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  • Ervas vagabundas

    Ervas vagabundas

    Durante os meses de confinamento, e com a redução das manutenções dos espaços exteriores (passeios, caldeiras de árvores e relvados de rotundas), as «ervas-daninhas» reocuparam um território há muito perdido e proporcionaram uma explosão de cor nas ruas das cidades. A maioria são espécies da flora local, irrefletidamente diabolizadas no gesto domesticador do homem que, numa redoma, tudo higieniza à sua volta.

    Mas o que são as ervas-daninhas?

    Esta expressão é usada geralmente para referir as plantas que nascem de forma espontânea nos passeios, nos muros e telhados, assim como no meio de culturas agrícolas e jardins. Ou seja, são plantas que surgem em lugares indesejados e baralham os nossos planos de controlar e ordenar o mundo. Este é um conceito totalmente antropocêntrico. Um preconceito que, como tantos outros, tardamos em questionar, como o lobo-mau eternizado em histórias infantis, onde o mau surge desde logo como cognome do lobo, ou a diabolização das plantas carnívoras em filmes de terror e ficção cientifica, como paralelismo de monstros que nos vão destruir.

    A consciencialização da sua existência e o consequente respeito por essas plantas silvestres, nas calçadas, nas bermas das estradas ou nos parques de estacionamento, é um passo fundamental para as pessoas mudarem a sua atitude perante o território que habitam. E, por outro lado, uma oportunidade para as observar, conhecer e desfrutar do seu encanto no dia-a-dia de cada um. Quando um prado é eliminado para dar lugar a um parque de estacionamento de serventia a uma superfície comercial, a vegetação vai tentar recuperar a sua perda e as espécies mais resilientes aproveitam as oportunidades que lhes restam para viver.

    São plantas com algumas características comuns, embora não formem um grupo específico, botanicamente falando. Uma planta pode num local ser vista como «ornamental» e noutro como uma «daninha»: é tudo uma questão de contexto. Algumas dessas características são a sua grande adaptabilidade, o crescimento rápido e um eficiente modo de dispersão. Pertencem a variadíssimas famílias botânicas e podem ir de pequenas herbáceas a grandes árvores (apesar de não serem verdadeiras ervas). De um modo geral são plantas pioneiras, de crescimento rápido e pouco exigentes no que toca ao solo e, como tal, com grande capacidade de colonizar uma variedade grande de habitats.

    Na verdade, esta categorização artificial apenas surgiu quando começámos a tentar domesticar o território.

    Estas ervas terão começado a ser notadas nos primórdios da agricultura, quando os humanos começaram a alterar o meio onde habitavam para seu benefício directo. Algumas plantas começaram a ser consideradas indesejadas por atrapalharem o crescimento e a recolha de outras que privilegiávamos para a alimentação ou outros usos. Com o aumento da mobilidade das populações humanas, as plantas espalharam-se e procuraram adaptar-se ao mundo artificializado, que não tem parado de crescer. Com o desenvolvimento da agricultura em larga escala, no nosso território desde o tempo dos romanos até aos de hoje, foram desenvolvidas várias técnicas para reduzir o número das ervas indesejadas. Diga-se, nem sempre com grande sucesso, pois algumas têm-nos perseguido desde tempos imemoriais e assombrado as nossas estimadas culturas.

    Temos de reaprender a fazer parte da natureza

    Mas foi sobretudo nas cidades, das ruas em terra batida e mais tarde pavimentadas, que estas ervas rapidamente começaram a ser vistas como plantas rebeldes que tinham de ser combatidas. E, tomadas como rebeldes, em igual medida ainda hoje são vistas como sinal de desmazelo, de falta de manutenção, de sujidade. As metáforas que invocam reflectem um conceito proveniente de uma estrita visão utilitária e meramente produtivista que, não trazendo os benefícios imediatos, as rejeita e persegue com o intuito da sua eliminação. Uma perspetiva que se alarga e que vemos empregue em diferentes contextos, como quando se fala da limpeza das florestas, numa tentativa de controlar a natureza, como se dela não fizéssemos parte e dela não dependêssemos. Como em todo e qualquer ecossistema, a interdependência entre espécies é fundamental, mesmo que tal não nos pareça obvio na observação menos atenta ao que nos rodeia. Uma árvore tombada no solo de uma floresta, ou no descampado de uma cidade, é um mundo dentro do seu mundo, onde proliferam seres de compositores que enriquecem o solo e dinamizam toda uma comunidade de seres vivos que dependem uns dos outros.

