento social, que podemos considerar global, alertar para os efeitos das alterações climáticas e para o colapso generalizados de ecossistemas e sistemas naturais. Qual será o papel de modelos energéticos horizontais, comunitários e sustentáveis neste processo?

    Na continuação da questão anterior, os modelos cooperativos de produção energética podem ser uma das poucas maneiras de resolver as questões da mercantilização da energia e trazer uma discussão pública e aberta sobre os recursos energéticos partilhados. Não estou seguro até que ponto isto é parte da agenda das cooperativas energéticas, mas este parece-me ser o único espaço social onde isto pode acontecer a partir de uma perspectiva de base. Ao tentar lidar com esta questão basta que olhemos para a história das cooperativas para ver quão contraditórias essas experiências podem ser. No entanto, este parece ser o espaço social natural para este tipo de ideias poderem crescer para movimentos.

    A Grécia enfrenta ainda uma intensa crise social e económica que parece permanecer, independentemente da cor dos seus governos. Neste processo nasceram projectos comunitários ou cooperativos de produção energética em bairros ou comunidades gregas? Que papel tiveram estas iniciativas na resposta à crise?

    Existe atualmente um pequeno número de cooperativas energéticas na Grécia. Muitas estão em formação e operam no campo. Não existem cooperativas energéticas nos grandes centros urbanos da Grécia. Ainda assim, tiveram lugar uma ações em matéria de energia nos primeiros anos da crise económica, quando as contas de eletricidade domésticas eram fortemente taxadas. Vários cidadãos não pagaram essas taxas e houve um forte movimento de desobediência civil formado em torno dessas ações. Claro que isto acabou com muitas pessoas em dívida com a companhia pública de energia. Isto significou que a ligação eléctrica foi cortada em muitas casas. Alguns cidadãos organizaram-se com eletricistas e re-conectaram as casas à rede eléctrica como um sinal de desobediência civil.

    Notas:

    (1) http://goo.gl/XAkHG2
    (2) Ramon Fernández Durán: https://goo.gl/PNuPTj // En la espiral de la energía, Libros en Acción, 2014
    (3) Kolya Abramsky (edição), Sparkling a Worldwide Energy revolution, Social Struggles in the transition to a post-petrol world, AK Press, 2010.
    (4) http://goo.gl/ApYZIK
    (5) Kolektivo Kolibri, disponível em somosvientodocumental.wordpress.com.
    (6) https://goo.gl/7loKda
    (7) Sistemas de produção de energia isolados ou autónomos sem ligação à rede de distribuição de eletricidade constituídos por mais do que uma fonte de energia (por exemplo, solar, eólica ou geração diesel).
    (8) NT: O termo original usado é Global South e refere-se aos países que são considerados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.
    (9) NT: O termo Open-Source (código aberto) refere-se ao software cujo código-fonte está disponível para acesso ao público em geral e que detém uma licença que garante a qualquer utilizador a liberdade para estudar, alterar ou distribuir esse software. O termo nasce do contexto da computação mas aplica-se a qualquer criação em diversas áreas. O Open-Source é hoje um movimento que defende o livre acesso à informação e às criações, em oposição à propriedade intelectual.
    (10) scoraigwind.co.uk
    (11) NT: Sigla ingles para Do it Yourself (faz tu mesmo).
    (12) www.reprap.org
    (13) opensourceecology.org
    (14) O movimento Maker defende a ideia de que qualquer pessoa pode construir, fabricar ou modificar, pelas suas próprias mãos, projectos e objectos diversos num ambiente de partilha de informação.
    (15) rescoop.eu
    (16) Notícia na revista New Scientist, “Micro-rede baseada em Blockchain fornece energia a consumidores em Nova Iorque” disponível em https://goo.gl/jyF7Pn

     

  • O que é preciso destruir?

    O que é preciso destruir?

    Vivem-se momentos especialmente conturbados dentro das fronteiras galas. Os ataques à redacção da revista Charlie Hebdo em Janeiro de 2015 e os violentos ataques de 14 de Novembro, tornaram o anti-terrorismo o pretexto ideal para que o governo instaurasse um estado de excepção e para que, a reboque de todo o tipo de medidas secuirtárias, o primeiro-ministro Manuel Valls possa exigir mudanças constitucionais que tradicionalmente fazem parte do discurso da extrema-direita. O jornal MAPA entrevista Mickaël Correia do colectivo redactorial do CQFD, um jornal mensal de critica e experimentação social sediado em Marselha e que traz memórias do jornal Ce Qu’il Faut Dire, fundado em 1916 pelo anarquista francês Sebastian Faure.

