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  • A pandemia da civilização

    A pandemia da civilização

    As montanhas não tinham caminhos nem trilhas,
    os lagos não tinham barcos nem pontes
    Não faltavam pássaros nem animais
    As ervas e as árvores conseguiam perdurar
    Chuang Tse, Cascos do Cavalo[ref] Texto taoísta de autor incógnito, segundo o qual o declínio dos tempos primordiais tinha começado com o Imperador Amarelo, “inventor” do Estado e da guerra.[/ref]

     

    A história da civilização é também a história das pandemias. Durante o Neolítico, a expansão da agricultura totalitária[ref]Termo usado por Daniel Quinn para distinguir o tipo de agricultura que subordina todas as formas de vida à produção incessante de alimento humano. Surgiu há 10.000 anos, desde então obliterando outras culturas e modos de subsistência, dando origem à civilização.[/ref] a partir do Oriente Próximo, foi o ponto de partida não só para o emergir do Estado, da estratificação social e do Patriarcado, como para o despontar de pestes e pragas até então inexistentes. A progressiva sedentarização, conseguida pela domesticação de animais e plantas, substituiu a diversidade alimentar dos caçadores-recolectores, pela quantidade dos agricultores, resultando no aumento exponencial da população. Doenças infecto-contagiosas como a varíola, a peste, o sarampo, a gripe ou a tuberculose necessitam de grandes aglomerados populacionais para subsistirem. A maioria destas doenças evoluiu de outras semelhantes existentes em animais domesticados, como é o caso do sarampo que surgiu a partir da peste bovina; ou são provenientes de animais sinantrópicos[ref] Animais que se instalam nos povoamentos humanos beneficiando das condiçōes criadas pela urbanizaçāo, entre outros, os ratos, as baratas, os mosquitos ou os pombos.[/ref], como algumas espécies de ratos, potenciais transmissores da peste. Com a crescente densidade populacional de vilas e cidades, ligadas por rotas de comércio mundiais, as epidemias tornaram-se pandemias.

    A peste bubónica que assolou o império Bizantino no século VI, fazendo milhões de mortos, terá chegado a Constantinopla em navios mercantes, carregados de grão, ratos e pulgas[ref] Agente transmissor da bactéria Yersinia Pestis entre roedores e humanos.[/ref], disseminando-se rapidamente pelo império. Foi uma vantagem para as tribos bárbaras, muitas delas nómadas, dispersas por zonas rurais e por isso menos expostas ao contágio[ref] Germs, Genes and Civilization, David Clark.[/ref]. No século XIV, a peste negra, provocada pela mesma bactéria, reduziu para dois terços a população europeia. Acredita-se que o surto tenha chegado à Europa através da rota da seda. Atingiu sobretudo as cidades, sobrepovoadas, com populações enfraquecidas pela fome, pela guerra e pela insalubridade constante. Durante este período foram iniciadas perseguições sangrentas a várias minorias, entre elas os ciganos e os judeus, acusados de serem os causadores da peste.

    epidemias, fomes, guerras e desastres “naturais” foram sempre uma oportunidade para o reforçar dos poderes instituídos

    O genocídio dos povos indígenas da América e da Oceânia, iniciado com a colonização europeia no século XV, foi conseguido não só através da guerra e da violência, mas também pela disseminação de doenças até então inexistentes, levadas pelos colonizadores, para as quais os povos nativos não tinham imunidade. Epidemias de varíola, sarampo, cólera, febre tifóide e malária contribuíram para esse extermínio, ajudando a consolidar o domínio dos impérios coloniais. A virulência destas doenças foi agravada pela aniquilação dos modos de vida que esses povos tinham antes da chegada dos europeus. A caça, a recolecção e variedades de agricultura sustentável destinadas à subsistência reflectiam o respeito e a intimidade que estes povos mantinham com a natureza. A introdução da agricultura expansiva, destinada a alimentar os fluxos comerciais das metrópoles, foi acompanhada pela desflorestação, expropriação de terras e trabalhos forçados, para os sobreviventes desse etnocídio. Também o comércio transatlântico de escravos e o estabelecimento de colónias penais originaram novas doenças e epidemias que ajudaram a dizimar as populações nativas.