    Nesse processo contranatura, continuamos a separar-nos da natureza desde que deixámos a vida de recolectores, e assim continuamos a fomentar a criação de ilhas de natureza para compensar as nossas ilhas artificiais. Temos de reaprender a fazer parte da natureza e a integrar-nos no ecossistema partilhado com todos os seres vivos, e não continuar a persistir em criar um «nosso», isolado e esterilizado.

    Dente de Leão

    Entre as ervas

    No entanto, estas plantas têm conseguido resistir e têm nos acompanhado ao longo dos tempos. Nós somos na verdade os seus parceiros ecológicos, mesmo que de forma inconsciente. Elas adoram o que nós fazemos aos solos (desflorestações, escavações, agricultura, eutrofização de solos), elas exploram os nossos campos agrícolas, ruas, parques e jardins, redes de transportes…

    Podemos afirmar que formamos uma relação simbiótica com muitas delas. E que já usufruímos da sua proximidade como recurso de alimentos, medicamentos, matérias-primas variadas. Algumas das plantas que podemos observar nos pavimentos das nossas cidades são comestíveis, como a beldroega (Portulaca oleracea), a chicória (Cichoriumintybus) e a tanchagem (Plantago major); outras, medicinais, tais como a erva-de-São-Roberto (Geraniumrobertianum) ou o umbigo-de-vénus (Umbilicus rupestres); e muitas outras, imprescindíveis para um ecossistema mais saudável. Destacamos a sua importância para a sobrevivência de abelhas, abelhões e borboletas, que são fundamentais à nossa sobrevivência: transportam o pólen entre flores, possibilitando a reprodução de plantas e a formação de frutos e sementes (cerca de 80% das plantas cultivadas dependem destes agentes polinizadores).Para não cair no erro utilitarista de que acima falava, ressalvo o perigo de agrupar as plantas por temas – ervas-medicinais, ervas-aromáticas, etc. – pois todas valem por si, contribuem umas para as outras e dependem umas das outras.

    Felizmente as plantas são resilientes e nem toda a gente as tem como pragas. Alguns registos apontam para alguns dos usos que se davam, e ainda dão, a algumas destas rebeldes. Exemplo da erva-das-verrugas (Chelidonium majus), a quem também chamam «erva-betadine» pela coloração alaranjada da sua seiva, que queima as verrugas. Outros estudiosos retrataram-nas como curiosidades botânicas, como o botânico Joseph Vallot, que em 1884 elaborou um inventário das espécies espontâneas nos pavimentos de Paris (Catalogue Des Plantes Qui Croissent Spontanément Dans Les Rues Et Sur Les Quais, reed. 2016, Hachette Bnf) ou, mais recente, o escritor de natureza Richard Mabey, que em 2010 editou um livro dedicado em exclusivo a estas plantas(Weeds: How Vagabond Plants Gatecrashed Civilisation and Changed the Way We Think About Nature, Profile Books).

    São plantas que surgem em lugares indesejados e baralham os nossos planos de controlar e ordenar o mundo

    Muito se tem investido no combate às ervas-vagabundas (e vagabundas de outras espécies), usando estigmas perpetuados de geração em geração. Os métodos de combate, que começaram por mondas manuais, passaram a recorrer à indústria química, como o infelizmente famoso «agente laranja», usado na guerra do Vietname, com resultados catastróficos na vegetação local e nas pessoas. Caminho aberto para mais tarde surgir o não menos famoso glifosato, pesticida carcinogénico que, combinado com outras invenções da Monsanto, como as culturas geneticamente modificadas a ele resistentes, com vista a obterem-se áreas cada vez maiores de monoculturas, onde os insectos e as «daninhas» não têm lugar, tal qual nas frenéticas limpezas das nossas ruas.

    Sem surpresa, a primatóloga Jane Goodall veio recentemente, no jornal The Guardian, acusar a sobre-exploração do mundo natural e seus recursos, reflectida nas florestas dizimadas, na extinção de espécies e destruição de habitats naturais, como causas da situação da pandemia actual. Alerta por todos sobejamente conhecido, mas sem que nos tenha inibido de eliminar tudo o que de natural vai surgindo nas nossas cidades, jardins ou hortas. Nos passeios junto à nossa porta.

