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Lendo: Tacho e dois dedos de conversa

Tacho e dois dedos de conversa

Tacho e dois dedos de conversa


No início do confinamento de março de 2020, para qualquer pessoa que passasse na Almirante Reis, era evidente quem podia, e quem não podia, estar de quarentena. Sem os estudantes, trabalhadores, turistas, Erasmus e hipsters, a avenida principal dos Anjos expunha uma camada social que nos últimos anos tem vindo a passar despercebida.

Face a esta realidade o centro social Associação RDA69 — que nos passados dez anos tem dado casa a debates, noites de cerveja, refeições a um preço acessível, … — decidiu cessar as suas actividades regulares e dar início a uma cantina solidária. Ao longo de seis meses, com as mãos e braços de duas dezenas de voluntários e milhares de euros doados, foram servidas cerca de duzentas refeições diárias. A fila que se estendia ao longo do Regueirão, composta por pessoas em situação de sem abrigo, ex-trabalhadores, imigrantes e trabalhadores precários, revelava os efeitos sociais e económicos desta crise pandémica.

Durante os meses de Verão, a associação começou a usar o espaço exterior à garagem que lhe dá casa e criou, com a ajuda do colectivo Eira, uma esplanada. Sob a sombra de toldos improvisados e nas mesas espalhadas, quem chegava podia comer a sua refeição sentado, carregar o telemóvel e trocar dois dedos de conversa.

Em meados de setembro, o colectivo que gere o RDA69, por falta de financiamento e esgotamento humano, decidiu terminar com a cantina solidária e pôr em marcha um projecto experimental nesta esplanada. Todos os dias tem sido montada uma cozinha de campanha onde quem aparece pode preparar e partilhar a sua refeição, beber café, tomar o pequeno almoço, carregar o telemóvel, usar a casa de banho, tomar banho e lavar a roupa. A fila de duzentas pessoas que todos os dias vinham pegar uma refeição reduziu-se para um grupo médio de quarenta que, diariamente, partilham tachos, almoço, um jogo de xadrez e conhecimentos, criando saberes e dinâmicas de convivência e sobrevivência.

O funcionamento primário da esplanada é garantido por um grupo de dois ou três voluntários responsável pela abertura, fecho e manutenção do espaço, que assegura os turnos de lavagem de roupa, gere os banhos, e se certifica de que o cabaz de alimentos diários é disponibilizado, que existe azeite, cebola, alho e especiarias suficientes.

A estranheza revelada por alguns pelo acto de — voltar — a cozinhar é diariamente colmatada por outros que não permitem que ninguém fique sem uma porção de feijoada improvisada. Se há sobras de farinha, há quem chegue e faça Naan para todos; se há falta de arroz, estica-se um pouco para o próximo. Todos os dias o espaço da Esplanada é, um pouco mais, apropriado, comunizado e cuidado pelos que o utilizam. Todos os dias a ideia de normalidade é ali rescrita.

Se a cantina surgiu como uma resposta de emergência à supressão de necessidades básicas revelada por um estado calamitoso, a esplanada surge como um ensaio de novas formas de organização do quotidiano. Por um lado, esta experiência dá continuidade a uma série de relações que se têm vindo a desenvolver no último ano e a um processo de construção de novos viveres, por outro, rompe com uma série de relações ambíguas entre aqueles que podem disponibilizar do seu tempo para que outros comam. A esplanada surge assim como o tipo de experiência que nos faz pensar que, se calhar, tudo o que precisamos já aqui está.


Texto de Inês Vegetal
Fotografia de João Melo


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


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Inês Vegetal

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