    Com a revolução industrial, o rápido crescimento da população, a migração em massa de desapossados do campo para a cidade e a progressiva urbanização, foram criadas as condições para que doenças endémicas se tornassem pandémicas. A abertura do canal de Suez e a invenção do navio a vapor reduziram a distância entre a Europa e a Ásia Meridional, acelerando a propagação de doenças como a cólera ou a tuberculose. Os surtos de cólera na Europa foram devastadores, atingindo as cidades em crescimento, habitadas por explorados do capitalismo industrial que sobreviviam em circunstâncias de extrema pobreza, desnutrição e insalubridade. É neste contexto que surge a gripe “espanhola”, uma das mais letais da história, em que a degradação generalizada das condições de vida foi intensificada durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Estudos recentes mostram que essa estirpe não era afinal tão virulenta como se pensava[ref] What really happened during the 1918 influenza pandemic? The importance of bacterial secondary infections – Brundage JF, Shanks GD, Dezembro 2007[/ref]. A guerra e o comércio internacional foram os principais factores de contágio. Teve origem provável nos Estados Unidos, a partir de vírus de aves ou suínos, coincidindo com a modernização da agricultura no país. Nos anos 1970, esse modelo de criação intensiva de animais começou a ser exportado para todo o mundo[ref] Big Farms make Big Flu: Dispatches on Influenza, Agribusiness and the Nature of Science, Rob Wallace.[/ref].

    metropole
    Não há nada para socializar dum modelo que se expande vertiginosamente e gera metrópoles, onde vivem milhōes de pessoas dependentes de uma economia voraz, de dimensão planetária.

    Mais recentemente, a gripe das aves em 2005, e a gripe suína, também conhecida como Gripe A, surgida no México em 2009, foram provocadas por vírus semelhantes ao da gripe “espanhola”. Tiveram origem em aviários e suinoculturas utilizando os métodos modernos da agroindústria, incluindo o uso de antibióticos, destinados a aumentar a produção e a competitividade, no acesso aos mercados globais. Enquanto a gripe suína se espalhava pelo mundo, a pressão da indústria suinícola junto da OMS (Organização Mundial da Saúde) foi notável, a ponto de esta renomear o vírus para a designação científica H1N1, de forma a confundir a sua origem. Também a indústria farmacêutica influenciou as decisões da OMS, como a mudança dos critérios para o decreto de “pandemia”, conseguindo, através do pânico gerado, assegurar contratos milionários com vários países para a produção de drogas antigripais, como o conhecido Tamiflu.

    Epidemias em que o contágio é proveniente de animais selvagens são o resultado da destruição massiva de floresta e dos desequilíbrios ambientais e sociais que o capitalismo global tem perpetrado. Os surtos de ébola em África, ou de nipah na Ásia, não acontecem de forma espontânea, como muitas vezes é reportado. Esses vírus sempre circularam na região, mas os efeitos da transformação da floresta em extensões de monocultura criaram as condições para a sua propagação, sendo a indústria do óleo de palma conhecida internacionalmente por essa devastação, e também pela exploração de trabalho infantil[ref] Grandes marcas mundiais estão a lucrar com trabalho infantil na extração de óleo de palma – Amnistia Internacional, 30-11-2016.[/ref]. O desmatamento destrói as barreiras naturais que impedem a transmissão[ref] Por exemplo, o corte de árvores em vastas áreas de floresta na Guiné alterou a temperatura ambiente que permitia manter o ébola controlado [ Hogerwerf et al, 2010; Stephens et al, 1999], as plantações de palma atraem algumas espécies de morcegos que são um reservatório natural do vírus. O mesmo acontece em regiões onde doenças transmitidas por mosquitos, como a malária ou o dengue, são endémicas e o agronegócio alterou irremediavelmente o ecossistema. Este cenário é agravado com as rápidas mudanças de clima provocadas pelo aquecimento global.

