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Lendo: Humaniza(cão)

Humaniza(cão)

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Exterminando o Errante defendendo o Puro!  

O Cão Cidadão 

Em 2017, a lei estabeleceu um estatuto jurídico dos animais, reconhecendo a sua natureza de seres vivos dotados de sensibilidade, sendo-lhes reconhecida uma vida e liberdades próprias. Esta humanização do cão não alterou a portaria nr.º 1427/2001, que os classifica segundo a sua utilidade, descrevendo-os como «animal destinado a ser possuído pelo homem para seu entretenimento e como companhia». O cão passou a ser reconhecido juridicamente como ser vivo, dotado de sensibilidade, deixando de ser identificado como «coisa», mas a ética institucional aprova e reconstrói fielmente a moral franciscana da fábula do Lobo de Gúbio, o feroz selvagem que, domesticado, deixou de atacar o rebanho do «Senhor». 

Especismo

Grupos de amigos dos animais comem bifes para salvar cães e gatos. Os criadores defendem a procriação de animais de raça como método de conservação. Cidadãos que batem palmas a leis de proteção dos animais domésticos orgulham-se da tradição das touradas, tornando o mundo animal num produto a defender. Para os «Amigos dos Animais», existem as raças e só depois os «outros», que enfrentam um processo de eugenia (termo criado depois do «abolicionismo» da escravatura para defender a superioridade do homem branco). Hoje, os registados cães de raça muito pouco guardam dos genes da raça original e são animais com problemas genéticos que comprometem o seu bem-estar constantemente, encurtando a sua esperança média de vida. 

Talvez se possa compreender melhor a necessidade de se discutir o especismo se analisarmos a vida animal a partir do ponto de vista do opressor e não das lágrimas dos oprimidos.

A raiva de grupos de «resgate animal», numa ira… de incompreensão redutora dos animais, criada e lançada pelos moralistas animalistas, ficou bem demonstrada nas reações ao fogo em Santa Maria da Feira, que vitimou 73 animais e revelou sequestros de animais com registo e as péssimas condições de canis que se assemelham a campos de refugiados. Colocou também em evidência a hipocrisia dos amigos de cães e gatos que os utilizam para se promoverem, venderem produtos e soluções egocêntricas e especistas. A perseguição a ciganos e a criadores sem licença, por grupos de resgate animal com colaboradores da extrema-direita, apoiados legalmente por elementos de partidos com assento parlamentar, deixa também claro o perigoso caminho que está a ser tomado pelo movimento de defesa dos animais.

As leis de bem-estar animal mantêm os animais dominados pelo e para o conhecimento humano, para que este os possa explorar. No início da Pandemia, o slogan «Vai tudo voltar ao normal» dava esperança, mas os Amigos dos Animais vieram relembrar, no final do confinamento, a obrigação de coleira e a proibição de alimentar animais errantes. Talvez se possa compreender melhor a necessidade de se discutir o especismo se analisarmos a vida animal a partir do ponto de vista do opressor e não das lágrimas dos oprimidos.. Entre os humanos, os principais beneficiados do movimento abolicionista, os escravos, ainda lutam contra a invasão, domínio e exploração. Quanto tempo, ou o que será necessário, para que os animais deixem de ser conformados a estas formas legais, abolindo-se a desigualdade, assente na discriminação?

 


Texto de Farrusco Rafeiro
Ilustração de [em destaque] Miky Morgado


Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.


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Jornal Mapa

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