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  • Zapatistas: profissionais da esperança

    Zapatistas: profissionais da esperança

    No dia 29 de dezembro de 2023, partimos de San Cristóbal de las Casas, em Chiapas, em direção a leste onde, após 5 horas, segundo as instruções zapatistas, nos encontraríamos no Caracol VIII «Resistência e Rebelião: Um Novo Horizonte», local da grande celebração do 40º aniversário da fundação do EZLN e do 30º aniversário do levantamento armado de 1 de janeiro de 1994.

    Éramos três mulheres a viajar num percurso que se cruza com aldeias paramilitares e rapidamente nos deparámos com situações preocupantes: as estradas eram sinuosas, o nevoeiro era espesso, não havia sinal de telemóvel que nos permitisse informar onde estávamos e o que tornava o ambiente mais tenso era o aparecimento de adultos e crianças com armas e postos de controlo de homens com machetes, bloqueando a estrada com troncos de árvores. Só quando vimos a primeira placa do Território Autónomo Zapatista guardada por milicianos encapuçados com uniformes do EZLN é que respirámos de alívio. A noite estava a cair e, não tivessem lá estado, ter-se-ia tornado bastante perigosa. À chegada, fomos escoltados por quatro zapatistas em motas até outro Caracol, onde passaríamos a noite.

    Na manhã seguinte, de volta ao Caracol VIII, local do evento principal, o que vimos retratava claramente a utopia de um mundo em resistência e rebelião. À entrada, cinco ambulâncias do sistema de saúde autónomo aguardavam qualquer emergência e centenas de milicianos zapatistas encarregavam-se da segurança do evento. Os «tercios compas» (a equipa dos meios de comunicação livres zapatistas) documentavam a agitação da celebração e os caldeirões fumegantes de café, feijão e sopa de legumes, e as suas tortilhas artesanais davam as boas-vindas aos convidados. Destacava-se a figura de um chefe zapatista que coordenava maravilhosamente a cozinha como se fosse uma sinfonia. Éramos mais de 10.000 pessoas, entre estrangeiros, mexicanos e zapatistas.

    No levantamento armado de 1 de janeiro de 1994, os zapatistas recuperaram grandes extensões de terra das fazendas onde os povos indígenas sofriam exploração, fome, violência e morte, terras que a Igreja e os crioulos lhes tinham tirado durante o período colonial. É quase implausível que o Caracol VIII, onde fomos recebidos para a grande celebração do aniversário, e onde no dia a dia se constrói um sistema zapatista de governo autónomo, fosse, há apenas 30 anos, antes da revolta, a quinta de um latifundiário. Milhares de hectares onde os indígenas locais viviam e morriam como escravos, onde as crianças trabalhavam do nascer ao pôr do sol e onde a vida dos que hoje são zapatistas não valia nada. Esta foi a grande conquista do zapatismo: trazer dignidade e vida onde antes havia humilhação e morte.

    Agora as comunidades zapatistas não estão organizadas em núcleos de governo centralizado, agora a base é quem manda diretamente.

    Uma nova estrutura de autonomia zapatista: os bens comuns

    Para construir este complexo sistema de autogoverno, os zapatistas estão constantemente a fazer autocrítica, porque, como eles dizem, «não há um manual». A sua visão vai para além do futuro que todos nós já conhecemos. Como diria o Sup (agora Capitão Insurgente Marcos): «eles insistem em subverter até mesmo o tempo e erguer de novo, como se fosse uma bandeira, outro calendário». Nos mais recentes vinte comunicados publicados (enlacezapatista.ezln.org.mx), o EZLN declarou, após uma longa consulta a todos os povos zapatistas, que foi decidido alterar a estrutura de autogoverno que tinham até agora. Com efeito imediato, as Juntas de Buen Gobierno (JBG) e os Municípios Autónomos Rebeldes Zapatistas (MAREZ) fecham e a pirâmide inverte-se. Agora, as Bases de Apoio Zapatistas estão organizadas em GAL (Governos Autónomos Locais) e estes passam a ser o núcleo de toda a autonomia. Ou seja, agora as comunidades zapatistas não estão organizadas em núcleos de governo centralizado (JBG), agora a base é quem manda diretamente. É relevante pensar que, se antes havia doze núcleos de governos autónomos (JBG), agora há milhares de GAL zapatistas num gigantesco exercício de participação política de base.

