Felizmente continua a haver luar (Abril 2017)

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Conversa com o meu primo americano

A crise da representação e os novos monstros saídos das urnas.

« Pusemos tudo [a situação mundial] em total desordem e ninguém sabe nem como nem onde procurar os meios de a controlar. (…) O demónio anda à solta. (…) Esta é a Idade do Poder, do poder puro e simples. Agora a escolha é entre céu e inferno ; já não é possivel meio-termo. E tudo indica que vamos escolher o inferno (…) Todos, homens, mulheres e crianças, identificados com esta civilização, vamos entrar na nossa Estação no Inferno. É isso que temos andado a pedir ; cá está. »

Henry Miller, O tempo dos assassinos (1955), tradução José Miranda Justo, p. 46, Antígona, 2016.

«Nenhuma derrota é somente feita de derrota — porque o mundo que ela revela é um território de cuja existência nunca tínhamos suspeitado.»

William Carlos Williams, Paterson, 1963.

A surpreendente eleição de Trump e a consequente tomada de posse da nova administração republicana levantam inúmeras questões e inquietações diversas. Em conversa amena com o meu primo da América, avançam-se ideias e hipóteses que podem ajudar a orientar o espírito crítico através do denso nevoeiro que envolve a crise política da mais poderosa das sociedades do mundo capitalista.

Não se pode compreender a eleição de Trump sem ter em conta o estado de desastre económico e social permanente que aflige grande parte da América : a desindustrialização, decadência e devastação de regiões inteiras. Tão pouco se pode separar o resultado desta eleição da crise profunda que atravessa hoje o sistema de representação na América, como noutros lugares do mundo democrático. De uns anos a esta parte o novo liberalismo económico refundou a ordem capitalista, tendo sido responsável pelo declínio das condições de vida da antiga classe trabalhadora e, no caso especifico americano, pela falência do mito do «sonho americano». Este ficou soterrado entre as ruínas da sociedade, das suas infra-estruturas, dos sistemas de saúde, de educação, da crise moral e mental das populações.

Num recente artigo publicado na imprensa alemã, um «especialista» do Instituto da Economia mundial, de Kiel, escreve: «Vivemos uma época em que a ordem mundial liberal é posta em causa». Dito de outra forma, a eleição de Trump, o apoio inequívoco e entusiasta que a sua demagogia encontrou em sectores do povo americano, podem ser vistos como a primeira grande reacção política às consequências sociais desta ordem liberal.


Meu Primo Americano (PA): Sem dúvida! Só que, e segundo os esquemas tradicionais, esperava-se esta reacção apoiada em ideologias de esquerda. Esperava-se um renascer dos projectos keynesianos, a reivindicação de uma maior intervenção do Estado na economia e no social. Ora não é isso que observamos.
A reacção vem, ela também, com o selo do liberalismo, mas aparentemente de forma contraditória, centrada em valores xenófobos e proteccionistas, isolacionistas e em última análise reaccionária. No entanto, e a este propósito, é importante relembrar que entre as classes populares norte-americanas o clã Clinton ficou associado ao desmantelamento do frágil sistema de ajudas sociais, o welfare. As administrações Clinton representaram uma espécie de período « blairiano» nos USA. Onde Blair desenvolveu a violenta deriva liberal de Thatcher, Clinton fez o mesmo com a herança de Regan. Isto explica em parte a fraca popularidade da senhora junto do eleitorado popular e da classe operária. Acrescente-se a isto a desilusão com o imobilismo e o oportunismo da administração Obama para com as classes pobres, imigrantes e trabalhadores negros. Da juventude nem se fala: a marginalização pelo partido democrata da candidatura Sanders, a única oposição legitima e viável a Trump, constituiu um factor decisivo para afastar a juventude do dito partido.

De uma forma mais geral pode ver-se nesta eleição, como em outras, os sinais evidentes de uma crise do sistema representativo, no qual muita gente já não acredita e que um número crescente de «cidadãos» vê como inadaptado ao momento presente. A corrupção generalizada das elites políticas e o seu imobilismo são factores que aumentam este descrédito. O acto de votar, para além da natureza autoritária que comporta a delegação de poder, já não é um momento de «liberdade dos cidadãos», mas um momento de obrigação, de opressão, de submissão à escolha do mal menor. A Impotência e a frustração, inerentes à condição de «eleitor» e de «cidadão», incitam ao desespero e à procura de indivíduos providenciais que se vendem como anti-sistema, mesmo quando são o puro produto do sistema. Efeito perverso desta falta de confiança no sistema representativo, os «eleitores» deixam-se mesmo seduzir por membros das elites capitalistas que elegem sob o pretexto de que, sendo já ricos, não utilizarão o poder para roubar… Será assim preferível os pobres delegarem o poder aos ricos para que eles se ocupem dos pobres. Neste cenário decadente, as forças da velha esquerda, representadas nos Estados Unidos pelo partido democrata, estão em estado de implosão, divididas entre facções que se devoram, totalmente desacreditadas. No melhor dos casos governam pelo imobilismo, como fez Obama, no pior dos casos governam submetidas à regra de ouro do liberalismo triunfante.