    A desflorestação do Sudeste Asiático das últimas décadas e a caça furtiva de animais selvagens com destino aos mercados vivos de iguarias gastronómicas criaram a conjuntura para que os coronavírus (como o SARS-CoV, em 2002, e o actual SARS-CoV-2) possam mais facilmente infectar humanos. O aumento massivo de viagens para turismo, comércio e negócios, percorrendo longas distâncias em cada vez menos tempo, permite que estes contágios se transformem rapidamente em pandemias. As doenças respiratórias causadas por estes vírus são agravadas pela poluição atmosférica que mata anualmente 7 milhões de pessoas, contribuindo para o aumento da sua letalidade.

    O novo coronavírus trouxe consigo uma intempérie de ironias por aquilo que revela do modo de vida homogéneo e condicionado em que assenta a sociedade globalizada, e dos requisitos para a sua manutenção. Apesar do aparato militar e tecnológico exibido pela civilização moderna, um vírus consegue pôr em confinamento mais de metade da população mundial, independentemente disso ser resultado da sua real perigosidade ou do pânico mediático gerado. Em todo o caso, epidemias, fomes, guerras e desastres “naturais” foram sempre uma oportunidade para o reforçar dos poderes instituídos. E no mesmo sentido, perante a generalização do medo, a sociedade torna-se ela mesma disciplinadora. O sistema supera os problemas que cria com mais vigilância, controlo e aperfeiçoamento tecnológico.

    Apesar do aparato militar e tecnológico exibido pela civilização moderna, um vírus consegue pôr em confinamento mais de metade da população mundial

    Chegamos a um labirinto evolutivo onde qualquer solução que passe pela manutenção do existente implica o domínio de cada vez mais âmbitos da vida. O capitalismo é apenas a forma actual desse processo, em contínua sofisticação, incorporando elementos de todos os regimes e ideologias derivadas do antropocentrismo. Isto não quer dizer que o sistema seja inelutável. É, no entanto, imprescindível saber como chegámos aqui, e o que nos reserva o futuro, para que possamos identificar o que rejeitamos e aquilo que queremos pôr a salvo. Não há nada para socializar dum modelo que se expande vertiginosamente e gera metrópoles, onde vivem milhões de pessoas, dependentes de uma economia voraz, de dimensão planetária. Não há nada para reformar dum sistema que produz oceanos de plástico, montanhas de lixo, epidemias, e se reproduz pelo contínuo envenenamento da Terra… Qualquer optimismo que não tenha isto como ponto de partida é pura resignação.

    Um dos sintomas da modernidade é o facto de cada vez mais cidadãos do mundo conhecerem uma parafernália de aplicações informáticas e conceitos da época digital, ou as últimas novidades da indústria de entretenimento, e não saberem sequer reconhecer os pássaros ou as árvores circundantes, porque nunca lhes prestaram atenção, mergulhados que vivem num quotidiano cada vez mais artificial, alienado pela produção e consumo de inutilidades. É este deslumbramento, este fetiche do mundo moderno, que nos tornará estrangeiros no planeta onde nascemos.

    Temos muito a aprender com os povos não-civilizados do passado – e com aqueles que ainda hoje subsistem, mas que o progresso quer apagar da história – pela maneira como se reconhecem nessa comunidade mais-do-que-humana que é a natureza. É urgente impedir a realização do homem unidimensional que a ciência e a razão vêm construindo na hegemonia do Império. É urgente retomar a luta contra a globalização, a partir das biorregiões, sem cedências ao nacionalismo ou a outras ideologias do ódio, igualmente nocivas e assimiladoras da diversidade. Para uma vida realmente saudável, o melhor sistema de saúde é a Terra. É possível resgatá-la. Mas isso implica abandono, confronto e um novo enamoramento com a comunidade de todos os seres.

     


    Texto de  M. Araújo
    Legenda da fotografia em destaque  – Um nativo norte-americano comtempla a linha de comboio trans-continental em Sacramento [1867]. A composição do fotógrafo Alfred Hart transmite o choque definitivo da civilização e do progresso na vida dos povos originários, para cujo genocídio tinha já contribuido imensamente a disseminação de epidemias.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #27, Maio|Julho 2020.


