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  • Vagabundos, Gatunagem e Maus Rapazes de Maio de 68

    Vagabundos, Gatunagem e Maus Rapazes de Maio de 68

     

    Claire Auzias nasceu em Lyon, França, em 1951. Autora de uma dúzia de livros, não é completamente desconhecida entre nós. Um deles, sobre o povo cigano, foi publicado em Portugal há uns anos atrás pela Antígona.

    No seu último livro, Trimards – “Pègre” et mauvaise garçons de Mai 68, oferece uma excelente descrição de Maio de 1968, fundamentalmente em Lyon e principalmente sobre o papel que os «marginais», vagabundos, pedintes, gatunagem, desempenharam nos acontecimentos que comoveram esta sociedade estatal tecno-capitalista. Claire conhece muito bem os eventos de que fala, não somente porque neles participou, como graças a uma numerosa documentação inédita. Mostra a paixão de Maio de 68, a sua complexidade, não oculta as divisões que existiam nos diversos grupos políticos intervenientes e abona uma explicação diferente da difundida sobre a morte do comissário da polícia em Lyon, «episódio trágico e quase único na história de Maio de 68» (em Trimards, prefácio de Jonh Merriman).

    Estes «marginais» sempre estiveram presentes em tumultos importantes (1848, 1871, 1890…) e foram celebrados. São reencontrados nos anos cinquenta do século vinte nos cafés da rive gauche de Paris pelos membros da Internacional letrista que simpatizaram com o seu niilismo, «só pela negativa podiam ser definidos, pela simples razão de não terem qualquer ofício, de não praticarem qualquer arte» (em Panegírico, Guy Debord). A sociedade «tinha momentaneamente deixado o terreno livre àquilo que amiúde é repelido e que no entanto sempre existiu: a intratável gatunagem; o sal da terra» (em In Girum, Guy Debord). «Muitos eram oriundos das guerras recentes, vindos de vários exércitos que entre si haviam disputado o continente: o alemão, o francês, o russo, o exército dos Estados Unidos, os dois exércitos espanhóis, e ainda outros. As restantes pessoas, cinco ou seis anos mais novas, tinham chegado directamente ali porque a ideia de família começava a dissolver-se, como todas as outras» (em Panegírico, Guy Debord).

    Os vagabundos e gatunagem de Lyon descritos por Claire são os mesmos, com uma ou outra pequena diferença, dos de Paris. «Não eram estudantes, mas sobretudo desempregados, intermitentes, frequentemente com empregos instáveis e precários» (em Trimards). Na época, apogeu dos «gloriosos trinta anos», não eram muitos. Em Lyon, Claire contabiliza entre 50 e 300, no máximo. Talvez dissidentes por vontade própria, talvez atordoados pelas atrações consumistas e por bebedeiras hedonistas? A esta distância podemos ver os resultados. Hoje, desempregados, intermitentes, marginalizados, são produzidos todos os dias por um sistema mais em mutação do que em colapso, dispensando o humano e apostando em tudo inumano.

    O livro de Claire está a ser traduzido para português, uma versão mais curta do que a edição francesa, e projeta-se a sua publicação para o próximo ano. Então, voltaremos a falar dele.

    Trimards

    Trimards, “pègre” et mauvais garçons de mai 68
    Claire Auzias
    Atelier de création libertaire
    Outobro de 2017, 422 pp

  • Pão, Pizzas, Punks e Putos

    Pão, Pizzas, Punks e Putos

     

    Algures entre Espinho e Silvalde, entre a floresta e a autoestrada, entre o campo e a cidade, entre mudar o mundo e mudar o seu mundo – está o Moinho. Habitado por um grupo de amigos desde 2010, tornou-se «o epicentro de descobertas onde se faz ode a um modo de vida sustentável, partilhada e construída ativamente».

    Moinho

    Aproximamo-nos por um carreiro entre ervas daninhas, ao som duma enxada e duma bateria. Os ramos da figueira obrigam a uma vénia. Passamos hortas e tralhas. E chegamos à velha casa, junto à ribeira de Silvalde. Foi usada como moinho até ao início dos anos 90. Faz quase nove anos que giram agora outras mós e se vão desfazendo ideias como a propriedade, o lucro, o individualismo e a família nuclear. À porta, uma carcaça de televisor serve de casota: «televicão». Entramos, fazemos um chá e sentamo-nos à mesa com três das moradoras.

    «Chamámos-lhe um sítio de experimentação», conta Cinthia. As palavras podem soar vagas e não há uma definição coletiva deste projeto «rurbano» (entre o rural e urbano): o Moinho é algo diferente para cada uma que o habita. «Nenhum de nós quer trabalhar 40 horas semanais para um patrão, por dinheiro. Então organizamo-nos em conjunto para isso ser viável».

    Desde há quase uma década, recuperam ruínas e constroem casas com materiais naturais e recuperados. Trabalham a horta. Fabricam cerveja, sumos e concentrados. Compõem música. Educam crianças.

    O Moinho tem sido ninho de projetos mais ou menos efémeros. Um deles começou por se chamar Pão Rebelde: distribuía em projetos amigos no Porto, ou pela vizinhança, de bicicleta, pão cozido no forno a lenha, amassado à mão. Outro, Maria Moinho, quer levar «a magia do forno a lenha pelo mundo fora», propondo pão, pizzas, bolos e alimentação diversa em eventos e festivais. Também daqui saíram da casca projetos musicais, como as Panelas Depressão.

    «Viemos de um certo ambiente que estava a acontecer no Porto e no país: a Es.Col.A da Fontinha, o movimento contra a cimeira da NATO, a Casa Viva, o Musas, o GAIA Porto… A afinidade e cumplicidade surgiu nesses contextos de ativismo, da música punk… E fez gostarmos uns dos outros», recorda T.

    «É o mais importante, e é por isso que a gente ainda se atura», brinca Cinthia. «E crescemos uns com os outros».

    Neste momento são quinze pessoas, três delas crianças. Há ainda três cães, um gato e quatro galinhas. Põem em comum os recursos, o espaço, a economia.

