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Lendo: Tudo se Vende, tudo se compra, na feira da Vandoma!

Tudo se Vende, tudo se compra, na feira da Vandoma!

Tudo se Vende, tudo se compra, na feira da Vandoma!


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Uma balada de R.P.Neto, Poeta & Fraude.

I.

-Imagina que eras uma mosca e tinhas consciência que eras uma mosca, não ficavas fodido com Deus?
in Conversas da vandoma

Era noite, principio de século, eu mudava-me para as Fontainhas. O Porto estava de ressaca, a contas com a cultura e havia um novo Presidente. O nevoeiro, vindo do mar, lavrou pelo rio e engoliu a cidade, a humidade caía como um lençol sobre as telhas cariadas. As Fontainhas pareciam um estaleiro depois de sucessivas demolições que rasgaram o bairro para abrir caminho à nova ponte. Havia ruínas por todo o lado. Chapas de zinco dividiam a alameda , a lama pegava-se às botas. Por causa das obras de requalificação a feira da vandoma mudara de sítio e durante algum tempo não se soube se iria voltar.

O bairro tinha má fama. Recordo que a minha mãe torceu o nariz quando lhe disse onde tinha arranjado um quarto para morar. Ela não conhecia o Porto, muito menos este sítio. Por essa altura dava aulas na cadeia da Guarda, cidade onde nasci, e muitas das suas alunas eram das Fontainhas, condenadas por pequenos crimes relacionados com o tráfico de droga. Alias, grande parte dos meus amigos do Porto tinha medo de se aventurar pela zona. Frequentavam-na nas manhãs de feira e na noite de São João, abrigados pela multidão e nunca pelas vielas labirínticas que ligam as entradas das ilhas umas às outras. A verdade não correspondia à fama. Havia pequenos esquemas de sobrevivência como luz roubada a um poste , vendia-se droga mas não enriquecia ninguém, por vezes surtos de violência ecoavam nas paredes, quase sempre disputas familiares. De resto, era só mais um bairro de gente pacata à procura de sobreviver, com os meios que dispunha, numa das zonas mais pobres da cidade do Porto.

A ponte do Infante estava longe de estar acabada. Nas margens do rio, ancoradas às escarpas de granito, duas plataformas desafiavam o vazio num jogo de contração, balanço e vertigem. No pacote de obras públicas que, a cavalo da capital europeia da cultura 2001, para sempre alterariam o mapa social do Porto, a ponte do Infante foi talvez uma das mais importantes: possibilitou a ligação de Metro entre a cidade Invicta e cidade de Vila Nova de Gaia por troca de valências com a ponte Dom Luís. O custo social foi a destruição de parte do bairro das Fontainhas, para construir os acessos à ponte por onde viria a passar todo o tráfego rodoviário proveniente da outra margem em direcção ao centro do Porto.
O sacrifício de uma parte da população com a desculpa do bem público é assunto que me é caro. No Meimão, aldeia do meu Pai que fica na Serra da Malcata, a construção de uma barragem inundou os melhores terrenos que havia para a agricultura. Esta encontra-se a jusante da aldeia e a sua água serve para regar os latifúndios da cova da beira, 40 km a sul, enquanto o Meimão muitas vezes se vê confrontado com a seca e sem acesso a ela. A negociação das indemnizações foi uma fraude. A população analfabeta, de parcos recursos e dividida, pouco pôde regatear contra os interesses da nação e de um grupo de latifundiários com ligações ao governo. Sem armas e educada na resignação, acabou por aceitar os centavos que lhe foram atirados. Deus vela pelos pobres.

Quando cheguei ao bairro todo este processo já ia adiantado. No muro da alameda, sobre tinta roída, lia-se num grafití: “Abaixo a ponte, viva a feira da vandoma!” Esse ano não houve a tradicional Festa São João das Fontainhas e nos anos que se seguiram, tanto a festa como a feira entrariam em declínio. A ponte, essa, foi inaugurada por um cidadão anónimo, muito antes de automóveis e peões conseguirem efectuar a travessia: Era manhã, principio de século, pela calçada subia um grupo de bombeiros, os vizinhos assomaram-se. Perguntei o que se passava e alguém falou. Durante a noite, num carro ali parado, um jovem discutira com pai. Repentinamente o rapaz fugira, desatando a correr pelo tabuleiro sem que o segurança da obra lhe conseguisse botar a mão. Lançou-se ao vazio. O corpo não chegou à agua e rebentou contra as rochas, junto à margem do rio Douro. Progresso, a palavra fetiche dos governantes, nem sempre é sinónimo de futuro.

 

II.