    Outra das mudanças mais importantes é uma nova proposta que aponta para os bens comuns em toda a estrutura zapatista. Neste sentido, parte do território recuperado passa a ser de todos e de ninguém, ou seja, já não é apenas para uso exclusivo dos e das zapatistas, mas, por acordo, é terra de uso comum para quem quiser ir trabalhar nela. Também os seus sistemas de saúde, agroecologia e educação deixarão de estar apenas ao serviço das zapatistas e passarão a estar abertos a toda a comunidade que habita a zona, seja ela zapatista ou não.

    Estas mudanças assinalam uma clara expansão do sistema de autonomia e foram uma parte central da celebração. Através de várias peças de teatro representadas por centenas de jovens e crianças zapatistas foram explicadas em maior profundidade. O que está a ser re-planeado hoje, semeando as sementes do comum, destina-se às crianças do futuro. Nas palavras do Subcomandante Moisés, «nós (os zapatistas) temos de lutar para que esta criança, que vai nascer daqui a 120 anos, seja livre e seja o que quiser ser». A semente da autonomia que é plantada hoje é plantada para colher a liberdade na sétima geração que se segue.

    No seu longo percurso, o zapatismo manteve sempre a congruência entre o seu discurso, a sua ideologia e as suas ações. Mesmo quando o discurso tende para o realismo mágico, com histórias de homens e mulheres de milho, escaravelhos filósofos, baleias mapuches a nadar na selva e canoas a atravessar oceanos inteiros, as suas palavras, surpreendentemente, encontram sempre uma forma de se materializarem. Os zapatistas dizem que é preciso dar nome às coisas para que elas se tornem reais, e por isso dão nome a tudo o que vão construir. Nomeiam os seus territórios, as suas estruturas de autonomia, nomeiam os seus amigos e sobretudo os seus inimigos, nomeiam o passado e os seus antepassados, e nomeiam também o futuro que vão forjar. Nomear é um compromisso, é uma responsabilidade de que algo nasceu e implicará muito trabalho coletivo. Os Caracóis, os seus centros organizativos, por exemplo, têm cada um deles um nome dado pelo coração do povo. O Caracol Morelia chama-se «Turbilhão das nossas palavras», enquanto o Caracol Oventic se chama «Resistência e Rebelião para a Humanidade». Estes nomes, escolhidos em assembleias comunitárias, expressam em cada palavra a força da sua comunalidade e é através da sua construção do comum que as Zapatistas se afastam do paradigma hegemónico da governação sem coração, sem metáfora, sem esperança.

     


    Texto de  Lupita Valdez Castilla
    Fotografia [em destaque] de  Abril Rodríguez Cuevas

    @caravana.zapatista @slumilcinko


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #40, Janeiro|Março 2024.

  • Acendemos uma pequena Luz

    Acendemos uma pequena Luz

    chiapas

    Mais de 7000 mulheres encontraram-se de 8 a 10 de Março de 2018 nas montanhas de Chiapas. Este foi o primeiro encontro internacional convocado pelas zapatistas, no qual participaram mais de 2000 mulheres Zapatistas e 5000 mulheres de mais de 28 países.

    A 7 de março de 2018, a três horas de San Cristobal de las Casas, o Caracol de Morelia abre as suas portas para os milhares de mulheres que chegam em autocarros de todo o país. Em cima do portão, vigiado por mulheres do Exército Zapatista de Libertação Nacional (ELZN), está pendurada uma enorme faixa com a frase «Bem-vindas, mulheres do mundo» e em baixo outra faixa com a frase «proibido homens». Foi decidido colectivamente entre as zapatistas que os homens não podem entrar porque é importante haver encontros só entre mulheres, não para ser separatista, mas para criar uma oportunidade de conviver num espaço onde se organizem e se confrontem problemas que afetam unicamente as mulheres neste mundo patriarcal. «Pensamos que só assim, entre mulheres, podemos falar e ouvir, olhar, festejar sem o olhar dos homens, não importa se são homens bons ou homens maus». Este encontro foi organizado por assembleias constituídas unicamente por mulheres. Porque, como dizem elas, «Não é trabalho dos homens nem do sistema dar-nos a liberdade. Pelo contrário, o trabalho do sistema capitalista patriarcal é manter-nos dominadas. Se queremos ser livres, temos de conquistar a liberdade nós mesmas, como mulheres que somos». O objectivo do encontro foi partilhar a experiência de lutas contra os «maus governos que, não só nos utilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam como seres humanos, mas também que nos reutilizam, nos reprimem, nos roubam e nos desprezam por sermos mulheres».