    «É sobretudo nisto que este espaço é ativista: em vez de uma vida individualista, de uma família nuclear, conseguir ter outras formas de viver juntos e pensar o quotidiano. Aprendemos a conviver, a respeitar a diferença. Tudo o que vou aprendendo aqui ajuda-me e dá-me muitas ferramentas lá fora». Eva é mãe de uma criança de três anos e é palhaça – «o meu trabalho e a minha arma de intervenção social, a que me dedico militantemente». «O facto de não estar sozinha a educar apazigua-me. Ouço uma criança chorar, mas fico tranquila porque sei que alguém vai lá. E para as crianças é uma oportunidade de viver com diferentes maneiras de fazer, de falar, de educar».

    Não há no Moinho uma visão militante comum. «Isso dá espaço para integrar várias coisas», diz Eva. Pontualmente, o espaço acolhe os eventos mais diversos: jornadas de medicina alternativa, bicicletada anti-fracking, festa das crianças, retiro de palhaços…

    «Não há aqui propriedade, não há chefes, não há dinheiro», diz T. «E o não haver alguém que compra facilita muito a relação entre nós. É o mesmo que acontece em okupações».

    Vivem aqui em troca de uma renda acessível e de um contrato renovado ano a ano. «Sabemos que podemos ficar aqui um ano, ou 5, ou 20. Não há o “isto é meu e vai ser para os meus filhos”. E não é isso que nos separa». Para já vão 9 e, ao contrário do que se poderia pensar, é justamente essa dimensão temporária que as anima e lhes permite fazer tanto. «Tira um peso, de ter de chegar a um resultado. Dá uma liberdade muito grande».

    Como acontece em muitas okupações, há aqui uma sensação permanente de trabalhos em curso. «Um de nós podia ter dinheiro, comprar os materiais todos e acabar isto ou aquilo. Mas é o princípio da reciclagem e da reutilização de materiais que nos move», conta Eva. Não deixam de visualizar e sonhar, mas a realidade do Moinho é: «vamos indo e vamos vendo».

    Todos os anos, convidam toda a gente a vir festejar os aniversários, que parecem só ter uma coisa em comum: ser sempre diferentes e nunca na mesma data. E as pizzadas, que se «tornaram tradição, a marca da casa», diz Cinthia. «É uma necessidade de festejar o ano que passou. É uma cena intergeracional: há mais crianças e também mais avós, há casais da idade dos nossos pais, há as vizinhas… A programação vai desde punk a oficinas para crianças, tudo misturado».

    «Mais do que oferecer grandes bandas ou cursos incríveis, é um espaço onde as pessoas se sentem em casa. Que não está cheio de regras. E podem estar, tocar música, ajudar na cozinha…», observa Eva. Todas as atividades são a preço livre, sem fins lucrativos. «E o pessoal sente isso, que há uma outra proposta. E relaxam, ao nível da exigência. E vão procurando: “O que é que eu vou levar daqui, o que é que posso também dar em troca? Também quero ajudar”. Não é só um ato de consumo».

    «Difícil não é fazer um telhado, é fazê-lo juntos»

    Em abril de 2010 havia uma casa, há anos abandonada, que espreitava dum enorme silvado. E havia três amigos, com necessidades diferentes: uma casa para viver, um atelier para criar, um sítio para conviver e fazer música.

    O primeiro inverno e primavera foram passados a reparar o telhado e isolar a casa do frio e da chuva. E o processo esteve longe de ser fácil. «Estávamos a aprender a fazer. E estávamos a aprender a fazer em conjunto. E quase sem ferramentas: era muito freegan, tentando não usar dinheiro e improvisar sobre o que tínhamos no momento», lembra T. «Vínhamos de um grupo de amigos alargado. Não era uma coisa clara: “vamos fazer um coletivo”».

    «Uma vez estávamos aqui e o pessoal começou todo a dar bitaites: “Não! É assim que se faz!” E eu, que estava cá em baixo, a dar a massa: “Pessoal, descer do telhado! Vamos reunir!” As reuniões eram de urgência», recorda Cinthia.

    «Havia muitos conflitos e problemas de ego, e dificuldade em ter ferramentas – sobretudo humanas. Para saber conversar, saber tomar decisões juntos», lembra Eva. «Isso também se aprende. Não é garantido na nossa sociedade, na nossa educação: estamos muito habituados a fazer o que nos mandam ou a querer mandar fazer».

    O projeto deu um salto, no espaço e no humano, no potencial de fazer coisas juntos, na primeira primavera, com a chegada de pessoas para ficar e viver, para apropriar-se dele como casa e sítio de experimentação.

    O segundo salto aconteceu com o nascimento das crianças. «Trouxe uma urgência. Construir casas fora da casa comum, tornar o sítio mais agradável, organizar e agilizar as compras, a cozinha, a limpeza», diz Cinthia, mãe de duas crianças. «Elas trouxeram outro tipo de energia e de relação entre as pessoas. Uma criança está, é pura, faz erros, faz merda. A gente aprende a comunicar, e a pedir a comunicação delas. A respeitar a sua liberdade, mas ao mesmo tempo dizer “Não. Estamos juntos, precisamos de nos ouvir”. Pedir: “não grites com os outros”. E isso tem efeito em nós, relembramos que queremos praticar isso na vida. É um processo maravilhoso».

    «Ninguém o conhecia!»

    Desde o começo que o Moinho é marcado pela passagem quase frenética de pessoas – e se alimenta dela. «É uma base nómada», diz T. «Já ficaram aqui centenas e centenas de pessoas: uns dias, uma semana, dois meses…».

    «Eu tinha viajado e o sedentarizar não foi fácil», conta Cinthia. «Quero enraizar aqui, mas quero que este espaço traga pessoas de vários sítios, de vários projetos, que se encontrem e façam coisas juntas. E aprender com estas experiências. Eu já não ia ver o mundo, mas gostava que o mundo viesse até mim».

    «Estiveram aqui pessoas que ensinaram bué. Vêm partilhar as suas ferramentas, os seus saberes. E este sítio já ensinou e inspirou muita gente. Uma troca», explica Eva.

    Naturalmente, a curiosidade, a disponibilidade e o entusiasmo no acolhimento não é sempre o mesmo. «E nem tudo foi rosas, já se mandaram pessoas embora. Aprendemos sempre com as experiências mais difíceis».