-No IKEA, só vendem mobílias para paredes direitas.
in Conversas da vandoma

 

 

Na escarpa que vai da Avenida Gustavo Eifell até à Rua do Sol, alvéolos de casas escalam o morro num exercício de engenho e improviso. Onde não há casas há esqueletos de casas, trepadeiras que se agarram à pedra e vingam sem derrota, e há abandono, muito abandono, culpa da câmara e das suas políticas. Da totalidade das casas que outrora aqui havia resta um terço, muitas delas devolutas. Lembro-me que, a seguir à derrocada do bairro da Tapada (o conjunto de casas que ficava na zona ocidental das Fontainhas) ouviram-se queixas da população contra a inacção da Câmara, que, sabida e avisada do problema de segurança nos muros que suportavam a base do bairro, nada fez para evitar a tragédia. Se há milagres este foi um: entre as cinquenta famílias afectadas pelo aluimento não houve uma morte. Na altura do drama não havia ninguém em casa, estariam todos a trabalhar. Milagre, estranha palavra para descrever uma tragédia que deixou cinquenta famílias, cerca de duzentas pessoas, sem casa de um dia para o outro porque Câmara e Junta foram incompetentes, ou porque outros interesses as impediram de fazer o que era a sua obrigação.

Quem conhece as Fontainhas sabe das virtudes da sua localização. Fica no centro histórico, recatada da agitação da baixa, com vistas para o rio e para a serra do pilar. O sector imobiliário desde há muito que tem interesse por esta zona. O assédio começou quando as Fontainhas ficaram fora do processo de candidatura da zona histórica a património mundial. A sua inclusão obrigaria à manutenção das fachadas e dificultaria a alteração da planta do bairro, caso contrário o título seria revogado. Com a exclusão abriu-se o caminho do reordenamento. Meses a seguir à derrocada no bairro da tapada, na zona desalojada, apareceram funcionários da Câmara que, sem notificar senhorios, demoliram os telhados que tinham sobrevivido intactos à tragédia. Não se prestaram a mais nenhum trabalho de limpeza ou remoção, deixando todo o entulho no sitio, o que aumentou a insalubridade do bairro e trouxe mais um foco de insegurança àqueles que decidiram ficar. As demolições continuaram nos anos seguintes. Houve uma altura em que parecia que toda a parte das Fontainhas que se ergue na escarpa viria abaixo pela mão da Câmara. A zona ribeirinha foi arrasada sem uma justificação. A estratégia era a mesma, demolia-se e deixava-se o entulho. A Câmara, pressionada, voltou a falar em falta de condições de segurança, em insalubridade, enquanto noutra capela um gabinete de arquitectos próximo do executivo ganhava um “concurso de ideias para a requalificação da Frente Ribeirinha do Porto, que contemplava a construção de um conjunto habitacional de luxo na escarpa” 1. O negócio é uma arte antiga e no Porto as putas são velhas.

Aqueles que mais sofrem nestes jogos de poder são os que menos têm a ver com o que se aposta na roleta de um casino. Aos desalojados foi-lhes prometido voltar, promessas levadas na corrente do rio. Alentaram-se ânimos com a construção do edifício da Cooperativa S. João das Fontainhas, na descida da Rua do Sol, mas cedo se percebeu que os apartamentos de luxo estariam acima das possibilidades dos moradores e acabariam nas mãos de gente de outra condição. Salvo talvez alguma família realojada no bairro de habitação social que se construiu atrás da Rua de São Victor, todos os que dependeram da câmara para não ficar no olho da rua foram parar aos bairros camarários da periferia. Bairros que parecem prisões, de blocos uniformizados, fáceis de patrulhar. Bairros que têm um fraco acesso à rede de transportes públicos, especialmente ao transporte nocturno, para que a juventude marginalizada que ali se cria não venha ao centro estragar a festa aos filhos privilegiados do burgo. Bairros cujo único futuro que oferecem é mais exclusão social. Em 2013 houve mais uma derrocada  seguida de demolição nas Fontainhas. Aos moradores do Bairro do Nicolau, desalojados à força por funcionários da Câmara e agentes da Policia de Segurança Pública, foi-lhes oferecido um apartamento “reabilitado e pronto a habitar” 2 no Bairro do Cerco, o sitio para onde a câmara pretende agora mudar a feira da vandoma. Os moradores recusaram-se até ao fim, preferindo uma habitação “degradada e insalubre” a ter que ir para uma casa por estrear no Cerco. Só isto devia deitar por terra as desculpas daqueles que defendem que a câmara se preocupa com o bem-estar e segurança destes moradores. Não caíram as desculpas, caíram as casas.

