shop-cart

Lendo: O cemitério da globalização à procura do seu coveiro

O cemitério da globalização à procura do seu coveiro

O cemitério da globalização à procura do seu coveiro


«Ao ouvir estes relatos [da guerra], a minha mãe dizia já não reconhecer o rosto familiar do nosso povo; e não sabíamos chegar a outra conclusão senão esta: que para o soldado cada terra conquistada era inimiga, até a sua»,

A Entrada na Guerra, Italo Calvino

 

«Ninguém é herói por partir nem patriota por ficar!»

Dias y noches de amor y guerra, Eduardo Galeano

 

No mundo contemporâneo, todas as guerras geram as suas próprias narrativas dominantes. A brutal invasão da Ucrânia pelo Governo russo deu origem à produção de uma absolutização discursiva raramente vista, excludente de abordagens não-hegemónicas e um obstáculo à compreensão do mundo em que vivemos de forma crítica. Uma análise da ideologia e da história da modernidade também nos ensina que todas as guerras operam sob o domínio da persistente chantagem do nacionalismo e da coacção do cidadão anónimo pela ordem estabelecida no quadro do mito do Estado-nação.

 

 

Se a vida é um labirinto de contradições, a iminência da morte multiplica o eco desesperado das dinâmicas do absurdo. E nisto opera um desconhecido impulso não de vida, mas de sobrevivência e morte. Razão bastante para admitirmos: não nos podemos colocar realmente na pele de quem é cercado pelo nada de toda a moral enquanto escuta o assobio cego dos obuses. Desde logo, este conjunto de posicionamentos não se pode substituir aos motivos de quem ontem se manteve combativo, crítico ou mesmo neutral, contra a ruína dos governos russo e ucraniano, e hoje se vê forçado pelas circunstâncias a combater as tropas russas face à esmagadora opressão do governo de Putin. E não se pode substituir mesmo quando as razões aqui formuladas se encontrem nos antípodas do belicismo.

 

Putin que estavas no céu, venha a nós o vosso gás

Persuadir o indivíduo comum a desejar ser como o seu amo e a identificar-se com ele – neste caso, com “os senhores da guerra” – é a mais eficaz prática do opressor. A lealdade exigida pelo militarismo e/ou o patriotismo conduz a um absurdo: a traição a si próprio. Uma obediência que não pode ser conciliada com a liberdade, nem de acção nem de pensamento. A “arte da guerra”, como teorizou Sun Tsu, é muito mais do que a destreza de brandir uma arma e delinear uma táctica bélica. Põe em marcha uma moral, excepcionalmente arregimentada pelas elites político-militares, com o propósito de submeter populações inteiras, para que estas sacrifiquem a sua liberdade concreta a favor de uma liberdade abstracta que serve de bandeja “esse cálice de vinho tinto de sangue”. Uma moral que vai manipular condutas, coagir convicções e empedernir corações, para se fazer obedecer. À conta dos meios de massa na sociedade líquida, o povo, esse produto imaginário fabricado e manipulado pelas elites ao longo da história moderna, tornou-se real e é na qualidade de espectador que consome a guerra como um produto cultural da media hegemónica. É esse povo, a Ocidente e a Leste, que traz os falsos profetas na palma da mão. Também vós escutais o rufar dos tambores? Enfeitiçados? É que quando os cidadãos são convocados ou coagidos à acção por grupos de interesses que devem o seu domínio à inacção das massas e à extracção da sua força de vida, a história muda de figura e estas passam a ter toda a razão em inquietar-se.