    «Nós próprios estamos todos a andar dum lado para outro», acrescenta T. «É isso também que mantém o Moinho. Irmos buscar ideias a outros sítios, crescermos fora daqui».

    «Há poucos espaços assim, tão aleatoriamente abertos, em que chega gente aí de mochila “olha posso ficar aí?”, e ficam um mês. Tipo ele – ninguém o conhecia!». Ydriss, jovem viajante da ilha da Reunião, as rastas envoltas num lenço, olha-nos, sorri e prossegue calmamente a confeção do almoço comunitário. «E bem-vindo!».

    «Sinto que é uma cena quase intocável», observa Eva, «como não termos televisão».

    «Ó Dona Leonilde, eu sou de Esmoriz!»

    «São pobres mas são felizes», era a expressão que Cinthia ouvia ao distribuir pão na vizinhança. «As imagens sobre nós vão mudando ao longo do tempo. No início era “hippies”, “drogados”. Agora até devem romantizar».

    «Vejo claramente um impacto de a gente cá estar. É bom de se sentir», diz. «Quando chegámos, havia vizinhos cá na rua que não se falavam. E pelo facto de estarmos aqui já começaram a falar».

    «Há uma crise à nossa volta. Muitos são idosos e os filhos deles com problemas. A maior parte está triste a trabalhar numa fábrica, ou desempregado, ou alcoólico», observa T. «Apesar de sermos “uns freaks”, que “não vão trabalhar”, vêem que somos responsáveis, estamos sempre a rir, damo-nos bem».

    «Muitas nunca tinham visto pessoas doutros países. Não viajaram. Foram até Gaia, ou uma vez a Lisboa», diz Eva, que recorda em gargalhadas: «Eu usava o cabelo envolto num lenço. Um dia a vizinha viu-me ali com o rocket stove e disse “ah, no teu país fazem assim”. Ela pensava que eu era romena. E eu disse, “ó Dona Leonilde, eu sou de Esmoriz!”». «Nós éramos de Paramos, a aldeia ao lado», acrescenta Cinthia. «Eles foram percebendo que dá para conviver, pessoal de Paramos com pessoal estrangeiro. Muitos preconceitos foram-se desmontando».

    «Ao início íamos muito porta a porta, na tentativa de trazer as pessoas cá. E fomos percebendo que as coisas aconteciam mais espontaneamente. Aquilo que eu idealizava como envolvimento comunitário dos vizinhos, que participassem do espaço, viessem para a horta ou fazer o pão… não aconteceu. Foi mais suave, subtil e mais interno o que isso».

    Para Eva, viver no Moinho tem sido justamente «ir aprendendo a abdicar das ideias formatadas, do que queríamos que acontecesse. Aprender a aceitar. A olhar para os outros e para o que está realmente a acontecer».

    E se um dia a câmara municipal quiser concretizar o plano que data dos anos 80 – expropriar todo o vale e fazer um «corredor verde» – dizem ter hoje uma rede muito mais forte do que pode parecer. Cinthia nem conhecia a vizinha que há tempos lhe disse: «Ó menina, não vos preocupais, vocês já fazem aqui parte do vale. Já foram adotados pela comunidade».

    Toda a gente gosta de CU

    A vontade é antiga e este ano ganha forma: criar uma rede de ajuda-mútua entre projetos coletivos que estão a acontecer por todo o norte do país. Do Rés da Rua, no centro Porto, ao Cimo da Vila, em Celorico de Basto, à aldeia de Landeira em S. Pedro do Sul, passando pela Quinta da Enterranha, no concelho de Sátão.… Todos bem diferentes, todos com características e desafios comuns. A inspiração vem das ajudadas nas aldeias ocupadas nos Pirinéus espanhóis. Por exemplo: todos os anos juntam gente e máquinas de todas as aldeias para ir de sítio em sítio, e num par de semanas fazer a lenha para todo o inverno, para todos.

    «Pensamos não só em ajuda prática, para construir casas ou trabalhar a terra, mas também numa rede de apoio. Partilhar experiências e ferramentas de cada lugar, por exemplo, como é que a gente gere conflitos», explica Cinthia.

    O nome provisório é «CU – Coletivos Unidos», e vai servindo para piadas e títulos sensacionalistas. O primeiro encontro está marcado para setembro.

    Texto de Francisco Colaço Pedro [franciscocolacopedro@gmail.com]
    Fotos de Jan Slangen

  • Solidariedade internacional com os 15 de Stansted

    Solidariedade internacional com os 15 de Stansted

     

    Em 2017, no aeroporto londrino de Stansted, 15 pessoas impediram a descolagem de um avião fretado para deportar migrantes, amarrando-se umas às outras à volta do aparelho. Apesar de esta acção ter permitido a reabertura de alguns dos processos de deportação de pessoas que estavam naquele avião, a justiça britânica decidiu acusar os 15 activistas, todos membros do grupo End Deportations, de prática de acto terrorista, fazendo pender sobre eles a ameaça de prisão perpétua.

    Depois de, no Reino Unido, vários académicos, políticos e organizações de defesa dos direitos humanos terem levantado a voz para que as acusações fossem retiradas, várias organizações da sociedade civil, grupos e colectivos de toda a Europa (nos quais se inclui o Jornal MAPA) uniram-se a essa exigência, num comunicado internacional onde se pode ler: «Estes voos charters são secretos, brutais e estão a deportar migrantes de forma ilegal. As pessoas que estavam no avião enfrentariam perseguições e até morte, se fossem deportadas – naquele avião, havia requerentes de asilo e vítimas de tráfico humano com pedidos ainda a serem processados. Onze pessoas que deveriam ter sido deportadas naquela noite ainda estão no Reino Unido, com os seus processos em andamento, graças à acção directa não violenta. Uma pessoa conseguiu desde então licença para ficar».

    No entanto, em Dezembro de 2018, no seguimento dum julgamento de nove semanas e após quase três dias de deliberações, o tribunal de Chelmford considerou que os acusados eram culpados de perturbação intencional de serviços num aeroporto. Uma decisão judicial tomada ao abrigo de uma lei (Aviation and Maritime Security Act) que tinha sido aprovada no seguimento do atentado de Lockerbie de 1988. Mais uma vez, uma lei «anti-terrorista» é, afinal, utilizada para reprimir a dissidência e o protesto, no caso, um bloqueio que se integra na filosofia da acção directa não violenta e que até permitiu denunciar a ilegalidade das deportações que o governo britânico leva a cabo de forma sistemática.

