Estado de emergência, estado de hipnose

5 de Janeiro de 2016
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Tradução para português do artigo de Bruno Le Dantec publicado na edição em papel de Dezembro de 2015 do CQFD, jornal francês de crítica e experimentação social. Mais artigos e informações em francês em cqfd-journal.org.

Pode-se desertar duma guerra global? Uma guerra onde os adversários – o terrorismo e o antiterrorismo – se alimentam mutuamente, provocando deslumbramento e clivagens para melhor enrolar as populações nas suas bandeiras? É preciso, antes de mais, romper a hipnose.

Na sexta-feira 13 à noite, as balas assobiaram nas nossas orelhas em tempo real através das redes sociais. As más notícias viajam depressa e parecem autogerir-se por SMS, Facebook, Twitter… Mas aí, contrariamente ao 7 de Janeiro passado, torci o nariz. Não, como afirma Houellebecq, porque “nos habituamos a tudo”, mas porque instintivamente sabia que, uma vez cá dentro, o horror não me iria largar. Ligar a televisão era como meter a cabeça no cepo. Antes ganhar algumas horas desertando nas ruas, nos bares, em doce companhia. E de cada vez que o assombro se aproximava do balcão – “Vocês ainda não sabem?” – nós esquivávamo-nos à armadilha até acabar num antro nocturno com uma bola de espelhos. Frivolidade? Egoísmo? Cobardia?

Estávamos demasiado longe de Paris para socorrer quem quer que seja. Os e as que bebiam na pista, com pequenos pontos luminosos a rodopiarem frenéticos nos seus corpos como se fossem alvos, sabiam sem querer saber. Sob o “tch-pum” dos velhos êxitos disco, os noctívagos estavam, naquela noite, excepcionalmente calmos e atentos uns aos outros.

tous ensembleO fascínio mórbido que capta o espectador não é forçosamente empático. Foi desta impotência que fugimos. Até dizer, um pouco presunçosamente, “vês, a esta hora, somos talvez os únicos no caralho deste país a circular em vez de estarmos ligados”… Ao acordar, li uma quadra de Omar Khayyam em voz alta, como um exorcismo: “Em que se tornaram todos os nossos amigos? Tê-los-á a morte derrubado e pisado? Em que se tornaram todos os nossos amigos? Ainda ouço as suas canções na taberna… Morreram ou livraram-se de viver?” Depois, após quinze horas de resistência, liguei a televisão. Queda instantânea no terror e no seu espectáculo. Potlatch [cerimónia praticada entre tribos indígenas da América do Norte, como os Haida, os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl – N.T.] absurdo de sangue e sucata. Petrificados, assistimos à contagem dos mortos, aos traços do drama nas calçadas transmitidos em loop, às declarações bélicas… Um pesadelo geopolítico e social fez-se convidado para as esplanadas dos cafés, para o Stade de France, para o Bataclan. A guerra é tão virtual quanto real, a opinião pública transforma-se num campo de batalha. O Daesh [nome pelo qual também é conhecido o Estado Islâmico – N.T.] sabe-o bem, quem cuida das audiências é bom aluno do grande Satan.

Estupefacção perante a amplitude do massacre. Mal-estar também perante a candura dos e das que as câmaras escolhem: “Porquê tanto ódio?” No Canal+, uma estudante em lágrimas acredita encontrar a resposta: “Eles odeiam a beleza da juventude parisiense, a sua abertura, estamos tão bem, tão felizes. Tão livres e eles odeiam isso, são frustrados.” A sua ingenuidade é uma peça escolhida. Fora de tema, uma manif de apoio aos migrantes gritava palavras de ordem contra o estado de emergência – e uma semana mais tarde, em conformidade com os clichés policiais, alguns participantes serão convocados para a esquadra, suspeitos “de terem cometido ou tentado cometer a infracção de violação duma proibição de manifestação imposta no quadro do estado de emergência”… E pensar que o homem do Eliseu apela às pessoas que continuem a sair, a consumir e a visitar os museus por patriotismo! Porque a afluência turística tinha caído 40%. Então, business as usual, mas proibição de manifestação. O concerto da Madonna em Bercy é mantido, a partir de 89 euros por lugar. Sarkozy continuará a pavonear-se nas lojas do Parque dos príncipes do Qatar, patrocinadores do Daesh. Hollande partilha a dor e a inocência dos indivíduos mortos indiscriminadamente para declarar a guerra, qual Bush em 2001. E, da mesma forma que dispararíamos um canhão contra um ninho de vespas, os bombardeamentos “estratégicos” de Raqqa foram feitos em nome da nossa segurança, em nome da democracia, das nossa Luzes, dos nossos néons.