Mais de dois meses depois da agressão militar da Federação Russa, os factos demonstram que o fio condutor da política ocidental e a solução prevalecente à invasão passa pela corrida ao armamento e a militarização da Ucrânia, dos estados limítrofes e das sociedades europeias em geral. O sucesso desta operação acarreta fazer crer que essa lógica é inevitável. Desta estratégia homeopaticamente implementada mas inabalável, podemos inferir o princípio de orientação subjacente à deriva belicista: que o combate à própria violência é a contraviolência e não a procura de políticas de paz. Uma ciência que afinal desemboca num beco sem saída para os povos e as sociedades. Longe de nos interessar a leitura dos manuais de táctica militar, permitam-nos desde logo, a partir do bom senso, levar até ao fim de linha o pensamento de quem defende a solução armada, o apoio logístico e arsenalístico das potências ocidentais à Ucrânia, para fazer capitular o Governo russo: porque razão ainda não bombardearam o Kremlin? Desconfiamos que chegaríamos a uma resposta consensual: seria uma loucura e desencadearia um confronto militar mundial. Chegados aqui, das duas uma: os belicistas seriam verdadeiramente coerentes com a linha de princípio do belicismo e correriam a alistar-se para combater o Governo russo, como pretensamente tencionava um infame neo-nazi português; ou, suspeito, que outra razão os levaria a recuar, do alardear tão seguro e convicto da solução das armas, senão o medo ou o absurdo de morrerem em combate pelo que está em causa? De que é feita, enfim, a sua aparente bravura senão dos velhos tigres de papel? Porque escolhem digladiar-se em invocações metafísicas da guerra (dos outros), como Ivan evocava o Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamazov, ao invés de pegarem em armas? Porque desejam entregar armas às Forças Armadas da Ucrânia, para que homens comuns vivam o vosso conceito de glória da morte enquanto põem o vosso corpo a salvo? O tema da separação e do idealismo ôntico são afinal o trauma de toda a filosofia ocidental. Não por acaso, uma das mais icónicas e contundentes críticas aos modos de produção e de subjectividade do mercantilismo contemporâneo – A Sociedade do Espectáculo (Debord) – tem como centralidade o conceito de alienação dos indivíduos na era da fetichização total das relações sociais.

Deixando para trás o flirt platónico dos que romanceiam com o pathos da guerra à distância e por interposição da carne do outro, o mais sensato é descer ao terreno da realpolitik. Desde logo questionando o que terá levado líderes como Macron, Merkel, Schröder, Hollande, Cameron, Tony Blair, Xi Jinping, Jiang Zemin… a descerem ontem ao Kremlin, ou a receberem Putin nos seus palácios, para assinarem acordos neo-liberais, prosseguindo com os processos de erosão social e precarização económica em estreita cooperação com o governo Russo? Políticas que decretaram não o “fim da história” mas a continuidade da terapia de choque neo-liberal até às últimas consequências da guerra de classes, aprofundando a injustiça social, aumentando as desigualdades planetárias e agravando a crise ecológica. Todos esses governantes das potências europeias e mundiais, num passado ainda recente, escolheram ser os “Césares, os reis, que pensarão na felicidade universal dos homens”, como o Grande Inquisidor de Dostoiévski. Cabe perguntar, porque não apanham agora um voo peace cost para Moscovo para negociarem a paz e a felicidade particular do povo ucraniano? Se ali foram buscar o que queriam amealhar para si em nome da felicidade universal dos homens, porque não voltam a buscar lá o que alardeiam desejar em particular para o povo ucraniano?

Antes da agressão do Governo de Putin, para aprofundarem as condições de submissão e precarização das classes despojadas, os missionários do neo-liberalismo rebaixaram-se aos meios pelos quais o seu amigo-potestade actua. Que a democracia liberal deva o reino da sua legitimação aos prodígios de acordos celebrados com quem sempre praticou a chantagem política, a burla ideológica, a corrupção, o abuso de poder, a xenofobia, a fobia às sexualidades não-normativas, a perseguição aos adversários políticos e à Imprensa livre e a eliminação criminosa de cidadãos incómodos, só tem um significado: desde há muito que a democracia liberal está viciada pelos próprios instrumentos da sua dominação. É que no dia-a-dia da ética liberal e da doutrina da economia de mercado a fraternidade dos negócios transnacionais banalizam e aviltam a democracia, reduzindo-a a um simples instrumento de dominação e abuso de poder além-fronteiras. Não tragamos a moral liberal de que todos os meios são bons para adaptar-se às circunstâncias… Esse realismo do tem que ser, além de hipócrita, está sempre prestes a passar por cima da vida humana. É a história a repetir-se enquanto farsa. Depois da agressão à Ucrânia, os mesmos missionários receberam as graças de uma revelação: a ética dos democratas-liberais precisa de Bucha para saber onde está o seu inimigo… Melhor dito, para saberem onde está o seu ex-amigo… É a farsa a repetir-se como história. Em Bucha o capitaloceno não se descobre já como quimera impossível, nem redescobre somente a sua barbárie: vem a saber que para digerir o seu colapso vai ter de comer o seu próprio ventre. Vai devorar o reduto da Velha Modernidade, o útero da largada da globalização. O terror dos liberais descobre-se agora por terem de olhar de frente para o seu próprio fetiche. O mito da felicidade universal neoliberal acabou na epifania de Bucha. É Durão Barroso a passar o testemunho a Putin. De gadanha em gadanha reconfiguram-se as crises da globalização capitalista na nova realidade multipolar.