    Por se tratar duma «criminalização inquietante das manifestações e acções», por ser «uma tentativa preocupante de repressão da sociedade civil» e porque as «deportações violentas fazem parte das políticas anti-migrantes e da militarização das fronteiras por toda a Europa», a solidariedade com os 15 de Stansted é fundamental

  • Marrocos: repressão a soldo da União Europeia

    Marrocos: repressão a soldo da União Europeia

     

    Os esforços da União Europeia (UE) para bloquear as migrações nas rotas oriental (da Turquia para a Grécia) e central (da Tunísia e da Líbia para Itália), sobretudo a partir de 2014, acabaram por implicar uma maior procura da rota ocidental, a que tenta atingir Espanha através de Marrocos e, por vezes, da Argélia. O olhar da UE virou-se então para essa rota e o seu braço violento e mortífero não tardou a fazer-se sentir.

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    Foto de Robert Hickerson [unsplash.com/@projectcarma]

    No caso da rota oriental, o acordo UE-Turquia, que afinal pode não ser bem um acordo assinado pela UE [ver caixa], transformou as deportações em rotina aplicável a toda a gente que chegasse a qualquer ilha grega depois de 21 de Junho de 2016. Os hotspots, locais oficialmente de curta estadia, tornaram-se centros de detenção, verdadeiras prisões de longa duração, com condições deploráveis e degradantes.

    A rota central teve uma abordagem semelhante, na qual um reforço do poder militar do regime líbio e uma espécie de carta branca para a utilização de qualquer tipo de meios eram a moeda de troca para evitar embarques de migrantes para costas italianas. Uma estratégia que incluiu – inclui – ataques contra ONGs que tentavam salvar vidas no mar, através da sua criminalização e da acusação de cumplicidade com traficantes humanos.

    Quando a necessidade de resultados se sobrepõe a tudo o resto, atingi-los não é difícil, por muito sangue humano que possa custar. E, de facto, estas duas rotas, apesar de ainda porosas, estão cada vez mais difíceis, caras, perigosas, entregues a máfias com um nível de escrúpulos comparável à UE. De repente, cerca de 60% das chegadas a território europeu dá-se, neste momento, pela rota ocidental. Uma visita ao site do Missing Migrants Project dá uma visão muito clara da quase triplicação, entre 2017 e 2018, do número de chegadas por essa via. Com o corolário lógico dum aumento percentual de mortes que ultrapassa a proporção aritmética.

    Resolvido o que é possível resolver noutros lados, os olhos da UE viram-se para Marrocos, novo ponto chave do chamado combate contra a «imigração ilegal». A 28 de Junho de 2018, por ocasião do Conselho Europeu, os dirigentes da UE decidiram reforçar a «cooperação com outros países de origem e de trânsito, bem como a reinstalação voluntária», «assegurar regressos rápidos e evitar o aparecimento de novas rotas marítimas ou terrestres». Decidiram também apoiar os esforços de Marrocos e Espanha: «À luz do recente aumento dos fluxos no Mediterrâneo Ocidental, a UE apoiará, financeiramente ou de outra forma, todos os esforços envidados pelos Estados-Membros, especialmente a Espanha, e pelos países de origem e de trânsito, em especial Marrocos, para impedir a migração ilegal.»

    A 6 de Julho, em comunicado de imprensa, a Comissão Europeia anunciava que tinha aprovado, no quadro do fundo de emergência para África, três novos programas relacionados com migrações para a África do Norte, num montante de 90,5 milhões de euros. No quadro do programa de gestão de fronteiras, foram desbloqueados 55 milhões para Marrocos e Tunísia, com o propósito de «salvar vidas humanas no mar, melhorar a gestão das fronteiras marítimas e lutar contra os traficantes que operam na região». Houve ainda um acordo com Marrocos, uma outra verba de 6,5 milhões de euros, no quadro de um programa de apoio à estratégia nacional de imigração e asilo.

    A 2 de Agosto, o site Euractiv.com, num artigo intitulado “A UE gastará mais para as suas fronteiras do que para África”, afirmava que «a proposta da Comissão para o reforço das fronteiras aloca pela primeira vez mais dinheiro para o controlo da imigração do que para ajuda ao desenvolvimento em África». O orçamento da União Europeia para o período 2021-2027 previa um aumento dos fundos destinados ao apoio ao desenvolvimento a África de 26,1 mil milhões de euros para 32 mil milhões, sem ter em conta a inflação. Ou seja, descontada essa questão da inflação e de acordo com as contas do mesmo site, um aumento de uns ridículos 7% disfarçados duns pomposos 32%. Por outro lado, a «Comissão pretende atribuir um envelope de mais de 30,8 mil milhões de euros (a preços correntes para 2018) para a securitização das fronteiras externas e a gestão migratória para o período 2021/2027, ou seja, um volume mais elevado que aquele que será dado a toda a África sub-sahariana.»

    Marrocos, um Estado interessado em manter boas relações com o bloco europeu, habituado ao uso da força enquanto solução, sequioso de fundos e conhecedor das movimentações diplomáticas, não tardou em demonstrar que a UE pode contar com ele. Os raids de larga escala em cidades marroquinas à procura de africanos negros, migrantes ou refugiados, tornaram-se um prato do dia cada vez mais presente. E o destino de todas as pessoas que são apanhadas nessas rusgas é o mesmo, independentemente do seu estatuto legal: a deportação.

    Se, dentro das suas fronteiras, a UE faz tábua rasa dos seus próprios conceitos de lei ou direitos humanos, fora delas a impunidade oferecida é total. Episódios como o relatado pela Al Jazeera, em que a marinha marroquina acabou por matar uma mulher por ter disparado sobre um barco de migrantes, não são nem raros nem motivo de espanto. A luta contra a imigração ilegal e as redes de tráfico acabam sempre, dentro ou fora de portas, por ser um combate contra os próprios migrantes. Mas este episódio é apenas a ponta dum iceberg inimaginável para a maioria dos habitantes da UE.

