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Lendo: 12 de outubro: As Muitas Faces do Colonialismo

12 de outubro: As Muitas Faces do Colonialismo

12 de outubro: As Muitas Faces do Colonialismo


«É a América Latina, a região das veias abertas. Do descobrimento aos nossos dias, tudo sempre se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar foram sucessivamente determinados, do exterior, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo.»
Eduardo Galeano, 1970

 

A 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo chegou às Américas. Inaugurava assim o período das «descobertas», descobrindo um «novo mundo» até então desconhecido da Europa. Para os povos nativos que habitavam estas terras, a sua chegada foi o início de um processo de colonização, expropriação, pilhagem e genocídio. Foi o início de passarem a ser índios, por oposição a colonos, um estatuto dado para no fundo designar povos subjugados, explorados ou marginalizados por uma sociedade dominante. Para designar povos com modos de vida distintos, com formas de subsistência, de organização e de relação com a natureza baseadas na não-acumulação e consideradas «primitivas», por oposição às «desenvolvidas». No dia 12 de outubro denunciamos os continuados processos de colonização e celebramos a resistência dos povos nativos.

Estes processos de colonização viriam a possibilitar o desenvolvimento e expansão das sociedades industrializadas, baseadas no consumo e no crescimento económico, que caracterizam o capitalismo. Na realidade, a produção de sociedades capitalistas não teria sido possível sem a instauração de regimes coloniais que, ao subjugar outros povos, permitiram a apropriação de terras, recursos e pessoas a uma escala massiva e industrializada. Esses processos coloniais subsistem até aos dias de hoje, mascarados de desenvolvimento económico, um pouco por todo o mundo. Deixam rios vermelhos de sangue, montanhas esventradas por minas, lagos contaminados de dejetos tóxicos; queimam florestas para abrir caminho a estradas e produções intensivas de soja, palma e carne bovina. O colonialismo nunca acabou mas antes continua a matar, a pilhar e a destruir os modos de subsistência dos povos nativos e os seus territórios ancestrais. Mais de 500 anos depois, falar de povos indígenas é, por isso, falar de resistência. A 12 de outubro lembramos as lutas indígenas contra o colonialismo e, com a raiva sagrada que merece a defesa da terra e da vida, celebra-se a resistência!

No dia 12 de outubro reunimo-nos em frente ao Padrão dos Descobrimentos, denunciando mais uma vez as atrocidades levadas a cabo por um sistema socioeconómico baseado na pilhagem e na destruição, no estupro e no assassinato dos povos nativos e dos seus territórios. Reunimo-nos para partilhar a nossa história coletiva do colonialismo, como as suas múltiplas faces se manifestam até hoje nas nossas vidas quotidianas e correspondem a uma dor e raiva comum contra um sistema corrupto e doente, que ameaça toda a vida na terra. Escutamos ativamente os outros lados desta história comum, reconhecendo a expropriação, discriminação e marginalização como bases estruturais de sociedades coloniais, onde relações de poder alimentam desigualdades para poder proliferar. Renomeamos os «descobrimentos» como «invasão de territórios ancestrais e o genocídio dos seus povos nativos». Denunciamos o capitalismo como um sistema corrupto assente no roubo e na morte. Desde a história recente de conflitos europeus aos continuados processos de invasão, expropriação e perseguição dos povos nativos da América do Sul, convocamos os povos do mundo a reconhecer o seu inimigo comum nos modos capitalistas e coloniais de relacionamento com o mundo.

«Convidamos todos os que já sentiram na pele, no sangue ou no corpo o colonialismo a partilhar em círculo a sua experiência. Convidamos todos os que conhecem as feridas abertas do colonialismo a desmascará-las. Convidamos-te a partilhar a tua história. Façamos juntos um concílio de povos. Vamos contar as nossas histórias em conjunto. Seja com dor, raiva e luto. Seja com sangue, suor e lágrimas. Seja com luta.»

Viva la Pachamama

De mãos dadas, em torno do padrão e da rosa dos ventos, gritou-se «Não foram descobrimentos, foi uma invasão» e «Não foram descobrimentos, foi um genocídio!»

Por muito tempo, os movimentos europeus de Justiça Climática têm aprofundado conexões com as comunidades indígenas, para permitir que as suas vozes tenham mais destaque nos diálogos e lutas sobre o clima e o meio ambiente. Os países chamados «civilizados» precisam (re)aprender o que significa viver em harmonia com a Mãe Terra, bem como testemunhar as realidades genocidas em curso contra as quais muitos lutam, ainda, diariamente!

Dez anos após a Batalha em Seattle, vozes indígenas foram o ponto central da Declaração dos Povos no Klimaforum de 2009, defendendo a urgência de «Mudanças no Sistema, Não Mudanças Climáticas», e na Assembleia dos Povos frente ao Bella Center em Copenhaga, onde a polícia de choque dinamarquesa ilegalmente agrediu e prendeu cerca de 100 manifestantes nas ações do Reclaim Power. Com a eclosão do activismo climático em 2019, levando a inúmeras declarações de Emergência Climática por todo o mundo, agora é o momento para realmente construir uma rede global. O 12 de outubro é o dia das resistências indígenas, principalmente na América do Sul e do Norte, sendo que bem poderia tornar-se um dos dias mais importantes do ano para os movimentos globais anti-capitalistas, anti-imperialistas e de justiça climática.

Em Lisboa, neste dia, pretendemos conectar os dois lados desta comunidade global. Para que cada um possa escutar as dores e os sonhos um do outro, para permitir que ambos os lados se perguntem como avançamos juntos. No evento «500+ anos de resistências indígenas», integrado no festival Umundu, uma videoconferência juntou líderes indígenas da América Latina e movimentos pela justiça climática de Lisboa, na Miau Associação Cultural no Alvito, com a participação da Greve Climática Estudantil (Fridays for Future) e a Stop Ecocídio Portugal. Jiribati, da comunidade Ashaninka na Amazônia peruana, Kreta, da comunidade Kaingang no Brasil, e Veronica, da comunidade Puruwa, de língua Quichua, nos Andes equatorianos, assinalaram que as lutas de seus povos por sua identidade e seus territórios foram agravadas ainda mais pela pandemia e sugeriram formas de avançar. Para alguns adolescentes lisboetas, esta foi a primeira oportunidade de ouvir e falar diretamente com lideranças indígenas. Nenhuma grande epifania aconteceu, nenhuma grande decisão foi tomada, mas novos caminhos foram abertos. Agora cabe-nos a nós aqui fazer a nossa parte, por nós e por aqueles que estão lá e com aqueles que estão lá.

Sob a bandeira de Wiphala, símbolo da resistência andina, a noite terminou com um rugido coletivo de paixão e desafio, de amor e raiva, «Viva la Pachamama!», seguida de música andina para celebrar a solidariedade entre povos e a construção de resistência conjunta por justiça social, climática e ambiental.

Mais uma vez, recordamos: «Não lutamos pela Natureza, Somos a Natureza a Defender-se».

 


Texto de Joana Canelas [Fórum Indígena de Lisboa] e Duncan Crowley [Ecocity Lisboa]
Fotografias de Ludovica Andrenacci


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


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