A livraria-café Mirabolante abriu em Odemira a 30 de novembro de 2024, num território onde escasseiam as livrarias. Talvez por ser óbvio que se tratava de uma necessidade premente, os sócios Sílvia Laureano Costa, Bruno Rodrigues e António Falcão conseguiram um apoio financeiro da Câmara Municipal para conseguirem abrir este espaço no concelho. A Mirabolante integra a Rede de Livrarias Independentes (ReLI), uma associação de apoio mútuo composta por livrarias portuguesas sem ligação a redes e cadeias dos grandes grupos editoriais e livreiros. É um dos pontos de distribuição do Jornal MAPA e tem como lema: ler é resistir.
Podes dizer, a quem não conhece o espaço, o que encontra quando entra na livraria? António Falcão: A livraria não tem um estilo que seja restrito. Somos uma livraria generalista, temos boa literatura, temos livros em português, mas também noutras de línguas. Depois, temos um bocadinho do que se encontra aqui na terra, também de artesanato. Temos uma parede onde dispomos os artistas locais. Temos um café onde servimos comida saudável: temos café biológico, temos bolinhos feitos por especialistas da região. A nossa oferta é nesse campo. Somos ambientalistas e gostamos de boa literatura e procuramos dar o que é bom às pessoas que nos visitam. Tem muita gente aqui, há muitas nacionalidades em Odemira. Odemira é uma região super heterogénea em termos de comunidades diversas. E encontra-se toda a gente aqui. É incrível como às vezes elas se juntam sem saberem que se vão encontrar. E há muitos encontros especiais ali na livraria. É muito bom e especial presenciar isso. Acho que é um sítio que faltava aqui. Nós próprios gostávamos de ter um sítio, de viver num sítio onde exista um espaço como este. E no fundo a intenção não foi propriamente fazer um negócio lucrativo, mas antes dar algo às pessoas e ter essa faculdade aqui em Odemira.
Pois, é um ponto de encontro! E tem programação ou acolhem programação? AF: Desde o princípio procuramos criar eventos ligados à literatura. Também temos a vertente juvenil e infantil. Temos um espaço dedicado às crianças na nossa livraria. E esse é um ponto onde as pessoas se iniciam na leitura. O nosso lema é: ler é resistir. Tu com a leitura consegues atingir muita coisa. É muito importante as pessoas darem os primeiros passos ali. E tem corrido muito bem. Tudo parte da nossa vontade de criar e dar alguma coisa às pessoas aqui de Odemira. Trazer escritores, estamos sempre a tentar trazer mais, lançar livros e fazer eventos. Ligar tudo um bocado com música e fazer trinta por uma linha. É isso que nós queremos fazer. Agora no nosso aniversário, para além das apresentações e dos lançamentos de livros e de trazer escritores, vamos lançar a nossa cerveja Mirabolante. Vai ser uma cerveja artesanal. E vamos também criar um clube de leitura. Vai chamar-se “Aldeia Mirabolante”. Queremos que as pessoas façam parte da Aldeia Mirabolante para terem mais acesso à leitura e aos livros.
Como é que surgiu a possibilidade de terem o jornal MAPA à venda, de serem um ponto de distribuição? AF: Sempre gostei do MAPA, já era leitor antes de abrir a livraria. O MAPA é um jornal de informação crítica. Queremos dar essa informação às pessoas, que elas possam vir e ter esse conhecimento aqui. O jornal MAPA deve estar em todo o país. E damos os parabéns pela sua criação e consolidação também. É muito difícil fazer bom jornalismo atualmente em Portugal, e o MAPA é uma coisa incrível!
Obrigada pelas palavras! E qual é o horário de abertura da livraria? AF: Nós estamos abertos desde as 9h da manhã às 7h da tarde. Nos sábados também abrimos entre as 10h e as 19h.
Queres acrescentar mais alguma coisa? AF: O nome Mirabolante já existia dos meus sócios, eles já tinham feito esse processo de escolha. E essa coisa de Mira e de ter a relação com Odemira e com o Rio Mira não foi propositado. Foi apenas uma coincidência.
