shop-cart

Lendo: Belarus livre! O primeiro protesto contra o último ditador

Belarus livre! O primeiro protesto contra o último ditador

Belarus livre! O primeiro protesto contra o último ditador


No extremo oriental da Europa, aproximam-se eleições e amplifica-se a repressão. No extremo ocidental, em Lisboa, tem lugar amanhã o primeiro protesto pela liberdade do povo bielorusso.

“Tentem imaginar que, neste preciso momento, milhares de pessoas estão a arriscar as suas vidas para poder respirar a liberdade. Assim como vocês, elas querem amar, passear, criar, falar, dançar, viver.”
O apelo é de Anastasia Kotova, que vive em Lisboa há quatro anos e com a associação Zona Franca nos Anjos organiza o protesto marcado para as 19h no Largo Camões. Nasceu na Bielorrússia há 26 anos – tantos quanto os que o país tem vivido sob a mão de ferro de Alexander Lukashenko, conhecido como o último ditador da Europa.

Único presidente desde a independência do país, Lukashenko “tem enfrentado oposição desde sempre, mas nunca foi tão forte como agora”, explica Anastasia ao Jornal Mapa, referindo-se às eleições presidenciais que se avizinham, a 9 de agosto. “Porque a oposição este ano vem desde baixo.”

“Ele não só falhou as promessas com que tem alimentado o país, mas também falhou em tomar quaisquer medidas perante a pandemia do Covid19. Disse que o vírus não existe, disse para as pessoas irem beber álcool, irem à sauna se estão preocupadas. Tem havido imensas mortes, falsificações de estatísticas, médicos a trabalhar sem acesso a equipamento… As pessoas, desde baixo, viram que esta pessoa estava a mentir, o país está a cair, os seus familiares estão a morrer. E começaram a apoiar os candidatos da oposição.”

A receita do regime está a ser a mesma dos seus cinco anteriores mandatos: esmagar a oposição. “Protestos, só se autorizados. A polícia secreta está por toda a parte. A Bielorrússia é um dos países com o maior número de polícias por pessoa. Aa pessoas recebem imensas multas, por razões idiotas, falsas. Todo o país está a doar dinheiro para os cidadãos detidos, em troca da sua liberdade. E é a forma de Lukashenko pagar o salário dos seus militares”, desabafa Anastasia.

Um popular blogger, que viajava filmando a realidade do país, tornou-se um famoso crítico do regime e decidiu concorrer à presidência. Foi detido. A sua mulher, Sviatlana Tsikhanouskaya chegou-se à frente para concorrer no seu lugar e é hoje a principal candidata da oposição. Na sequência de repetidas ameaças, teve de retirar os seus filhos do país.

As mulheres têm sido um alvo particular da repressão, conforme denunciou a Amnistia Internacional. “Têm atacado mães ativistas, dizem-lhe ‘se não paras de protestar, os teus filhos vão-te ser retirados.’ E imensas mulheres têm recebido ameaças de violência e abuso sexual”, afirma Anastasia.

A guerra está igualmente aberta contra os bloggers e jornalistas independentes, que através de livestreams capturam a violência policial contra os protestos. Desde o início da campanha eleitoral, há dois meses, muitos foram espancados, e mais de 40 jornalistas foram detidos.

“A televisão é controlada pelo estado. Lukashenko tem feito uma lavagem cerebral às pessoas durante anos, retrata ativistas como pessoas doentes, que estão lá para criar guerra e sabotar o país. Também vejo imensas contas falsas a aparecer nas redes sociais, onde bots escrevem comentários em apoio a Lukashenko.”

“Este ano é muito especial – porque as pessoas têm esperança na mudança”, conta Anastasia, numa voz que mistura raiva, dor e esperança. “Sinto imensa dor pelo meu povo. Muitos estrangeiros observam como somos pessoas puras, sinceras, prontas a ajudar, conectadas com a natureza. Graças à situação geopolítica, estando entre dois impérios, imensas guerras passaram por nós. Sabemos que a nossa dignidade, as nossas vidas, são a coisa mais preciosa que temos. E estamos prontos para as defender. Quando penso no regime, sinto pena por estas pessoas. Devem ser profundamente infelizes, fazendo outras sofrer, matando. Não têm compaixão, e têm de ser retiradas do poder e, seja pelo karma ou por uma instituição de justiça, punidas pelo que fizeram.”

A manifestação que vai acontecer amanhã em Lisboa “é a primeira manifestação de solidariedade com o nosso país”, conta a jovem, que a apela à participação de todas as pessoas, e ao apoio de ativistas e meios de comunicação, num país onde quase não há notícias sobre a Bielorrússia.

“Queremos avisar o mundo que pode acontecer um genocídio de um povo pelo seu próprio regime, e preveni-lo de todas as formas possíveis. Não queremos que a União Europeia dê apoio financeiro ao regime. Queremos ter a certeza de que se sentem pressionados. Que o mundo inteiro tem os olhos abertos.”

 

 



Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Belarus livre! O primeiro protesto contra o último ditador”