    A nova estratégia para a biodiversidade da União Europeia 2030, publicada por ocasião do Dia Internacional da Biodiversidade, conforme referia o site Wilder.pt ,elegeu o lema «Trazer a natureza de volta às nossas vidas», em conjunto com um novo plano para a agricultura baptizado «Do Prado ao Prato».Mais um rol de boas intenções. A presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen surge a afirmar que «tornar a natureza novamente saudável é a chave para o nosso bem-estar físico e mental e um aliado na luta contra as alterações climáticas e surtos de doenças», pretendendo que se apliquem 20.000 milhões de euros por ano, até 2030, nesta área. Acrescentando que «estamos a perder natureza como nunca, devido a actividades humanas insustentáveis». Das palavras aos factos: por um lado, a população mundial de espécies selvagens caiu cerca de 60% nos últimos 40 anos; por outro, hoje há um milhão de espécies ameaçadas de extinção. E, assim, parecendo que se está a investir na melhoria da natureza, apenas se está a dinamizar outro tipo de negócios dos quais, mais uma vez, quem sai a ganhar, pelo menos a curto prazo, são as grandes corporações da alimentação, da química, das energias. Em boa medida, investem-se recursos para salvar a «orquídea selvagem» sem nunca pretender travar a destruição dos habitats naturais frente à eterna expansão da actividade humana. Esta escala está por isso, não menorizada, mas inscrita na nossa relação com as ervas…

    Ervas e outros preconceitos

    Ervas há muitas e, ideias feitas, muitas mais. Quando não vamos à raiz dos problemas e nos ficamos à flor da sua pele, criamos mais problemas do que os que pretendemos resolver.

    Vejamos as ervas-biológicas a invadir os nossos supermercados: um sinal de que a indústria já está a cuidar de preencher este nicho económico. A bandeira do verde, eco, bio está a ocupar o lugar da reflexão e da troca de experiências para podermos verdadeiramente conviver da melhor forma. Por vezes, não precisamos de investimentos para ajudar, mas sim de abrandarmos as nossas pretensões de produzir em maior quantidade e mais rápido. Mas, sim, de aprender a conviver com os outros, incluindo os outros animais e plantas.

    Neste período pandémico «parámos para observar» os pequenos detalhes da natureza envolvente, assim como inúmeros exemplos desta revitalização de plantas e animais a aproveitarem a pausa das actividades humanas: os andorinhões a regressarem da sua migração e a depararem-se com o ar mais limpo e maior quantidade de insectos, como resultado da maior disponibilidade de flores; a proliferação de ninhos de aves em arbustos e sebes dos jardins, em resultado deste abrandamento humano.

    Há um milhão de espécies ameaçadas de extinção

    Uma pequena história real contada por um amigo exemplifica bem o que nos move: «“Terra onde não cresce erva não é terra!”, diz-me um vizinho ao olhar para a sua horta, mas para logo constatar que era apenas uma desculpa para aliviar a culpa que sentia pelo seu desleixo. No outro dia passo por ele, que nem me vê de tão atento que estava a pulverizar a terra com a sua bendita cura. Passado outro dia, todo orgulhoso diz-me: “agora é uma horta”». O que nos move, enfim é legítimo: uma horta é alimento. Mas uma horta, uma rua, um terreno e um mundo não são um mero exclusivo do homem, mas sim Terra onde cresce a erva.

    Neste mundo e nesta terra, plantas vagabundas são plantas nómadas, que vagueiam por diferentes mundos, sem planos de dominar nenhum deles. Surgem em zonas abandonadas ou alteradas, aproveitando as ausências humanas para viverem e deixarem viver, contribuindo para o enriquecimento de um ecossistema degradado pela artificialização do habitat humano. Devíamos agradecer a estas e outras vagabundas como verdadeiras fontes de conhecimento e sabedoria, e com elas tornarmo-nos mais saudáveis (e não à natureza, que não precisa da nossa ajuda para isso). Elas fazem parte do sistema imunitário da natureza, são a base para recuperar o equilíbrio dos ecossistemas. É, por isso, extraordinário este triunfo luxuriante, a capacidade regenerativa destas plantas, guerrilheiras vegetais que se apoderam do fracasso da era industrial, que tem promovido um mundo menos diversificado e mais previsível, e por isso menos resiliente.

     


    Ilustraçōes de Faia


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

  • Aldeia do Vale: Viver a vida, mudando o mundo

    Aldeia do Vale: Viver a vida, mudando o mundo

    Em plena região saloia, na fronteira entre os concelhos de Sintra e Mafra, renasce a Aldeia do Vale. O Projecto Agroecológico ali instalado há cerca de dois anos, alberga um punhado de gente com ganas de mudar o mundo, simplesmente a viver a vida. Falámos com a Sílvia Floresta, pioneira da permacultura no país, sobre esta eco-aldeia dedicada ao estudo de formas de vida mais íntegras, simples e sustentáveis.