De repente a guerra irrompeu em Paris. Violência indescritível. No entanto, a França guerreia desde há muito na Costa do Marfim, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, no Mali, na República Centro Africana, na Síria… Os 130 mortos dos atentados de sexta-feira 13 são também as vítimas colaterais destes conflitos longínquos. Apenas 2,6% das vítimas de terrorismo desde o ano 2000 são cidadãos ocidentais. Mas em Tripoli, em Ancara, em Beirute e até num hotel para turistas e trabalhadores estrangeiros em Bamako, os mortos não têm o mesmo peso mediático, a mesma capacidade de indignar a opinião. E este etnocentrismo ofuscante arrisca-se a sair caro. Em 2004, os espanhóis reagiram de forma diferente aos atentados de Madrid, que tinham causado 192 mortos nos comboios do subúrbio. “Depois do pior atentado da nossa história recente, a reacção do nosso povo foi inteligente, decente e exemplar”, orgulha-se Pablo Echenique, deputado europeu pelo Podemos. “Em primeiro lugar – inevitavelmente – o luto, o apoio às vítimas e às suas famílias e a condenação firme destes assassinatos selvagens e de quem os perpetrou. Ao mesmo tempo, muito poucas reacções xenófobas, muito pelo contrário: cerram-se fileiras incluindo a comunidade muçulmana. Em segundo lugar, identificação das causas verdadeiras destes acontecimentos e rejeição massiva de intervenções militares – rejeição essa que foi concebida como a única estratégia válida para acabar com o terrorismo jihadista”. Três dias depois da carnificina de Atocha, os eleitores puniram o presidente Asnar – que tentara, de forma bastante desajeitada, orientar as suspeições para a ETA – por ter, um ano antes, levado o país para a guerra de Bush no Iraque. Os socialistas, levados ao poder por essa vaga, tiveram de ordenar o regresso imediato das tropas espanholas.

A França de hoje navega a grande distância dessa lucidez. Aqui, o Janus do terrorismo e do antiterrorismo transformou-se em método de governo. O país foi colocado sob o controlo dum capitalismo de guerra, com a sua fuga para a frente na estratégia do caos. Em quem quer que votem, os eleitores elegerão a guerra, sendo que o consenso da classe política é quase total: o estado de emergência foi votado por unanimidade menos seis, numa escalada securitária que ultrapassa a de Novembro de 2005 e mesmo a da guerra da Argélia. FN e Sarkozystas foram ultrapassados pela direita pelo binómio Hollande-Valls e a sua “resposta impiedosa à barbárie”. As acções da indústria do armamento subiram 4% nos dias a seguir aos atentados

les flics dancentGUERRA DOMÉSTICA

No domingo 15 de Novembro de manhã, o médico Pelloux, saído do Charlie [Hebdo], faz de Déroulède [poeta, autor dramático, romancista e nacionalista francês militante – 1846-1914 – cujo nacionalismo intransigente e revanchismo o transformaram num actor importante da direita nacionlista francesa. – N.T] no France Inter: “Sinto uma dor imensa e, ao mesmo tempo, um grande orgulho, pois as equipas de socorro, azuis como a polícia, brancos como os enfermeiros, vermelhos como os bombeiros, mobilizaram-se como nunca”. A Marselhesa [hino francês – N. T.] e o seu sangue impuro, as bandeiras tricolores, os valores da República agitados como um incensário: as imagens televisivas insistem naquilo que tem todo o ar de uma intensificação do embrutecimento patriótico desde Janeiro. Mas os trémulos do bom médico Pelloux arregimentam rapidamente os reflexos solidários de inúmeros parisienses que prestaram socorro às vítimas ou abrigaram sobreviventes sem necessariamente partilharem da bebedeira belicista dos que, de facto, expuseram o “seu” povo às represálias dos loucos de Alá semeando o caos no Iraque, na Líbia, na Síria. O inimigo é aquele que os nossos governantes abrigaram sob as asas do seu intervencionismo. O Daesh é o fruto podre do bombardeamento de Bagdad em 1991, depois 2003; de Guantánamo, de Abu Ghraib, das execuções sumárias e públicas de Saddam Hussein e Kadhafi. Sem esquecer que, em 2013, Hollande e Fabius estavam entre os mais fervorosos belicistas contra o regime de Bashar [al-Assad]: podemos imaginar que os primeiros aprendizes de jihadistas a partirem de França não se sentiam assim tanto em ruptura com o discurso oficial.

Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris, afirma que os terroristas atacaram a alma “frondosa” de Paris. Os “bárbaros” seriam, assim, ligados a um modo de vida. Mas o desprezo de classe aponta para além da boa consciência duma capital entregue ao turismo e aos especuladores, que, há décadas, expulsa os pobres para a sua periferia. Paris é a França atingida em pleno coração e fazemos o retrato das vítimas em homenagem à sua inocência, à sua humanidade. As tropas e os jornalistas foram destacados para o 9-3 [zona do nordeste de Paris – N.T.] como se fosse território Comanche. Os habitantes surpreendidos pelo assalto das forças da ordem ao esconderijo dos terroristas pareciam-se demasiado… com os terroristas. Não fazem eles parte deste famoso território onde nasce e cresce a ameaça? As setenta pessoas que vivem perto do rio, atingidas com violência pela rusga policial, foram albergadas num ginásio. Anónimas, esquecidas, até que a presidente da Câmara de Saint-Denis, ao fim de quatro dias, anuncia aos media: nenhum realojamento lhes tinha sido proposto e ninguém se preocupou com isso.

Os atentados do 13 de Novembro viram deixar a sua marca de sangue e confusão no décimo aniversário da revolta dos subúrbios de 2005. O estado de emergência foi novamente decretado, desta vez por três meses no mínimo. Descobrimos com tristeza o caminho percorrido desde a Marcha da Igualdade (dita dos “Beurs [jovens de origem magrebina nascidos em França – N.T.]) de 1983. Em 2005, a dimensão social dos motins era ainda identificável, apesar da criminalização e do enfoque étnico dos discursos mediáticos. Hoje, o veneno identitário e religioso cobre tudo. Connosco ou contra nós, dizia Bush. Aqui, em 2015, é parecido. Talvez ainda pior, já que o Estado francês integrou o choque das civilizações na sua própria agenda doméstica: a República está em guerra contra os seus bairros populares. Em quinze dias, nestas zonas normalmente apelidadas de não-direito, foram levadas a cabo 1836 rusgas sem mandato com a desculpa da luta antiterrorista. Quantas terão sido feitas por meros assuntos de estupefacientes? Quantos erros sobre a pessoa e quantas situações humilhantes? Sabendo que “o jihadismo não vem do comunitarismo mas da deslocalização” (Raphaël Liogier, 24/11/15). “O Daesh alimenta-se num reservatório de jovens franceses radicalizados que, independentemente do que acontecer no Médio Oriente, já entraram em dissidência e procuram uma causa, uma marca, uma grande narrativa para aí colocar a assinatura sangrenta da sua revolta pessoal”, precisa Olivier Roy, especialista do Islão no Le Monde (24/11/15). “O esmagamento do Daesh não mudará nada nesta revolta. […] Não se trata da radicalização do islão, mas da islamização da radicalidade.” E este niilismo kamikaze tem um reflexo distorcido no niilismo ocidental, de Breivik a Lubitz, passando por Séguéla e Kerviel – o meu planeta por um Rolex, um Hummer 4×4 ou um Iphone.

O estado de emergência, para o qual nos preparava a inútil presença de Vigipirate [referência ao Plan Vigipirate, um das ferramentas do Estado francês para a luta contra o terrorismo, cujos críticos acusam de ter como efeitos principais a intensificação da militarização do espaço urbano e a utilização do exército em funções policiais – N.T] nas ruas desde há trinta anos, pode tornar-se permanente. “A guerra será longa”, uma vez que é o disco duro do capitalismo supremo. A concentração bestial das riquezas obriga os Estados a anteciparem inevitáveis problemas sociais. Desviando-os para a guerra de civilizações e outros confrontos inter-religiosos, os governantes adiam desta forma a data duma sublevação geral contra a injustiça. A COP21, organizada sob este estado de excepção, é já o resultado de um Patriot Act à francesa. Os representantes das multinacionais mais predadoras e poluentes vão reunir-se à porta fechada prometendo-nos, de mão ao peito, que farão todos os possíveis para salvar o planeta. Sair do estado de hipnose bipolar no qual nos mantêm estes melhores inimigos do mundo permitiria desmascarar a ignomínia duma guerra que não é a nossa. Desliguei a televisão.

Bruno Le Dantec

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  1. […] desde a data de instauração do estado de emergência (de que fomos dando nota aqui no MAPA (1 e 2) chegaram entretanto aos média franceses, com acusações de abusos sobretudo sobre a população […]

  2. […] do Jornal MAPA a sua tradução do artigo de Bruno Le Dantec publicado na edição em papel de Dezembro de 2015 do […]

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