­ PA: O que, por agora, é evidente só para uma minoria. Trump corresponde exactamente ao que acabas de dizer. Mas ele é também, claramente, um racista e um xenófobo, com instintos autoritários evidentes e com uma ambição desmedida pelo poder e pela riqueza. Uma criatura monstruosa, produto do belo sistema em que vivemos. Mas tudo isto não é novo na democracia política, e ainda menos na história americana. Mas não se deve esquecer que a sua administração é mais do que ele próprio. Um dos seus conselheiros políticos mais próximos, Steve Bannon, é um supremacista branco com ligações neonazis que, nos últimos anos ergueu um dos projectos mediáticos mais influentes da actualidade norte-americana e que desde o princípio mostrou ter um certo domínio sobre o funcionamento da Casa Branca, aliado a reaccionários patenteados como Stephen Miller ou o cunhado de Trump, o jovem Jared Kushner, um milionário do imobiliário ligado aos sectores sionistas mais agressivos. São alianças estranhas entre personagens diferentes, mas unidas por um projecto reaccionário.

Outra curiosidade é a aliança deste grupo com os sectores mais extremos do partido republicano, em particular o Tea Party, uma tendência que sempre defendeu a ideia de uma diminuição do papel do Estado federal, e que se encontra hoje a defender um projecto de reforço do mesmo Estado, sobretudo na repressão da imigração e no isolacionismo económico…

Estamos perante uma situação mais complexa do que o habitual. Um dos aspectos da crise da política actual é a implosão e reestuturação das forças tradicionais. Numa recente entrevista a uma rádio livre de Nova Iorque, o antigo jornalista do Guardian, Glenn Greenwald, agora à frente do projecto The Intercept fez uma análise da nova administração Trump que me parece lúcida. O pessoal político de Trump constitui uma nova elite dirigente que se distingue da tradicional elite de Washington. A nova elite é composta de gente ligada aos meios da grande finança e do capitalismo especulativo e do petróleo, em parte ligada à nomenclatura militar. Ela vai ter que criar o seu espaço dentro do Estado e das instituições e encontra uma forte oposição da antiga elite, que tem o apoio do Estado dentro do Estado, que é em grande medida a CIA, The Company, como dizem os americanos. Esta instituição tinha abertamente apoiado a candidatura da senhora Clinton, que prometia um maior envolvimento nas guerras do Médio Oriente, em particular na Síria. O grupo ligado a Trump, pelo contrário, parece aceitar que a questão síria fique a cargo dos russos. Tudo isto são especulações. O que é certo é que esta luta no seio da classe dirigente abre espaços novos, dos quais poderão sair movimentos positivos ou reacções ainda mais violentas e selvagens. Num primeiro momento, parece que este espaço está a ser progressivamente ocupado por elementos ligados ao segundo Estado dentro do Estado, o complexo militar-industrial e o Pentágono. A promessa de um aumento de 10% do orçamento militar confirma esta tendência. Deste ponto de vista poderá dizer-se que Trump, por trás da sua máscara teatral e demagógica, é um personagem fraco, dependente destas novas alianças e relações de força em formação.

­ PA: A agenda política de Trump é antes de mais guiada pelos seus interesses financeiros e especulativos, engendrando uma visão de política estrangeira confusa onde surge a ideia de uma insólita aliança com a Rússia. No campo interior, social, a orientação é estabelecida pelos supremacistas brancos (da chamada Alt Right (Alternative Right). Ela tem como objectivo a destruição do quadro legal dos direitos civis dos últimos 60 anos. Existem duas correntes principais na ampla base da administração actual na sua relação com a elite de Washington. A corrente do Tea Party tem objectivos económicos precisos, essencialmente a eliminação de todos os programas de ajuda social e médica, Medicaid para os idosos, Medicare para os pobres e o Obamacare, sistema que tentou abranger os milhões que não eram cobertos por nenhum dos outros programas mas sobretudo ligado aos interesses dos seguros privados das seguradoras. Há também o projecto de redução dos impostos para as empresas, a liberalização dos controles ecológicos e o incremento da exploração devastadora da extracção de petróleos e ainda mais grave, do carvão. Obviamente, tais objectivos implicam a rejeição de todos os estudos e conclusões sobre o aquecimento global e suas consequências. A segunda corrente é a da direita religiosa, em parte independente da primeira, que insiste mais nas questões de ordem moral, na oposição ao aborto e às políticas de planeamento familiar, bem como na oposição aos direitos dos homossexuais e dos transexuais. O que eles chamam «liberdade religiosa» mais não é que um eufemismo para descriminar, na base da orientação sexual ou crença religiosa. O vice-presidente Pence é um fanático evangelista e, com a sua nomeação, o clã Trump, que não pertence a esta corrente, procurou cooptar e pacificar o extremismo religioso.

