Mina de São Domingos

14 de Maio de 2015
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saltamontes9A natureza confunde-se, na escolha de trilhos a percorrer. Além Mértola, chegamos às minas de São Domingos. Terra abrasada pelo calor, tudo lhe parece ter sido levado, menos o aroma intenso da esteva. O olhar é de abandono. Há no ar um peso que deve a sua origem ao minério, resgatado às vidas de gerações, de alentejanos e outros, aqui chegados no final do séc. XIX. A intensidade do labor mineiro projeta-se na força com que aqui se formou uma das mais combativas forjas de sindicalismo revolucionário, nascida de uma agitação anarquista que moldou homens e mulheres, nesta margem esquerda do Guadiana. Ao percorrer a vila de São Domingos, por entre as ruínas da mina, seguindo até ao Pomarão, porto fluvial a espreitar Espanha do outro lado, as  memórias, como o pó que o ar carrega, colam-se-nos à pele.

“É belo, nos abandonados templos da loucura industrial, assistir ao triunfo da Natureza sobre os esforços calculados da inteligência estúpida e exploradora”, diz-nos Miguel Pérez Corrales. Para este escritor do Grupo Surrealista de Madrid, em São Domingos, a beleza é “fantasmagórica, atroz, impiedosa, sob uma luz violentíssima em terras erodidas que poderiam ser de todo um desafio ao mais alucinado dos pintores coloristas”. “Texturas inauditas, como cruas terras lunares, as de alguns pedaços de solos rachados e angustiosos. A Mina de São Domingos é o espaço mais terrível de todo o Portugal” 1.

Continuamos a rota do minério pelo antigo caminho-de-ferro, de São Domingos a Santana de Cambas, o Pomarão, pelo carril a 17 km de distância. Para maior assombro da excêntrica paisagem, a viagem deve ser enquadrada pela memória, nos espaços deste silêncio, os ecos da Mina: um dos espaços mais terríveis de todo o Alentejo. Leiam-se os apontamentos do Portal Anarquista 2 sobre essa miséria, essa luta, longa de gerações e claro, leia-se Ferreira de Castro. Em 1974, no seu último livro, “Fragmentos”,  publica reportagem feita no final dos anos 20, a convite do sindicato mineiro da CGT (anarco-sindicalista), onde narra as duras condições de vida dos mineiros. À época impedida de sair pela administração da Mina, para que não esqueçamos, parecem ter sido coloridas em tons de vermelho, as águas ácidas da Mina de São Domingos. Vermelho vertido, o daqueles homens que Ferreira de Castro “adivinhava nas trevas, pelas luzes que levavam agarradas ao peito (…) a sugerirem cortejos rituais de candeias avançando para o templo bárbaro onde se realizaria, com afiadas lâminas e copioso sangue, a cerimónia nocturna dos sacrifícios”. Entre os mineiros um “velho lutador, vai-me falando baixinho das suas esperanças e do sol do Amanhã. E eu ouço-o enternecidamente, porque o Amanhã é um medicamento psicológico enquanto não chega o dia desejado, um medicamento de que todos os explorados carecem e aos deserdados não é mesmo permitido outro”.

 

 

Notes:

  1. Miguel Pérez Corrales escreveu sobre São Domingos na obra “Crisis da La Exterioridad” (Enclave de Libros, 2012). Leia-se ainda a sua elegia a Portugal cuja tradução encontra-se em http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/6430
  2. Ver ainda o acervo sobre São Domingos em http://cemsd.minadesdomingos.com/

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