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Entrevista publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]
Centenas de pessoas ocuparam as ruas de Lisboa por justiça, no passado sábado, 20 de Junho. O ponto de partida foi o Largo São Domingos, passando pelo Rossio e Praça da Figueira, com término no Campo das Cebolas.
A convocatória foi realizada pelo movimento Vida Justa, que nos comunicaram que:
«Odair Moniz foi morto a tiro por um agente da PSP, Bruno Pinto, a 21 de Outubro de 2024. O crime do Odair foi não ter respeitado uma regra de trânsito. O polícia que o matou garantiu ao tribunal que só disparou, quase à queima roupa, duas balas que o mataram, porque Odair tinha uma faca.
O Tribunal de Sintra concluiu que não havia faca nenhuma na posse do homem morto, mas não aceitou processar os polícias que tinham aparentemente plantado no lugar do crime a arma branca. A inversão de papéis que transforma vítimas de racismo e violência policial em culpados é um fenómeno sistémico e comum.
Apesar de Odair não pôr em perigo a vida dos dois polícias, o Tribunal de Sintra concluiu, no dia 15 de Junho, que houve “legítima defesa” na acção do agente da PSP, que apenas foi sancionado porque houve “excesso de meios”.
A lista de absurdos no julgamento evidencia que a Justiça não escapa ao racismo estrutural. Não é a primeira vez que a justiça está inclinada e acha que a violência policial mortal é um excesso, que é um pequeno exagero compreensível.
Para os tribunais, os jovens e os trabalhadores dos bairros podem ser tratados como se não fossem humanos e, quando são abatidos, há sempre uma razão ponderada para isso.»
A decisão do estado de ceder um dos principais monumentos do bairro da Graça, em Lisboa, para o grupo Sana fazer um hotel de luxo despertou a resistência da vizinhança. Há dois anos que a Assembleia da Graça se reúne em coletividades do bairro e, a 29 de março passado, juntaram-se centenas de pessoas e diversos coletivos da cidade em frente ao antigo convento, para uma «ManiFESTA», por «menos turismo, mais comunidade».
Na tradição popular Lisboa é chamada a cidade das sete colinas. Hoje em dia, na área metropolitana, existem muitas mais; no entanto, uma das mais conhecidas e amadas foi sempre a colina da Graça, famosa pelos seus lindos miradouros onde se pode admirar o pôr-do-sol sobre a cidade.
No topo desta colina ergue-se o maior e mais importante monumento da zona, o Convento da Graça. Construído pela primeira vez no século XIII, foi reconstruido no século XVI e novamente depois do terramoto de 1755. Após a extinção das ordens religiosas masculinas, em 1834, as estruturas conventuais foram ocupadas pelo Exército e, mais tarde, pela GNR. É por esta razão que, no bairro, o edifício é conhecido como o «Quartel da Graça».
Em 2016, o primeiro executivo de António Costa divulgou uma lista de 30 monumentos que seriam abrangidos pelo Revive, programa lançado para recuperar e valorizar o património histórico através do turismo, com a concessão destes imóveis a privados que ficariam responsáveis por explorar hotéis ou restaurantes. O Quartel da Graça foi um dos monumentos incluídos nesta lista.
Foi neste contexto que, em 2019, o Estado celebrou um contrato de concessão de exploração do quartel da Graça com o grupo Sana Hotels, por 50 anos, com o objetivo de o transformar, no espaço de 4 anos, num hotel de 5 estrelas.
Entretanto, o projeto sofreu várias alterações e a sua aprovação só aconteceu em 2024, numa reunião privada do executivo da CML de Lisboa, após empate entre votos a favor e votos contra (votos contra: três dos Cidadãos Por Lisboa, dois do PCP, um do BE e um do Livre; votos a favor: liderança PSD/CDS-PP que governava sem maioria absoluta e três abstenções do PS).
Desde o início da concessão, em 2019, o edifício foi completamente deixado ao abandono e à degradação. Em outubro de 2023, um grupo de ativistas pelo direito à habitação decidiu apropriar-se do quartel, na noite de Halloween. Foi nessa noite de festa que muitas pessoas se aperceberam do grande desperdício que era deixar um edifício público daquelas dimensões a um grupo privado, que iria excluir completamente a população.
