Vitor Silva Tavares, Mestre Companheiro

21 de Fevereiro de 2017
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Eduardo de Sousa (letralivre@sapo.pt)

Eu não trabalho: partilho
sonhos gratuitos,
companheiro e filho
que sou de muitos.
Púsias
, VST

Uma das características do Vitor era não ser muito dado a receber elogios, muito menos gostava que lhe acariciassem o ego; ficava desconfiado, lá teria as suas razões. No entanto, nunca negou elogios àqueles de quem gostava ou que admirava (embora também fosse acutilante nas suas críticas que não poupavam ninguém, o que lhe valeu algumas rupturas e inimizades). A relação que manteve com o velho Almada Negreiros foi, pela sua descrição, de mestre e aprendiz, e essa foi a relação que tantos de nós viemos a estabelecer, num dado momento, com o Vitor. Na velha tradição dos ofícios, o mestre, que era quem sabia e tinha experiência, ia legando os seus conhecimentos, de modo informal, na relação quotidiana com os aprendizes. Era essa a forma como VST convivia com as novas gerações que se aproximavam dele.

Esse autodidacta da Madragoa era a todos os títulos um mestre, até no sentido que a filosofia clássica e a oriental dão àqueles que se dispõem a, pela palavra e pelo exemplo, transmitirem valores e princípios. Não que o Vitor fosse um pensador, um teórico, sentia até algum desprezo pelos teóricos e académicos, que separavam o pensamento da vida, mas ele não deixou de passar a todos nós, além dos seus conhecimentos, uma forma muito particular de viver, uma ética de liberdade.

Desde o dia em que tirando a gravata, como gostava de dizer, deixou a Editora Ulisseia, onde construiu um notável catálogo literário em plena ditadura salazarenta, que incluiu Cesariny, Pacheco, Fanon e Miller, e partiu livremente para a aventura do &etc no Jornal do Fundão, nunca mais o Vitor aceitou submeter-se a lógicas mercantis e ao salariato.

Um estranho diria que ele pagou por isso, poderia ter sido um dos mais importantes editores comerciais portugueses, o tal «Gallimard da Rua da Emenda» de que falava Luiz Pacheco, que nunca foi, nem poderia ter sido na sua &etc subterrânea. No entanto, quem o conheceu sabe, ele diria que não perdeu nada com essa ruptura, pois só deixando aquela actividade de editor comercial – apesar da grande liberdade que lhe era concedida pelo proprietário da Ulisseia, que sempre o apoiou contra a Censura nas suas edições destemidas – pôde o Vitor partir para aventuras jornalísticas e editoriais, onde só iria depender de si, dos que lhe eram próximos, e do seu círculo de afinidades. Seja no suplemento do Jornal do Fundão, seja no suplemento literário do Diário de Lisboa, VST deu ao jornalismo cultural uma nova liberdade e voz a muitos dos que não só se opunham à cultura e política rançosa do fascismo de sacristia, como também não estavam dispostos a seguir os cânones literários e políticos do neo-realismo do PCP.

O modo como esse plebeu, que se orgulhava das suas origens trabalhadoras e que não esqueceu nunca a sua infância difícil, vem a fazer todo um percurso original no jornalismo e no mundo dos livros, mas com incursões no teatro e cinema, só é explicado pela sua grande curiosidade, avidez de conhecimento, e por uma personalidade onde o sentido de autonomia e liberdade eram determinantes. Jovem, insatisfeito com o Portugal que tresandava a naftalina nos anos 50, Vitor parte rumo a Angola para iniciar a sua carreira jornalística, mas de lá regressa ainda mais insatisfeito e revoltado com o sistema colonial que começava a ser desafiado pelo nacionalismo africano. Por cá, descobre, como dizia, o surrealismo no Parque Mayer e desde então criou laços de afinidade com os mais destacados escritores e artistas, de Cesariny a Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Mário-Henrique Leiria, Luiz Pacheco, João César Monteiro. Mas em relação ao surrealismo, como em relação à política, VST não era dado a partidos e seitas, e sempre evocava aquela frase de Groucho Marx, afirmando que não «entrava para um clube que o aceitasse como sócio». Nesse sentido, o Vitor seria sempre um livre-pensador, não o solitário egoísta stirneano, mas o sociável e afável único, que não cedia ante a cultura hegemónica, o pensamento dominante ou a moda hedonista.

Quando, sentindo já o cheiro da decomposição da velha ditadura, cria a revista &etc, que seria a mais importante e emblemática publicação alternativa portuguesa, para usar uma classificação que o próprio detestaria, havia já uma afinidade explícita com uma cultura de tradição radical e libertária onde certamente pesa não só o seu conhecimento do que sucedia pela Europa, e, principalmente, em França no pós-Maio de 68, onde se ia abastecendo de livros e publicações, mas pesavam também as suas relações próximas com uma nova geração de companheiros, e autores, como António José Forte, Manuel João Gomes, Paulo da Costa Domingos, que partilhavam uma contracultura intrinsecamente libertária, já afastada das polémicas passadas em torno do neo-realismo e do vanguardismo surrealismo, que não deixava de ser, mesmo assim, uma referência.