    chiapas

    Durante três dias, mais de 7000 mulheres discutiram sobre saúde, educação, lesbianismo, racismo, etc., mas sobretudo falou-se da violência de género e da violência de estado. Desenvolveram-se mais de 180 workshops e debates, jogou-se futebol e basquetebol, viram-se obras de teatro, falou-se e pintou-se em conjunto. O encontro foi aberto pelas mulheres zapatistas com a apresentação dos 5 caracoles (centros administrativos do território e comunidades zapatistas) e da história de como, em cada um, começou a organização entre mulheres. A Insurgente Erika iniciou o discurso sublinhando que elas, mesmo não tendo os estudos e talvez não tendo lido tantos livros como as mulheres da cidade, têm tanta raiva e tanta coragem como todas as que sofrem chingaderas, porque vivem o desprezo, a humilhação, as burlas, a violência, os golpes e as mortes por serem mulheres, por serem indígenas, por serem pobres e agora também por serem zapatistas. E esta exploração e esta violência não são feitas unicamente por homens, senão também por mulheres que dela participam.

    Neste encontro, elas não querem julgar nem ser julgadas, nem pediram que lutem por elas, assim como elas não lutaram pelas outras. Afirmaram que existem muitas diferenças entre as lutas em várias partes do mundo, mas que uma coisa é certa: este «pincho sistema» capitalista existe em toda a parte. E que todas devem lutar contra um sistema que faz crer e pensar que as mulheres valem menos.

    chiapas

    No México vivem 15 milhões de indígenas que hoje em dia sofrem discriminação, enfrentam a pobreza, o difícil acesso à saúde pública, a falta de alimentos e o ensino institucional, que as educa a abandonar por completo o seu território, a sua cultura e a sua identidade. Um território estatal em que já 7,8% está em mãos de empresas mineiras ou de empresas dedicadas à exploração de terras. Muitas vezes estas terras pertencem a comunidades indígenas que acabam por ser expropriadas. Também em outras zonas de interesse turístico, as terras comunitárias (terras sem proprietário para uso das comunidades) são vendidas pelos municípios e pelos governos corruptos a investidores estrangeiros. A própria população indígena é afastada dos olhares dos turistas. Este encontro de mulheres abriu a possibilidade de organização e partilha de táticas de luta entre as diferentes comunidades indígenas e outras partes do mundo.

    Muitos debates focaram-se na auto-organização e em como recuperar velhos conhecimentos de maneira a afrontar um sistema neoliberal. Deu-se grande importância e voz às mães em luta cujos filhos e filhas foram assassinadas ou estão desaparecidas por causa de um estado que actua baseando-se na opressão, na criminalização, na violência e na morte.

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    Mais de 10000 mulheres foram mortas nos últimos 5 anos no México, mas menos de 20% destes casos foram classificados como feminicídios. A maior parte dos crimes ficam por resolver, provavelmente, porque não é do interesse do estado. O feminicídio define-se como um acto de violência extrema contra as mulheres, que entra dentro de um conceito mais vasto que é a violência de género.