Passado um ano, no outono de 2024, o coletivo Stop Despejos decidiu alertar as pessoas do bairro e lançar uma campanha contra a construção de um hotel de luxo numa cidade já estrangulada pelo turismo: «O bairro da Graça já há muitos anos está a sofrer os efeitos do turismo. Muitas pessoas e lojas foram despejadas e o bairro transformou-se num parque de diversões para turistas. Nós, que ficamos, perdemos, um a um, todos os espaços da vida comunitária e os serviços de que precisamos, substituídos por serviços para turistas: fecharam as frutarias e mercearias do bairro, ficámos sem piscina e sem transportes públicos (já lá vai o tempo em que se podia apanhar o 28!), sofremos o barulho das obras constantes, quase não temos pastelarias a preços normais, não podemos andar pela Travessa do Monte invadida pelas barulhentas esplanadas, o trânsito está um caos com tantos tuk-tuks e ubers e só pode piorar com um mega-hotel! A construção do novo hotel de luxo, no centro geográfico do bairro e no lugar do seu maior prédio iria dar o golpe final ao nosso bairro».
No mesmo comunicado, a Stop Despejos convida a população a refletir sobre o uso do quartel como «espaço co-construído e utilizado pela comunidade em função das suas necessidades presentes e desejos futuros, sem o apoio ou autorização da CML ou da Junta de Freguesia», alegando que «seria uma compensação mínima por termos perdido grande parte do nosso bairro».
Crianças destroem um hotel pinhata para defender o quartel como um espaço comunitário, a 29 de março.
Nessa altura foram colados vários cartazes nas ruas a anunciar a primeira assembleia de bairro em novembro de 2024, na Graça, numa sala da Caixa Económica Operária. Foi uma assembleia muito participada, em que apareceram mais de 100 pessoas e onde se refletiu sobre como parar as obras no quartel e sobre o que a população gostaria de ter em lugar de um hotel. Em simultâneo, realizou-se também uma assembleia de crianças em que os mais pequenos expressaram os seus desejos, pintando uma grande planta do quartel.
Desde então, a «Assembleia da Graça – Parar o Hotel no Quartel» reúne-se pelo menos uma vez por mês em espaços cedidos pelas coletividades do bairro. Trata-se de uma assembleia apartidária que se desenvolve de forma horizontal (há sempre uma pessoa que modera e outra que toma notas, rotativamente) e em que todas as pessoas são bem vindas.
O manifesto explica em pormenor os propósitos da Assembleia da Graça, mas, antes de tudo, o seu objetivo principal: «Temos como objetivo comum Parar o Hotel no Quartel e reivindicar o espaço para uso, gestão e fruição comunitária». «Somos a favor de destinar toda esta área a usos mistos, ao serviço das necessidades reais da população do bairro e da cidade: fins habitacionais, educativos, culturais, artísticos, serviços de assistência e infraestruturas ligadas ao bem estar das pessoas e à qualidade de vida urbana».
As iniciativas promovidas neste primeiro ano e meio foram muitas: foi divulgada uma petição que conta com 4 mil assinaturas, foram organizadas várias manifestações e ações de sensibilização, eventos desportivos e populares no bairro, formações sobre bens comuns ou passeios sobre gentrificação. A Assembleia também tem desenvolvido trabalho no campo jurídico, analisando os documentos disponíveis relativos ao contrato de concessão estipulado com o Grupo Sana.
«Temos como objetivo comum Parar o Hotel no Quartel e reivindicar o espaço para uso, gestão e fruição comunitária»
Percebeu-se que várias das cláusulas previstas nesse documento estão agora em incumprimento: o prazo da conclusão das obras não foi respeitado (até dezembro de 2023), e não foi apresentado nenhum plano de manutenção do edifício, que, pelo contrário, continua em estado evidente de degradação. Tudo isto, provavelmente, sem pagar a renda prevista a partir de 2024 (cerca de 1,79 milhões de euros/ano ao Estado), nem as coimas pelo atraso da obra. Entretanto, depois da movimentação e dos eventos organizados pela Assembleia, o grupo Sana pareceu ficar preocupado e acelerou o processo, vedando a obra com um tapume e afixando um cartaz com o alvará (datado de 6 de março de 2026).