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    O GADEM [ref] http://gadem-asso.org[/ref], grupo anti-racista marroquino de acompanhamento e defesa de estrangeiros e migrantes, produziu recentemente dois relatórios relacionados com o aumento da repressão sobre não marroquinos. O primeiro, de 28 de Setembro passado, intitulado “Custos e Danos” (“Coûts et Blessures”), é um conjunto de factos e análises de episódios de violência policial sobre a população negra em Tânger, Rabat e Casablanca, entre Julho e Setembro de 2018. Uma repressão que, por pretender afastar o mais possível das zonas fronteiriças todas as pessoas que sejam negras e não marroquinas, se transforma numa arma racista ao serviço da protecção das fronteiras europeias.

    Se é verdade que o Norte de Marrocos sempre teve uma atenção especial por parte das autoridades, não é menos verdade que a repressão se começou, de facto, a intensificar a partir de Julho de 2018 e, principalmente, de Agosto. Aproveitando as duas tentativas de passagem da fronteira em grupo para o enclave espanhol de Ceuta (26 de Julho e 22 de Agosto), e vendo a reacção espanhola que, de imediato, mobilizou todo o seu aparelho securitário para deter, identificar e recolher todas as informações de forma a expulsar essas pessoas em menos de 24 horas, o reino marroquino apressou-se a mostrar-se, a fugir às acusações de laxismo e a demonstrar o seu papel central na luta contras as migrações irregulares, intensificando o número e a violência de detenções e expulsões. Os raids passaram definitivamente a visar qualquer pessoa que se encaixe no perfil de migrante (voltamos a repetir, por nos parecer importante: africanos negros não marroquinos), para a deter e enviar para territórios mais a Sul.

    Sedento de poder, dinheiro, armas e credibilidade internacional, Marrocos joga com a sua posição geográfica e com o medo que a UE tem dos migrantes para conseguir um aumento considerável de apoio logístico, leia-se militar, e financeiro. Num momento em que a rota principal de entrada na UE é através de Espanha, o seu peso cresce consideravelmente. E cada novo raid, cada nova detenção ilegal, cada nova expulsão, é um trunfo que ganha à mesa das negociações. Nas palavras do GADEM, «Marrocos está a jogar um jogo perigoso e contraditório entre uma política extremamente repressiva e violenta direccionada para estrangeiros e migrantes presentes no seu território, um papel de “líder” do dossier da migração dentro da União Africana e uma posição que quer firmemente manter em relação a Espanha, à União Europeia e aos outros Estados-Membros».

    Apesar de já ter meios enormes para controlar as suas fronteiras, o reino marroquino pretende reforçar o seu arsenal com novos equipamentos e, em várias declarações públicas, os seus governantes têm apelado ao apoio da UE. Espanha, que decidiu colocar a cooperação com Marrocos no seu centro político, é uma alavanca para o reino mostrar que possui argumentos próprios para convencer a UE como um todo. O seu bom comportamento em termos de «gestão de migrações» não é apenas recompensado por Espanha, como se viu no recentemente assinado novo acordo de pescas entre a UE e Marrocos que, depois de tempos infinitos de indecisões (muito ligadas à questão do Sahara Ocidental), se desbloqueou como que por magia e parece ter aberto uma nova fase nas relações. Uma relação que terá sempre um carácter injusto, claro, quase neo-colonial, no seguimento aliás das palavras da própria Comissão Europeia, num dos seus relatórios de 2016, mais precisamente do dia 7 de Junho: «as relações especiais que os Estados-Membros possam ter com países terceiros, reflectindo relações políticas, históricas e culturais promovidas por décadas de contactos também devem ser exploradas para benefício da UE».

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    Manifestação em Ceuta recordando, em 2016, a tragédia da praia de El Tarajal em que 15 migrantes a nado morreram na sequência de disparos de balas de borracha da Guarda Civil espanhola.
    Foto de Laura Ortiz [Diagonal]

    Depois de lançado o primeiro relatório, a situação piorou. Ou melhor, teve um desenlace que, sendo previsível, não estava de todo programado. E, a 9 de Outubro, o GADEM viu-se na necessidade de publicar um novo relatório, desta vez intitulado “Expulsões Gratuitas” (“Expulsions Gratuites”). À detenção e transporte forçado para Sul seguia-se, afinal, a expulsão de território marroquino. As pessoas são metidas em campos com condições mínimas: «acesso limitado a comida e casas de banho, ausência de cama, violência diária, represálias sobre quem resista à expulsão, muitos feridos e doentes que são deixados sem assistência», pode ler-se neste segundo relatório. Onde também se pode ler que «sem comunicação oficial sobre as suas detenções, as pessoas cujos testemunhos recolhemos foram muitas vezes detidas para além do tempo máximo permitido por lei. Foi-lhes impossível oporem-se à sua detenção ou às medidas de expulsão que lhes estão a preparar. Sem haver advogados ou intérpretes disponíveis, também lhes é negado o acesso aos seus representantes consulares, a não ser para organizarem a sua expulsão».

    O primeiro relatório do GADEM foi publicado três dias após a morte duma mulher às mãos das autoridades marroquinas (a que se juntaram vários feridos), acontecido já depois do assassinato noticiado pela Al-Jazeera a que nos referimos atrás. O segundo relatório saiu no dia de uma outra rusga, da qual resultaram novamente vários feridos. Dois dias mais tarde, um barco com 11 pessoas a bordo foi deixado a vaguear, apesar de tanto as autoridades marroquinas como as espanholas terem sido repetidamente alertadas sobre a embarcação em perigo. «Ninguém veio para nos salvar. Por isso, decidimos voltar por nossa conta. Estávamos exaustos e ficámos sem água. Morreram duas pessoas antes de chegarmos a terra», são as palavras dum sobrevivente transmitidas pela ONG Watch the Med – Alarm Phone. A política migratória europeia virou os seus braços mortais para um novo território que, vistas as vantagens que pode tirar dum mero aumento da sua capacidade repressiva, não hesita em entrar na roda. Uma roda onde todos saem a ganhar. Menos as pessoas.

    O acordo que a UE não assinou

    Num caso aberto por três requerentes de asilo na Grécia, que tentaram desafiar a legalidade do acordo UE-Turquia, o Tribunal Europeu de Justiça (TEJ) afirmou não ter competência para julgar a sua legalidade, porque «nem o Conselho Europeu nem qualquer outra instituição da UE decidiu concluir um acordo com o governo turco sobre a questão da crise de migrantes».