Se nos juntamos àqueles que denunciam e condenam a criminosa guerra de Putin, acrescentamos que nem um centavo em apoio militar e armamento do Governo de António Costa ao Estado ucraniano é feito em nosso nome. Que nenhuma vida de civis ou de soldados tem a nossa aprovação. Da nossa parte, não nos assiste o direito de consentir que matem em nosso nome.

 

A Miséria do Liberalismo

Em vésperas da Primeira Guerra Mundial, também a social-democracia e os liberais (passe o paradoxo) investiram as suas fichas nos créditos de guerra nos distintos blocos imperialistas, coniventes com o sexto conflito mais mortífero da história da humanidade, que entre outras consequências levou ao desmoronar do robusto movimento operário e escancarou as portas aos fascismos.

Se não se pode legitimar o ilegitimável – as acções indiscriminadamente criminosas da agressão do Governo russo –, o discurso imposto pelo falso consenso liberal procede com a mesma linha de raciocínio de que acusa os nostálgicos do império soviético ao sofrer de uma ardilosa relativização ética. A abordagem feita pelas forças neo-liberais parte do cancelamento do discurso crítico, contextualizado e histórico. Ao desprezarem uma análise estrutural dos amplos significados políticos e históricos que estão em jogo na Ucrânia, comentadores, especialistas, jornalistas e políticos, reproduzem uma enunciação que parte de um ponto cego, cujo foco termina na eliminação do pensável no outro, não na troca construtiva de argumentos. Ao polarizarem dessa forma a problemática, por vezes com recortes do dogma neo-cristão que conceptualiza o bem e o mal, permitem ao Ocidente recompor a figura de um inimigo histórico. Mecanismo identitário, próprio do mito das nações, e da tentação de construir um nós contra o outro. Com as devidas distâncias, instauram o mesmo ódio como política para delimitar o que tem direito à fala e o que deve ser estigmatizado e tornado impróprio do direito à fala. Ferramenta política que tem como intenção destituir o outro do exercício que possibilita a sua humanidade plena, o pensamento livre. A partir daqui, os liberais dão-se ao luxo de associarem quem mantém um discurso crítico com a imagem do inimigo que forjaram, demonizando e sacaneando qualquer aspiração de um debate justo e saudável, diversificado e crítico. Principalmente, renegam o discurso que desmonte a realpolitik dos interesses geo-estratégicos das potências capitalistas, em todos os lados da barricada. Que fariam os liberais às vozes insubmissas se fossemos invadidos…?

Se a grotesca demonização dos pensadores independentes e a exclusão da diversidade de pensamento atinge o seu auge, o processo de relativização ética dos liberais oculta uma outra finalidade: justificar a injustificável desresponsabilização das políticas imperialistas e belicistas da NATO, dos EUA e, por submissão, da UE.

Quem não é assimilável à miséria do liberalismo, quem rejeita essa cultura, é pura e simplesmente excluído do debate de ideias. O que nos leva à seguinte interrogação: para quê a censura, se o neo-liberalismo cultural e o comércio da comunicação social dispõem dos meios para fabricar um pensamento único?

