De Paris para as nossas amigas espalhadas por todo o mundo

20 de Março de 2018
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Josef Koudelka, Magnum Photos.


«Podíamos, então, fazer o seguinte: em vez de comemorar 1968, tentar organizar um belo mês de Maio de 2018»

A partir daqui, deste país onde respiramos um ar cada dia mais rarefeito, onde nos sentimos cada dia mais alienadas, nada mais poderia surgir entre nós do que esta usura que nos devora, à força do vazio, à força da farsa. À falta de melhor, munimo-nos de palavras, a aventura era literária, o compromisso era platónico. A revolução amanhã, a revolução possível, quantas de entre nós ainda acreditam nisso?

Pierre Peuchmaurd, Plus vivants que jamais (1968)

As brasas brilham por baixo das cinzas da anestesia macroniana. O governo sabe-o. É por isso que garante que se poupa a toda a análise crítica. É por isso que só se atacam as fracas ou as que se declaram vencidas à partida. É a estratégia da não-batalha: uma guerra onde a vitória consiste em esquivar-se de todas as batalhas fundamentais.

Não há adesão às manobras governamentais fora das esferas governamentais, elas próprias principalmente mediáticas. O que há é uma imensa indiferença, um desinteresse, uma fadiga e uma desmoralização sobre a qual as proprietárias do espaço público trabalham assiduamente, dia após dia.

Mas, desde o fim abrupto do movimento contra a «loi Travail», há também todo um conjunto de energias difusas, todo um conjunto de deserções imperceptíveis que fazem discretamente o seu caminho. Há todo um elemento inflamável em suspensão, que apenas espera por uma ocasião para se reagrupar, uma ocasião que não seja a repetição mecânica da táctica obsoleta da «cabeça de manif». A isto juntam-se, apesar da hábil comunicação governamental, tão pródiga em inversões, em efeitos surpresa, em jogos de cintura e faz-de-conta, os primeiros efeitos da política realmente aplicada. Estes efeitos reais suscitam descontentamentos que já não se deixam iludir por tantos artifícios. Nem toda a gente está a sufocar, mas o burn out geral já não está muito longe. Então porque não partir tudo antes que tudo nos parta a nós. Em vez de esperar que o poder nos forneça a ocasião, coisa que nunca fará, de parar o comboio da desventura onde nos conduz, porque não precipitarmos, nós mesmas, esta ocasião? Porque não a decidirmos? E, já que todas as razões para fazer a revolução estão aí, porque não dar-lhe datas e concentrar as forças?

Parece que em Maio próximo há quem queira comemorar o Maio de 68. Nós, francamente, estamo-nos a cagar no Maio de 68. Fizemos melhor. Os nossos tags da Primavera de 2016 relegam os de 1968 para a categoria de «podias ter feito melhor», tanto em quantidade como em qualidade. Honestamente, entre o «no sabotar há beleza» e «desfrutar sem tempos mortos, viver sem entraves» não há discussão. Há toda uma distância entre a petulante e a laboriosa. E os nossos motins, nada a dizer: mais bem organizados, mais bem equipados, sem necessidade de serviços de ordem trotsquistas ou maoistas, sem necessidade de Assembleias Gerais intermináveis, sem necessidade de líderes. Tudo com fluidez, com multiplicidade, com inteligência da situação. Só que, como ainda aqui estamos, não há ninguém para nos comemorar. Ok, tudo bem, não bloqueámos o país. As ocupações não foram isso. Os sindicatos foderam tudo em termos de greve. Não éramos milhões. como em 1968. E, depois, temos um grave problema de perspectiva: antes, bastava tomar o mundo nas mãos, mais ou menos tal e qual, agora, dum lado o mundo está completamente lixado e, do outro, o que funciona é de tal forma horrível que muitas vezes não há nada a fazer para além de o mandar para o lixo. Grosso modo, antes tratava-se de se reapropriar do que existia, agora também é preciso destruir e reparar. Sem contar que nós próprias também não estamos necessariamente em bom estado. Então, é preciso trabalho e vai ser preciso muita imaginação, muita sensibilidade e nenhuma má disposição para a metamorfose.