    Ainda segundo a decisão do tribunal, «a prova fornecida pelo Conselho Europeu, e relacionada com as reuniões sobre a crise de migrações que decorreram sucessivamente em 2015 e 2016 entre os Chefes de Estado ou do Governo dos Estados-Membros e os seus congéneres turcos, demonstra que não foi a UE mas os seus Estados-Membros, enquanto actores da lei internacional, que concluíram as negociações com a Turquia nessa matéria».

    O acordo UE-Turquia foi oficialmente publicado através de um comunicado de imprensa no site partilhado pelo Conselho Europeu e o Conselho da União Europeia. A sua natureza legal já foi debatida no Comité de Liberdades Civis do Parlamento Europeu, que considerou que o acordo não era legalmente vinculativo, mas apenas um catálogo político de medidas adoptadas na sua própria base legal específica.

    Três pessoas, duas paquistanesas e uma afegã, viajaram da Turquia para a Grécia, onde pediram asilo por temerem perseguições em caso de regresso aos seus países de origem. Perante a possibilidade de serem reenviadas para a Turquia no caso dos seus pedidos de asilo serem recusados, decidiram desafiar a legalidade desse acordo. Segundo a acção que intentaram, trata-se de um acordo internacional que o Conselho Europeu, enquanto instituição a agir em nome da UE, concluiu com a República da Turquia. Um acordo que, assim defendiam os requerentes, violava o Tratado sobre o Funcionamento da UE (onde se define o âmbito das autoridades da UE para legislarem e os princípios legais nas áreas em que a UE opera) e também a Carta dos Direitos Fundamentais da UE, assim como os procedimentos comunitários para a conclusão de acordos internacionais.

    Decidindo que o acordo foi assinado entre Chefes de Estado ou de Governo dos Estados-Membros da UE e o Primeiro Ministro da Turquia, o tribunal afirma-se, então, sem competência para julgar o caso. Assume, dessa forma, que todos os Estados-Membros duma instituição da UE podem adoptar medidas que são competência da UE sem se submeterem a uma lei da UE. Isto é ainda mais visível se se tiver em conta que os Estados-Membros estavam a a agir sobre uma matéria que já estava coberta por medidas da UE, tais como o acordo entre a UE e a Turquia sobre readmissão de pessoas que residem sem autorização, de Dezembro de 2013. Trata-se, está à vista, dum caminho criativo através do qual a UE, para esconder o vazio do seu conceito de dignidade humana, foge às suas próprias leis e aos seus próprios mecanismos de controlo (por exemplo este tipo de «acordos informais» não têm de passar pelo escrutínio do Parlamento Europeu).

    Directiva das Deportações reloaded

    Há quase dez anos, a UE publicava uma das leis fundamentais para a regulamentação das migrações irregulares de cidadãos de fora do espaço europeu. A chamada Directiva de Regressos (Returns Directive), demonstrava, de facto, que o foco estava em evitar a presença de migrantes, tidos como seres indesejáveis e problemáticos. Os seus critérios eram, nas palavras de muitas organizações ligadas à questão, demasiado penalizadores para quem procura uma vida nova em território que considera menos hostil do que o seu.

    No entanto, mantinha alguns limites ao uso da lei criminal geral para deter migrantes, estabelecia um direito limitado a julgamento e, em alguns casos extremos, fornecia uma base para «impedir» a deportação e assegurar direitos básicos de saúde.

    Essas pequenas cedências, chamemos-lhes assim, estão agora em causa. A Comissão Europeia, que em 2014 pedia aos Estados-Membros para aplicar a Directiva de forma generosa, decidiu, em 2017, pedir-lhes que a aplicassem tão estritamente quanto possível. É o que se pode inferir do plano de acção «sobre uma política de regressos mais eficiente na União Europeia», da recomendação «sobre tornar os regressos mais eficientes» e do “Manual de Instruções para Regressos” (Return Handbook) que deveria ser utilizado pelas autoridades competentes dos Estados-Membros quando desempenhassem tarefas relacionadas com os regressos (a palavra simpática com que a UE rebaptizou as deportações).

    Ainda assim, parece haver limites. As tais pequenas cedências são ainda um entrave demasiado grande ao caminho de fortalecimento de fronteiras que tem sido desenhado nos anos mais recentes. Nesse sentido, no passado dia 12 de Setembro, no mesmo dia em que propunha aumentar novamente os poderes da Frontex, a Comissão Europeia lançava uma proposta de alteração da Directiva.

    A primeira alteração é a definição de «risco de fuga». Uma definição que se traduz numa lista não exaustiva («pelo menos») de 16 factores, um dos quais uma redundante «entrada ilegal» que, na prática, alarga esta definição a todos os migrantes irregulares. Pretende justificar a detenção e dificultar a possibilidade de regresso voluntário. O que fará aumentar o número de pessoas que, mais do que deportadas, ficam impedidas (banidas) de entrar de novo em solo da UE. O regresso voluntário, condição para uma pessoa não ser «banida», é verdadeiramente ameaçado nesta proposta. Por um lado, os Estados-Membros já não necessitarão de dar um mínimo de sete dias para o migrante partir. Por outro, nos três casos em que os Estados-Membros podem «optar» por recusar a um migrante o direito de partir voluntariamente (risco de fuga, candidatura manifestamente fraudulenta a uma estadia legal e risco para a política, a segurança e a saúde públicas), passarão a ter a «obrigação» de recusar esse direito.

    De forma a facilitar que os Estados de origem aceitem os seus cidadãos de volta de forma mais rápida (e há vários Estados que insistem muito em documentação), haverá uma nova obrigação de confirmar a identidade dos migrantes indocumentados e de obter os documentos em falta. Uma nova cláusula informa que os requerentes de asilo cujo pedido tenha sido recusado têm apenas uma instância de recurso. E têm apenas cinco dias para o fazer.