    #civilização #pandemias #peste #doenças #povosnativos #população #epidemias #desflorestação #vírus #natureza #mapa27 

     

  • Amazónia: A Virgem e a Floresta

    Amazónia: A Virgem e a Floresta

     

    Amazonia

    Amazónia. Entranhada num imaginário colectivo europeu como ícone de uma natureza prístina e selvagem, último reduto da biodiversidade global e de tribos indígenas não contactadas, a Amazónia é retratada como um «território inexplorado» a que cabe o papel de pulmão do mundo»’. É a maior floresta tropical do mundo, cobrindo cerca de 5.5 milhões de hectares, representando globalmente 40% das florestas tropicais e 20% da água doce disponível, enquanto produz 20% do oxigénio que respiramos e absorve cerca de 2.2 biliões de toneladas de carbono por ano, aproximadamente um quarto das emissões de carbono anuais emitidas por consumo de combustíveis fósseis. Assim, quando em Agosto deste ano as imagens de uma coluna de fumo a chegar a São Paulo e a notícia de que a Amazónia estava a arder correram mundo, a comunidade internacional reagiu prontamente repudiando as políticas ambientais do governo de Bolsonaro. Apesar dos incêndios que consumiam a Sibéria, a bacia do Congo e a ilha do Bornéu na Indonésia na mesma altura, só quando a Amazónia arde é que as chamas parecem acordar o mundo, onde este imaginário colectivo de uma natureza virgem e inexplorada, em risco de desaparecer, continua a manter a Amazónia sob o fogo cruzado de múltiplas tentativas de colonização.

    AmazoniaMais de 34 milhões de pessoas vivem na região da Amazónia, algumas em centros urbanos como Iquitos (Perú) e Manaus (Brasil), a larga maioria em comunidades nativas e campesinas que desenvolveram sofisticados modos de vida, os quais lhes permitem adaptar-se e co-existir com um ecossistema que sustenta entre 10% e 15% da biodiversidade terrestre global. A Amazónia é uma floresta-rio que respira ao ritmo das águas: durante metade do ano a enchente inunda quase toda a floresta deixando apenas algumas ilhas — as terras altas —; na outra metade os rios baixam, deixando a descoberto a planície verde e pantanosa, assim como os campos férteis para cultivos — as terras baixas. Os acessos são feitos por rio, através do Amazonas e dos seus muitos afluentes, as poucas estradas que existem vão dar a parte nenhuma fora dos centros urbanos. Mas o «inferno verde», como alguns lhe chamaram, está longe de ser a paisagem bucólica de uma natureza vista à distância. Dentro da Amazónia o único horizonte é o rio; tudo o mais é floresta densa onde a visão não abarca além de escassos metros no caminho. A humidade cola-se à pele, juntamente com um cheiro adocicado a pólen e frutos. O ar permeia-se de múltiplos zumbidos, sibilados, restolhares e cantos de pássaros e insectos, o ruído é ensurdecedor e, por vezes, atordoador. Para onde quer que se olhe, tudo mexe e vibra, repleto de vida. Aqui nunca se está só e, numa terra onde a visão não alcança, ver é principalmente o som que alerta aqueles que sabem interpretar os perigos ou a oportunidade.

    No entanto, apesar de indomada, a Amazónia é mais do que uma «floresta virgem». A população da Amazónia inclui mais de 350 grupos étnicos diferentes, cujos territórios abarcam actualmente pelo menos 30% da sua área total. Durante milénios, estas comunidades nativas ocuparam e geriram estes territórios, transformando a paisagem onde vivem através de práticas de gestão florestal, incluindo agricultura de roça e rotação de cultivos, a propagação e selecção de espécies úteis para a sua subsistência, em muitos casos levando ao desenvolvimento de sociedades complexas assim como ao aumento da fertilidade dos solos e da biodiversidade dos seus territórios. A agricultura de roça (ou corte e queima) – frequente e erroneamente associada ao desmatamento de florestas tropicais – é, no entanto, um aspecto fundamental na criação de diferentes nichos e habitats, constituindo vários estados de regeneração florestal ao longo de um gradiente de gestão agroflorestal que, favorecendo diferentes espécies vegetais pelos seus frutos, propriedades medicinais ou outras características úteis na criação de utensílios diversos, sustentam, não só as comunidades humanas como atraem outros habitantes da floresta, desde peixes a pássaros, animais e insectos. Com base em estudos arqueológicos e de distribuição de espécies, estima-se que entre 12% a 35% da Amazónia sejam bosques secundários de origem humana.