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    APRESENTAÇÃO DO CQFD

    O CQFD [Ce Qu’il Faut Détruire – O que é preciso destruir] é um jornal periódico com funcionamento horizontal (sem chefe nem patrão) que privilegia as informações que chegam da rua, dos cafés, dos piquetes de greve, etc. Queríamos um pasquim que não fosse filiado em nenhuma capela militante ou apoiado por qualquer grupo de imprensa, mas que alimentasse as lutas, que participasse na agitação ambiente. Que fosse um apoio para todos os condenados às galés deste melhor dos mundos, partindo do princípio de que temos uma vivência a partilhar.

    É um jornal com base em Marselha, ancorado na vida dos seus bairros, nas suas problemáticas de gentrificação. Mas não temos uma perspectiva puramente local. Marselha é uma cidade internacional, o jornal também.

    O CQFD inscreve-se na tradição da imprensa revolucionária e anti-autoritária. Analisamos, investigamos, procuramos não nos levar a sério nem ditar uma linha ideológica fechada. É uma publicação mensal de crítica social mas também de experimentação. Vamos à procura das «alternativas»: squats, Do it yourself, experiências colectivas e autogeridas onde as pessoas se organizam doutra forma, longe das contingências do salariato, do negócio, da instituição, etc.

    Faz agora 13 anos que levamos este barco, que o jornal está nos quiosques, para tentar romper a confidencialidade e o confinamento que a crítica “radical” conhece frequentemente. Tentamos desmentir a ideia de que nada do que se constrói horizontalmente é durável.

    A equipa (que mal se modificou desde o início) é composta por uma dezena de pessoas, a maioria voluntárias, que compõem o comité de redacção. Mas ao longo de um ano podemos contar com mais de uma centena de colaboradores, seja para os textos seja para as ilustrações, que são também a imagem de marca do jornal. Funcionamos com a exigência de um jornal (constrangimento da periodicidade) feito com os meios de um fanzine. O nosso financiamento vem quase exclusivamente dos nossos leitores.

    Hoje, temos uma “fórmula” que tenta saltar entre actualidade e investigação/reportagem. Todos os meses, desde há mais de dois anos, sai um dossier sobre os temas que nos interessam: a revolução síria e o exílio (nº136, outubro 2015), a aposta municipalista no Estado espanhol (nº137, novembro 2015) e o clima, por ocasião da farsa que decorre actualmente em Paris (nº138, dezembro 2015). É a forma de termos um espaço para desenvolver a nossa crítica social.

    Saímos todas as primeiras sextas-feiras do mês e editamos 11 números por ano (número duplo em Julho-Agosto, também temos férias). A tiragem em papel é de cerca de 10.000 exemplares todos os meses. Claro que também partilhamos os problemas de toda a imprensa em papel, mas as nossas vendas mantêm-se estáveis: vendemos 4.000 jornais (2.000 em quiosques e 2.000 em assinaturas), sem contar com a distribuição militante que deve resultar em algumas centenas de jornais.

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    ENTREVISTA CQFD

    O estado de emergência, aprovado no parlamento francês até Fevereiro 2016 após os ataques de Paris, configura um novo regime político e social iniciado na aprovação de medidas de segurança a vários níveis. As medidas e pacotes legislativos traduzem-se em diversas consequências tais como a restrição de direitos e liberdades civis básicas ou a facilitação das actividades dos corpos de polícia através da agilização de prisões domiciliárias preventivas ou rusgas arbitrárias. No entanto, existe muito mais. É possível listar, concretamente, de alguma forma, as principais medidas já aprovadas as que estão a ser preparadas para o futuro?
    cqfd2O estado de emergência é um dos regimes de excepção do arsenal jurídico francês. Foi criado à medida da guerra da Argélia – e decretado três vezes nessa ocasião (1955, 1958 e 1961) –, utilizado contra os Canacas em 1985 na Nova Caledónia e, em 2005, para acabar com os motins dos subúrbios. Ferramenta de gestão colonial, o estado de emergência foi um factor de aceleração do processo de militarização da polícia em França. Mas é sobretudo um conjunto de medidas que acentua a confusão entre Estado de Direito e Estado Securitário. Entre as medidas importantes, à possibilidade dada aos presidentes de Câmara para instituírem zonas de segurança (recolher obrigatório), buscas administrativas (sem autorização judiciária) e prisões domiciliárias, junta-se ainda a dissolução das associações e grupos «que atentam gravemente contra a ordem pública». Mas compreendemos depressa que a caça ao contestatário estava aberta: estima-se agora que desde 13 de Novembro último as forças da ordem procederam a mais de 3.000 buscas domiciliárias… para apenas quatro processos instaurados.

