Felizmente continua a haver luar (Setembro 2015)

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luarPassámos Monchique, para trás fica a Serra da Brejeira, a aldeia da Santa Bárbara e, finalmente, entramos em São Teotónio. Odemira fica mais a norte, a uns quinze quilómetros. Viemos à «Feira Antiga», animação, artesanato, jogos tradicionais, baile. «Participe à moda antiga com trajes e acessórios», diz o cartaz. Ao lado está anunciado o «Jurassic World» no cinema de Odemira, com os dinossauros… São Teotónio é uma aldeia vazia, triste, pobre, casas por acabar, outras abandonadas. A «Feira Antiga» é no largo da Igreja, uns reformados alentejanos com os trajes, mesas e comidas, música, cafés abertos à volta. Não se pode dizer que o ambiente seja Woodstook ou mesmo Jazz no Rio. Mais no estilo da especialidade portuguesa da festa dos tristes. Damos uma volta ao largo e rapidamente começamos a sentir que estamos num lugar estranho, um lugar que é mais do que alentejano. Há casas velhas que parecem servir de dormitórios de gente com tipo físico mais oriental do que os habitantes tradicionais. Imigrantes, claro, imigrantes aos montes, que não fazem parte da Festa. Os búlgaros parecem os mais pobres e desgastados, no café que parece ser-lhes reservado alcoolizam-se a ver o futebol – o que já é um nítido sinal de integração –, os bengalis deambulam como se andassem à procura de trabalho, por vezes há um casal com crianças, os tailandeses têm ar mais enérgico, e os nepaleses, jovens, concentram-se no outro lado da praça, num café que parece também fazer ofício de dormitório. Há também brasileiros, vietnamitas, romenos e por aí fora… Os alentejanos da Festa parecem não reparar nesta presença exótica, ou fingem não reparar. Um ambiente estranho… Duas lojas despertam a atenção. Uma empresa de transporte faz carreiras entre São Teotónio, a Bulgária e a Roménia. A outra é uma agência de trabalho temporário, tudo escrito em inglês, que propõe «jobs» nos campos para gente de passagem. Chegámos a São Teotónio e encontrámos a globalização no meio do velho e pobre Alentejo.

Voltamos à estrada, direção Zambujeira do Mar. Poucos quilómetros depois de São Teotónio o mistério desvenda-se: quilómetros e quilómetros de estufas a perder de vista, na zona haverá cerca de 1100 hectares. À entrada de uma minúscula povoação está o Café Benthai; tailandeses e vietnamitas bebem umas Sagres, sentados à porta. Há prato do dia tailandês. A imprensa chama a isto o sucesso das culturas no litoral alentejano. Resta saber se é sucesso ou crime. São culturas que necessitam de bom ar, boa água e bom tempo e muita mão-de-obra. A terra não é necessária, tudo é cultivado em substrato, com a ajuda da química. Mas como infelizmente também há terra, em breve ela estará, como a água, poluída. Seis mil toneladas de frutos vermelhos são produzidos por ano na zona de Odemira, dos quais 90% são exportados. O negócio está nas mãos, ou nos bolsos, da multinacional americana que domina o mercado, a Driscoll’s [Todos os dados e citações foram retirados do artigo de Carlos Dias publicado no Público de 30 de Junho 2015], dirigida em Portugal pelo Sr. Arnold Heeren, a qual criou, com capitais americanos, outras empresas para produzir, a Lusomorango por exemplo, que é dirigida pelo mesmo senhor que parece ser um personagem central do filme de horror. O Sr. Santos Andrade é o vice-presidente e está feliz. Como não havia de estar? A faturação da sociedade passou de cinco milhões de euros em 2005 para 36,8 milhões em 2014. «Odemira é uma zona estratégica para os pequenos frutos», diz o homem que fala como um coronel da guerra colonial. Também feliz, está o Sr. Gil Oliveira, que com orgulho patriótico diz : «Sou o maior produtor português deste fruto e detenho o recorde mundial com 24 toneladas por hectare». E ainda há gente que não acredita nas virtudes capitalistas da burguesia lusitana? Depois, a comercialização é feita pela Discroll’s. Que os americanos, mesmo no sul, não perdem o norte.