Em troca, estas duas correntes apoiam os projectos proteccionistas e de repressão xenófoba dos imigrantes. Para concluir, a nova administração está nas mãos de ávidos capitalistas e especuladores que contam com estes projectos para continuarem a pilhar facilmente a riqueza social.

A fragilidade política desta geringonça e o facto de Trump não ser um homem do aparelho do partido republicano, do qual não partilha os valores e a ideologia, levantam algumas dificuldades à sua administração

­ PA : Sim. A primeira dificuldade nasce da sua ideia de criar uma nova aliança com a Rússia de Putin para se opor à China e aos seus interesses imperialistas que colidem com os dos Estados-Unidos. A nomeação do patrão da Exxon-Mobil, um homem ligado aos interesses do sector da energia russo, como Secretário de Estado não é um acidente. As demissões e as dificuldades de vários altos membros da sua administração provam que esta relação com a Rússia parece levantar o primeiro grande conflito entre a nova e a antiga elite da classe dirigente. E é também no vazio criado por este conflito que os representantes do Pentágono e da CIA têm avançado os seus piões.


A segunda dificuldade reside na questão do proteccionismo, na instauração de novos impostos sobre as importações, proposta que divide a classe capitalista. As forças capitalistas orientadas para a exportação, como é o caso da aeronáutica e dos sectores de alta tecnologia apoiam a medida. Pelo contrário, os sectores capitalistas de bens de consumo e dos serviços sabem que serão fortemente penalizados pelos novos impostos e também pela política anti-imigração. Os 13 milhões de imigrantes sem papéis são um factor de alto rendimento para estes sectores, que não vêem como a velha e cansada classe operária americana, brancos e negros, poderá substituir esta mão-de-obra dinâmica e extremamente barata. Além do mais, a ideia do «comércio livre» foi sempre um dogma económico na ideologia do partido republicano. Uma guerra dos impostos e de direitos alfandegários seria desastrosa para a economia, e é possível que, para além da ideologia, haja ainda um resíduo de realismo económico num partido republicano à deriva.

Por fim, o projecto vago e megalómano de «reconstruir a América», isto é, as suas infra-estruturas em ruínas, desde as pontes até aos sistemas de abastecimento de electricidade ou a rede de canalização onde ainda existem vastos sectores com canos de chumbo, ainda que profundamente necessário pode aprofundar os antagonismos e a concorrência no seio da classe capitalista. Claro está, a administração Trump vê este projecto como uma forma de continuar a pilhar de forma privada os fundos públicos.

Mas, num futuro imediato, o oportunismo e a ambição de conservar o poder incitará sem dúvida o partido republicano a apoiar a nova administração para além das divisões e desacordos.

Tudo vai depender, em última análise, da oposição social aos projectos da nova administração. Após um primeiro período de reacção às medidas anti-imigração e também aos projectos de destruição do Obamacare, instalou-se uma fase de expectativa. No que diz respeito ao Obamacare, Trump foi incapaz de reunir votos suficientes para passar a sua lei, o “American Healthcare Act”, que mais não era que um Obamacare recauchutado e com ainda mais problemas. É provável no entanto que uma versão ainda mais extrema desta nova lei possa ser proposta a médio prazo.1 Determinante será também a evolução da repressão sobre a população afro-americana. Tendo em conta a presença de representantes dos sectores supremacistas brancos na nova administração, não há lugar para grandes ilusões.

No imediato, a reacção anti-Trump na sociedade é muito forte, sobretudo entre os jovens, as mulheres e os trabalhadores imigrantes das grandes zonas urbanas. Inúmeras actividades e projectos de resistência ganham forma. O espirito de Occupy e do movimento Black Lifes Matter e outros continuam vivos na sociedade. Paradoxalmente, e ao contrário do que se passa em geral com as campanhas eleitorais, a campanha de Sanders não terminou em desmobilização, mas permitiu que este espírito ganhasse uma dimensão nacional. As grandes manifestações espontâneas nos aeroportos contestando as primeiras medidas destinadas a limitar a entrada de viajantes oriundos de países muçulmanos exprimiram bem este estado de espírito e deram voz e emprestaram força às acções legais que levaram a justiça a anular as decisões de Trump. Uma das ideias hoje lançadas pelo movimento de oposição é a da criação de «zonas protegidas», onde os imigrantes poderiam encontrar apoio e refúgio. Mas tudo isto é embrionário e vago. Sobretudo que esta ideia de «zona protegida» implica a não intervenção, ou pelo menos a tolerância, da polícia dos Estados e, portanto, a colaboração do partido democrata, que tem o poder local em muitas destas grandes cidades, mas a concretização desta possibilidade não parece óbvia, longe disso.