    Amazonia

    A co-produção destes territórios por comunidades humanas levou à parcial domesticação da Amazónia, não no sentido de controlo sobre os seus recursos naturais e processos ecológicos, mas no sentido emque a sua transformação implica processos de co-adaptação que, por requererem uma constante negociação entre as comunidades humanas e não-humanas e uma compreensão da sua interdependência, levou ao estabelecimento de relações de reciprocidade com a floresta que visam assegurar a subsistência de ambas. Assim, a identidade cultural destes povos encontra-se intimamente ligada à sua relação com estes territórios e à reprodução de um conhecimento detalhado sobre os seus ecossistemas, tanto através da tradição oral como de práticas de gestão florestal, que permitem manter e gerir essas relações com a floresta e seus habitantes, enquanto revelam também múltiplas formas de vida não-humana como seres conscientes e intencionais, participantes activos na vida social e cultural da comunidade e nos ciclos naturais da floresta. Na cosmologia dos povos da floresta, todos os seres têm uma mãe ou dono, desde as montanhas aos rios, animais e plantas, que tanto protegem a floresta como podem enganar, causar doenças ou outros problemas aos humanos quando não são respeitados. Estes seres, também representados na figura do Kurupira ou Chullachaqui, têm a capacidade de se metamorfosear e adquirir forma humana, ilustrando uma condição de pessoa não-humana que leva ao estabelecimento de obrigações e proibições sociais para com estes e à sua integração na vida da comunidade.

    É neste contexto que imaginar a Amazónia como reduto de uma «natureza prístina» habitada por comunidades nativas que epitomizam um ideal de «nobres selvagens» em harmonia com a natureza, é uma simplificação atroz da complexa paisagem cultural, social e política da Amazónia. Tanto a imagem de uma «natureza virgem» como a de «nobres selvagens» silencia a história das comunidades nativas e dos seus múltiplos processos de resistência, tornando invisíveis o trabalho destas na co-criação de paisagens simultanemante produtivas e biodiversas e a diversidade cultural destes povos e a auto-determinação necessária (como escolha e não destino) na continuada reprodução de práticas, que lhes permitem manter os seus modos de vida entrelaçados com a vida da floresta. Em geral, estes não são povos isolados mas antes povos que, desde há 500 anos, fazem frente a múltiplas tentativas de colonização dos seus territórios e modos de vida, incluindo a depredação dos seus territórios através da extracção de minérios e de petróleo, da construção de barragens, da entrada de garimpeiros, madeireiros e narcotráfico, enquanto as suas culturas são forçadas à vulnerabilidade económica, por falta de acesso aos recursos naturais de que dependem e à marginalidade social que permite a impunidade da perseguição e assassinato dos seus corpos. Não nos iludamos: a Amazónia é selvagem – tanto pela força da sua natureza não subjugada, ainda que domesticada e castigada, como pela impenetrável impunidade que rege a lei da selva, invisível a outras fronteiras que não as da própria floresta -, mas certamente não é virgem.