Além do canto de sereia do status quo, a esquerda não-alinhada institucional parece incapaz de condenar com veemência as aspirações imperialistas e neo-liberais do governo de Putin, políticas supramatistas ontem injustificáveis mas empreendidas em plena cooperação com as grandes nações europeias (Alemanha, França, Reino Unido…). É instrutivo a esse respeito reter que a UE já gastou em energia russa 44 mil milhões desde o início da guerra e prometeu à Ucrânia mil milhões em apoios… Uma imagem elucidativa do internacionalismo monetário neo-liberal. E como os números e as contas, ao contrário do que pretende a doutrina liberal, deitam luz sobre a ideologia de onde procedem, essa contabilidade faz bruxulear o espelhismo e o cinismo da governação capitalística do velho continente. Finalmente, se grupos minoritários que se reivindicam da teoria libertária têm a pretensão de recuperar o significado do esgotado debate sobre as chamadas “guerras justas”, mantemos a nossa posição e agravam-se as nossas dúvidas. A esses, lembramos uma simples formulação: o problema das supostas guerras justas está no perigo de ganhá-las. Esta é a nossa frágil sedição.

Não somos feitos apenas de uma certeza, nem padecemos de cegueira inocente. O nosso mundo perceptivo é um navio de espelhos que vê debaixo das águas mais profundas. Como dizia Cesariny, surrealizando um célebre aforismo socrático, carregamos algumas certezas e elas têm o seu peso. Na Rússia de hoje e de Putin, o jornal MAPA não existiria. Amanhã, acordaríamos a trincar a língua, velhas tradições nostálgicas do KGB. Outros a Ocidente, como Julian Assange, jamais vão voltar a ver a luz da manhã em liberdade, novas práticas liberais. Nada disto nos espanta. O nosso espanto é outro. Perdoem-nos o tom, que idiotice é essa, democratas-liberais, de nada vos encher mais de empáfia do que quererem constranger-nos a agradecer-vos pela liberdade da fala?!?

A farsa repete-se e o ovo da serpente do discurso liberal fica à mostra: é de falsas alternativas que vive o poder. Enquanto acreditarmos que em política não há mais do que escolher entre a democracia liberal e a autocracia não vamos sair do lugar onde estamos. É que não há política onde não há grandeza no adversário. Há apenas a sua corrupção. E o cinismo liberal. É nesta aporia que reside a ilusória igualdade liberal, pedra de toque do neo-liberalismo para perpetuar, sem tensão e conflito, sem superação e utopia, a base estrutural de um poder intocável. (Cf. o artigo “Crítica à Democracia Liberal – Mil e uma diatribes e um sopro de vida”, edição nº 31 do Jornal Mapa).
Que os horrores cometidos por Putin não têm adjectivação no nosso vocabulário é uma linha do indizível que não queremos vasculhar. Mas que vocês precisem desses horrores para elevar o vosso prestígio…? Como assim? Se foram os vossos políticos, os vossos exemplos de grandeza democrática, a celebrarem ontem e no Kremlin acordos governamentais em nosso nome e das populações, para se tornarem nos bastardos do Czar?

 

Globalização do capital: da indústria da morte ao eco-fascismo

Emma Goldman compreendeu que “o maior baluarte do capitalismo é o militarismo”, como argumentou no seu ensaio “Patriotism: a menace to liberty”. De igual modo, Rosa Luxemburgo considerava o militarismo um dos meios prioritários do capitalismo para assegurar a continuidade do seus ciclos de acumulação. Hoje chamam-lhe Nova Ordem, mas trata-se da renovação do Novo Mundo que nunca quis verdadeiramente sair da barbárie em nome da sua ideologia, a civilização Moderna e Mercantil. Sábios e cientistas renovam os segredos da inovação de como matar com mais eficácia em nano-laboratórios; engenheiros com excelso know-how implementam sem destino planos industriosos de linhas de montagem de matança; e os operários, esses, forjam as armas que amanhã os destruirão. Na vala comum das televisões, onde se esguicha sangue para industriar emoções, políticos e diplomatas receberão a coroa de glória pelos seus devotados, mui devotados, esforços pela paz. Ambas as teóricas e activistas, sofreram na pele por terem defendido intransigentemente as suas convicções anti-belicistas e anticapitalistas em vésperas da Primeira Guerra Mundial: Goldman foi presa pelo governo dos EUA e extraditada para a Rússia; Rosa Luxemburgo foi assassinada na rua pelos sicários dos social-democratas.

