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Lendo: As minhas desculpas às gerações futuras…

As minhas desculpas às gerações futuras…

As minhas desculpas às gerações futuras…


Venho por este meio formalizar o meu sincero e modesto pedido de desculpas dirigido às gerações futuras, pelo mundo caótico que lhes vamos deixar devido à destruição da natureza e às alterações climáticas. Peço desculpas à grande parte da população mundial e às gerações passadas, que sofreram com os efeitos da mundialização e que vivem numa miséria negra, para nós, ocidentais, podermos viver na opulência, consumindo o equivalente de 2,5 planetas. Peço perdão às milhares de espécies animais e vegetais que desaparecem a cada dia que passa, devido à nossa atividade predatória…

Centenas de relatórios científicos de entidades oficiais espalhadas pelo mundo, como o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], a IPBES [Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos], o IGBP [Programa Internacional de Geosfera-Biosfera], universidades… confirmam que a atividade humana está a destruir as próprias condições da vida na Terra. Um dos primeiros relatórios que abordou esta temática foi o do MIT, Instituto Tecnológico de Massachussets (EUA), intitulado, “Limites do crescimento” que já previa as consequências nefastas do nosso modelo de desenvolvimento sobre o planeta… em 1972!

Sabendo isso, o que fazemos nós para contrariar essa evolução mortífera? Pouco ou nada. Anestesiados pela propaganda da sociedade de consumo e pela rotina do dia a dia, preferimos enfiar a cabeça na areia e deixar os decisores (políticos e económicos) decidirem do nosso futuro e do futuro do nosso planeta. Só que, em vez de agirem em prol do interesse do bem comum e com uma visão global, analisando as causas profundas desta crise, os ditos decisores preferem tratar as consequências, fontes de mais oportunidades económicas e de mais lucros potenciais.

Analisemos o problema das alterações climáticas: vários estudos confirmam que, para adaptar o nosso modo de vida à capacidade de carga do planeta, os países ditos ocidentais (os que mais CO2 emitem por habitante) deveriam diminuir em 75% as suas emissões de CO2 até 2030. Em vez disso, o que observamos a nível mundial é um aumento global das emissões. Essa tendência é confirmada pela AIE (Agência Internacional da Energia) que, nas suas projeções, aponta para um aumento substancial do consumo energético mundial em 27% até 2040.

Barroso
Que
soluções propõem os nossos decisores? Substituir as centrais térmicas por painéis solares e eólicas e os carros a combustão por carros elétricos. Mais nada. Admitindo que parte da solução passe efetivamente pelo desenvolvimento das energias renováveis e a eletrificação dos meios de transportes, isso é uma visão muito limitada e parcial do problema sistémico que enfrentamos. Para conseguir essa meta muito ambiciosa, isso implicaria, antes de mais, uma diminuição drástica dos nossos consumos energéticos e de materiais. Os decisores esqueceram-se dum pormenor importante: para produzir esses substitutos e concretizar a transição «verde» que eles pretendem – sem mudar nada no nosso estilo de vida -, ia ser necessário mobilizar quantidades colossais de matérias-primas e de energia. Mais precisamente, seriam necessários:

– 3.800.000 turbinas eólicas de 5 MW
– 49.000 centrais solares de concentração de 300 MW
– 40.000 centrais fotovoltaicas de 300 MW
– 1.700.000.000 sistemas fotovoltaicos de 3 kW no telhado
– 5350 usinas geotérmicas de 100 MW
– 270 novas centrais hidroelétricas de 1.300 MW
– 720.000 dispositivos de ondas de 0,75 MW
– 490.000 turbinas de maré de 1MW.

São estas as potências em energias renováveis necessárias para fornecer a energia mundial para todos os fins, segundo cientistas das universidades de Stanford e da Califórnia (EUA). Devemos também acrescentar os milhões de carros elétricos que nos querem vender a todo o custo para «salvar o planeta»: só na Europa, são esperados em 2030 no mínimo 30 milhões de carros elétricos novos.

Qual seria a consequência da implementação deste programa sem equivalente na história da humanidade? A consequência inevitável seria o desenvolvimento desenfreado da mineração em todo o planeta. Concretamente, teríamos de extrair dos solos mais matérias-primas do que as que já explorámos desde os primórdios da Humanidade! Ambiental e socialmente, isso seria uma barbaridade. Teríamos de sacrificar regiões inteiras, habitats e espécies, assim como a saúde dos seus habitantes. É o que está prestes a acontecer numa das regiões do nosso país com a maior biodiversidade, a minha amada região do Barroso.

Intuitivamente, todos percebemos que há algo de errado no raciocínio: como é possível salvar o planeta… destruindo-o? Substituir simplesmente o extrativismo nocivo das energias fósseis por outro extrativismo extremo para a produção de fontes renováveis e de carros elétricos, sem mudar o nosso way of life, não vai resolver em nada os desafios que enfrentamos. Pelo contrário: um relatório recente redigido em conjunto pelo IPBES e o IPCC afirma isso mesmo: as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade estão intimamente interligadas e só serão solucionadas se forem abordadas de forma conjunta.

Mas então o que podemos fazer? Primeiro, temos de identificar claramente o «culpado» principal disto tudo: o sistema socioeconómico ocidental mundializado, baseado na maximização do lucro a todo o custo e na busca obstinada pelo crescimento. O chamado capitalismo liberal. É esse o grande causador das perturbações ambientais e das injustiças sociais que podemos observar em todo o mundo. Enquanto não atacarmos o cerne do problema, as soluções propostas não passarão de meras medidas provisórias que, em última análise, já sabemos estarem destinadas ao fracasso.

A solução lógica, seria substituir esse sistema e os seus avatares, que são o desenvolvimento sustentável e a ilusória economia verde, por um sistema justo e em equilíbrio com o meio natural. Por isso, além de enfrentarmos um desafio ecológico sem precedentes, também vamos ter que enfrentar um desafio sociopolítico e económico da mesma amplitude. A humanidade é muito criativa e não o será menos a pensar alternativas a este modelo de sociedade destrutor. Algumas já existem, outras ainda estão por imaginar.

O certo é que, se nada for feito rapidamente no sentido de tornar o nosso mundo verdadeiramente mais sustentável e mais justo para todos os humanos e não-humanos que habitam o nosso planeta, o mundo tornar-se-á cada vez mais instável e caótico. É esta a verdade inconveniente.

Perante este quadro assustador, não devemos baixar os braços, mas antes sair da nossa letargia e usar democraticamente a força popular para exigir aos responsáveis políticos que tomem as medidas acertadas.

Não quero ser um desmancha-prazeres, mas não é essa a direção para a qual nos estamos a dirigir. Por um lado, o objetivo principal dos decisores mundiais limita-se a voltar à «normalidade» do mundo pré-pandémico e, por outro, a maior parte das pessoas não contesta esse objetivo…

Por isso, caso o despertar salutar não aconteça, peço desde já às gerações futuras e passadas, aos povos e seres vivos em sofrimento, que aceitem as minhas sinceras e modestas desculpas…

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Texto de  Vítor Barroso Afonso | Povo e Natureza do Barroso


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Jornal Mapa

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