    No que diz respeito à detenção de migrantes, haverá três critérios em vez dos actuais dois. De qualquer forma, esta lista passará a ser não exaustiva – a palavra «apenas» é apagada. O primeiro critério manter-se-á o risco de fuga, mas será, como vimos, redefinido. O segundo, impedir ou dificultar as preparações do processo de deportação, já foi anteriormente definido de forma muito ampla e manterá a sua formulação. O terceiro e novo critério será para quando um migrante «representa um perigo para a política e a segurança públicas ou a segurança nacional», uma formulação que abre a porta a interpretações várias por parte dos juízes do Tribunal Europeu de Justiça.

    Trata-se duma proposta inteiramente preocupada com a facilitação das expulsões de migrantes irregulares, para a sua detenção e para os banir definitivamente, de forma a que não voltem. E, apesar de não mexer directamente nos limites colocados aos Estados-Membros para o uso da lei criminal geral para deter migrantes, esta proposta abre a porta para que fosse mais simples contornar esses limites de forma indirecta, ao dar poderes suplementares para a detenção de migrantes no contexto de leis administrativas.

  • O povo é solidário na defesa do estuário

    O povo é solidário na defesa do estuário

    Uma assembleia popular em Setúbal, no passado 15 de Dezembro, denuncia os riscos de dragar um rio e aumentar a atividade industrial numa zona de reservas naturais, afirmando a luta dos Setubalenses para impedir este projeto.

    sado

    Sábado, 15 de Dezembro, salão da União Setubalense. Cerca de 150 pessoas reúnem-se numa assembleia popular em Setúbal para debater os projetos económicos ligados ao rio Sado – as dragagens e a expansão do porto industrial, da responsabilidade da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), uma sociedade anónima de capitais públicos. Em causa estão grandes intervenções ambientais em zonas de estuário e reservas naturais, como a remoção de 6 337 646 m3 de areias do fundo do rio para permitir a passagem de grandes embarcações de carga – até 13 metros de calado -, rumo a um porto que se pretende que triplique o seu tamanho. Este projeto parece ser, também, uma rampa para a concretização de outros, como o Blueatlantic, da empresa SAPEC. Segundo a informação disponível no site do projeto, pretende-se atrair investidores para a criação de um grande cais marítimo, que “pode ter uma frente até 800 metros e tem capacidade de acostamento de dois navios Panamax. Está localizado no . O porto está sempre abrigado, com águas calmas e nunca fecha.”[ref] Consultar o projeto em https://www.blueatlantic.pt/pt/[/ref] Esta mega construção só será possível graças aos grandes investimentos que se preveem para os portos portugueses, ao aprofundamento da barra e do canal norte do rio que serve o Blueatlantic.

    A população da cidade sadina tem contestado estas medidas de intervenção no rio de várias formas, saindo à rua em largos números, fazendo circular petições, tendo interposto providências cautelares para parar as dragagens e solicitado audiências na Assembleia da República.
    Apesar de os protestos terem diminuído de intensidade no último mês, esta assembleia veio demonstrar não só que a adesão à luta pela preservação do estuário se mantém, mas também que as pessoas de Setúbal, de diversas áreas, estão informadas sobre estes projetos e os seus impactes, partilhando o seu conhecimento na sessão pública, o que resultou em duas horas de debate participado.

    sado

    A mesa da assembleia era composta por cinco pessoas com conhecimentos privilegiados, cujas intervenções sintetizaram aquilo que se sabe e o que tem sido feito, tanto por parte dos movimentos ambientalistas como por parte das autoridades e instituições promotoras destes projetos de suposto desenvolvimento. Sob a moderação do professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Viriato Soromenho-Marques, ficou claro no início que a reunião se propunha a clarificar três importantes pontos: quais os verdadeiros danos e impactes ambientais que o projeto das dragagens implica; saber se o projeto é compatível com outras atividades económicas, como a pesca tradicional e o turismo; saber se o projeto constitui um bom modelo de desenvolvimento sustentável para a cidade. Com uma mesa composta por Sérgio Godinho, Ana Paula Fernandes, Gonçalo Calado e Célia Rodrigues, uma das ideias que prevaleceu é a de que estamos perante um atentado ambiental disfarçado de desenvolvimento, da responsabilidade da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), que tem sido apanhada em contradições e não tem respeitado o próprio Estudo de Impacte Ambiental (EIA) que encomendou à empresa Proman, assim como os devidos períodos de consulta pública. Sérgio Godinho, membro da SOS Sado, um grupo que se formou para travar as dragas, realçou os perigos desta empreitada – ver infografia no final do texto – e apontou a má conduta da APSS, não só como responsável pela desinformação que tem existido, como também mencionando as péssimas condições laborais que os portos têm oferecido aos trabalhadores da estiva. O facto de este porto de Setúbal ser composto por 9 reservas naturais não tem sido tomado em conta, nem pela APSS, nem pela Agência Portuguesa do Ambiente, nem pela comissão que deu um parecer positivo ao projeto. Esta intervenção chamou também a atenção para o facto de as dragagens pretenderem a passagem de enormes navios junto às arribas da costa da cidade durante 13 km, implicando também dragagens contínuas de manutenção, executadas anualmente. Estima-se que sejam remexidos 100 000 m3 de areias por ano para manter a profundidade do canal. O movimento SOS Sado interpôs em Outubro uma providência cautelar contra o projeto, perante declarações à imprensa de Lídia Sequeira, administradora da APSS, que apontava o início das obras para 1 de Outubro. O Tribunal respondeu mais tarde à providência cautelar, dizendo que não podia mandar parar uma obra que só tinha a sua data de início marcada para dia 8 de Janeiro. No entanto, todos os Setubalenses sabem que ficará para sempre por explicar o que fazia então um enorme barco de dragagem no rio Sado nos primeiros dias de Outubro…

    Segundo o depoimento de alguns manifestantes presentes no protesto de dia 13 de Outubro, não só foi avistado o barco, como as declaraçōes oficiais mencionavam o dia 1 de Outubro para início das obras, sem consulta publica à população. Vários jornais noticiaram esta data, aliás, mas o Tribunal de Almada declarou que, oficialmente, a obra só está prevista para Janeiro.