     

    coruja

    Devolver ao campo a vivacidade

    «A vida é o que te acontece enquanto estás ocupad@ a fazer outros planos», lê-se numa tela pendurada no andar térreo que já foi o quarto das vacas na vida anterior desta Aldeia do Vale. Noutros tempos, a «loja» – abrigo das ruminantes, cujo leite seria uma das principais fontes de sustento da aldeia – servia também para aquecer a casinha de cima, que é agora um espaço de habitação comum. Vê-se por ali incenso, mantas, pilhas de livros e paletes que servem de estrado para o descanso campestre. Um rolo caça-moscas adesivo, carregado de insectos silenciados, balanceia no fresco do espaço ao ritmo lento das horas quentes da manhã, enquanto lá fora, ainda à sombra, fardos de palha dispostos em círculo rodeiam vestígios de uma fogueira central.

    Apesar do Sol forte, o luar reflecte nos olhos enormes de uma coruja pintada na parede exterior da oficina de carpintaria. Também brilha o olhar do Orlando Pereira, um dos mentores do Projecto Agroecológico Aldeia do Vale, quando nos abre a porta do casebre recentemente recuperado e equipado com ferramentas para os trabalhos de regeneração rural.

    «Este lugar estava semi-abandonado quando aqui chegámos», conta-nos a Sílvia Floresta, que juntamente com o seu companheiro, em Dezembro de 2015, encontrou ali «um lugar triste», marcado pelo vazio de um longo tempo de dormência, mas ainda assim a pulsar potência para acolher uma nova vida. «Apaixonámo-nos pelas paisagens do oeste, pelas pessoas, pela cultura, e falámos com os proprietários que nos alugaram espaços para podermos começar a desenvolver o projecto.»

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    Hoje a aldeia conta com cinco residentes permanentes (um terço dos habitantes de outrora), mas por ali já terão passado mais de 1000 pessoas nos últimos dois anos, entre voluntários, formandos e formadores em temas e práticas da permacultura.
    O centro de estudos entrou em funcionamento em Maio de 2016, e desde então tem dinamizado dezenas de cursos sobre aquilo que a Sílvia resume como «design sustentável para ambientes humanos» – em termos latos, permacultura.

    Energias «apropriadas», horticultura, agroflorestas, construções naturais, e tantos outros conhecimentos, desde a transformação e preservação de alimentos à preparação de detergentes naturais, que têm uma aplicação prática no dia-a-dia das pessoas envolvidas na Aldeia do Vale – «cada uma com a sua área de trabalho», o que lhes permite melhorar e erigir novas infraestruturas, mas também oferecer formação especializada em áreas diversas. Resgatar os saberes e ofícios tradicionais da região é também um objectivo do projecto, através de oficinas como a de costura de aventais de colheita ou a de calçado usando técnicas ancestrais.

    «Tu és um bosque de alimento, eu sou uma agrofloresta»

    Entre espaços alugados, cedidos e comprados, o projecto Aldeia do Vale estende-se por uma área de cerca de 2,5 hectares, e está em expansão. «Faz hoje uma semana que nos foram cedidos mais terrenos», conta-nos a Sílvia enquanto enumera as zonas que compõem a moldura do projecto: hortas, viveiro, estufa, zonas de campismo, dome para aulas, sala comum, espaço social…
    Passa uma galinha lampeira que parece querer mostrar o caminho que vai até ao socalco da horta. Passamos por uma banheira completa instalada entre paredes de adobe, com um sistema de aquecimento das águas a lenha e uma janela «com vistas para o mar» – verde, indomável, silvestre.

    pes-no-barro

    Subimos mais três degraus de terra, por entre canas e bananeiras, e a Sílvia aponta para lá para baixo, perto de onde a vinha cresce. Diz que estão a planear por ali «um misto de agrofloresta com bosque de alimento». A conversa prossegue até à estufa, não sem antes passar pelas extravagantes camas de cultivo que congregam uma balbúrdia de flores, couves, saladas, cucurbitáceas, aromáticas, selvagens, cobertura de palha e apontamentos de pequenos charcos.