A história da feira da vandoma é a história do bairro das Fontainhas, ligadas pela sua condição e sorte. Após o primeiro desterro causado pelas obras de requalificação da Alameda, ao voltar às Fontainhas, a Câmara Municipal do Porto introduziu o sistema das licenças e lugares marcados, com um número limitado de postos de venda. Antes e durante a sua estadia na praça da cadeia da relação, a feira dispunha apenas de um regulamento. O que a Câmara fez foi criar duas classes de vendedores, os legais e os ilegais. Impossibilitados de vender dentro do perímetro imposto, os vendedores ilegais começaram a vender onde lhes era possível, espalhando as mantas pelo bairro. A Câmara ainda ensaiou algumas medidas de repressão, impedindo, através da multa, que os ilegais assentassem manta. Mas a arquitetura de Medina do bairro permite o jogo do rato e do gato e a venda ilegal prosseguiu. A segunda tentativa de controlo foi a abertura da Calçada da Corticeira aos que não tinham licença. A Calçada é uma via íngreme que liga o rio à alameda. A venda na feira só era permitida depois das 5 da manhã, e os ilegais só eram autorizados a entrar na calçada depois dessa hora. Quem por lá passasse, antes da feira começar, veria como os ilegais se acotovelavam atrás do cordão, à procura de se chegarem mais à frente para poderem ficar com os lugares cimeiros, evitando ser relegados para o fundo da calçada à beira rio. Eram frequentes as zaragatas. As pessoas, quando são tratadas como bestas, portam-se como bestas.

Com o chegar da crise as demolições pararam e a feira triplicou de tamanho. Sem dinheiro para construir, os projectos voltaram para a gaveta. Sem dinheiro para se governarem muitas pessoas vieram à feira vender os seus bens, outras mais vieram tentar esticar o magro orçamento de que dispunham para comprar bens essenciais como uma peça de roupa, uma lâmpada, um brinquedo. Um sinal de como os tempos não eram de brincadeira foi o facto de se começar a ver a venda de alimentos na feira. Toda a gente tem necessidade de comer. Com a inconsequência das medidas de repressão a Câmara não quis responsabilizar-se por procurar outra solução, como o encerramento do trânsito no recinto e na área envolvente, ou a abertura à venda da parte oriental da Alameda. As queixas começaram a ouvir-se. Os vendedores licenciados queixaram-se dos ilegais, porque viram a concorrência aumentar. Os vizinhos queixaram-se dos vendedores, do barulho, do lixo e da ocupação. Muitas destas queixas vieram do edifício da Cooperativa S. João das Fontainhas. Gente de outra condição, acabada de chegar ao bairro e que não está disposta a ter os acessos à garagem bloqueados por mantas e pechisbeques.

 

III

-As focas são as sereias dos cães.
in Conversas da vandoma

 

É Sábado, fim de manhã, dia de feira, a última anunciada. Passaram-se onze anos desde que me mudei das Fontainhas. O Porto está de farra, a contas com o turismo e há um novo Presidente. Gostava que a vandoma, depois do São João voltasse para aqui, eu e muitos portuenses achamos que é o melhor sítio para ela. Gostava que aqueles que aqui nasceram ou que para aqui se mudaram não tivessem que sair só porque a sua condição social não lhes permite permanecer. O processo de remapeamento demográfico a que agora chamam gentrificação, e que não é mais que velho capitalismo, chegou às Fontainhas. A higienização de um espaço através da arte, da cultura, da arquitectura, em vista a conformá-lo à moral dominante, que nos dias que corre é a moral capitalista, a moral burguesa, está a acontecer aqui na alameda. A instalação de um palco do festival Primavera Sound, a requalificação de casas em albergues de turistas, a limpeza dos grafitís, são a evidência disso. Lá em baixo, à beira rio, começou a construção de um hotel de luxo. As vistas são belas e para se ter o belo tem que se ter cheia a bolsa.

Sei que a memória é feita de esquecimento, sei que é perigoso fiar-se dela, sei que nada foi como nós nos lembramos que foi. Fito o mural que a Câmara encomendou para o sítio onde um dia alguém exclamou em tinta barata: “Abaixo a ponte, viva a feira da vandoma!” e vejo um Porto idealizado que desafia o vazio num jogo de contração, balanço e vertigem, ancorado entre duas escarpas de granito. Vejo um rapaz que um dia se fartou do mundo e se lançou nesse vazio. Vejo as gaivotas, voando, indiferentes ao abismo, e pergunto-me se tudo isto aconteceu, se tudo isto não será só uma fabulação da mente. Neste tempo que um Porto se vai apagando para dar lugar a outro Porto, o nevoeiro lavra agora pela minha cabeça engolindo memórias e fantasias, deixando-me apenas com uma voz que deve ser igual à que se ouve nos sonhos.

R.P.Neto
Porto, Fontaínhas, dia seis de junho do ano dois mil e quinze.

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One Person Reply to “Tudo se Vende, tudo se compra, na feira da Vandoma!”

  1. Uma sucessão de tristes acontecimentos (muito ao estilo contemporâneo português) resultaram no melhor texto que li nos últimos tempos! Agradecida pela oportunidade