O «sucesso» deve-se aos clientes do café Banthai, do café búlgaro e do café nepalês. Este tipo de cultura precisa em média de 12 pessoas por hectare. Num Alentejo vazio, entre velhos e emigrados há umas mulheres disponíveis para vender a sua força de trabalho, mas elas não querem trabalhar ao domingo?! Uma arrogância subversiva que deve vir do 25 Abril. O Sr. Gil prefere o novo proletariado, diz que os imigrantes apanham 4,5 quilos por hora e por pessoa em média. Fico a pensar o que isto quer dizer concretamente ao fim do dia, em que estado estariam os braços e os corpos do Arnold, do Andrade, do Gil e outros, se a tal suplício fossem submetidos ? Há mulheres búlgaras a apanharem 7 quilos, por mil euros «limpos», acrescenta um dos exploradores. Porque os salários são, evidentemente, em função da apanha. Nesta fase do campeonato intervém o Sr. Arnold para dizer umas palavras humanistas bem sentidas sobre as más condições de trabalho e de vida dos trabalhadores. Que procura evitar «as situações degradantes e as máfias». O indivíduo é um brincalhão. E o que faz para o evitar? Está claro que não faz nada, basta uma rápida passagem na zona para o saber. O Sr. Arnold mente como respira. Como é que estas centenas, milhares, de emigrantes chegam do Nepal e do Bangladeche até São Teotónio ? E em que condições chegam? E a que preço chegam ? A GNR não deve saber de nada. Quem poderia dar uns palpites sobre o assunto é o feio gajo da agência de trabalho temporário ou a loura empregada da agência de viagens. Mas, para ser franco, não indaguei… Esta mão-de-obra internacional, vivendo em condições miseráveis a milhares de quilómetros dos países de origem, é uma resposta provisória à questão da paz social. O gangue da Driscoll’s deve ter aprendido a lição com as revoltas nas estufas de Andaluzia, no princípio de 2000, quando os trabalhadores norte-africanos explorados nas dezenas de milhares de hectares de estufas de El Ejido (Almeria) se revoltaram obrigando o governo espanhol a intervir, criar melhores condições de habitação e impor melhores salários aos empresários. Neste canto perdido do Alentejo o cálculo frio dos criminosos da economia consiste em dar tempo ao tempo, explorar o máximo, destruir as terras e as águas, antes que se crie uma comunidade de classe entre trabalhadores que, por agora, nem entre eles se entendem. Mas o capitalismo, pelas condições de exploração que impõe, acaba por unificar esta gente, e o que vier depois será outra história, que não está escrita mas que é previsível. Os alentejanos, que tiveram uma história social violenta e rica estão anestesiados, os jovens emigraram ou suicidaram-se e os velhos andam a beber uns copos em «Festas Antigas». O grande partido do proletariado, o PCP, administra a região desde o 25 de Abril e parece brilhar pela ausência… Os nepaleses não votam e sabe-se lá se alguns até não serão maoistas, o que seria um abuso de confiança! Os funcionários reconhecem que a região esta a afundar-se, com velhos com reformas cada vez mais baixas, com mais pobres com RSI mais baixos, com mais desempregados. Como por todo lado a desertificação avança. De 2010 a 2014, a população do país diminuiu de 200 000 almas penadas e, em 3 anos, só no Baixo Alentejo, evaporaram-se umas 5 000 pessoas. Hoje a Questão Agrária que estudava o Álvaro Cunhal mudou de forma. Como na Andaluzia, os grandes proprietários já não são os latifundiários, são as grandes multinacionais da agroalimentar, muitas vezes também ligadas à grande distribuição. Bicharada que exige outro tipo de luta. Mas quem é que fala de luta? O PCP e a sua CGTP queixam-se, gritam suavemente, apelam à mobilização eleitoral, falam de uma política «patriótica», mas, face a estes mastodontes, não existem. Fazem ainda menos que os sindicalistas espanhóis. Ajudar os imigrantes a organizarem-se? Que aventureirismo! O Sr. Arnold da Driscoll’s até é capaz de ser pessoa civilizada, aceitar umas sugestões razoáveis e prometer umas coisinhas. Resta-nos imaginar a revolta que tal concentração proletária e tais condições de exploração tornam possível.

A propósito de modernidade, vem à baila dizer também algo sobre a família Chiyu Lyu, o Alfeizerão e a luta política no seio da classe dirigente chinesa.

Na New York Review of Books, («China: The Superpower of Mr. Xi», NY, Agosto 2015), Roderick MacFarquhar escreve um bom artigo sobre as fragilidades desta classe e os riscos da campanha de anticorrupção e de moralização da vida política do presidente Xi Jinping.