    «O feminicídio não é exclusivamente um acto homicida, mas estende-se também a um contexto mais complexo, que inclui a trama social e política que o encobre e que fornece os mecanismos para que este permaneça impune» (Julia Monarrez, 2009). Uma sociedade patriarcal que, através de estruturas, propaganda, rituais, tradições e ações quotidianas que reproduzem a dominação constante sobre as mulheres, faz com que aumente a violência de género, que serve ao próprio sistema para se manter em pé. O feminicídio é um crime de ódio: matar uma mulher pelo facto de ser mulher. Esta violência extrema estendeu-se a todo o país. Quase 7 mulheres são assassinadas por dia no México. O feminicídio segundo a lei: «Comete o delito de feminicídio quem, por razões de género, prive uma mulher da sua vida»; mas só 11 dos 32 estados da federação juntaram outras 7 razões pelas quais se define o feminicídio. Aliás, ainda há estados que aplicam «crime passional» em vez de feminicídio, em que a agressão é considerada como sendo feita sob um estado de «emoção violenta». Muitos feminicídios são cometidos por maridos ciumentos ou familiares e frequentemente são escondidos como suicídios. Esta impunidade está estreitamente ligada ao violento e corrupto governo Mexicano. As famílias que pedem justiça e o conhecimento da verdade encontram muitas vezes razões para desconfiarem das autoridades. No encontro, as familiares que lutam sustentam que nas zonas mais tensas, onde a taxa de feminicídios e de desaparecimentos é alta, como por exemplo na Ciudad Juárez, estes crimes estão relacionados com os grandes projetos governamentais ou estrangeiros de exploração de terras, como as indústrias mineiras ou as petrolíferas. É uma estratégia para aterrorizar a população em zonas economicamente débeis, para militarizá-las e posteriormente desalojá-las. Assim como o número de feminicídios, também o número de desaparecidas é altíssimo, igualmente encoberto pelo governo Mexicano. Entre elas, muitas ativistas e estudantes que são brutalmente assassinadas pela polícia federal, nacional ou pelos próprios militares. Estavam também presentes no encontro as mães dos 43 estudantes desaparecidos em Aotzinpa em 2014. Sabendo perfeitamente quem cometeu estes crimes, o governo quer encerrar as investigações e ainda ameaça as famílias que não se calam enquanto não se souber a verdade. Todas elas, juntamente com outras famílias de outros países, como por exemplo as «madres de mayo» da Argentina, prometeram encontrar-se no próximo ano.

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    Em todos os debates e workshops estavam presentes pelo menos 10 zapatistas de maneira a levar os conteúdos às suas comunidades. O encontro em si estava muito bem organizado e não faltou nada, desde a comida até às casas de banho. Ao redor do caracol estava o ELZN, para vigiar a zona. Infelizmente, aconteceu uma companheira curda, algumas argentinas e também algumas gregas terem sido impedidas de entrar no México, pelas autoridades mexicanas no aeroporto, por irem participar no encontro.

    “Foi um encontro muito especial, carregado de emoções
    Com uma energia única de 7000 mulheres que LUTAM”.

    chiapas

    No primeiro dia, as mulheres zapatistas surpreenderam-nos brutalmente. Cada uma com uma vela na mão, 2000 mulheres em fila, deslumbraram-nos com estas palavras:

    Acendemos uma pequena luz.
    Leva-a, irmã e companheira
    Leva-a quando te sentes triste,
    quando tens medo,
    quando sentes que é muito dura a luta e a vida.
    Leva-a no teu coração,
    nos teus pensamentos,
    no teu interior,
    e não fiques com ela, irmã e companheira,
    mas Leva-a às desaparecidas
    Leva-a às assassinadas
    às prisioneiras
    às violadas
    às culpadas
    às abusadas
    Leva-a a todas as violadas de diferentes modos
    Leva-a às imigrantes
    às exploradas
    Leva-a aos mortos
    Leva-a e diz-lhes a todos e todas que não estão sozinhas,
    que lutarás por elas
    que lutarás pela verdade e pela justiça
    e que vale a pena a sua dor
    que lutarás tão forte que a sua dor não se repetirá em nenhuma outra mulher.
    Leva-a e transforma-a em raiva em coragem e em decisão
    Leva-a e une-a com outras luzes
    Leva-a
    E se continua nos teus pensamentos que não haverá nem justiça, nem liberdade
    no sistema capitalista patriarcal
    então voltaremos a encontrar-nos para incendiar o sistema
    e talvez te juntes a nós
    Cuidado que ninguém apague este fogo
    até que não fique nada mais que cinza.

    Texto e fotografias de Mimic

  • Comunicado da Brigada Internacional de Solidariedade com CODEDI

    Comunicado da Brigada Internacional de Solidariedade com CODEDI


    COMUNICADO DA BRIGADA INTERNACIONAL DE SOLIDARIEDADE COM CODEDI
    Centro de Capacitação CODEDI, FINCA ALEMANIA
    Santa Maria Huatulco, Oaxaca, México
    15 de Março de 2018

    Nos dias 14 e 15 de Março do presente ano uma brigada internacional de solidariedade composta por pessoas da Suíça, Portugal, México, Itália, Espanha, Colômbia, Brasil, Bélgica, Áustria e Argentina deslocou-se ao centro de capacitação FINCA ALEMANIA do “Comitê pela defesa dos direitos indígenas” CODEDI  devido às violentas agressões sofridas que aí tiveram lugar no passado dia 12 de Fevereiro onde foram cobardemente assassinados 3 integrantes da organização.