Na esteira da reflexão das duas revolucionárias, constatamos que no novo milénio as guerras não são apenas um meio de expansão e rentabilização neo-imperial mas são parte da normalidade capitalista de enfrentar os seus limites estruturais, um desdobramento que prefigura cada vez com maior evidência um futuro próximo de controlo eco-fascista da escassez. Defender hoje uma posição anti-belicista implica necessariamente recusar a cultura capitalística. Não é segredo para ninguém que as guerras sob a égide da Modernidade e, principalmente, a partir da era da industrialização da economia capitalista, se tornaram devastadoras a um ponto incomparável. O que suscita uma questão inescusável, jamais problematizada no debate de ideias por ser da ordem da evidência: as guerras modernas e contemporâneas só atingiram um incomparável grau de destruição por causa da acumulação de meios técnicos, do progresso tecnológico e da própria industrialização da morte. Um processo comandado pelos Estados e seus governos que ao incentivarem o complexo industrial-militar da morte, articulando políticas de terror como mecanismo de estabilização da dominação e como estratégia de expansão, como meio de coação e de reprodução da acumulação, são os primeiros responsáveis por submeter as sociedades e as pessoas à desumanização. No cenário contemporâneo de expansão da economia tecnificada, as grandes organizações colectivas deram um contributo decisivo para a disposição individual do ser anónimo viver angustiado pela complexidade do mundo que o desafia. Estabeleceram, com o rigor necessário, que o humano procure apenas, nesta longa série de ambições infelizes, uma certa forma de segurança no terror. Por contraponto, fizeram da liberdade uma vertigem, fizeram com que o cidadão comum se sinta aterrado pela liberdade. Paradoxo da mais espúria ideologia imperialista da política moderna fizeram crer ao bom cidadão que ele se pode dar ao luxo de dormir em paz agora que a bomba atómica o protege.

A política da indústria da morte conduziu a humanidade a uma incomensurável pegada humana, ecológica e cultural… Uma política que derrama sangue, espalha a dor, destrói cidades e economias, esgota a natureza, entorpece as mentalidades… Quantas vidas se poupariam? Que recursos se poupariam, para estabelecer uma relação socialmente mais justa e harmónica com as fontes de energia? Que sociedade mais livre teria lugar, para enriquecer a sua cultura imaterial, favorecer a coexistência na diversidade, promover uma educação para a paz e desmistificar os logros da ideologia bélico-progressista?

 

A Velha Europa: humanismo bárbaro
Cara metade da solução militarista, o discurso do humanismo europeu ganha foco na media tentando mascarar as suas ambivalências. A rapidez com que o acolhimento dos ucranianos tem sido processado revela a falta de vontade política para tratar todas as pessoas deslocadas à força de forma igual, independentemente da sua origem, opinião política, grupo social, etnia ou orientação sexual. Quando a certos grupos de pessoas deslocadas de guerra é negado o acesso aos direitos básicos enquanto este é concedido automaticamente a outro grupo, significa que o procedimento de asilo é visto como um privilégio e não como um direito universal. No reverso sombrio dessa parcialidade ou discriminação positiva da população ucraniana, significa que as autoridades europeias continuam a reproduzir por antítese uma humanidade subalterna. A insistência na “natureza excepcional” do conflito na Ucrânia faz parte do álibi da União Europeia para legitimar as facilidades que oferece à população civil ucraniana para esta ser acolhida noutros países europeus, enquanto continua a rejeitar cidadãos do Sul global afligidos por fenómenos semelhantes, populações muitas vezes forçadas a fugir de teatros de guerra cujas causas não são alheias aos interesses geo-estratégicos dos países europeus e/ou do capital transnacional de corporações do velho continente.