    Actualmente, o governo quer inscrever o estado de emergência na Constituição, de forma a solidificar o seu regime jurídico e impedir qualquer possibilidade de recurso. Mas a grande medida actual, e que divide a esquerda governamental (Christine Taubira, a ministra da Justiça demitiu-se há uma semana por estar em desacordo com esta medida), é a proposta de inscrever a perda da nacionalidade na Constituição – o debate vai começar na Assembleia Nacional no dia 3 de Fevereiro. Essa proposta oficializa de facto uma categoria de sub-cidadãos, todas as pessoas com dupla nacionalidade, que incorrem numa pena dupla: para além da sua condenação, a de perder a nacionalidade francesa e todos os direitos a ela associados.

    Embora a pressão mediática e repressiva esteja, em primeiro lugar, centrada em indivíduos e grupos de origem árabe ou muçulmana, a actual situação de legitimação total do controle e da repressão alastrou-se a outros sectores da sociedade. Qual o impacto mais evidente destas medidas na actividade de colectivos sociais, grupos de pressão, activistas e militantes políticos?
    No dia 22 de Novembro, numa manifestação de apoio aos migrantes em Paris, 58 pessoas foram identificadas pela polícia e levadas a tribunal por «violação de uma proibição de manifestação tomada em virtude do estado de emergência». A última vaga de buscas e prisões domiciliárias dirigiu-se aos opositores da Conferência de Paris sobre o clima (COP 21). Quando a grande marcha pelo clima de 29 de Novembro foi cancelada, alguns militantes foram obrigados a ficar em casa e a apresentarem-se na esquadra três vezes por dia. A razão? Eles “teriam podido” manifestar-se contra a COP21 e, por conseguinte, constituir «uma ameaça para a segurança e a ordem públicas».

    Assistimos também a inúmeras buscas em squats, buscas em casas de agricultores suspeitos de terem participado há três anos (!) numa manifestação de apoio à Zone à Défendre (ZAD) de Notre-Dame-des-Landes… O argumento é sempre o mesmo: procura de «pessoas, armas ou objectos susceptíveis de estarem ligados a actividades de carácter terrorista». Para além das medidas do estado de emergência em si, isto criou um clima securitário e repressivo à volta do movimento social: oito antigos grevistas da fábrica Goodyear foram condenados este mês a nove meses de prisão efectiva por terem “sequestrado” durante 30 horas dois dirigentes da empresa, e os camponeses e famílias históricas da ZAD de Notre-Dame-des-Landes estão desde há várias semanas a ser objecto de um processo de expulsão.

    Existe uma estratégia de isolamento de grupos étnicos ou sociais específicos?
    cqfd3Claro, a “ameaça islamita” passou rapidamente a significar o grupo dos “muçulmanos de França”. Foi neste sentido que foi proposta a medida de inscrever a perda de nacionalidade na Constituição. O que revela racismo de Estado e alimenta o mito de que os inimigos internos da “nação” são as pessoas imigradas. O estado de emergência favorece igualmente um clima de verdadeira islamofobia com o seu cortejo de controlo de caras, de rusgas abusivas ou ainda ataques a mesquitas. De forma mais perniciosa, o estado de emergência vai claramente potenciar as violências policiais que são já muito preponderantes em França. Todos os anos cerca de quinze pessoas são mortas por balas da polícia (principalmente jovens árabes ou negros) e os processos desses crimes policiais de carácter racista acabam sistematicamente num vazio ou numa condenação ridícula. Há assim um sentimento de impunidade dos polícias cada vez mais sentido nos bairros populares: os militantes falam de “permissão para matar”. No passado dia 22 de Janeiro a justiça ilibou por “legítima defesa” um polícia que tinha disparado em 2012 sobre as costas de Amine Bentoussi, um jovem delinquente de 28 anos. Essa “carta branca” oferecida aos polícias, que exerceram sempre a repressão sobre os grupos designados como “árabes” ou “muçulmanos”, goza de uma certa popularidade: é preciso não esquecer que, depois dos atentados do Charlie Hebdo, os polícias foram aplaudidos pela multidão durante as mobilizações de 11 de Janeiro e que, depois de Novembro, inúmeros franceses manifestaram a sua gratidão à polícia francesa.