    No dia 12 de Fevereiro um grupo de Sicários a bordo duma Chevrolet verde, abalroou uma carrinha onde viajavam 5 integrantes de CODEDI, metralhando-a com armas de assalto. Neste atentado foram assassinados Alexandro Diaz Cruz de 42 anos, Ignacio Basilio Ventura Martinez de 17 anos e Luis Angel Martinez de 18 anos, atingidos por balas de AR-15, uma arma de uso exclusivo das forças armadas. Sobreviveram ao ataque Emma Martinez, integrante de CODEDI, e Abraham Ramirez Vázquez, coordenador geral da organização. Ainda que já tenham sido iniciadas as investigações por parte do ministério público do Estado de Oaxaca, após 5 semanas ainda não houve qualquer resultado. O Governo de Alejandro Murat (actual governador de Oaxaca) ainda não se pronunciou em relação à agressão, o que leva o CODEDI e muitas outras organizações, a acusar o governo estatal de cumplicidade e omissão. Naquele dia os companheiros tinham-se deslocado a uma reunião com funcionários do Governo Estatal de forma a discutir o conflito pós-eleitoral no município de Santiago de Xanica. Ao sair desta reunião, no caminho de regresso á sua comunidade, foram alvo duma emboscada.

    Enquanto integrantes desta brigada conhecemos o projecto autónomo que se está a levantar neste centro de capacitação, ouvimos o testemunho dos sobreviventes e a análise do contexto actual por parte dos integrantes dos diversos comités da organização.

    O CODEDI é uma organização para a defesa do território e pela construção da sua autonomia. Esta organização tem raiz num pequeno colectivo de teatro que promovia a organização social das comunidades com o objectivo de transformar as suas condições de vida. A organização CODEDI passou por diferentes etapas durante o seu longo trajecto pela defesa dos direitos dos indígenas. Na primeira etapa entre 1997 e 1998 os problemas com o partido oficial deram origem à criação do primeiro município livre em Santiago de Xanica, partindo duma lei a que se deu o nome de “Usos e Costumes ” ( lei de Oaxaca que permite os povos indígenas eleger as suas próprias autoridades sem intervenção de partidos políticos). Em 2005 a organização foi alvo de um processo de criminalização e a repressão violenta que se abateu sobre ela levou à detenção de Abraham Ramirez Vásquez, Juventino e Noel Garcia Cruz assim como à invasão da aldeia por parte da polícia, que resultou numa morte e vários feridos. Após ser conseguida a libertação dos companheiros presos, 6 anos e 3 meses após os acontecimentos, fortaleceu-se o processo organizativo, o que em 2013 levou à ocupação de mais de 300 hectares de terra para a criação de um centro de capacitação na FINCA ALEMANIA. Durante esta terceira etapa integraram-se no CODEDI quase mais 2 mil famílias, o que hoje em dia implica a presença da organização em 48 comunidades das regiões Sierra Sur, Istmo, Valles Centrales e da Costa do Estado de Oaxaca.
    O Centro de capacitação FINCA ALEMANIA é um espaço onde os sonhos de autonomia das comunidades encontraram a sua expressão práctica com a construcção de 18 oficinas de produção e formação: carpintaria, costura, agro-ecologia, mecânica, medicina natural, zootecnia, soldadura, uma fábrica de tijolos e telhas, padaria, apicultura, música, teatro, entre outras.

    Actualmente estão estabelecidos 4 níveis de educação autónoma (pré escolar, primária, secundária e bacharelato) cujos programas educativos estão ligados às necessidades concretas das comunidades da região e à construção e fomentação do pensamento crítico. Todo este processo foi possível graças ao trabalho colectivo feito em turnos (TEQUIO)* em que participam pessoas das 48 comunidades, representadas no comité geral pelos comités locais. A vida interna da FINCA ALEMANIA organiza-se através da coordenação entre o comité de jovens, o comité de capacitadores, o comité geral e a comissão politica, todos eles presentes no diálogo com a assembleia geral, o principal orgão de decisão de CODEDI.