Lembram-se das lágrimas de crocodilo dos oficiais da UE em 2015? Ministros e burocratas-mor agitavam ontem a certeza de que a Europa não tinha condições para receber 1 milhão de expatriados em plena crise humanitária provocada em grande parte pela guerra Síria… quando hoje, em menos de um mês, foi capaz de acolher mais de 3 milhões de refugiados, demonstrando a intrujice da sua política migratória, reivindicando para si própria os direitos – ratificados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que não deixa de celebrar a invenção neo-colonizante do direito a ser homem, e na Convenção de Genebra –, que nega aos outros. Ao revelar uma ambivalência etnocêntrica no cumprimento de um direito internacional a UE põe a nu os fundamentos do seu legado histórico racista. Mais, a retórica da UE pretende encobrir não apenas a sua responsabilidade na materialidade histórica do processo de globalização do capital e que conduziu as pessoas do Sul global a saírem do seu lugar, que descaracterizou a vida dessas culturas próprias e que empobreceu e/ou destituiu os próprios lugares (usurpando a terra e a sua propriedade em nome do extractivismo), mas nega ao migrante a “riqueza” que ele pretende desafiar em solo europeu e de que foi espoliado.

Mas a injustiça das autoridades ocidentais não nos deve cegar. Devemos louvar os milhares de cidadãos anónimos que agiram eticamente bem acima do nível das elites governantes. Devemos relevar o esforço anónimo da população europeia que recebeu de braços abertos as vítimas da guerra na Ucrânia, sempre que esse gesto de solidariedade se dispa de preconceitos. Se destaparmos a hipocrisia de distinguirmos os humanos uns dos outros por cor de pele ou por carimbo de passaporte. Se percebermos que o que está por detrás do acto de barrar não-brancos nas fronteiras, de dificultar-lhes o acesso aos mesmos meios de fuga e de negar-lhes o direito de asilo é a persistência de um olhar colonial, um desdobramento da mesma colonialidade ontológica que faz com que o que nos choca no nazismo não é a exterminação humana, mas a exterminação ser empreendida na Europa contra seres brancos.

 

De gravata e de farda, somos os donos da guerra
À crítica ao militarismo e à ambivalente cultura humanista das instituições do Ocidente, no âmbito de uma reconfiguração da pulsão de morte do capitalismo terminal e do eurocentrismo, por fim, destacamos que a guerra actual segue em toda a linha a continuidade patriarcal de entender a divisão societal do poder. De fato e gravata ou de farda militar, “the masters of war” são, evidentemente, aqueles que controlam, investem e acumulam a riqueza das despesas militares; são aqueles que lideram exércitos e missões diplomáticas; são os oligarcas (sem excepção ou discriminação de nacionalidade, a Ocidente e a Leste) que durante décadas acumularam poder e riqueza fruto da exploração selvagem e do extrativismo predador à custa da desigualdade social e do empobrecimento das populações; é o batalhão Azov no colo de Zelensky e do Ocidente, é o segundo maior exército do mundo e os mercenários da Wagner nas mãos de um cleptocrata, homofóbico e fascistóide. São aqueles que continuam a fazer do mundo, como na canção de Bob Dylan, “o seu pequeno joguete”. São também os vendedores de banha da cobra que estratificando a sociedade na intersecção de patriarcado, mercantilismo e imperialismo, vendem a democracia (liberal) como o intocável maná da coesão social, anestesiando o cidadão eleitor tal como o padre faz da hóstia a sagrada união do crente com o corpo de Deus.

A armas uivam e a caravana passa… Com o conflito em curso na Ucrânia, assistimos ao delírio do capital transnacional a monetarizar a guerra em valor de mercado e a normalizar a dramaturgia de um futuro inevitável: depois da crise financeira de 2008, das políticas “austeritárias”, da emergência climática, da hipervigilância dos Estados posta a nu na era pós-Snowden e depois do “apaga-acende” de direitos constitucionais justificado pela pandemia de Covid-19, enfrentamos agora a militarização das nossas vidas/sociedades quando os desafios do século XXI exigem uma política transnacional para a justiça social, um projecto que lute pela desnuclearização e desmilitarização da Europa e do mundo, uma cultura que lute pela descomplexificação das burocracias estatais como via possível para que as populações se reapropriem da potência da democracia e uma força que empreenda um compromisso com um modelo ecológico e social alternativo.

