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Lendo: Em torno da educação. 3 perguntas a José Pacheco

Em torno da educação. 3 perguntas a José Pacheco

Em torno da educação. 3 perguntas a José Pacheco


As transformações na Educação foram abruptas e sem precedentes, não havendo tempo ou espaço para reflexões. Para contrariar esta tendência, colocámos três perguntas sobre as atuais alterações no sistema de ensino ao professor José Pacheco, responsável pelo pioneirismo da Escola da Ponte.

 

Com a atual crise de saúde pública, que leitura faz das decisões e prioridades do Estado Português relativamente ao processo educativo?

O governo tenta passar para a Internet um sistema de ensino centrado em aulas e notas, descurando o essencial: que a «ensinagem» passa para suporte digital e o genocídio educacional se perpetua.
Os projetos de humanização da educação contemporâneos não se coadunam com práticas escolares do século XIX. A Educação carece de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver. Requer que se transforme uma instituição obsoleta numa escola que a todos e a cada qual dê oportunidades de ser e de aprender. Urge conceber novas construções sociais de aprendizagem, nas quais, efetivamente, se concretize uma educação integral. Urge constituir redes de aprendizagem, que promovam desenvolvimento humano sustentável.

Já em 1916, António Sérgio, uma das maiores figuras da história da educação, lembrava aos seus contemporâneos que sem aprendizagem o ensino nada vale. Nas suas «Cartas sobre a Educação Profissional» referia que o «que importa não é a quantidade do que o professor diz, mas a qualidade do que o aluno ganha; não o programa que sai da cabeça do professor ou do legislador, senão o que entra e toma vida no espírito do educando».

Nos últimos anos, apesar da profusão de tentativas de reforma, programas, projetos, cursos e afins, não se logrou melhorar a qualidade da educação. Mas, Portugal tem tudo aquilo que precisa: professores competentes e projetos potencialmente inovadores. Só falta que as escolas deixem de estar cativas de um modelo educacional obsoleto e de uma gestão burocratizada, na qual os critérios de natureza administrativa se sobrepõem a critérios de natureza científica e pedagógica. A boa notícia é que essa mudança já começou. Se quiseres saber o que está a acontecer, nas margens de autonomia que a escola oferece, poderei contar…

Permite que corrija: as escolas não estão fechadas. O que está fechado é um prédio a que chamam «escola».

Os seus textos apontam para a importância de «assumir um compromisso ético com a educação». Neste momento em que todas as escolas estão fechadas e a educação é assegurada em casa, que compromissos éticos podemos assumir?

Permite que corrija: as escolas não estão fechadas. O que está fechado é um prédio a que chamam «escola». Nesse prédio, os alunos tiveram aulas sobre pandemias. E, em plena pandemia, não sabem como agir. Será difícil perceber que nada se aprende numa aula?

Escolas são pessoas, que aprendem umas com as outras mediadas pelo mundo. Neste momento, as famílias acostumam-se a uma rotina de isolamento, mas o vórtice do estresse pode afetar negativamente a harmonia do lar. Não conversar sobre a pandemia não é solução. Que aconteça aprendizagem! De forma sincera, ética, os pais deveriam conversar com os seus filhos, atentos aos seus sentimentos, aprendendo o outro, aprendendo a lidar com a situação. Aprendendo com o auxílio dos professores. Sem aula!

Que se aproveite esse tempo de isolamento social para romper micro isolamentos familiares. E que, atentos a inseguranças e a múltiplos traumas, se instituam modos de estar junto, reconstruindo afetos ignorados, ou esquecidos.

Para que aconteça o re-ligare família-escola, talvez apenas seja preciso que os professores sejam éticos. Se, dando aula, negam a muitos alunos o direito á educação, os professores não têm o direito de continuar a trabalhar desse modo. Mas, para que uma reelaboração da cultura profissional aconteça, é preciso cuidar da pessoa do professor, para que ele se veja na dignidade de pessoa humana e veja outros educadores e alunos como pessoas.

 

A passagem para um ensino à distância através de plataformas e recursos digitais deve ser acompanhado de uma reflexão sobre as problemáticas inerentes a esta transformação. Desigualdade no acesso à tecnologia, isolamento social, controlo de dados pessoais, excesso de exposição a ecrãs, entre outros. Qual a sua reflexão sobre os impactes desta mudança?

As aulas na TV e na Internet são generosas ofertas de informação. Mas, a aprendizagem não acontece numa sala de aula física ou virtual. É certo que as escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. O modo como as escolas utilizam a Internet fomenta imbecilidade e solidão.

Com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa ser reinventada. Do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias, que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consumam, sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais. Somos aprendizes de feiticeiro de novas tecnologias. Resta saber se o ser humano irá ficar intimamente ligado ao digital, sob risco de dependência crónica, ou invasão de privacidade, ou se o utilizará para se informar, para comunicar, para aprender e produzir conhecimento.

 


 

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M. Lima

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