    Desde a sua fundação o CODEDI tem vindo a ser constantemente ameaçado por diversos grupos de poder. Ainda que nunca tenha participado directamente em eleições estatais, o CODEDI denunciou continuamente as fraudes contra o “Usos e Costumes”. Em vias de um conflito pós-eleitoral no município de Santiago de Xanica, a facção local interessada em impor-se como autoridade junto ao Governo Estatal ameaçou de morte vários integrantes da organização.

    Por outro lado, a implementação do complexo turístico Bahias de Hucatulco implicou a expropriação de milhares de hectares de praias e selva, assim como das várias nascentes de água das comunidades, desviadas para uso e consumo dos grandes hotéis. O CODEDI dedicou-se, entre outras coisas, a fortalecer a organização e a luta dos habitantes de San Miguel del Puerto na exigência da restituição do território e pela indeminização relativa à expropriação de 22 mil hectares ocorrida em 1984. Durante as manifestações organizadas em Huatulco e na capital de Oaxaca para exigir justiça pela expropriação destas terras, os hoteleiros da região iniciaram uma acção de linchamento mediático contra Abraham Ramirez Vazquez e o CODEDI, usando, entre outros meios, faixas colocadas em pontes pedonais. Ao mesmo tempo o CODEDI resistiu ao intubamento de nascentes que estão a ser privatizadas para abastecer a zona hoteleira, propondo simultaneamente soluções alternativas para atender às necessidades de água nas colónias populares (bairros sociais ) de Santa Maria Huatulco.

    Outra ameaça latente à defesa do território foi o aparecimento durante este último ano de grupos Lenhadores ligados ao crime organizado e, de acordo com testemunhos da organização, com ligação a várias autoridades governamentais. A exportação para o Japão e China de uma madeira preciosa, de uma árvore conhecida como Granadilho( Platymiscium yucatanum Standl), usada para acabamentos finos de carros de luxo, provocou uma devastação de bosques na Sierra Sur. Perante a incursão, muitas vezes armada, dos Lenhadores em território da organização, a resposta de CODEDI tem sido de defesa e a manutenção dos bosques e selvas dos lugares onde existe a organização comunitária. Mesmo assim, a segurança dos integrantes do CODEDI e dos habitantes da região que se opõem à devastação dos bosques está sob alto risco.

    A tudo isto junta-se o facto de 7,8% do território estatal estar concessionado a empresas mineiras. Só dentro da área de influência do CODEDI existem pelo menos 9 concessões mineiras e 5 projectos hidroeléctricos. Se consideramos o convénio histórico entre a indústria mineira , o governo e os paramilitares , é evidente que estes projectos expropriativos implicam ameaças violentas permanentes à organização comunitária.

    Neste contexto o CODEDI encontra-se a realizar manifestações constantes, ocupando espaços públicos durante largos períodos de tempo, em busca de difusão e construção de alianças como é por exemplo o conselho de organização Oaxaquenha Autónomo (COOA), com a exigência de justiça para com os companheiros assassinados, fazendo frente ao que definem como terrorismo de estado. Ao mesmo tempo que continuam a construção e fortalecimento do processo de autonomia no centro de capacitação FINCA ALEMANIA, o CODEDI mantem firme o seu trabalho cultural com a realização do 2º encontro nacional de teatro popular e comunitário, com mais de 40 intervenções artísticas de diferentes partes do México e do mundo.

    Desde a brigada internacional de solidariedade com CODEDI, expomos a nossa mais profunda preocupação pelas ameaças documentadas e que ainda persistem. Ameaças que põem em risco a integridade e segurança dos e das defensoras comunitárias, do projecto autonómico do centro de capacitação FINCA ALEMANIA e o território de povos indígenas na Sierra Sur, Costa, Istmo e Valles centrales de Oaxaca.

    A partir do que acabamos de descrever convidamos à construcção duma campanha continua de solidariedade #CODEDIvive para exigir:

    1.Justiça para os companheiros assassinados dia 12 de Fevereiro, um marco de um massacre constante contra o povo mexicano que conta mais de 200 mil mortes violentas nos últimos 12 anos.

    2.Respeito pela autonomia dos povos indígenas que inclui o cancelamento de todos os projectos extorsionistas que ameaçam a vida e território indígena.

    Convidamos à cooredenação para realizar eventos, exposições, manifestações, vídeos e qualquer outra acção que visibilize estas exigências , cada qual nos seus tempos e modos, e assim reafirmar que a solidariedade é a ternura dos povos .

    #CODEDIvive