A Assembleia da Graça está determinada a continuar a luta, mesmo tendo consciência de que não será fácil pressionar o Estado e a CML a rescindirem o contrato de concessão e a parar a obra, por mais ilegítima que seja. Apesar de ter de enfrentar os interesses de uma empresa gigantesca e extremamente poderosa como o grupo Sana, a Assembleia quer continuar a manifestar-se, a crescer como movimento popular e a mostrar que o bairro da Graça quer resistir ao turismo predador, exigir mais habitação, mais espaços coletivos abertos a todas, e que não quer nem precisa de mais hotéis ou de alojamentos para turistas.
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Texto de Chiara Moneta publicado no Jornal MAPA nr. 49 [Abr. – Jun. 2026] Fotos de Marisa Cardoso
É com espírito de insubmissão que nasce a 1ª Jornada Anarquista de Cinema, organizada pelo Jornal MAPA em parceria com a Casa da Achada. Propomos cinema de resistência sob a lógica «faz tu mesm@» (DIY), livre de barreiras académicas, institucionais ou profissionalizantes.
Queremos tornar visíveis experiências silenciadas, corpos esquecidos, resistências abafadas, aproximar povos, fortalecer redes de apoio mútuo e romper o isolamento que nos querem impor. Queremos lutar por melhores condições de vida ou pela destruição das existentes, e incitar à solidariedade e aos valores humanos e revolucionários que estão em nós.
Propomos assim também cultivar um espaço de encontro, de organização coletiva e de solidariedade entre diferentes pessoas e comunidades em luta, reunidas à volta de filmes, debates e bancas.
+ info em breve em jornalmapa.pt e em redes da resistência!
Há cerca de 2 348 anos, morre em Corinto o homem capaz de viver do ar. O seu nome era Diógenes, e aparentemente, o berço que o viu nascer foi Sinope, antiga cidade portuária construída sobre um istmo no Mar Negro, hoje parte da Turquia. No entanto, Diógenes foi repudiado – ou repudiou ele próprio – deste lugar, para se considerar o primeiro cidadão do mundo. Decidiu, próximo dos 50 anos, viver em Atenas, não por gostar da cidade, mas precisamente por não gostar.
O que sabemos sobre Diógenes não foi escrito por ele, mas por um homónimo: Diógenes Laércio. Este último Diógenes dedicou-se a documentar histórias curiosas da vida dos filósofos, em vez de se centrar nas suas filosofias. Na obra Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, compilou os seus ditos e anedotas: narrativas ou histórias curtas, de factos históricos ou imaginários, que podem ou não provocar o riso. Mais do que aferir a verdade, estas anedotas sobre os filósofos mostram-nos como era percebido o seu caráter pelos demais; no caso de Diógenes, revelam-nos a sua filosofia.
Diógenes é considerado o filósofo cínico por excelência da Grécia Antiga. Foi contemporâneo de Platão, Aristóteles e Alexandre o Grande. Tal como eles, a sua obsessão era a virtude, e a sabedoria para viver bem. Ao contrário deles, a sua filosofia levou-o a viver destituído, debaixo de pontes e dentro de jarrões (pithos), descalço e apenas com uma manta por roupa, a mendigar junto do mercado. Chamavam-lhe «o cão», insulto que adotou para si e que deu o nome à sua forma de vida e filosofia (cínico deriva do grego kynikos, que significa «como um cão»).
Como é que os cínicos se tornaram nos cães da polis ateniense? Comecemos por dizer que eram cães com um revés: «ao contrário dos cães que mordem os inimigos, eu mordo os meus amigos para salvá-los». Para os cínicos, a polis não era uma fonte de virtude, mas um veneno que corrói a alma, afastando o homem da sua verdadeira natureza e da liberdade de decidir como quer viver. «Aristóteles toma o pequeno-almoço quando o rei manda; Diógenes come quando quiser». A submissão necessária para viver na polis era-lhe intolerável, preferindo viver destituído para desta forma assegurar a sua autossuficiência – autarkeia. Ironicamente, mendigava, mas nunca se sentiu vinculado socialmente por esta dependência. Considerava que era a paga pelos seus serviços: conta-se que recusou um convite para jantar porque o anfitrião não se mostrara devidamente grato pela sua presença.