Ao revés, a Europa militariza-se, reabre centrais nucleares, sofistica a sua mega-máquina securitária, redefine fronteiras além-mar, esfrega nas feridas neo-colonizantes ao invés de cicatrizar a sangria da globalização capitalista, renova o seu humanismo eurocêntrico de dupla-face, assiste à ascensão do fascismo, normaliza o estado de excepção… A decadência do capitaloceno parece já incapaz de se reproduzir enquanto ciclo de estabilização e funcionalidade nas próprias sociedades ditas avançadas da Europa. Uma problemática que urge a favor de um questionamento: irá o sistema capitalista gerir a fase do seu próprio colapso sem o emergir do eco-fascismo?
As classes populares, os sindicatos e os movimentos sociais deviam mobilizar-se não só contra a guerra mas também contra as várias dinâmicas de precarização social, económica e dos direitos, expostas à flor da pele na sociedade europeia. Teme-se que mais uma vez saiam à rua tarde demais, apenas quando as políticas de austeridade anunciadas pelas instituições europeias e promovidas pelo Banco Central se façam reflectir no dia-a-dia, chamadas à pedra para mais uma vez pagarem a conta de uma crise sistémica do mercantilismo neo-liberal agravada pela guerra e pela ressurreição do militarismo globalista .

A superstição cultural e política que sai todos os dias nos jornais da miséria do liberalismo quer induzir as populações a não estabelecerem uma relação entre estas crises estruturais e as instituições políticas e as práticas que regulam a vida das sociedades contemporâneas – os mercados, a financeirização da economia, os monopólios económicos, o extractivismo, o lucro e o produtivismo como fim; e os aparatos transnacionais de megapoder político inspirados na matriz da estatolocracia como forma de divisão societal do poder. Os teólogos da economia de mercado e da globalização neoliberal prosseguem a sua procissão de fé rezando os salmos do pensamento mágico da mão invisível dos mercados e do crescimento eterno. Há negacionistas para todos os gostos!

Uma civilização que é incapaz de resolver os problemas opressivos fundamentais que ela própria provoca é uma civilização decadente. Uma civilização que se alimenta do seu próprio colapso é uma civilização antropófaga que já ruiu. Governada por dois séculos de liberalismo e industrialismo, a civilização do capitaloceno é incapaz de resolver três problemas que a sua existência e a que a sua supremacia deu origem: a formação de uma classe precária e empobrecida pela exploração do regime de trabalho mercantil; o (neo-)colonialismo como alavanca do imperialismo económico; e o extractivismo e o produtivismo, doutrinas responsáveis pela depleção dos recursos energéticos e que conduziram ao actual colapso ecossistémico.

A proposta política e económica do neo-liberalismo é prosseguir o modelo de mercantilizar os bens necessários à existência até integrar o eco-fascismo. No discurso do poder, as práticas destrutivas do neo-liberalismo passam a ser aceites por razões de sobrevivência do sistema. Ergue-se no horizonte a precarização de amplas camadas da população, a crescente dificuldade em aceder a bens básicos (saúde, habitação, educação e alimentação), o aumento de necessidades sociais não atendidas, o acelerar da ocupação de terras indígenas ou de territórios de culturas de autossuficiência e a pura e dura degradação da subsistência de segmentos cada vez maiores das sociedades.
A proposta cultural e epistémica da cultura mediática neo-liberal passar por cancelar o pensamento, uma lógica que já foi acima desmontada. Logro que atingiu o seu clímax mais simbólico num artigo de António Barreto intitulado “Argumentos e falácias” (Público, 9.4.2022). Sintetiza-se nos termos surpreendentes, já salientados pelo jornalista Miguel Sousa Tavares, de que nos damos ao luxo de citar: “Diante do incómodo causado pela violência bruta e pela destruição cega, terem a desfaçatez de pedirem pensamento”. Barretes há muitos, mas oplá nessa arte ninguém tira o chapéu a António Barreto. É o argumento da prescrição. Defender a suspensão do pensamento no contexto que o sociólogo reivindica é suspender a imaginação e desmoronar um futuro não previsto pelo neo-liberalismo decadente e o capitalismo senil. A partir desse enunciado, a comunidade imaginada por Barreto passa a ser a prisão do imaginário político do outro. Barreto deseja que o mundo seja regido por uma única escala de valores, uma armadilha que coloca o pensamento e a livre expressão de ideias na antecâmara do Tarrafal.

