Amanhã, Ontem e Hoje

26 de Abril de 2018
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Ontem éramos entre 7 000 e 10 000 manifestantes, consoante as fontes, em defesa da Zad* de Notre Dame des Landes, atacada e parcialmente destruída pelas forças do Estado. O que a comunicação social silenciou completamente é que se tratava da junção de duas manifestações, uma das quais, muito participada e organizada duas horas antes contra a política anti-social de Macron, com sindicatos e tudo, se tinha reunido à outra.

Durante muitos anos, estive ausente dos movimentos sociais franceses, de modo que desconhecia que, agora, para ir a uma manifestação, era preciso munirmo-nos de óculos de mergulho, de lenços de cabeça, capuzes, gorros ou inclusivamente de máscaras de gás, de limões, de soro fisiológico, de números de telefone de advogados, de equipas médicas…

Não precisei de muito tempo para perceber que as pessoas mascaradas, de capacete, vestidas com corta-ventos pretos, não eram todas, longe disso, blackblocs, e que o melhor era equipar-me rapidamente com os mesmos sinais exteriores: ao fim de uns meros vinte minutos, encontrávamo-nos bloqueados/as diante do castelo dos duques da Bretanha. Ameaçados/as desde o início por um helicóptero ensurdecedor bem em cima de nós, imobilizados/as, frustrados/as e impedidos de nos manifestarmos por um impressionante aparato desses personagens surreais que dão pelo nome de gardes mobiles**, vimo-nos obrigados, pouco a pouco, a recuar, tentando não entrar em pânico e não correr, mal-grado os tiros de granadas lacrimogéneas disparados sobre o âmago da manifestação. Granadas ensurdecedoras, canhões de água, helicóptero, balas de borracha para aquelas e aqueles que se encontravam à frente… pincelados/as de limão, com a cabeça envolvida em lenços, fomos separados em vários grupos pelos mutantes de escudos transparentes. O jogo foi lento. Vimo-nos encurralados/as num corredor entre o gradeamento da linha de caminho-de-ferro e os carros dos CRS, as suas forças vivas prontas para carregar.

A fúria que se apossou de mim quando conseguimos sair daquela ratoeira, e quando a minha crise de pânico finalmente se acalmou, por aquilo que aqueles loucos/as aceitavam, sem pestanejar, fazer-nos passar (e, como eu estava perfeitamente consciente, ainda era apenas uma mera introdução à arte de gerir insurreições) ter-me-ia convencido, se não o estivesse já, de que uns insignificantes paralelepípedos e pedras lançados contra estas paredes de desprezo e de ódio eram mais do que justos. Em todo aquele caos orquestrado pelo Estado à nossa volta diante do hospital e na place du Commerce, no meio das pessoas que andavam às compras e dos basbaques nas esplanadas, à vista dos turistas que se amontoavam junto à muralha do castelo dos duques da Bretanha, não vi nem uma montra partida. Quando muito, um caixote do lixo a arder.

Hoje, viemos à Zad para apoiar as pessoas no local, para começar a reconstruir.

Passamos por barragens de polícia com controlo da identidade de todos os passageiros dos veículos. Estacionamos longe, caminhamos através dos campos.

Somos milhares.

Entre 3 000 e 20 000, impossível saber. Há gente por todo o lado.

O helicóptero (que, segundo me dizem, ronda dia e noite), sabe-o com certeza. A sua ameaça é repetida pelo drone que se encontra à nossa frente, uma provocação sob a forma de um mosquito tecnológico gigantesco. Caminhamos durante muito tempo, as pessoas encontram-se, reconhecem-se. Unidos por um espírito alegre e solidário, levamos víveres, cobertores e material médico até ao lugar de Bellevue. O local de concentração «final» é um terreno onde irá ser construída uma estrutura de madeira destinada a reparar a que fora destruída no dia anterior. Como ontem, o fim do caminho é desenhado por hordas de gardes mobiles posicionados num terreno.

A estrutura será reconstruída, voltaremos e pôr o lenço e os óculos enquanto choramos por causa do gás, ficaremos imóveis durante horas diante destes play mobiles, e vê-los-emos também recuar como fantoches, num ballet absurdo, os sitiadores sitiados, num cenário campestre que confere a todo este espectáculo um tom absolutamente surrealista. Cantaremos e dançaremos, evidentemente, mas à vista das espingardas de balas de borracha empunhadas por aqueles/as que estão diante de nós; também teremos medo.

Os amigos e amigas que vivem no local ou que vieram dar apoio há uma semana estão esgotados pelos ataques permanentes, incessantes, pelas detenções, pelos feridos/as por balas de borracha…

Enquanto, por volta das 19h, muitos de nós fazemos o caminho de volta, atravessando a pé os bosques e os campos para ir buscar os carros, ouvimos as salvas intensas e contínuas das granadas. Terá havido muitos feridos, cuja contabilidade será feita no dia seguinte.

Paramos a meio caminho para beber uma cerveja num terreno, debaixo de um toldo branco resplandecente montado no meio dos dentes-de-leão em flor iluminados pelo sol; e atrás de nós, ao longe, um arco-íris destaca a estrutura que fora reconstruída.

Enquanto percorro o caminho da Zad, uma conversa com uma amiga recorda-me um projecto antigo de escrever uma pequena carta acerca do filme «Amanhã», que teve tanto êxito. Agora já não é o momento. Mas o que interessa é isto:

o que me chocou no filme (em sentido próprio) foi tê-lo visto como uma propaganda, foi ele não apresentar nenhum projecto colectivo, autogerido, sem hierarquia. Anarquista ou tribal. Ocidental, indiano ou africano. Não. Em todo o planeta (que eles percorrem alegremente de avião para cá e para lá para entrevistas relâmpago), por todo o lado, mentores e mentoras (por mais distintos que sejam, como Vandana Shiva), excelentes especialistas, autarcas de grande coração, professores entusiastas, patrões simpáticos.

Tocamos aqui no centro do sistema.

No ponto G de todo o movimento passado e futuro, se nos colocarmos do lado dos vivos.

No cerne do cancro que, por si só, pode corroer um sistema até ao fim, se olharmos do ponto de vista da máquina. Volto a ouvir uma jornalista de France Culture, que, no seu relato da situação em Notre Dame des Landes não se cansava de repetir a frase, «desde que eles regularizem a sua situação individualmente». E de repente vejo com uma clareza total o que até aqui só pensava nebulosamente:

Aqui, isto não pertence a ninguém. Não há nomes nem mentores. Não há funções atribuídas de forma imutável nem regularizações individuais. Ponto cego para o capitalismo que o faria perder a cabeça se tivesse um coração, se fosse um ser;

ponto central, ângulo morto, ponto de viragem completo.

Amanhã, hoje, ontem, seja qual for o projecto, enquanto não atravessarmos este espelho, não pusermos a questão da autogestão, da não-hierarquia e da propriedade individual, nada de fundamental mudará. Nunca.

Amanhã, 16 de Abril, na France Inter, uma Camille, da Zad, dirá tudo com uma simplicidade extrema:

«Habitamos este território de uma maneira múltipla. De manhã, podemos ir mungir as vacas, depois, organizar um banquete numa estalagem com quem trabalhamos, à tarde, ocupar-nos da biblioteca.

As actividades são inextricáveis.»

Viva a inextricabilidade da vida na vida, vivam as Zads do mundo inteiro, que, saibam-no ou não alguns, queiram-no ou não alguns, existiram, existem e existirão.

Gaëlle

Domingo, 15 de Abril de 2018

** Zad – Zone à défendre [zona a defender]

**** Polícia de intervenção.

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