Masturbava-se frequentemente em público, e quando o inquiriam, dizia: «que pena que não se possa matar a fome só a esfregar a barriga!»
Mendigar é uma prática que requer um treino exigente. Por um lado, é essencial viver com pouco. Conta-se que uma vez viu um rapaz a beber água usando as mãos como concha, e imediatamente deitou fora a sua taça, dizendo «não me tinha apercebido que a natureza me tinha dado mãos que servem para este propósito». Por outro, é essencial suportar a rejeição: uma vez viram-no pedir esmola a uma estátua, e quando lhe perguntaram porque o fazia, respondeu: «para me habituar a ser recusado». A sua alimentação consistia em migalhas de pão de trigo e ervas silvestres, mas gostava de bolinhos como toda a gente. A sua autarkeia levava-o a satisfazer as suas necessidades sem outros, inclusive as sexuais. Masturbava-se frequentemente em público, e quando o inquiriam, dizia: «que pena que não se possa matar a fome só a esfregar a barriga!»
Viver como um cão na polis requeria viver sem pudor, imune às críticas e insultos de outros. Um verdadeiro cínico não se rege pelas convenções sociais, e tem de ser capaz de as desafiar. Diógenes era um mestre a criar situações disruptivas no quotidiano: entrava no teatro contra a corrente, e quando lhe perguntavam porquê, respondia que passara a vida toda a fazê-lo; andava para trás na via pública, e quando se riam dele, retorquia que eram eles que deviam envergonhar-se de levar a vida na direção errada. A direção errada era a da vulnerabilidade à riqueza, que levava as pessoas a submeterem-se às que têm a capacidade de lhes conceder ou negar o acesso a prazeres e indulgências. Os cínicos procuravam a independência das próprias necessidades corporais, resistindo às intempéries, ao calor e ao frio, e praticavam de todas as formas possíveis o autodomínio, para que o seu bem-estar não ficasse refém das decisões de outros ou de acontecimentos externos. Esta era a forma de se emanciparem – quem nada tem nada precisa, e conta-se que quando Alexandre o Grande lhe perguntou o que podia fazer por ele, Diógenes respondeu: «chega-te um pouco para o lado, estás a tapar-me o sol».
O seu alvo preferido era Platão, e quando este definiu o ser humano como um bípede sem penas, Diógenes depenou uma galinha e atirou-lha para o auditório dizendo: «eis o homem de Platão!».
Diógenes ridicularizava e escarnecia todos os grupos sociais. Escarrou na cara do anfitrião de uma casa luxuosa que lhe pediu para não cuspir, dizendo que no meio de tanta limpeza não encontrou lugar pior. Frequentava bordéis e insultava as mulheres para suportar os insultos que lhe devolviam com equanimidade. Era assim que afirmava a sua importância: quando lhe perguntaram como ser uma pessoa reputada, respondeu: «tendo desdém pela reputação». Criticava Atenas e preferia Esparta, mas quando lhe perguntaram porque não ia viver para Esparta, respondeu: «porque um médico não vive entre as pessoas saudáveis». Recusou a família e não tinha mulher nem filhos. No entanto, não se afastava da polis, ia com frequência ao teatro, aos jogos e aos auditórios dos filósofos, para desdenhar de todos os virtuosos. Dizia que os artistas e desportistas não competiam entre si pela excelência da alma humana, e declarou-se vitorioso entre os homens, não entre escravos, em frente à multidão dos Jogos Olímpicos. Era um anti-intelectual e desafiava constantemente a retórica, discursos e lógica dos filósofos. O seu alvo preferido era Platão, e quando este definiu o ser humano como um bípede sem penas, Diógenes depenou uma galinha e atirou-lha para o auditório dizendo: «eis o homem de Platão!». Noutra ocasião, pisoteou uma carpete dizendo: «estou a pisar o orgulho vazio de Platão!», ao que este terá respondido: «quanta vaidade mostras, Diógenes, ao exibir que não és vaidoso». Apesar dos esforços para não se mostrar afectado pela crítica social, Aristóteles reconheceu-lhe a necessidade de ser validado pelos filósofos, e quando Diógenes lhe ofereceu figos secos, retrucou: «grande é Diógenes!».