    O caso continua nos tribunais, havendo um processo também contra os locais de deposição dos dragados. Este chama-se TUPEM – Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo Nacional e esteve em consulta pública. Depois de muitas contestações, principalmente pelas associações de pesca, não foi aprovado, visto o local proposto para depositar as areias dragadas ser um importante banco de pesca. Agora há já outro pedido de TUPEM, em período de consulta pública [ref] https://www.dgrm.mm.gov.pt/web/guest/consulta-pblica[/ref].

    sado

    As Professoras Sandra Caeiro (cuja intervenção foi feita por vídeo) e Ana Paula Fernandes, da Universidade Aberta, deixaram o seu depoimento sobre as conclusões de um estudo científico multidisciplinar sobre sedimentos e a contaminação do rio, alertando para a existência de sedimentos contaminados (com metais pesados, pesticidas e outros compostos orgânicos) em certas zonas do rio, nomeadamente em locais onde se pretendem fazer dragagens. O estudo em que as académicas participaram sobre os sedimentos aponta para grandes riscos de contaminação nos peixes e de danos em células humanas quando em contacto com tais sedimentos. Tal como já acontece com a população da Carrasqueira, o contacto prolongado com certas areias acarreta sérios riscos para a saúde, o que exige estudos e cuidados redobrados quando se pensa na movimentação desses sedimentos. Estão comprovados casos de doenças renais, pulmonares, neurológicas e doenças de pele.

    Célia Rodrigues, produtora de ostras, falou da relação tradicional com o rio, da fauna como bioindicadora dos níveis de contaminação que o rio já revela, referindo a urgência em travar a contaminação, não podendo haver situações que criem mais riscos para o ecossistema do estuário. A aquacultora mencionou também a questão da não inserção do estuário da Rede Natura 2000. Após um estudo encabeçado por Catarina Eira, o estuário e a costa de Setúbal foram indicados para integrar essa rede mas isso não chegou a estar disponível para consulta pública e acabou por «ficar na gaveta» [ref] https://observador.pt/2018/10/12/governo-trava-proposta-para-proteger-golfinhos-do-estuario-do-sado/[/ref].
    Nesta intervenção, e noutras mais adiante, questionaram-se os muito falados, mas nada claros, benefícios económicos para Setúbal que esta expansão do porto traz. Fala-se da existência de um Estudo de Impacte Económico, realizado pela EGIS, mas este não é público.
    Gonçalo Calado, biólogo, convidou à reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para estas reservas naturais, questionando a existência de uma atividade económica que vai impedir todas as outras de subsistirem.
    Talvez o aspeto mais revoltante e insólito, referido inúmeras vezes ao longo deste processo de luta, seja a falta de informação e os obscurantismos que cercam estes projetos. Mesmo para quem se procure informar, não é claro quando começará a obra e se os prazos legais estão a ser respeitados.
    Os membros de organizações ambientais e movimentos de cidadãos setubalenses dizem que não é coincidência a APSS só ter feito uma sessão de esclarecimento à população após a entrada da providência cautelar, e aquilo que fica na memória sobre essa mesma sessão, que aconteceu a 6 de Novembro, são as frases «isso não se sabe», «não temos informação sobre isso», «desconhecemos esses factos» ou «confiem em nós».

    Quando aparecem páginas inteiras de jornais nacionais com publicidade paga pela APSS, ou seja, com fundos públicos, a promover esta obra de expansão do porto, os números relativos a postos de trabalho que daí advirão são falsos – os anúncios que promovem a obra mencionam a criação de milhares de empregos, mas os documentos oficiais falam em dezenas, ou centenas se contarmos com trabalho indireto. Sobre os negócios já em vista que possam justificar as frases publicitárias que a APSS faz sobre o projeto, não se encontra qualquer informação. Que navios e empresas são essas que justificam estes investimentos de milhões de euros? Ainda sobre falsas informações prestadas pelas autoridades em tais anúncios de jornal, até a quantidade de areias a serem dragadas não corresponde àquela apresentada nos documentos oficiais.

    sado

    Uma das outras figuras criticadas tem sido a da Ministra do Mar e surgiram, nesta assembleia, preocupações sobre os poderes políticos instalados, havendo mesmo denúncias quanto ao seu envolvimento indireto em negócios ligados ao aumento da profundidade do rio. A ministra Ana Paula Vitorino é sócia de Lídia Sequeira numa empresa de consultoria, segundo noticiou a RTP em 21 de Setembro de 2018, facto que põe em causa a sua própria nomeação como administradora da APSS. Operestiva, empresas turcas, Mota-Engil, entre outros, foram nomes mencionados como sendo os principais beneficiários desta obra. Foi dito claramente que «o mar não pode servir para negócios duvidosos e pouco claros». «As reservas do estuário e da serra valem muito mais do que os interesses económicos atuais. Temos de questionar que desenvolvimento é esse que os governantes querem, que até nós queremos, que só tem destruído a Natureza». Como não podia deixar de ser, falou-se também sobre a comunidade de golfinhos, a ser seriamente afetada pelo ruído aquático das dragagens e cujo alimento ficará em risco com a remoção de tal quantidade de areias. Naturalmente, a passagem intensiva de grandes navios de carga será muito nociva para a fauna do rio.

    Aquilo que tem estado presente nos discursos contra esta obra tem sido a consciência de que esta decisão é, antes de mais, uma decisão política, que se enquadra numa visão mercantilista da Natureza, pretendendo lucrar com o património natural da humanidade para proveito de umas poucas empresas, para isso infligindo danos que jamais poderão ser reparados.

    Uma outra intervenção veio recordar a importância dos movimentos ambientalistas e de tudo o que já foi conseguido no passado. Numa alusão à memória que Setúbal tem, recordou-se a criação da Reserva Natural do Estuário do Sado em 1980, que não foi resultado de uma iniciativa estatal. Ela surgiu como uma vitória da vontade regional, após 3 anos de uma persistente campanha desencadeada em 1978 por 6 jovens setubalenses, enquadrados na Liga para a Proteção da Natureza. Recordaram-se outras lutas ambientais, como o movimento contra a co-incineração na Serra da Arrábida e outros momentos históricos em que más decisões políticas deixaram a população passar fome, como aconteceu nos anos 80.

    Ainda que tendo sido a primeira assembleia aberta, resultou já desta tarde uma conclusão aprovada, que será devidamente feita pública – os cidadãos reclamam a suspensão imediata da obra.

     

    infografia

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