­ PA: A este propósito acho que é importante de reflectir sobre a ideia recorrente segundo a qual um «regime fascista» estaria em gestação à sombra da administração Trump, ideia que me parece falsa e induzir conclusões e acções erradas. O termo Fascismo é por demais utilizado e, na prática, perdeu conteúdo para a maioria das pessoas. A velha esquerda, em vez de analisar o porquê da vitória de Trump, obstina-se a tratá-lo de fascista e a condenar em termos morais as suas atitudes e decisões. É verdade que as políticas propostas pelo gangue que rodeia Trump, Banon em particular, têm uma conotação fascista. O slogan «America First!», lançado por esta gente, faz referência à ideologia da corrente fascista isolacionista de Charles Lindberg, da década de 1930, que defendia a não-intervenção dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e exprimia simpatia para com a Alemanha nazi. Mas o fascismo foi antes de mais um movimento de massas com um projecto de intervenção rígida do Estado em todos os campos da vida económica, social e cultural e esse não é o projecto de Trump nem da grande maioria das tendências políticas que o apoiam e que são ferozmente ultra liberais. Tão pouco se pode considerar que uma mobilização eleitoralista tenha um carácter de movimento de massas! A existência de milícias supremacistas brancas e anti-imigrantes — fenómeno que data já de há anos e que tem uma presença muito limitada na sociedade — não pode ser assimilada à existência de um partido fascista de tipo clássico.

Passamos do «fim da História» para uma História que está a acelerar, e o movimento das sociedades ultrapassa a capacidade que temos para o analisar com os conceitos que nos vêm do passado. Vamos falando, sempre ajuda…

(Ilustrações de José Smith Vargas)

1 (Nota do corrector com a qual está de acordo o autor) Durante o período Obama, o Obamacare foi o grande e mais consistente cavalo de batalha republicano. A campanha foi tão consistentemente agressiva que numa sondagem recente, quando perguntados o que pensavam do Obamacare, uma parte substancial respondia muito negativamente, mas quando perguntavam aos mesmos o que pensavam do Affordable Care Act (nome real da lei), respondiam que viam o programa positivamente. O problema, então como agora, é que o programa é relativamente consensual entre as elites políticas de ambos os campos: deu cobertura a muita gente que não a tinha (só não foram mais porque vários governadores republicanos o rejeitaram) mas acima de tudo representou um subsídio brutal para as seguradoras. A oposição republicana foi desde o início quase exclusivamente “estratégica”. Durante a campanha o Trump usou o tema pela visibilidade que tinha, como usou outros, mas nada mais. Não havia um plano ou intenção que não fosse explorar políticamente a cena. Ganha a eleição, para apresentar alguma coisa, tentaram essencialmente apresentar um obamacare light e que provavelmente, caso tivesse passado, ruiria a médio prazo, porque parte da estrutura de financiamento era removida, nomeadamente uma série de taxas aplicadas aos mais ricos, entre outras coisas, que até levaram a que a oposição à nova lei lhe chamasse o “American Wealthcare Act”. A nova lei apresentada, tinha problemas gritantes e era tão evidentemente mal preparada que não só teve a oposição de todos os democratas (previsível), mas de muitos republicanos que passaram umas semanas quentes a receber chamadas de eleitores republicanos a dizer que se apoiassem aquilo, podiam esquecer o voto deles e a ir a “Townhall meeting” onde costumam estar meia dúzia de gatos, com milhares de pessoas lá a protestar, Ora, como muitos congressistas têm midterm elections à porta, vários republicanos “moderados” não apoiaram a lei. Para complicar as coisas o “Freedom Caucus” (Tea Party recauchutado) rejeitou a lei porque queriam uma versão ainda mais extrema. Isto deixou a administração numa posição complicada e a reacção inicial foi, se não me apoiam, vão ter de continuar a gramar com o obamacare. É provável que no imediato isto não mude, mas a médio prazo, é bem possível que a versão desejada pelo Freedom Caucus venha a passar, uma vez ultrapassadas as midterms e restaurado o Supremo com o nomeado Trump, que é essencialmente um boneco da direita e um pulha.

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