Esperamos não ser os únicos a não vender a imaginação às promessas dos paraísos artificiais do capitalismo, muito menos vender a imaginação por um prato de lentilhas requentadas pela vinaigrette da sociologia liberal! Neste mundo de insolvência das ideias e das convicções – e do perigo que constitui a normalização do falso consenso liberal como pensamento único – continuamos a desejar outras formas de vida. De igual modo, não chega também repetir em refrão, como se viu obrigado MST, que “a invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão”. Putin era injustificável desde que se sentou na cadeira do czar. Esses tronos acima do cidadão comum são injustificáveis. Esses palácios erguidos sobres as nossas cabeças são ilegítimos porque não têm por detrás a firmeza da argumentação nem a troca dialógica igualitária, antes se sustentam na força das armas. Desenganem-se. Não é só a autocracia do governo de Putin. Na simbiose do poder entre Estado e Democracia (Liberal), o fundamento militar-armado – ou seja, a tradição patriarcal e autoritária – permanece oculto e dissimulado nas trevas da democracia, mas sempre à espreita nas sombras como um instrumento de coacção, controlo e normalização da dominação. A vossa democracia-liberal assenta na força armada. O vosso prestígio deita sobre a obediência dos que não têm fuzis. É por isso que não vos pedimos armas. Preferimos desarmar-vos para pôr a nu a cobardia do poder. E o copo de veneno que nos oferecem.

Desconstruir esta narrativa hegemónica e as perplexidades que gera é um caminho necessário para caçar mentiras sem futuro e bosquejar uma visão transnacional inclusiva e anti-imperialista, libertária e anticapitalista, que interrompa a cultura capitalística. Visão e acção que só será possível na medida em que as populações defendam as suas condições de vida e de autonomia articulando formas consistentes de autogoverno e de organização social instituinte. Não serão os artifícios dos tributos, nem o heroísmo dos mártires a perfazer esse caminho, mas o movimento que volte a restituir à política a escala da medida humana, desfazendo-se da sua dependência de uma classe separada que se interpõe ante o seu destino.

No contexto da superação da necropolítica liberal, a ecologia social e o eco-feminismo falam em relocalizar a economia. Talvez o fundamental seja relocalizar o ser humano ao lugar da sua própria escala. Limitar a sua dependência das mega-estruturas e transitar para um habitat local onde a sua interdependência eco-social seja o mais real e directa, potencialmente horizontal e dialógica. Resgatar as separações primitivas e superar as alienações que o mercantilismo e o industrialismo causaram na vida social e na relação com a natureza. Restaurar a comunidade de interesses e de interdependência que o capitalismo destroçou. Entender que é possível e desejável voltar a imaginar uma descontinuidade na história política da democracia moderna, uma fractura que implique ampliar o sentido da democracia enquanto expressão directa e instituinte, para que os seres humanos autodeterminem o significado político da sua existência social. Ao longo da História, observámos que as populações têm os seus próprios recursos, os seus próprios instrumentos de luta, a sua arte de resistência política e a sua própria concepção de poder. Como propunha a poeta Natália Correia na sua Ode à paz, caminhar “pelas entranhas maternas e fecundas da terra[…] abater as bandeiras da ira, deixa passar a Vida”! Se outro fim do mundo é possível é porque outros mundos em devir tomam o seu lugar…

 

Júlio do Carmo Gomes
7nos.editora@gmail.com


Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “O cemitério da globalização à procura do seu coveiro”