    «Imagina que nós as duas somos pintoras, e tu és uma pintora freestyle… tu pegas numa tela e pintas aquilo que te apetece. E eu sou uma pintora mais metódica: pinto uma natureza morta, janelas, estendais, tudo certinho. Tu és um bosque de alimento, eu sou uma agrofloresta.»Da alegoria sublima-se a vontade de experimentar a aplicação de técnicas mistas que permitam optimizar o potencial produtivo das áreas, tanto horizontal como verticalmente, contribuir para a regeneração dos solos e para o resgate de variedades autóctones, e também promover a geração de uma economia local. E a Sílvia continua, com o seu jeito natural de pedagoga: «um bosque de alimento imita uma floresta natural, com trilhos, vários estratos e espécies maioritariamente perenes… Olhas à volta e parece uma floresta normal, só que tem mais de 80% de espécies comestíveis. Uma agrofloresta é pensada para produção. Usa linhas de nível, tem padrões de cultivo que se repetem, e diferentes estratos também, mas mistura espécies perenes (como árvores de fruto) com hortícolas sazonais. A agrofloresta é um tipo de produção pensada para a venda, para criar uma economia, enquanto que o bosque de alimento é pensado para o consumo da casa, para o projecto.»

    estufa

    Noutros tempos, o lugar sobrevivia do leite de vaca e cereais para pão, produzidos localmente e vendidos nas aldeias próximas. Hoje, «o projecto depende de nós para funcionar a nível financeiro». Têm garantido a sua resiliência através das acções de formação, serviços externos de design em permacultura, e também da venda de produtos de produção própria e de outros produtores associados, expostos na lojinha à entrada da aldeia (sabões e detergentes ecológicos, produtos de cosmética natural, licores, desidratados, colares, brincos, sapatos…).

    Apesar de ainda não ser totalmente auto-sustentável, o objectivo é que a Aldeia do Vale o venha a ser, principalmente em termos energéticos, no que toca a água e a electricidade. «Para muitos dos outros recursos [que precisamos], podemos sempre envolver a comunidade vizinha, gerando uma economia local.» No processo de repovoamento, apontam as boas relações com a vizinhança e os proprietários como chave: «gostam do projecto e conseguem rever-se em imensas coisas que fazemos (…) a comunidade local apoia-nos imenso com recursos e amizade.»

    «A beleza está nos olhos de quem observa»

    O que à primeira vista parece apenas ser um pequeno núcleo familiar a viver a sua vida, numa aldeia em processo de regeneração lenta, onde não deixa de persistir uma certa estética de estaleiro de obras em curso, revelar-se-á, afinal, a promessa de um desígnio maior: tão-só querer mudar o mundo.
    «Queremos mudar as pessoas e a maneira como olham para a vida, mostrar que é possível viver de acordo com aquilo em que acreditamos, independentemente da área que estudamos ou trabalhamos.» Falamos do primeiro de 12 princípios da permacultura, «observar e interagir», e também do último, que se preocupa com a capacidade de resposta às mudanças – ou da visão de como as coisas serão no futuro. «O nosso objectivo é não só espalhar as sementes daquilo em que acreditamos, como construirmos um local de exemplo de todas essas técnicas que usamos para podermos ter uma vida mais sustentável.»

    dome

    Recolhemos à sombra de uma figueira majestosa. Tentamos definir o que é viver em harmonia. Lá ao fundo, o Orlando regressa do ribeiro com o seu jeco, que parece que tem capacidades sobrenaturais de comunicação não-verbal com os animais que vão para o pasto. Da janela onde alguém cozinha, ouve-se passar a ♪coruja, caçadora de sonhos♫ dos companheiros do Vale, Terra Livre. Chegou a hora de nos lambuzarmos com as diferentes receitas de pesto que estiveram a experimentar.

    O Projecto Agroecológico da Aldeia do Vale integra o núcleo ambiental da Associação Cultural Circuito Explosivo. A Aldeia aceita voluntários entre Março e Outubro, «desde que tenham frequentado e concluído com sucesso um curso certificado de design em permacultura», condição que pretende garantir que quem aparece com vontade de viver e trabalhar já tem os conhecimentos básicos necessários para agir, mas também um bom pretexto para espoletar uma rede informal, invisível, de pessoas ligadas à permacultura e à agroecologia que por ali passam vindas de vários pontos do país.

    Mais info:
    https://www.aldeiadovale.com/
    https://www.facebook.com/aldeiadovaleagroecologia/

    Texto e fotos de Sara Moreira [saritamoreira@gmail.com]