    Os atentados de Paris são um acto terrorista, no sentido real do termo, da mesma forma que o é a acção dos países ocidentais na Síria ou a acção do estado de Israel na faixa de Gaza. No entanto, o termo terrorismo, quando usado e definido por polícias e políticos nas suas retóricas securitárias, serve de guarda-chuva, debaixo do qual cabem uma quantidade maior de pessoas e grupos. Ao nível do discurso político, de que forma é que o anti-terrorismo tem sido usado como arma de arremesso? Quais as diferenças entre a forma como a esquerda e direita tratam a questão?
    Hoje em dia, há um consenso entre a esquerda governamental e a direita acerca desta noção de anti-terrorismo e das medidas a tomar. A direita sentiu-se mesmo ultrapassada pelas medidas governamentais anti-terroristas e felicitou-as publicamente. A perda de nacionalidade que divide neste momento a esquerda socialista, mas que é apoiada igualmente pela direita, é uma medida que historicamente foi reivindicada pela extrema-direita francesa! Este consenso securitário tem raízes na política securitária do Partido Socialista, trazida desde os seus inícios por Manuel Valls que, antes de ser primeiro-ministro, era ministro da administração interna, e ampliou a política securitária de Sarkozy… Os socialistas aprovaram a lei de 13 de Novembro de 2014 sobre terrorismo que, entre outras coisas, é um grave atentado contra a liberdade de expressão, introduzindo os delitos de provocação e de apologia do terrorismo no código penal. A isto junta-se a lei sobre os serviços de informações votada em Julho de 2015 e que legaliza a vigilância generalizada e a priori dos colectivos que se opõem às políticas do governo. A ideologia é a mesma: não se atacam os grupos que cometeram infracções mas aqueles que podem estar na origem desses factos. Uma simples suspeita permite hoje punir e isto foi tornado possível pela esquerda governamental!

    O sucesso da Frente Nacional (FN) nas últimas eleições pode ser visto como uma consequência dos atentados do dia 13 de Novembro? Até que ponto o discurso da FN se disseminou na sociedade? Há mais gente a acreditar na propaganda de Le Pen?
    Os grandes resultados da FN nas últimas eleições regionais não foram uma consequência directa dos atentados de 13 de Novembro. Podíamos mesmo atrever-nos a dizer que o resultado teria sido quase igual sem os atentados. Em França, trata-se de um fenómeno de fundo que não pára de crescer com a transformação da FN ao fim de uma década (chegada de Marine le Pen à direcção do partido, silenciamento das franjas mais radicais). Há também um verdadeiro fosso que põe de um lado as grandes cidades francesas (onde se vota muito pouco na FN), que se tornaram grandes metrópoles competitivas onde se concentram as riquezas e os empregos do país, e do outro lado as zonas rurais e peri-urbanas (com forte votação na FN), que o Estado abandonou completamente, uma vez que os serviços públicos (serviços postais, transportes públicos, escolas) já não eram tidos como “rentáveis”. São também territórios de que a esquerda desertou, levando consigo as suas actividades culturais, desportivas, associativas, etc.… A isto juntam-se os factores que já são “clássicos” da subida ao poder da extrema-direita: o desemprego em massa, uma classe política esclerosada, clientelista, e uma inclinação para certa impunidade judicial (lembremo-nos que, no fim do seu mandato presidencial, Nicolas Sarkozy foi citado em 11 processos judiciais diferentes) ou ainda a questão securitária que, a cada eleição, se torna fulcral.

