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Lendo: Flauta de Luz

Flauta de Luz

Flauta de Luz


A Flauta de Luz nasceu em 2013 pela mão de Júlio Henriques, escritor, tradutor e editor. Com sete números publicados, e a distribuição assegurada pela editora Antígona, a revista é hoje em Portugal uma peça fundamental para um diálogo subversor com o mundo que nos rodeia.

Filipe Nunes: A Flauta de Luz é um espaço de crítica civilizacional que parte da crítica da tecnologia industrial. Essa é uma análise com décadas, ou mais de um século, mas que permanece descredibilizada e mesmo ridiculizada nas esferas da ecologia e da política, e que encontra relutância no campo da ecologia política, perspectiva que, como dizes, levou décadas para ser escutada. Porém, no presente, os danos da sociedade tecno-industrial são por de mais evidentes. Que está por trás da relutância generalizada dessa crítica?

Júlio Henriques: Uma tal relutância tem com certeza várias origens, mas julgo que decorre em grande medida de uma fortíssima catequese política. Todos fomos e continuamos a ser ensinados, desde a escola primária, a ver na sociedade industrial o paradigma do progresso, o seu suprassumo. E, concomitantemente, a encarar como atrasadas ou obsoletas as sociedades que não são assim, cujo único rumo teria obrigatoriamente de consistir em recuperarem desse dito atraso. Convém notar que esta catequese é praticada pelas convencionais correntes de direita e de esquerda, sempre concordantes nesta questão central.

É claro que nem todos os aspectos da sociedade industrial são negativos, mas, sobretudo a partir do momento em que ela se tornou uma megamáquina totalitária mundializada (ou seja, que interdita quaisquer alternativas reais susceptíveis de pôr em causa o seu modo de produção predador), os impactos da sua negatividade não podem senão avolumar-se, visíveis nas catástrofes incessantes que passaram a fazer parte do mundo corrente, a mais recente das quais é a pandemia de Covid-19, e também no programa político, já em curso no chamado transumanismo, de uma fundamental alteração dos seres humanos, instigados a tornarem-se apêndices maquínicos. Tudo isto ao mesmo tempo que, por força do aparente consenso doutrinário alcançado pela civilização do capitalismo, a crítica civilizacional ainda não deixou de ser encarada com estranheza pelas maiorias consentidoras, domesticadas ou silenciosas.

As culturas ameríndias são outro ponto-chave na revista, seja na apurada compilação da sua poesia contemporânea, seja enquanto espelho alternativo que narra esse outro mundo e ecoa as vozes resistentes à destruição do planeta. Qual consideras ser o principal ensinamento (apelo) que as vozes índias podem transmitir?

Temos dado um enfoque maior às culturas ameríndias, mas não se trata apenas destas. Além das Américas, também noutras zonas do mundo não puderam ser inteiramente destruídas, graças às suas longas e obstinadas lutas de resistência, culturas ancestrais oriundas de sociedades sem Estado, que hoje constituem para nós, habitantes de um mundo profundamente doente e num imparável processo de devastação, âncoras político-filosóficas e apoios espirituais.

Trata-se da mais importante minoria mundial, correspondente a cerca de 370 milhões de pessoas que vivem nos cinco continentes, incluindo a Europa. Todas estas comunidades lutam em defesa do seu próprio ser (que é evolutivo, obviamente) e dos territórios em que esse ser se inscreve, os quais continuam a estar ameaçados pelo expansionismo, já não apenas europeu, mas agora de todo o capitalismo mundializado.

A meu ver, o ensinamento destas culturas reside, antes de mais, na sua capacidade de resistência (passando pelos piores martírios) aos poderes estatais e empresariais que continuam a pretender eliminar os seus membros fisicamente ou reduzi-los a servos e pobres modernizados.

A par desta alteridade indígena invocada na topografia da Flauta de Luz, que lugar ocupa nela a invocação da antiga ruralidade ocidental para expressar as relações do homem com o seu entorno e as resistências à «máquina»? E como explicar a ruralidade enquanto expressão de autonomia e harmonia e distingui-la dessa outra – naturalmente ainda presente na sociedade portuguesa – de escassez?

Quando procuramos compreender o indigenismo que resiste e subsiste no mundo, integrando-o num pensamento crítico radical (que vá às raízes), não podemos pôr de lado aquilo que nós próprios temos de indígena. Penso que o nosso indigenismo, aqui na Europa, entronca nas milenares culturas camponesas, elas próprias desmanteladas pela expansão das relações sociais capitalistas, designadamente no período da Primeira Guerra Mundial, durante a qual foram dizimados muitos milhares de camponeses, no seu papel de soldados carne para canhão dos imperialismos rivais.

Pelo seu próprio modo produtivo, as culturas camponesas entram em contradição com o processo de integração capitalista, porque só parcialmente se incorporam nele, furtando-se-lhe. A história sociopolítica da eliminação antropológica do campesinato, que entre nós passou para uma espécie de desmemória, está aliás a precisar de uma grande revisita. O que em Portugal caracterizou a miséria, que automaticamente é costume associar à agricultura, foram as relações de propriedade, impostas legalmente pelo Estado, levando o camponês a deixar de poder ser dono de si mesmo. A imperiosa expansão do capital nas relações sociais gerais levou a que as peculiares relações sociais camponesas se desfizessem, sendo os lavradores transformados em agricultores sem terra, em assalariados rurais ou urbanos, ou a depender drasticamente do sistema bancário e a trabalhar «para o mercado».
Não se trata de idealizar este particular indigenismo, e muito menos de desejar transplantá-lo para o nosso tempo, mas a memória que hoje temos destas coisas parece-me ter-se tornado demasiado turva e enviesada. Como escreveu John Berger, não se pode descartar uma cultura milenar como quem apaga uma conta num rol…  

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

 


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Jornal Mapa

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