    Amazonia

    Para compreender o alcance destas múltiplas tentativas de colonização é preciso começar por desmistificar a Amazónia como «floresta virgem». Este arquétipo de pureza, de onde emana uma percepção de valor natural, aparece enraizado numa conceptualização essencialista da natureza enquanto arquétipo feminino, uma natureza-mãe que nutre e é virgem enquanto antagónica à sociedade: uma natureza tanto mais «valiosa» quanto mais «pura» e tanto mais «pura» quanto menos tocada pelo «homem». Uma noção que é, simultaneamente, associada à percepção da sociedade como um todo, independentemente de estruturas sociais, diferenças culturais ou relações de poder, como responsável pela degradação ambiental dos ecossistemas. A imagem de uma «floresta virgem» é assim reproduzida em discursos de protecção ambiental – na forma de parques e reservas naturais que excluem as comunidades nativas da sua gestão e restringem o acesso destas populações aos recursos naturais destas áreas, tornando-os redutos do turismo internacional — como aposta para um desenvolvimento sustentável que só é economicamente viável à custa da deslocalização e transformação das economias locais, através da migração forçada das populações ou da mercantilização do seu folclore. Por outro lado, a mesma imagem é reproduzida em discursos de desenvolvimento económico que, promovendo a industrialização da agricultura e a extracção de recursos, representam a Amazónia como um «território inexplorado», improdutivo e repleto de potenciais recursos naturais — um «el dorado» de riquezas por explorar, onde as comunidades nativas são percebidas como «civilizações primitivas» sem o desenvolvimento nem as tecnologias necessárias para a extracção desses recursos. Em qualquer dos casos, a questão é a do controlo sobre os recursos naturais, onde a «floresta virgem» representa um potencial para a exploração, apropriação e mercantilização destes, em prol do desenvolvimento económico da região, seja através de um proteccionismo ambiental que se alimenta do turismo ou através do extractivismo de minérios, petróleo e madeiras e da produção agropecuária, promovendo o desmatamento para abertura de pastagens e culturas comerciais.

    AmazoniaNesta natureza idealizada são tornados invisíveis e silenciados esses outros modos de vida que, entrelaçados com a floresta, representam não só múltiplas possibilidades de coexistência com o não-humano, mas também de resistência aos modos de vida capitalista e ao fogo cruzado de diversas colonizações. Dados de 2014, apontam para uma perda de 17% da cobertura florestal da Amazónia nos últimos 50 anos, grande parte para o aumento de produção de gado e soja, e estima-se que um desmatamento superior a 20-25% possa levar ao colapso do seu equilíbrio ecológico e hidrológico, transformando a floresta tropical em savana. Hoje, áreas protegidas cobrem cerca de 25% do bioma Amazónico. No entanto, globalmente, os territórios ocupados ou geridos por comunidades nativas albergam mais de 80% da biodiversidade global; em geral, contendo uma diversidade de espécies tão grande ou maior que áreas protegidas. Apesar disso, apenas uma fracção destes territórios é oficialmente reconhecida por governos nacionais, em parte porque a floresta continua a ser compreendida como «terra improdutiva» e não como sujeito de relações interpessoais e fonte de recursos diversos que suportam a resiliência, subsistência e reprodução cultural de comunidades locais.

    A Amazónia está em risco: pelas políticas do governo de Bolsonaro abrirem o caminho ao agronegócio e à impunidade dos ataques aos povos nativos, pela construção de mega-projectos hidroeléctricos – como a barragem de Belo Monte – e que destroem o equilíbrio hídrico da região, pelos muitos derrames de petróleo que poluem os seus afluentes, assim como pelo facto da transformação das economias locais em economias globais acelerar o seu desmatamento, e pelos discursos que apagam a sua história e homogeneízam a sua paisagem cultural e política, para justificar a sua apropriação e exploração. No entanto, o que está em risco não é apenas a floresta como ecossistema, mas a floresta enquanto sujeito de múltiplas relações associadas a diferentes percepções, tanto da sociedade como da natureza — a floresta enquanto modo de vida. Para que essa complexa teia de relações vivas prevaleça é fundamental apoiar a auto-determinação dos povos indígenas na demarcação dos seus territórios. Para os povos Amazónicos não é a floresta que precisa de ser protegida, mas sim estes modos de vida e formas de se relacionar que, resistindo à depredação das pessoas e dos ecossistemas, permitem a sua continuidade e constituem o território mais-do-que-humano dos povos nativos.

    Texto de Joana Canelas [jfc21@kent.ac.uk]
    Fotos de Luana Noví