Embora criticasse os costumes da sociedade ateniense, dava como garantida a ordem hierárquica entre homens, mulheres e escravos, e humilhava os homens efeminados. Porém, considerava a desigualdade incompatível com a amizade: «como pode um homem rico ser amigo de um pobre, e o pobre continuar miseravelmente pobre?».
A sua filosofia foi posta à prova quando piratas o venderam como escravo, e teve de suportar duros tratamentos. Conseguiu trazer ânimo aos seus companheiros de infortúnio, e não os deixou cair em desespero. Quando lhes foi negada comida e água, comentou com os esclavagistas: «curioso que os traficantes de porcos ou ovelhas os engordem para venda, e os traficantes de seres humanos os debilitem até que fiquem esqueletos, para serem vendidos por uma canção». A partir desse momento, passaram a ser alimentados. No momento da venda, perguntaram-lhe o que sabia fazer. «Governar homens», respondeu. «Muito bem, vou procurar alguém que queira ser governado», gracejou o leiloador. «Vende-me àquele», solicitou. «Tem cara de quem precisa de mim». Tratava-se de Xeníades de Corinto, que o aceitou como governante da sua casa e dos seus filhos. Os amigos, preocupados, procuraram resgatá-lo da escravatura, mas Diógenes dissuadiu-os de o fazer, dizendo «os leões não são escravos dos que os alimentam; pelo contrário, são os que os alimentam que se tornam escravos dos leões, porque o medo é que define um escravo, e as bestas selvagens causam-lhes temor».
Embora criticasse os costumes da sociedade ateniense, dava como garantida a ordem hierárquica entre homens, mulheres e escravos, e humilhava os homens efeminados.
Diógenes desempenhou um papel brilhante ao serviço de Xeníades, e teve a oportunidade de por em prática a sua pedagogia, advogando um treino simples de bem-estar, sem exagerar nos desportos nem no embelezamento. Diz-se que as crianças o adoravam. Diógenes pediu o respeito que se concede a um trabalhador especializado, médico ou timoneiro, a quem se obedece mesmo quando se solicita os serviços. Esse respeito foi-lhe concedido até ao fim da vida, e numa versão da história, Xeníades perguntou-lhe como queria ser enterrado. «De cara para baixo», respondeu, «porque em pouco tempo o mundo vai ser virado ao contrário». Noutra versão, o velho Diógenes pediu que o entregassem a aves de rapina com um pau para se defender. Mas os seus amigos preferiram a versão de que, um dia, Diógenes decidiu parar de respirar, pondo fim ao seu sustento.
A morte de Diógenes não foi a morte do cinismo, mas durante vários séculos, a não-adesão às convenções sociais perdeu o apelo. Outras filosofias imperaram, como o epicurismo e o estoicismo. Mas os cães da polis voltaram no século I, com a força de um movimento de massa. As multidões destituídas pelo império romano vagueavam sem casa, com capa, cajado e alforje, profetas que buscavam a virtude e a emancipação na miséria e na desgraça, condenando e desprezando o luxo e a hipocrisia dos poderosos. Diógenes conhecia este poder: terá dito a um pobre «vem amigo, fica a meu lado e vê-me a trabalhar». Porém, a ameaça ao império veio na forma do Cristianismo. Há quem veja Jesus como um cínico que alerta a humanidade contra o vício e a ganância, e nos diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Mas Cristo faz um passe de mágica ao duplicar o sistema de valores: um em que há bens reservados unicamente àqueles que vivem as suas palavras, com outros bens acessíveis na próxima vida; e outro onde quase tudo se consegue através de trocas, roubos ou poder, à custa da submissão da virtude. No nosso mundo, a hipocrisia é «a homenagem que o vício presta à virtude»[ref]Frase atribuída ao moralista François VI, duque de La Rochefoucauld, do século XVII.[/ref]; no outro mundo, será feita justiça. É esta a resposta dos cristãos à pergunta de como pode um rico ser amigo de um pobre.