Com o sorriso frio e cínico que se lhe conhece, o Sr. Xi apregoa: «a pureza moral é essencial para que os partidos marxistas continuem puros, e a integridade moral deve ser um traço fundamental para que os funcionários continuem limpos, honestos e íntegros». R. MacFarquhar começa por fazer uns cálculos simples. O partido tem 80 milhões de membros, e o próprio órgão de controlo do partido calcula que, no mínimo, 10% dos quadros de base são corruptos, o que representará uns oito milhões de funcionários. Se juntarmos a estes os milhões de esposas, filhos, familiares e parentes próximos, chega-se a uns 40 milhões de pessoas suscetíveis de serem perseguidas. Conclusão: abanar este gigantesco edifício corrupto significa deitar abaixo o partido, a estrutura de base do Estado da segunda potência mundial. Mais do que perigosa, a tarefa do camarada Xi é praticamente impossível.

A natureza da burguesia vermelha chinesa assenta em valores que tem origem na sua formação recente: a desigualdade assumida, a agressividade e a arrogância, o poder do mais forte, a violência nua e crua. Num recente livro sobre as tendências rebeldes esmagadas por Mao durante a Grande Revolução Cultural, Yichung Wu (The Cultural Revolution at the Margins, Harvard University Press, 2014) mostra que a «Teoria da linha do sangue vermelho», esteve na origem da GRC, e a sua defesa justificou a terrível repressão das tendências radicais que a criticavam. A « teoria » atribuía «qualidades» particulares aos membros da elite partidária, as quais depois se «transformavam» em «características» quase naturais e transmissíveis de pais para filhos. Uma ideologia que serviu para reproduzir e consolidar a nova classe dirigente, que governa pela repressão aberta, não pela negociação ou pelo consenso interclassista. O que explica Tian anMen e hoje as respostas violentas aos movimentos de greve e de camponeses espoliados. A corrupção, que é apenas um dos aspetos desta especificidade de classe, foi depois reforçada pela força do desenvolvimento capitalista. Para R. MacFarquhar, o camarada Xi tem poucas opções e terá de contemporizar para evitar uma reação do aparelho. Nada melhor do que a aventura nacionalista para ocultar as dificuldades sem perder a face e mobilizar o povo. E assim a resposta à catástrofe de Tianjin – de que foi responsável direta a corrupção – acabou por ser um desfile militar mostrando a potência da China  no mundo…

Mas a crise do político é também o resultado da crise da economia. O capitalismo chinês entra numa grave crise de rentabilidade, o investimento reduz-se e os capitais orientam-se para o campo especulativo com as consequências que se sabe sobre o agravamento da recessão global. À espera de clarificação política, insegura, a burguesia vermelha procura pôr o cacau especulativo em sítios mais tranquilos 1. Aparecem assim os Vistos Gold, na Inglaterra, no Canada, em Espanha e em Portugal. Num país que está à venda, o Chico esperto dos submarinos procura captar umas centenas de milhares de euros dos capitais especulativos. A isso ele chama: « dinamizar a economia ». Como dizia o surrealista belga Camille Goemans, «Uma boa mentira vale mais do que um grande discurso!»

E é assim que as ondas de choque deste tremor de terra chegaram a Alfeizerão. O Sr. Chiyu Lyu, membro da burguesia vermelha, tinha uma irmã que estudava na Alemanha e que se apaixonou por um imigrante, vindo a casar em Alfeizerão. Só que, na globalização, as histórias de amor acabam de maneira tenebrosa. O Chiyu Lyu veio à boda, gostou da Ginja de Alcobaça e decidiu comprar ali mesmo uns 7 hectares para construir uma colónia chinesa, 57 moradias de luxo, hotel, piscina, ténis, e mesmo uma escola de mandarim, tudo muito ecológico e segundo os princípios harmoniosos do Feng Shui. Que é a última obsessão da burguesia chinesa, que depois de ter criado um desastre ecológico sem precedente gosta de viver em redutos protegidos com ar puro. Só que os terrenos pertencem à Reserva Agrícola Nacional e há quem se ofusque. O Chyiu Lyu está furioso. Como assim, o que é isso da RAN? A China é a segunda potência mundial e estes camponeses estão a levantar obstáculos ao meu desejo pessoal? Campo de trabalho para esta gente, já!

«Vamos andando», suspira o vizinho. «Levados, levados sim», cantava o hino fascista. E nisto estamos, entre a Driscoll’s e o Feng Shui de Alfeizerão. Entregues aos bichos! O que, obviamente, é inaceitável e não aceitamos. Como aconselhavam os anarquistas de 1920, deixemos o pessimismo para tempos melhores. O tempo trará outros possíveis.

Setembro 2014,
Jorge Valadas

Notes:

  1. Na recente caída das bolsas chinesas, só em julho de 2015, evaporaram-se fundos equivalentes a seis vezes a dívida grega

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