O que retemos do Maio de 68 são 4 coisas:

1 – já havia «vândalas», na época, mas, quando somos muitas vândalas, já não somos vândalas, somos um acontecimento;

2 – Não se chega a lado nenhum se não se conseguir bloquear o país;

3 – Ao nível da devastação da Terra, da perda do sentido de tudo, da zombificação das pessoas, da aberração da ordem social, do triunfo da tecnocracia e do aumento da infelicidade, o capitalismo aplicou-se para concretizar com método tudo o que de mal se dizia dele em Maio de 68;

4 – Já que, em 68, ao organizar a abundância, o poder recebeu motins, disse-se que, ao organizar a penúria, talvez houvesse calma. Não temos a certeza que tenha havido calma, mas conhecemos a penúria, sem dúvida que nos deixámos levar tranquilamente.

Então, nós estamo-nos a cagar para o Maio de 68. Não nos aquece nem arrefece que o Cohn-Bendit seja amigo do Macron e do Debord na Biblioteca Nacional. E, sobretudo, não é uma razão para não nos encontrarmos em Maio próximo, dada a situação. Não vamos deixar Macron desenvolver os seus planos tranquilamente durante dez anos. Não vamos deixar que caminhe sobre nós a recitar-nos Molière. Queremos destruir o desastre.

Podíamos, então, fazer o seguinte: em vez de comemorar 1968, tentar organizar um belo mês de Maio 2018.

Aumentar calmamente a pressão à volta da manifestação dos trabalhadores dos caminhos de ferro de 22 de Março (qual seria a estratégia que ultrapassasse a forma como a Câmara ultrapassou «cabeça de manif»? Porque não apelar, para essa noite, a uma grande discussão aberta a todas sobre o que se poderia fazer em Maio?).

Tecer ligações com quem quiser fazer qualquer coisa mas também perceber que as «poderosas centrais sindicais» já não são «uma ferramenta de luta adequada», para dizer as coisas de forma simpática.

Entre 22 e 31 de Março, levar a cabo acções de forma a fazer o governo entender que expulsão = luta, seja pela ZAD, pelas migrantes ou pelos espaços ocupados.

Em Abril, mantermo-nos presentes, estar atentas, mas sobretudo preparar um 1º de Maio bem revolucionário em Paris – os dois últimos não foram maus apesar da ferocidade crescente das tácticas policiais. Para além disso, por causa da data, haverá todo um conjunto de gregas, italianas, americanas, inglesas, belgas, alemãs que tripam um bocado com o Maio de 68 ou com o que se passou em França nestes últimos anos. Evidentemente, será preciso pensar em convidá-las explicitamente para virem para essa ocasião, convidá-las a ficar também, e acolhê-las e fazê-las sentir que são bem vindas.

De agora em diante está tudo por construir – ocupações, bloqueios, greves, start ups a riscar do mapa, noites de discussão, manifestações selvagens como já não nos atrevemos a fazer, manifestações já anunciadas, bordelizar o centro yuppie de Paris, e não faltarão alvos nem oportunidades em Maio de 2018. Mas para isto, é preciso começar hoje a reunir todas as peças disponíveis em todos os horizontes. Em suma: declarar a nossa vantagem (afinal, o que é celebrar o Maio de 68 enquanto o motim for ilegítimo, a ocupação ilegal, a aniquilação do poder inimaginável, a revolução impossível e a felicidade proscrita??!!)

Declarar a nossa vantagem até ao ponto de ruptura.

Siga-se a conversa em privado!

Nada acabou, tudo começa.

https://www.lespaves.net/depuis-paris-a-nos-amis-disperses-de-par-le-monde/?lang=fr

https://www.lespaves.net/invitation-from-paris/

imagem retirada do website lespaves.net

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