A &etc, folheca cultural, efémera como tantas outras revistas, morreu às mãos do distribuidor comercial e dos acidentes de uma revolução que iria dividir as pessoas em partidos e crenças sectárias. Como escreveu Drummond de Andrade no poema «Nosso Tempo»: «Este é o tempo de partido/tempo de homens partidos. Este é tempo de divisas/tempo de gente cortada». Dificilmente a &etc poderia sobreviver a esse tempo. Porém, Vitor Silva Tavares, um eterno remador contra a corrente, reduziu a escala e a revista virou editora, &etc, Publicações Culturais Engrenagem.

Nascia assim aquela que se afirmaria ao longo de mais de quatro décadas como uma editora independente original, com um catálogo que reúne folhetos erótico-satíricos, poetas então desconhecidos, mas que se tornariam nomes destacados do nosso panorama literário, pequenos ensaios e textos pouco conhecidos de autores clássicos. Uma editora que embora nunca deixasse de ser um projecto partilhado, desde logo com os sócios e amigos mais próximos, mas igualmente com os autores, tradutores, artistas, era, acima de tudo, a aventura editorial de VST, os seus gostos, a sua concepção estética, o seu conhecimento da velha arte tipográfica, aprendida com os tipógrafos da antiga geração nos jornais e nas gráficas onde mandava compor e imprimir os seus livros.

Vitor Silva Tavares nunca se dedicou a construir um legado, antes a viver como queria o seu quotidiano, fazendo o que gostava, que tanto podia ser editar livros, gastar horas em amena cavaqueira, ou cozinhando, mas a haver legado é essa paixão pelos livros e principalmente a sua ética anti-mercantil de um crítico feroz do poder e dos poderosos. Poderia ter dedicado mais do seu tempo à escrita, apesar disso, o que escreveu tem uma elegância e uma ironia pouco comuns numa literatura portuguesa feita de lugares-comuns e muita seriedade. Porém, como disse sarcasticamente na sua plaquette Para Já, Para Já escrita numa só noite em 1972: «Escrever é trampolinice, maluquice, crassa burrice que chatice, um tipo deixa de cirandar na rua, por aí, deixa de beber cervejolas com amigos e tremoços, deixa de se preocupar com o fim do mês, deixa de ler o jornal sentado na retrete, deixa de namorar a tal do gostinho especial…», e acrescentava com a sua habitual ironia, mas um pouco mais sério, num posfácio recente a esse mesmo texto: «Assim como assado, podemos assentar nisto: no interior da gaiola literária, eu é que não me sinto em casa, não me levo a sério..

VST sempre foi, politicamente, um livre-pensador, um herético, uma ovelha fora do rebanho, as suas afinidades electivas eram profundamente libertárias: «Não sei, nesta instabilidade, se sou anarquista ou um desesperado ou ambas as coisas ou mais ainda, como por exemplo um homem dividido por tantas multiplicações.» Um homem de vida simples, refractário à fama, ao poder, ao mundo das mercadorias e ao espectáculo hoje dominante. Um homem capaz de escrever: «O papelinho do voto não dá sequer para limpar o cu, é áspero…» e que num texto mordaz, resumia assim a origem da propriedade:

«Inventou-se um dia a Propriedade. Foi quando um avantajado candidato a bípede rapou da moca e vá de zurzi-la na carola do vizinho a fim de abichar só para ele, sublinhe-se, a fêmea mais mamalhuda, o naco mais suculento e o metro quadrado mais fértil de hortaliças. A carne é fraca, o exemplo pegou.»

Vítor acompanhou as lutas do seu tempo sem, no entanto abdicar da crítica às mitologias políticas fabricadas por um «comunismo» que abria brechas após o desastre estalinista:

«Mas contra esta ordem capitalista haveriam de se levantar os povos, ou, se quisermos, as turbas, os pés-descalços lutando por uma nova ordem social, mas nessa luta nasceram os Partidos sociais-democratas, socialistas, maximalistas, comunistas – ficando de fora uns ranhosos muito senhores dos seus narizes que torciam os ditos à ideia de que a Igualdade hierarquizada num Partido como tal ordeiro acabaria por gerar, também ela, uma data de empregados de escritório mais iguais que outros que tais, seja, camaradas chefes, contra-chefes, capatazes, comissários, controleiros, carreiristas, sem contar com os seguranças necessários à manutenção das Cúpulas e a calar o bico à anarqueirada desobediente civil.»

Quem assim escreve, além de saber manejar a pena, diz também muito de si e do seu pensamento.

Num dos seus últimos textos, Vitor resumiu as suas opiniões políticas: «Ao envolvente capitalismo predador (o invocado “de rosto humano”, também dito “popular”, não passa de conto do vigário), pai e mãe da abominação generalizada que redunda sempre em generalizadas carnificinas, poderá então contrapor a legenda que o poeta surrealista Benjamin Péret fez inscrever, a vermelho, na pedra tumular:

Eu não como desse pão”»

Concluindo: «Nos pratos da balança entre “indivíduo” e “sociedade”, pende o fiel para esta última, sempre, ou não triunfasse, sempre, o número, e, com ele, a “democracia”, nossa senhora da aparecida. Há que reter, porém, outra possibilidade:
Quem perde, ganha.»

Este é o Vitor Silva Tavares que conheci, afável, irónico, inabalável na sua verticalidade, de uma profunda radicalidade libertária, único. Mestre companheiro.

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