O caminho cínico para as virtudes estabelecido por Diógenes estava aberto a todas as pessoas, até às mulheres, desde que deixassem de ser mulheres para serem filósofas. Esta ideia atraiu uma mulher rica, Hipárquia de Maroneia (c. 350–280 a.C.), a única filósofa que recebeu uma entrada própria nas Vidas e Doutrinas de Diógenes Laércio. Adoptou o modo de vida dos cínicos, mas para os outros filósofos, ela devia estar a tear. Ser mulher era visto como algo apesar de, um papel imposto de que uma pessoa tinha de se emancipar para viver a vida de forma autêntica e livre.
Bastein-Lepage: Diógenes
Quando a igreja se apropriou do movimento cristão, consolidou o monopólio da crítica ao poder. A única forma de falar a verdade sem ter a vida em risco era sendo um tolo, inocente, profético. O cínico era um parasitus – alguém que come ao lado dos outros mas não com eles, que se contenta com as sobras sem se curvar, como um rato se contenta com as migalhas que alcança. Mas nos tempos modernos, o descaramento mudou de lado: o riso deixou de ser a arma dos oprimidos contra os poderosos, e passou a ser usado por todos contra todos, um baile de máscaras necessário para manter o status quo. Peter Sloterdijk[ref]Peter Sloterdijk é um filósofo alemão que escreveu a Crítica da Razão Cínica (Kritik der Vernunft zynischen) em 1983.[/ref] afirma que os cínicos de hoje têm uma falsa consciência esclarecida, que os torna bem-instalados e miseráveis ao mesmo tempo. São pessoas que sabem a verdade mas não a vivem, porque perderam as práticas de Diógenes e agora estão dentro, comprometidos. Vivem divididos, sem reconciliação possível.
O apelo de viver a verdade aumentou novamente no século XXI, quando a hipocrisia social atingiu um novo auge. Mas o discurso sem medo, tal como antes, só pode ser proferido a partir de uma posição de independência radical. A tragédia do cínico moderno é ver que o imperador está nu, e continuar a aplaudir porque as alternativas lhe parecem piores ou impossíveis.
Reclamar as armas de Diógenes requer reclamá-lo da loucura, da síndrome que tem o seu nome[ref]A Síndrome de Diógenes é o nome que se dá a comportamentos de negligência extrema no autocuidado, falta de pudor, desleixo da casa e dos objectos.[/ref]. Requer reclamar o riso, para que deixe de ser sardónico e volte a ser libertador; reclamar o corpo como um lugar de verdade e resistência; não ter vergonha de não jogar o jogo; praticar a sátira; afirmar a vida em toda a sua plenitude e contradições. Os verdadeiros cínicos são os que falam quando seria melhor ficar em silêncio; são os teimosos que mantêm viva a possibilidade de viver diferente. No fim, vamos ver quem ri melhor.
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Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 49 [Abr. – Jun. 2026] Imagem em destaque de Graça Santos
Há 31 anos atrás, neste mesmo dia, o Alcindo foi brutalmente espancado até à morte por um grupo de neo-nazis que o cercou na rua Garret, em Lisboa, pela cor da sua pele, por ser afrodescendente.
Desde então, várias pessoas foram agredidas e assassinadas por racistas informais, formais e institucionais. Odair Moniz, Bruno Candé ou Cláudia Simões são 3 dos casos mais recentes, tendo os dois primeiros sido assassinados a tiro.
Hoje vivemos tempos sombrios, a legitimização do discurso de ódio contra a liberdade individual das pessoas decentes ilumina e releva a escória fascista e racista que estava apagada em muitos dos nossos vizinhos, por ignorância, maldade e narcisismo. «Dividir para conquistar» está a dar certo.
Mas não connosco…
10 de Junho assinala a nossa luta anti-racista diária, em que homenageamos as vítimas e transformamos o luto em luta, e, por isso, estamos nas ruas.