    E ao nível dos grandes meios de comunicação social, que discursos têm sido disseminados? Houve um fenómeno de hegemonização de informação ou têm surgido diferenças de opinião e pontos de vista?
    Em França, os meios televisivos ou escritos do dito mainstream estão grandemente concentrados em poucos consórcios próximos das esferas do poder. Assiste-se assim a um consenso geral sobre a questão do estado de emergência que se resume a um debate absurdo: «onde fica o equilíbrio entre segurança e liberdade?»… como se estivéssemos a falar de dois vasos comunicantes! Muito rapidamente, inúmeros editores e outros especialistas declararam-se prontos a sacrificarem “um pouco da sua liberdade por mais segurança”, tudo assente em sondagens de opinião…

    Em Espanha surgiu recentemente a chamada Lei Mordaça, que restringe de forma determinante a liberdade de expressão dos indivíduos em geral mas também dos projectos informativos críticos e alternativos. Embora seja um quadro legislativo diferente daquele que agora vigora em França, faz parte de um processo de aprovação de alterações legislativas que limitam a forma como podemos comunicar. Que impactos terá o estado de emergência na actividade informativa de projectos como o CQFD e, em geral, na imprensa alternativa francesa?
    cqfd4Ainda é muito cedo para dizê-lo mas de certeza que, mais uma vez, o estado de emergência vai aprofundar um clima repressivo que já existia. Ao contrário dos grandes discursos sobre a liberdade de expressão que se seguiram aos atentados contra o Charlie Hebdo em Janeiro de 2015, calma mas seguramente, a liberdade de expressão está a ser reduzida a zero. Da lei anti-terrorista de 2014 à multiplicação dos processos por injúria ou provocação da prática de actos delituosos, as palavras são cada vez mais razão para ser levado a tribunal. Em Junho último, foi por causa de um artigo anónimo que apareceu num site de informação independente de Toulouse (Iaata.info) que uma pessoa foi constituída arguida, arriscando cinco anos de prisão e uma pesada multa (o procurador, no dia do julgamento, declarou que abandonava qualquer seguimento). O texto em causa dava conselhos de resistência à violência das cargas policiais nas manifestações… A pessoa era suspeita de ser directora de publicação da Iaata.info, apenas com base em antigos rastos numéricos que ligavam essa pessoa ao site. Alguns dias antes, o site de informação independente Le Jura Libertaire foi, por sua vez, condenado a 100 euros de multa por difamação contra a polícia, qualificada de “bando de assassinos” num artigo sobre o assassinato de Karim Boudouda em Julho de 2010, cometido pela polícia nos subúrbios de Grenoble. Em Maio de 2015, um relatório apresentado na Assembleia Nacional declarava: «Jornalistas e forças da ordem têm um interesse comum e um dever de trabalhar em conjunto e, pelo menos, de não prejudicarem o trabalho uns dos outros. Com efeito, a transparência sobre o seu profissionalismo e sobre a atitude violenta e/ou delituosa de alguns manifestantes só pode servir as missões das forças móveis». Isto diz tudo das relações que o Estado quer manter com os média!

    O estado de emergência é uma expressão do Estado de Excepção. Os regimes de excepção têm vindo a ser utilizados ao longo da história por diversos governos da esquerda e da direita. A forma como o 11 de Setembro americano alterou, com carácter permanente, o regime político ou a forma como as crises económicas alteram o contexto social e político levam-nos a concluir que hoje a excepção é uma forma de governação. A Cimeira do Clima (COP21) teve esta função de prolongar a excepção. Há a possibilidade de não ser possível voltar ao quadro legislativo anterior aos ataques de Paris? De que forma o Campeonato Europeu de Futebol de 2016 poderá ser uma nova razão para a extensão do estado de emergência?
    Entre a ofensiva mediática e governamental, tenta-se preparar a opinião pública para uma renovação do estado de emergência nos meses que aí vêm. O primeiro-ministro Manuel Valls afirmava ainda recentemente querer «prolongar o estado de emergência até à queda do Daesh». E, com as eleições presidenciais que terão lugar no próximo ano, a questão securitária será certamente uma questão eleitoral, o que faz com que se vá assistir a uma escalada securitária por parte da esquerda governamental para não ser acusada de “laxismo em relação ao terrorismo”… Mas ao mesmo tempo assistimos a um começo de mobilização maciça. Apesar da chuva, no passado dia 30 de Janeiro mais de 40.000 pessoas, das quais 20.000 em Paris, manifestaram-se contra o estado de emergência. Foram convocadas outras manifestações para Fevereiro, mas o tempo é curto para estabelecer uma relação de força entre a rua e os socialistas no poder… O maior perigo é que, prolongando este estado de excepção, as pessoas habituam-se a um outro estado das relações sociais e institucionais, e que a população transforme o estado de emergência em estado “normal”.